


   Danielle Steel

   Uma S Vez Na Vida

        Ttulo original ingls:
       Once in a Lifetime

http://groups.google.com/group/digitalsource


         
         
         
         
         UMA VEZ NA VIDA S acontece uma vez, uma s vez.
         Os instantes se desvanecem como os ratos, que se escorrem velozes, igual  vida, e s resistem os mais valentes, os fortes, os cabais.
         Quando o instante chegue para ti, no o deixe passar, pois em um abrir e fechar de olhos, o amor se esfuma, o instante fenece, deixando um oco, um vazio 
em seu esprito.
         Seu corao saber, quando destino o murmure em seu ouvido... 
         Oh, no tema, querido amigo, pois ao fim merece a pena pagar o preo.
         Quando tudo se perde, s o amor se ganhou; quando chega o verdadeiro amor, se descobre que  o nico.
         
         D.S.
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         Em New York, quando neva na vspera de Natal, reina uma espcie de rouco silncio, e se diria que brilhantes cores se mesclam com a neve.
         Contemplando o Central Park de uma janela, pode-se ver cair a neve persistentemente e observar como tudo vai se cobrindo de um manto branco.
         Tudo parece to silencioso, to mudo...
         Entretanto, nas ruas ressonam os inevitveis rudos de Nova Iorque: o clamor das buzinas, os alarido das pessoas, o rumor dos passos, do trfico, s vezes 
apenas levemente atenuados.
         E no furor de ltima hora, na vspera de Natal, percebe-se algo mais: uma espcie de extraordinria tenso que espera explodir em risadas e em uma avalanche 
de presentes.
         As pessoas se dirigem apressados para casa, com pilhas de pacotes nos braos; os coros infantis entoam canes de Natal; os inumerveis Papais Nois, alegres 
e com as bochechas avermelhadas, celebram a ltima noite acossados pelo frio, e as mulheres seguram firmemente seus filhos pela mo, lhes advertindo que tomem cuidado 
em no cair, para lhes sorrir em seguida com doura.
         Todo mundo tem pressa, transborda alegria, vibra ao unssono com seus concidados, nesta noite nica do ano...
         
         
         Feliz Natal! Os porteiros sadam, agitando a mo, contentes pelas gorjetas generosas das festas. Dentro de um dia, de uma semana, a emoo se evaporou, 
os presentes tero sido liberados de seus pacotes, consumiu-se o licor e gasto o dinheiro; mas na vspera de Natal, nada se esgotou ainda, j que tudo est por comear.
         Para os meninos, trata-se da culminao de compridos meses de espera; para os adultos, o fim de vrias semanas de agitao, de recepes, de compras, de 
lutar com a gente, de dar e receber presentes...
         Esperanas brilham to viosas como a neve ao cair, e sorrisos nostlgicos, pela lembrana de infncias longnquas e de amores a longo tempo esquecidos.
         poca de recordaes, de esperanas e de amor.
         A neve seguia caindo sem cessar e o trfego por fim tinha comeado a diminuir.
         Fazia um frio cortante, resistente, e s umas poucas almas valorosas caminhavam sobre a neve, que rangia sob seus ps.
         A que se fundiu durante o dia se converteu agora em uma traidora capa de gelo debaixo dos seis dedos de neve recm cada.
         Estava perigoso caminhar, e s onze da noite o trfego era virtualmente inexistente.
         Para uma cidade como New York, o silncio que reinava parecia bem inslito.
         S de quando em quando se ouvia o som de uma buzina na distncia, ou uma voz perdida chamando um txi.
         As vozes alvoroadas de uma dzia de pessoas que saam de uma festa na rua 69Est ressonaram como campainhas no silncio da noite.
         Suas risadas, seus cantos eram como restos da diverso de que tinham gozado.
         O champanhe tinha rolado em abundncia; tampouco tinha faltado rum queimado e vinho quente com especiarias, uma enorme rvore de Natal e bolas com pipocas 
de milho.
         Ao se despedir, todos os convidados receberam pequenos presentes, frascos de perfume, caixas de bombons, um livro.
         Um ex-crtico de livros do New York Time e sua esposa, uma autora clebre eram os anfitries; seus amigos, um grupo de gente interessante, no qual podia 
encontrar-se desde escritores at notveis concertistas de piano, belezas espantosas e crebros formidveis.
         Todos eles se encontraram apertados na vasta sala de estar do apartamento do casal, atendidos por um mordomo e dois serventes, que no cessaram de servir 
comidas e bebidas.
         Como nos tradicionais coquetis de outros Natais, a reunio se prolongaria at as trs ou quatro da madrugada.
         O grupo que se despediu antes de meia-noite era reduzido, e nele se encontrava uma mida mulher loira, que usava um gorro de visom e um comprido casaco 
da mesma pele.
         Todo seu corpo ficava envolto pelos quentes cortes de cor chocolate, e logo que aparecia seu rosto protegia-o do vento pela gola, quando se despediu por 
ltima vez de seus amigos com um gesto da mo e comeou a caminhar em direo a sua casa.
         No quis compartilhar um txi com eles.
         J tinha encontrado com muita gente durante a reunio, e agora desejava estar sozinha.
         Para ela, a vspera de Natal era sempre uma noite conflituosa.
         Durante anos, tinha-a passado em seu lar. Mas no esta noite. No este ano.
         Esta vez tinha sentido desejos de ver seus amigos, pelo menos por um momento.
         Todos se mostraram gratamente surpreendidos e agradados ao v-la na reunio.
         -Que bom tornar a v-la, Daphne!
         -Est de volta?
         -Trabalhando em algum livro? 
         -Acabo de comear um.
         Os grandes olhos azuis possuam uma afvel expresso, e a delicada doura de suas feies escondia sua idade.
         -O que significa isso? Que o terminar na prxima semana? 
         Era uma escritora extremamente criativa, mas tinha passado o ltimo ano trabalhando em um filme.
         Daphne sorriu de novo, desta vez com maior contentamento.
         Estava acostumada s brincadeiras de seus amigos.
         Um indcio de inveja..., de curiosidade..., de respeito.
         Era uma mulher que inspirava as trs coisas.
         Daphne Fields era intensamente pessoal, voluntariosa, ambiciosa, resolvida, sempre visvel nos crculos literrios, entretanto quando se fazia presente, 
na realidade s vezes dava a impresso de no estar ali.
         Sempre parecia manter-se em segundo plano, fora do alcance; no obstante, quando olhava para uma pessoa, esta sentia que seu olhar penetrava at o fundo 
de sua alma.
         Causava a sensao de que via tudo, mas, ao mesmo tempo, queria passar despercebida.
         Dez anos atrs era uma mulher diferente.
         Aos vinte e trs tinha sido gregria, divertida, extravagante..., e se sentia protegida e feliz.
         Agora era mais serena; a risada de antigamente s se manifestava como um brilho fugaz em seus olhos; seu eco parecia haver-se refugiado em algum rinco 
de sua alma.
         -Daphne? 
         Ela se voltou com presteza na esquina da Avenida Madison ao ouvir rudo de passos a suas costas, afogados pela neve.
         -Sim, Jack.
         Era Jack Hawkins, diretor da editoria Harbor e Jones, que geralmente publicava seus livros.
         Tinha as bochechas avermelhadas pelo frio, e os azuis olhos, brilhantes e umedecidos por causa do vento.
         -Quer que te leve no carro? Ela balanou a cabea sorrindo, e Jack Hawkins se chocou ao comprovar de novo como era mida, envolta no casaco de visom, as 
mos com luvas de camura negra que mantinham bem fechado a gola do casaco.
         -No, mas lhe agradeo. Na realidade, prefiro caminhar. Moro no final da rua.
         - tarde.
         Tambm agora, como sempre que a via, sentia desejos de tom-la entre seus braos.
         Isso no queria dizer que o tivesse feito alguma vez.
         Mas ficaria encantado em faz-lo.
         Um sentimento pareciado tomava outros homens que a conheciam.
         Aos trinta e trs anos, ainda parecia ter s vinte e cinco, e s vezes doze...
         Era to vulnervel, fresca e delicada...
         Mas havia algo mais. Adivinhava-se tal desolao nos olhos daquela mulher que lhe comovia a alma, por muito espetacular que fosse seu sorriso, por clida 
que fora seu olhar.
         Era uma mulher solitria.
         E no tivesse tido que s-lo.
         Se a vida fosse justa, no o teria sido. Mas era.
         - meia-noite, Daff... - protestou ele.
         Vacilava em unir-se ao grupo que se afastava caminhando devagar em direo oeste.
         - vspera de Natal, Jack.
         -E faz um frio de mil demnios.
         Sorriu, e em seus olhos se refletiu a risonha expresso que denotava seu senso de humor.
         -No acredito que vo me violentar esta noite.
         Ele sorriu por sua vez.
         -No, mas poderia escorregar e cair no gelo.
         -E me fraturar o brao, ficando impossibilitada para escrever durante vrios meses, no  assim? No se preocupe. O trmino do prximo prazo de entrega 
no  at abril.
         -Por todos os cus, vamos!Venha conosco tomar uma taa de vinho em casa.
         Ficando nas pontas dos ps, lhe deu um beijo na bochecha enquanto lhe afagava o ombro com a mo.
         -Veja, eu estou bem. Mas lhe agradeo.
         Saudou-o com a mo, girou sobre seus saltos e se afastou caminhando rapidamente pela rua, com o queixo afundado dentro da gola do casaco, sem olhar nem 
a direita nem a esquerda, sem contemplar as vitrines nem os rostos das poucas pessoas que cruzavam com ela.
         Era prazeroso sentir o vento no rosto, e enquanto se dirigia a sua casa, deu-se conta de que naqueles momentos experimentava um bem-estar que no tinha 
sentido em toda a noite.
         A reunio tinha sido exaustiva, como sempre estavam acostumadas a serem recepes desse tipo; at quando pareciam divertidas e comparecessem a elas muitas 
pessoas conhecidas, sempre acontecia o mesmo.
         Entretanto, aquela noite no tinha querido deixar de comparecer.
         No desejava ficar s em seu apartamento, no queria se agarrar s lembranas este ano...
         No queria...
         No podia suportar mais...
         Ainda naquele momento, em que seu rosto se contraa ao contato com a neve, aquelas mesmas lembranas continuavam em sua mente, e apressou o passo como querendo 
fugir delas, como se isso fosse possvel.
         Quase de forma instintiva, correu at a esquina, lanou um olhar para comprovar se vinha algum veculo, no viu nenhum, e sups que o semforo estava em 
verde, que se corresse o suficientemente rpido, conseguiria cruzar a rua, poderia deixar as lembranas para trs.
         Entretanto, sempre as levava consigo..., sobretudo na vspera de Natal.
         Correndo mais velozmente ao cruzar a Avenida Madison, esteve a ponto de perder o equilbrio ao escorregar no gelo, mas o recuperou abrindo os braos e agitando-os 
como ps de moinho.
         Ao chegar  esquina, dobrou rapidamente  esquerda para cruzar a rua, e desta vez no levantou a vista a tempo de ver o carro, uma grande caminhonete rural 
de cor vermelha cheia de gente, que avanava rpido a fim de passar o semforo antes que trocasse a luz verde.
         A mulher sentada junto ao motorista soltou um grito, ouviu-se um golpe surdo, outro grito no interior do veculo e um estranho chiado ao deslizar o automvel 
pelo gelo atravs do meio-fio. Quando por fim se deteve, durante um interminvel momento tudo foi silncio.
         E logo todas as portas do veculo se abriram ao mesmo tempo, e meia dzia de pessoas desembarcou dele.
         No houve vozes, nem exclamaes, nem chiados, enquanto o motorista se aproximava da vtima do acidente, detinha-se junto a ela e ficava com a vista fixa 
na mulher que jazia como uma boneca de trapo rasgada, com o rosto afundado na neve.
         -Oh, meu Deus!... meu Deus! 
         O homem permaneceu sem saber o que fazer por um instante, logo se voltou freneticamente para a mulher que tinha ao lado, com uma expresso de terror e fria 
nos olhos, como se algum tivesse que carregar a culpa do ocorrido, algum que no fosse ele.
         -Pelo amor de Deus, avisa  polcia! 
         Ento se agachou junto  mulher, sem atrever-se a toc-la, com medo de constatar que estivesse morta.
         -Est... viva? 
         Outro homem, que exalava um forte cheiro de usque, ajoelhou-se na neve ao lado do motorista.
         -No sei - respondeu.
         Na vtima no se percebiam as agulhas do gelo que deveriam ter-se formado ao se congelar a respirao na gola de pele, frente a sua boca, nem movimentos, 
nem gemidos, nem nenhum outro sinal de vida.
         E ento o homem, que se animou a toc-la, ps-se a chorar baixinho.
         -Matei-a, Harry..., matei-a...
         Estendeu os braos a seu amigo, e os dois homens se abraaram em silncio, embargados pela angstia, enquanto se detinham dois txis e um nibus, dos quais 
desceram apressados seus motoristas.
         -O que aconteceu? 
         De repente, tudo foi agitao, gritaria, explicaes...
         "Ps-se a correr diante do carro..." "No olhou..." "No a vi..." "... O gelo..., no pude frear...".
         -Onde demnio se mete a polcia quando se precisa? 
         O motorista lanava imprecaes enquanto a neve caa em torno.
         Sem nenhuma razo plausvel repetia a cano natalina que tinham estado entoando uma hora antes.
         "Noite de paz, noite de amor..." 
         E agora, aquela mulher jazia diante dele, sem vida ou agonizando, e no aparecia nem um maldito policial.
         -Senhora..., senhora, pode me ouvir? 
         O motorista do nibus estava ajoelhado junto a ela, com o rosto muito perto do dela, tentando sentir sua respirao. -Est viva. 
         Olhou para os outros 
         - Tm uma manta? -
         Ningum se moveu. E ento, quase com raiva, exigiu: 
         -Me d seu casaco.
         Por um instante, o motorista da caminhonete pareceu abobalhado.
         -Pelo amor de Deus, homem, esta mulher pode estar agonizando. Tire o casaco! 
         Ento o homem obedeceu rapidamente, imitado por outros dois, e cobriram Daphne sob uma pilha de casacos.
         -No a movam.
         O velho motorista do nibus atuava como sabendo o que devia fazer, enquanto a agasalhava com os grossos casacos e lhe levantava ligeiramente a cabea a 
fim de que seu rosto no congelasse ao contato com a neve.
         Ao fim de uns momentos, apareceu a cintilante luz vermelha. Era uma ambulncia municipal, e j tinham tido uma agitada noite at aquele instante, o que 
era habitual na vspera de Natal.
         Seguia-os uma patrulha da polcia, que chegou soando a estridente sirene.
         Os ajudantes da ambulncia se precipitaram para o lugar onde Dapne jazia; os policiais chegaram  cena do acidente com mais lentido, e o motorista da caminhonete 
dirigiu-se a eles, muito mais calmo, mas tremendo de frio, pois seu casaco cobria o corpo da vtima.
         O motorista do nibus observou como os ajudantes colocavam Daphne com todo cuidado na maca.
         A mulher no proferiu nenhum som, nem nenhuma exclamao de dor.
         O homem viu ento que tinha feridas e arranhes na cabea, mas no tinha sangrado durante o tempo que permaneceu com o rosto sobre a neve gelada.
         O policial tomou declarao do motorista da caminhonete e lhe explicou que deveria submeter-se  prova para determinar se estava bbado, antes que o deixassem 
ir-se.
         Todos os outros manifestaram que estava sbrio, que tinha bebido menos que todos durante a noitada e que Daphne tinha se deslocado para diante do veculo 
sem olhar para nenhum lado, e com a luz vermelha.
         -Sinto muito.  a rotina.
         O policial no demonstrou simpatia pelo motorista, nem seu rosto delatou emoo alguma quando contemplou o rosto de Daphne.
         Uma mulher mais, uma vtima mais, um caso mais.
         Quase toda noite via pessoas que se achavam em piores condies. Assaltos, ataques, assassinatos, violaes.
         -Est viva? 
         -Sim - respondeu o motorista do nibus, assentindo brevemente com a cabea.
         -Por um fio.
         Tinham colocado em Daphne a mscara de oxignio e aberto o casaco de visom para auscult-la.
         -Mas a perderemos, se no nos apressarmos.
         -Onde vo lev-la? 
         O policial continuava rabiscando seu relatrio. "... mulher branca idade indeterminvel..., provavelmente de uns trinta e tantos anos...".
         O motorista da ambulncia falou por cima de seu ombro enquanto fechava as portas.
         -Vamos lev-la ao Lenox Hill, que est mais perto. No acredito que pudesse resistir uma viagem mais longa.
         -Vai sem documentos? 
         Isto ocasionaria outra dor de cabea. Aquela noite j tinha enviado duas vtimas de assassinato no identificadas ao IML.
         -No. Por sorte, ela carregava uma bolsa.
         -Est bem. Vamos segui-los. L tomarei os dados.
         Com um seco movimento de cabea, o motorista ocupou seu posto para levar sua carga ao Lenox Hill, enquanto o agente se voltava para o trmulo motorista 
da caminhonete, que brigava para ficar de novo com o casaco.
         -Vai me prender? 
         Agora parecia estar assustado. A celebrao natalina se havia convertido em um pesadelo ao ver Daphne estendida sobre a neve.
         -No, a menos que esteja bbado. Faremos a prova no hospital. Que um de seus amigos dirija e nos sigam at l.
         O homem assentiu com a cabea e entrou no veculo, fazendo um gesto a um de seus amigos, que se sentou rapidamente ao volante.
         Agora no houve bate-papos, nem risadas, nem alegria. Dentro da caminhonete reinava o silncio, enquanto avanavam precedidos pelas estridentes sirenes 
para o Lenox Hill Hospital.
         Na sala de urgncias o clima era de frentica atividade, e um exrcito de pessoas vestidas de branco parecia atuar com a preciso de um corpo de baile.
         Uma equipe composta por trs enfermeiras e um mdico residente se encarregou de Daphne imediatamente quando os assistentes da ambulncia entraram com a 
maca de rodas, enquanto se solicitava a presena de outro residente e um interno.
         O casaco de visom foi jogado sobre uma cadeira, e rapidamente lhe tiraram o vestido com a ajuda de tesouras. Tratava-se de um vestido de coquetel de veludo 
azul safira que Daphne tinha comprado em Giorgio's, em Beverly Hills, no comeo do inverno, mas isso no tinha nenhuma importncia agora que jazia no cho em pedaos 
em torno da maca.
         -Fratura de plvis..., do brao..., laceraes em ambas as pernas.
         Apresentava uma ferida profunda na coxa, a qual agora sangrava.
         -Esta quase afetou  artria femoral...
         O residente atuava com urgncia, tomando notas, controlando seu pulso, observando sua respirao.
         A paciente se encontrava em estado de choque, e tinha a pele to branca como a neve sobre a qual tinha caido.
         Agora tinha uma estranha aparncia espectral, uma carncia de individualidade, como se no tivesse rosto nem nome. Era to somente um corpo mais. Simplesmente 
um de tantos casos. Mas grave.E se pretendiam lhe salvar a vida, todos compreendiam que deviam atuar com presteza e eficcia.
         Um ombro se deslocou, e a radiografia lhes indicaria se tambm fraturou uma perna.
         -Alguma ferida na cabea? 
         O outro residente se apressou a responder, enquanto que olhe administrava uma injeo intravenosa.
         -Uma considervel.
         O residente mais velho franziu a testa enquanto dirigia o feixe luminoso de uma fina lanterna nos olhos da paciente.
         -Cus! Diria que se jogou do alto do Empire State Building.
         Agora que j no jazia sobre a neve, o sangue corria por seu rosto, e teria que suturar pelo menos uma dzia de cortes no rosto.
         -Chamem o Garrison. Vamos precisar dele.
         O cirurgio plstico do hospital teve que ser substitudo no que estava fazendo.
         -O que aconteceu? 
         -Foi atropelada por um carro.
         -Fugiu? 
         -No. Deteve-se. A polcia diz que o motorista est a beira de um colapso.
         As enfermeiras observavam em silncio o trabalho dos residentes, e logo levaram Daphne na maca de rodas at a prxima sala de raios X.
         Ela ainda no tinha dado sinais de vida.
         As radiografias demonstraram que havia fratura de plvis e brao; o fmur apresentava uma fissura, e a placa do crnio permitiu descobrir que tinha sofrido 
menos dano do que eles temiam, mas apresentava uma severa concusso, por isso a tinham em observao se por acaso aparecessem convulses.
         Em meia hora j se encontrava na mesa de operaes, a fim que lhe engessassem os membros fraturados, suturassem as feridas do rosto e fizessem todo o necessrio 
para lhe salvar a vida.
         Havia sinais de hemorragia interna, mas considerando o tamanho do veculo e a fora do choque, era um milagre que ainda estivesse com vida. Tinha tido uma 
grande sorte. E os dados registrados em sua histria clnica demonstravam que ainda no estava fora de perigo.
         s quatro e meia da madrugada a tiravam da sala de cirurgia para pass-la aos cuidados intensivos, e foi ali onde a enfermeira do turno de noite examinou 
sua ficha com demora e logo ficou observando Daphne em silencio com uma expresso de estupefao no rosto.
         -O que acontece, Watkins? No  a primeira vez que presencia um caso como este.
         O residente da unidade a contemplava com uma careta cnica, e ela se voltou, enquanto, com olhos doloridos, murmurava: 
         -Sabe acaso quem ? 
         -Sim, uma mulher que foi atropelada por um carro na Madison pouco antes de meia-noite... Fratura de plvis, fissura no fmur...
         -Sabe de uma coisa, doutor? No chegar muito longe nesta profisso, a menos que aprenda a ver o que se oculta alm do aparente.
         Durante sete meses tinha-o visto exercer seu trabalho com preciso, mas com muito pouco esprito humanitrio. Dominava a tcnica, mas carecia de corao.
         -Est bem - disse ele com tom fatigado. Dar-se bem com as enfermeiras no era seu forte, mas tinha chegado a convencer-se de que isto era essencial. - Ento 
me diga quem .
         -Daphne Fields. -respondeu a enfermeira, com tom que denotava um respeito quase reverencial.
         -Extraordinrio. Mas esta mulher continua tendo os mesmos problemas que tinha antes que eu soubesse seu nome.
         -Voc alguma vez l? 
         -Sim. Livros de medicina e revistas mdicas.
         Mas assim que respondeu com petulncia e sem pensar a resposta, recordou que sua me lia todos seus livros. Por um instante, o irnico e jovem mdico ficou 
silencioso.
         - muito famosa, no? 
         -Provavelmente  a autora mais famosa do pas.
         -Isto no muda em nada sua sorte.
         De repente, seu rosto adotou uma expresso compassiva enquanto contemplava o corpo mido e imvel coberto pelo lenol branco.
         A mscara de oxignio ocultava quase por completo suas feies.
         -Que maneira horrvel de passar o Natal! 
         Ambos observaram a paciente durante um longo momento e se dirigiram com passos lentos ao posto de servio da enfermeira, onde os aparelhos de controle registravam 
os sinais vitais de todos os pacientes internados na iluminada unidade de cuidados intensivos.
         Naquela dependncia no havia forma de saber se era de dia ou de noite.
         Tudo ali se desenvolvia num ritmo estvel as vinte e quatro horas do dia.
         s vezes algum paciente ficava histrico por causa da iluminao permanente, do zumbido dos aparelhos de controle e os equipamentos de assistncia vital. 
O lugar no era tranqilo, mas a maioria dos pacientes que se encontrava naquela unidade estava muito grave para poder dar-se conta ou para protestar.
         -Algum verificou seus documentos, para ver se tem alguma pessoa a quem avisar? 
         A enfermeira gostava de pensar que uma mulher do porte de Daphne deveria contar com um exrcito de pessoas ansiosas para estar ao seu lado: o marido, os 
filhos, o agente literrio, o editor, amigos ntimos e importantes. Entretanto, sabia tambm, por artigos que tinha lido no passado, quo zelosamente Daphne preservava 
sua intimidade.
         Quase ningum sabia nada a respeito de sua vida privada.
         -No levava nada mais que a carteira de motorista, um pouco de dinheiro, cartes de crdito e um lpis labial.
         -Darei outra olhada.
         Apanhou o volumoso envelope de papel que devia guardar no cofre, e se sentiu importante e um pouco bisbilhoteira ao revisar os pertences de Daphne. Tinha 
lido todos os livros daquela escritora, gostou muito dos homens e mulheres nascidos da imaginao de Daphne, e durante anos tinha tido a impresso que aquela mulher 
e ela eram amigas. E agora estava revolvendo sua bolsa como se fosse coisa que fazia todos os dias.
         O pblico formava longas filas nas livrarias, durante duas ou trs horas, s com o propsito de conseguir um sorriso ou um autgrafo em um livro, e ali 
estava ela vasculhando em sua bolsa como uma vulgar bisbilhoteira.
         -Admira-a muito, no  verdade? -perguntou o jovem residente, que parecia intrigado.
         - uma mulher extraordinria, com uma inteligncia surpreendente. -E ento apareceu uma nova luz em seus olhos. - Ela tem dado a muitas pessoas uma imensa 
alegria. Houve vezes...
         Sentiu-se um pouco estpida falando daquela maneira, sobretudo ao mdico residente, mas tinha que faz-lo. Era o mnimo que podia fazer por aquela mulher 
que tanto necessitava agora de seus cuidados.
         -Houve vezes em que conseguiu mudar minha vida..., em que me deu esperana..., em que fez que tudo adquirisse um novo sentido para mim.
         Como quando Elizabeth Watkins perdeu seu marido em um acidente de aviao e desejou morrer tambm. Solicitou licena no hospital por um ano e se fechou 
em sua casa para chorar seu desconsolo, enquanto gastava em bebida a penso de Bob. Mas algo que encontrou nos livros de Daphne lhe fez ver as coisas sob uma nova 
luz, como se aquela mulher a compreendesse, como se ela mesma tivesse experimentado o mesmo tipo de dor. E foi ela quem conseguiu que Elizabeth reagisse, que seguisse 
adiante, que voltasse para lutar. Retornou ao hospital, e em seu ntimo compreendeu que isto se devia a Daphne.
         Mas como podia explicar isto a aquele mdico residente? 
         - uma mulher sensata e maravilhosa. E se agora se apresenta a ocasio de fazer algo por ela, eu o farei.
         -Ela vai precisar.
         Exalando um suspiro, o residente apanhou outro histrico clnico, mas ao mesmo tempo tomou nota mentalmente de dizer a sua me, na prxima vez que a visse, 
que tinha atendido a
         Daphne Fields. Estava certo de que isto a impressionaria, como Elizabeth Watkins se mostrava impressionada.
         -Doutor Jacobson - chamou-o a enfermeira com voz baixa quando ele se dispunha a sair.
         -Sim? 
         -Ela vai se salvar? 
         O jovem mdico vacilou um instante e logo encolheu os ombros.
         -No sei.  muito cedo para arriscar uma opinio. As feridas internas e a concusso ainda nos daro muito que fazer. Recebeu um forte golpe na cabea.
         Dito isto, ele se foi. Havia outros pacientes que requeriam sua ateno, no s Daphne Fields. Enquanto aguardava o elevador, perguntou-se o que seria que 
era capaz de gerar aquela espcie de mstica no caso de uma pessoa como ela. Devia-se ao feito de que sabia criar uma boa narrao, ou havia algo mais?  O que era 
que fazia com que as pessoas como a enfermeira Watkins se comportassem como se a conhecessem intimamente? Era tudo iluso? Fosse o que fosse, esperava que no morresse.
         Mortificava-lhe perder um paciente, mas se tratava de algum importante, de algum notvel, ainda lhe causava maior amargura. J tinha suficientes problemas 
sem necessidade de adicionar mais um.
         Enquanto a porta do elevador se fechava s costas do mdico, Elizabeth Watkins voltou para examinar os papis de Daphne. Era estranho que no houvesse indicao 
de avisar a algum em caso de acidente. Na bolsa no havia nada importante... Mas justo neste momento, em seu bolso interior, encontrou uma fotografia de um menino. 
Estava um pouco enrugada, mas parecia bastante recente. Era um lindo garotinho loiro, de grandes olhos azuis e uma saudvel cor bronzeada.
         Estava sentado debaixo de uma rvore, sorrindo alegremente e fazendo uns gestos curiosos com as mos. Mas isto era tudo; alm da carteira de motorista e 
os cartes de crdito, no havia nada mais que a nota de vinte dlares.
         Seu endereo era Rua 69, entre as avenidas Park e Lexington, em um edifcio que a enfermeira supunha ser elegante, guardado por um porteiro.
         Mas quem estaria esperando-a em seu lar? Era curioso pensar que apesar da fascinao que os livros daquela mulher exerciam sobre ela, na verdade nada sabia 
a cerca de sua vida.
         Nem sequer havia um nmero de telefone que pudesse chamar.
         Enquanto Elizabeth dava voltas ao assunto, produziu-se uma alterao em um dos aparelhos de controle, e ela e outra enfermeira tiveram que ir atender ao 
paciente do leito. Tinha sofrido uma parada cardaca na manh anterior, e quando as enfermeiras chegaram junto a ele, inquietaram-se ao ver seu aspecto. Terminaram 
por passar mais de uma hora com ele. E s quando terminou o turno s sete da manh, Elizabeth pde voltar para quarto de Daphne.
         As outras enfermeiras tinham estado controlando-a a cada quinze minutos, mas no se havia produzida mudana alguma nas ltimas duas horas.
         -Como vai? 
         -Igual.
         -Seus sinais vitais permanecem estveis? 
         -No houve nenhuma mudana desde ontem  noite.
         A enfermeira Watkins consultou de novo o histrico clnico e entao ficou contemplando o rosto de Daphne.
         Apesar das bandagens e da palidez, havia algo sugestivo em seu rosto, algo que inspirava o desejo de que abrisse os olhos e, em seu olhar, poder compreender 
algo mais.
         Elizabeth Watkins a contemplava em silncio, roando apenas sua mo com os dedos, e ento as plpebras de Daphne estremeceram ligeiramente, e a enfermeira 
pde sentir os fortes batimentos de seu prprio corao.
         Daphne abriu com lentido os olhos, que percorreram a sala como se estivesse ofuscada.
         Era evidente que no compreendia onde se encontrava.
         -Jeff? -murmurou com voz apenas audvel.
         -Tudo est bem, senhora Fields.
         A enfermeira sups que Daphne Fields estava casada. Sua voz possua uma doce cadncia, um tom calmo, enquanto ela falava no ouvido de Daphne.
         Era uma voz acostumada a dar consolo. Seja o que for que dissesse, sem dvida provocaria um suspiro de alvio e daria a convico de que, a seu lado, estava 
a salvo. Entretanto, Daphne se mostrou alterada e assustada enquanto seus olhos se esforavam para enfocar o rosto da enfermeira.
         -Meu marido...
         Recordou o caracterstico grito das sirenes da noite anterior.
         -Seu marido est bem, senhora Fields. Tudo est bem.
         -Foi procurar... a menina...Eu no pude..., eu no...
         Fraquejaram-lhe as foras e no pde prosseguir, enquanto Elizabeth lhe segurava brandamente a mo.
         -Voc est bem..., voc est bem, senhora Fields.
         Entretanto, enquanto falava, pensava no marido da escritora. O homem devia estar desesperado, perguntando-se o que teria ocorrido a sua mulher. Mas por 
que ela se encontrava sozinha a meia-noite na Avenida Madison, na vspera do Natal? Sentia uma tremenda curiosidade por tudo que se relacionava com aquela mulher, 
pelas pessoas que povoavam sua vida.
         Seriam acaso como os personagens que criava em suas novelas? Daphne mergulhou de novo em um sono inquieto e profundo pela ao das drogas, e a enfermeira 
Watkins foi assinar a ficha de sada, mas no pde deixar de perguntar  enfermeira que se encontrava em seu posto no novo turno: 
         -Sabe quem temos aqui? 
         -Me deixe adivinhar. Certamente, Papai Noel! Feliz Natal, Liz.
         -O mesmo digo. -Elizabeth Watkins sorriu com ar fatigado. Tinha sido uma longa e pesada noite.
         -A Daphne Fields.
         Sabia que sua companheira tinha lido tambm vrios de seus livros.
         - verdade?! - exclamou sua colega, surpresa. -O que aconteceu? 
         -Ontem  noite um carro a atropelou.
         -Oh, meu Deus! -a enfermeira do turno do dia estremeceu.
         -Est grave? 
         Lanou um olhar ao histrico clnico. Um adesivo vermelho circular indicava que o estado da paciente seguia crtico.
         -Voltou da cirurgia s quatro e meia. S faz uns minutos que recuperou os sentidos. 
         Disse  colega que anotasse. A outra enfermeira assentiu com a cabea e olhou para Liz.
         -Como  ela?
         Mas em seguida se sentiu estpida por ter perguntado. No estado em que se encontrava Daphne, quem poderia diz-lo?.
         -No faa conta. -Sorriu com embarao. - que esta mulher sempre me intrigou.
         Liz Watkins reconheceu abertamente a fascinao que sentia por ela.
         -O mesmo acontece comigo.
         -Est casada? 
         -Parece que sim. Perguntou por seu marido assim que recuperou o conhecimento.
         -Ele est aqui? - perguntou intrigada, Margaret McGowan, a enfermeira que a substitua no posto.
         -Ainda no. No acredito que ningum soubesse a quem avisar. No havia dado algum em seus papis. Avisarei ao pessoal da administrao. O homem deve estar 
terrivelmente angustiado.
         -Que surpresa para o dia de Natal! 
         As duas mulheres menearam tristemente a cabea.
         Liz Watkins exalou um suspiro, assinou e se foi. Mas antes de abandonar o hospital, deteve-se no escritrio de internamento e lhes avisou que o marido do 
Daphne Fields se chamava Jeff.
         -Isto no nos servir de muito.
         -Por que no?
         -Seu nmero de telefone no consta na lista telefnica. Pelo menos, no h nenhuma Daphne Fields. Verificamos ontem  noite.
         -Procure por Jeff Fields.
         E s por curiosidade, Liz Watkins resolveu ficar mais uns minutos a fim de ver que resultados obtinham.
         A funcionria ligou para informaes, mas lhe disseram que no constava ningum cadastrado com o nome de Jeff Fields.
         -Talvez Fields seja um pseudnimo.
         -Isto no ajuda muito.
         -E agora o que faremos? 
         -Esperaremos.  muito provvel que neste momento a famlia j esteja alarmada com sua ausncia. Terminaro por telefonar  polcia e aos hospitais. Iro 
encontr-la. No  o mesmo como se fosse uma desconhecida.
         Na segunda-feira, chamaremos seu editor.
         A funcionria tambm tinha reconhecido o nome.
         Olhou Liz com um brilho de curiosidade nos olhos.
         -Que aparncia tem? 
         -A de uma paciente atropelada por um carro.
         Liz adotou uma pattica expresso.
         -Sobreviver? 
         Liz soltou um suspiro.
         -Assim o espero.
         -Eu tambm. Cus, os seu so os nicos livros que leio. Se no sair desta com vida, terei que deixar de ler.
         Aquelas palavras pretendiam ser agradveis, mas Liz estava muito abatida ao sair do escritrio.
         Dava a impresso que a mulher que jazia na unidade de cuidados intensivos no era um ser humano, mas s o nome na capa de um livro. Ao sair  rua coberta 
de neve, banhada pelo sol de inverno, Liz Watkins pensava na mulher que se ocultava atrs do nome. Era estranho que fosse para casa levando a preocupao por algum 
paciente. Mas nesta ocasio se tratava de Daphne Fields, a mulher que, durante quatro anos, ela tinha considerado como uma pessoa conhecida.
         Ao chegar  entrada do metr da Avenida Lexington e da Rua 79, deteve-se de repente e se encontrou como que plantada olhando para o centro da cidade. O 
endereo que constava nos cartes de crdito se achava s a oito quadras do local onde ela se encontrava. Como podia deixar de ir ver Jeff Fields? Naquele momento 
devia estar enlouquecido, desesperado, ao no saber o que tinha acontecido a sua esposa.
         Isto no era, por certo, um procedimento regular, mas afinal todos eram seres humanos. E, alm disso, seu marido tinha direito de saber o que tinha ocorrido. 
Se ela podia dizer-lhe e lhe economizar uma busca desesperada, que mal havia nisto? Quase sem perceber comeou a caminhar pela capa de sal recm pulverizado sobre 
a neve e, ao chegar  associao de Futebol da Rua 69, dobrou para a Avenida Park. Num instante, encontrava-se diante do edifcio. Este era tal como tinha imaginado. 
Tratava-se de uma slida construo de pedra, com uma marquise verde escuro e um porteiro uniformizado no interior da entrada. O homem lhe abriu a porta com expresso 
inquisidora e a nica palavra que disse foi: 
         -Sim? 
         -O apartamento da senhora Fields? 
         Aquilo era extraordinrio, disse ela para si mesma, enquanto enfrentava o porteiro. Durante quatro anos tinha sido leitora de seus livros, e agora se encontrava 
no vestbulo de entrada de seu apartamento, como se fosse uma conhecida dela.
         -A senhorita Fields no se encontra aqui.
         A enfermeira percebeu que o porteiro tinha sotaque britnico. Era como um filme ou um sonho.
         -Eu sei. Quero falar com seu marido.
         O porteiro franziu o cenho.
         -A senhorita Fields no  casada - disse com tom autoritrio, e ela esteve a ponto de lhe perguntar se estava certo do que dizia. Possivelmente era novo 
no posto e no conhecia Jeff. Ou talvez Jeff fosse s um amante de Daphne... Entretanto, recordava a ter ouvido dizer "meu marido".
         Por um instante, Liz se sentiu confusa.
         -H alguma outra pessoa em casa? 
         -No.
         O porteiro a olhava com receio, e ela resolveu lhe dar uma explicao.
         -A senhorita Fields sofreu um acidente ontem  noite.
         Como obedecendo a uma sbita inspirao, abriu o casaco para deixar a descoberto o uniforme e a meia branca, e logo lhe mostrou a engomada touca que sempre 
levava em sua bolsa de plstico.
         -Sou enfermeira do Lenox Hill Hospital, e no encontramos em seus papis o nome de nenhum familiar ou conhecido. Ocorreu-me que...
         -Ela est bem? Perguntou o porteiro, verdadeiramente preocupado.
         -No sabemos. Ainda se encontra em estado crtico, e pensei que... No vive ningum com ela? 
         O homem negou com a cabea.
         -Ningum. Uma faxineira vem todos os dias, salvo os fins de semana.E sua secretria, Barbara Jarvis; mas esta no voltar at a semana prxima.
         Barbara assim havia dito quando lhe deu o abono de Natal por parte de Daphne.
         -No sabe como poderia me comunicar com ela? 
         O porteiro voltou a menear a cabea, e ento Liz se lembrou da fotografia do menino.
         -E seu filho? 
         O homem a olhou estranhando, quase como se pensasse que a enfermeira estava louca.
         -A senhorita Fields no tem filhos, senhorita.
         Uma expresso desafiante apareceu em seus olhos, acompanhada de uma atitude reservada, e por uma frao de segundo Liz teve a impresso de que estava mentindo. 
Ento, o porteiro a olhou nos olhos com ar altivo e distante.
         -A senhorita Fields  viva, sabe? 
         Aquelas palavras caram em Liz Watkins como uma pancada, e ao fim de um instante, j que no havia nada mais que dizer, saiu do edifcio no ar glido da 
manh natalina e sentiu que as lgrimas lhe umedeciam os olhos, no por causa do frio, mas sim da sensao de vazio que a embargava. Foi como se sentisse de novo 
a morte de seu prprio marido at na medula dos ossos, tal como no tinha deixado de experiment-lo com o passar do doloroso primeiro ano posterior a seu falecimento. 
Assim, tambm ela sabia..., no era s sua imaginao. Ela sabia. Ela tambm o tinha vivido.
         Enquanto se dirigia de novo  entrada do metr, isto a fez sentir-se mais perto de Daphne. A escritora era viva e vivia sozinha. E no tinha a ningum 
no mundo, salvo a secretaria e uma faxineira. Liz Watkins ficou pensando que aquela era uma existncia bem vazia, tratando-se de uma mulher que escrevia livros to 
cheios de sensatez, de compaixo e de amor.
         Talvez Daphne Fields estivesse sozinha no mundo como ela mesma. Aquilo parecia ser um vnculo a mais que se estreitava entre ambas, disse-se enquanto descia 
as escadas que a conduziam ao metr que corria abaixo das ruas de Nova Iorque.
         Daphne sentia-se como flutuando em sua prpria bruma e uma brilhante luz parecia perfurar o manto de nvoa de uma grande distancia.
         Esforava-se em se concentrar em si mesma, parecia aproximar-se por um tempo, e logo a bruma a envolvia de novo, quase como se estivesse navegando para 
um remoto lugar, perdendo de vista a praia, onde cintilava fracamente a luz do farol na distncia. Entretanto, havia algo familiar na luz, nos rudos, e at percebia 
um aroma que quase conseguia identificar. No sabia onde se encontrava, mas tinha a sensao de ter estado ali anteriormente. Mesmo o ambiente lhe parecia remotamente 
conhecido, tinha a certeza de que os rudos e os aromas guardavam uma estranha ameaa, algo terrvel, desenquadrado.
         E uma vez, enquanto seguia ali prostrada, sonhando, deixou escapar um gemido de angstia quando em sua mente distinguiu uma impenetrvel barreira de chamas. 
Porm, a enfermeira acudiu rapidamente para seu lado e lhe aplicou outra injeo. Ao fim de um instante se esfumaram as lembranas, as chamas e at a dor.
         Flutuava de novo em um manto de suaves e amaciadas nuvens, como as que se observam da janela de um avio, irreais, imaculadas, enormes..., o tipo de nuvens 
sobre as quais a gente desejaria danar, pular e rodopiar.
         Ouviu a si mesma rindo na distncia, e em seu sonho voltou a ver Jeff de p junto a ela, tal como tinha estado em uma poca muito longnqua.
         -Desafio-a a uma corridaa at aquela duna, Daffodil.
         Daffodil...
         DaffyDuck...
         Daffy Queen...
         FunnyFace...
         Punha-lhe milhares de apelidos, e sempre havia uma risonha expresso em seus olhos, assim como tambm uma grande ternura. A corrida era um motivo de brincadeira 
para ambos, igual a todos seus outros jogos juvenis. As largas e musculosas pernas do Jeff competiam com os magros e graciosos membros dela, que junto a ele parecia 
uma menina danando no ar, uma flor do vero na ladeira de uma colina, em algum lugar da Frana...
         Seus grandes olhos azuis contrastavam com o bronzeado de sua ctis, e seus longos cabelos dourados flutuavam ao vento.
         -Vamos, Jeffrey! Ria dele enquanto corriam pela areia.
         Era veloz, mas no era um rival temvel para Jeff.
         E aos vinte e dois anos, parecia uma menina de doze.
         -Vai, que voc pode..., voc pode! Mas antes de chegar  duna, lhe deu uma rasteira e a tomou entre seus braos, enquanto sua boca se apertava contra os 
lbios da jovem com aquela paixo desmedida que a deixava sem flego cada vez que a tocava, como se fosse a primeira vez, que tinha acontecido quando Daphne tinha 
dezenove anos.
         Tinham se conhecido em um congresso do Colgio de Advogados que ela devia cobrir para o Daily Spectator de Columbia. Naquela poca realizava sua especializao 
em jornalismo, e com surpreendente seriedade e intensa devoo, estava escrevendo uma srie de artigos sobre os advogados jovens que se destacavam em sua profisso. 
Jeff a tinha detectado em seguida, e tratou de liberar-se de seus companheiros e convid-la para almoar.
         -No sei... Tenho que...
         Ela levava o cabelo recolhido em um apertado coque em forma de oito sobre a nuca, com um lpis preso no mesmo, e sustentava entre os dedos uma caderneta 
de apontamentos, enquanto seus enormes olhos azuis pousavam nos dele com uma leve expresso risonha.
         Parecia zombar dele sem dizer uma s palavra.
         -Voc tambm no teria que estar trabalhando? 
         -Trabalharemos juntos. Pode me entrevistar enquanto almoamos.
         Depois, meses mais tarde, o acusou de ser um presunoso, mas na verdade no o era. S desejava desesperadamente passar um momento em sua companhia. E conseguiu.
         Compraram uma garrafa de vinho branco, laranjas, mas, po francs e um pouco de queijo. Entraram no Central Park e alugaram um bote, com o qual passearam 
pelo lago conversando sobre o trabalho dele e os estudos dela, das viagens a Europa e os veres da infncia passados no sul de Califrnia, Tennessee e Maine.
         A me de Daphne era do Tennessee, e algo nesta evocava a delicadeza das jovens sulistas, at que, ao ouvi-la falar, a gente percebia a energia que irradiava 
e como era direta.
         Tudo isto no coincidia com o conceito que Jeff tinha do que era uma beldade sulista.
         Seu pai era de Boston, e faleceu quando ela tinha doze anos. Ento foram viver no sul, para desgosto de Daphne, que no teve remdio seno suportar at 
que foi estudar em New York.
         -O que acha sua me disto? Jeff tinha se mostrado extremamente interessado em tudo o que se referia a Daphne.
         Em todo momento se mostrava ansioso por saber algo mais sobre o que ela contava.
         -Considera-me um caso perdido, acredito - respondeu Daphne com um sorriso divertido e os olhos resplandecentes de novo, com um fulgor que penetrava Jeff 
at o mais profundo de sua alma.
         Achava-a terrivelmente sedutora, doce e com grande atrativo sexual, e adivinhava nela um temperamento tempestuoso e desaforado.
         -Cheguei  concluso de que, apesar de todos seus esforos, sigo sendo uma maldita ianque. E no s isto, mas tambm cometi um delito imperdovel, ter talento.
         -Sua me  contra o talento? 
         Jeff parecia divertido. Daphne lhe agradava. Gostava dela uma barbaridade, disse-se enquanto tratava de no fixar a vista no talho da saia de linho azul 
cu e nas torneadas pernas que deixava a descoberto.
         -Minha me  contra o uso manifesto do talento.
         As mulheres sulistas so muito sagazes. Talvez ardilosas seja um adjetivo que caia-lhes melhor. Muitas delas so inteligentes como demnios, mas no querem 
se manifestar.
         "Desempenham um papel" - concluiu com um acento sulista digno de Scarlett O'Hara, e ambos se puseram a rir sob o quente sol de vero.
         Era uma linda manh de julho e agora o sol, ao aproximar-se do znite, abatia-se com toda sua fora sobre suas cabeas nuas.
         -Minha me  licenciada em Histria Medieval, mas nunca o diz abertamente.
         "Ela  s uma preguiosa beldade sulista, voc sabe?" 
         -disse, adotando de novo o doce acento do sul e o olhando com aqueles olhos azuis como o oceano.
         -Faz tempo eu desejava ser advogada. Que tal  ser um? Ao perguntar voltou a adquirir a aparncia de uma jovenzinha, e exalando um suspiro Jeff se reclinou 
contra a amurada do bote.
         -Terei que trabalhar muito. Mas eu gosto.
         Especializava-se em assuntos relacionados com o setor editorial, e isto intrigava a Daphne enormemente.
         -Acaso pensa em ingressar na faculdade de Direito? 
         -Talvez - respondeu ela, mas em seguida meneou a cabea. -No, na verdade no. Pensei em algum momento. Mas acredito que me atrai mais a literatura.
         -Estudar literatura? 
         -No; escrever contos, artigos, no sei...
         Corou ligeiramente e baixou os olhos. Sentiu-se um pouco perturbada ao lhe confessar o que na realidade desejava fazer. Possivelmente no o faria nunca. 
S pensava de vez em quando.
         -Um dia eu gostaria de escrever um livro. Um romance.
         -Ento, por que no o faz? Daphne riu enquanto lhe enchia de novo o copo.
         -Assim, simples, no ? 
         -Por que no?  capaz de fazer qualquer coisa a que se proponha.
         -Tomara eu estivesse to segura disto.
         E do que viveria enquanto escrevesse o livro? Quase lhe tinha esgotado o dinheiro que seu pai lhe havia deixado para custear os estudos, e lhe preocupava 
pensar que seus magros recursos no lhe bastavam para cobrir os gastos do ano que ainda lhe faltava cursar. Sua me no podia ajud-la. Trabalhava em uma loja de 
modas em Atlanta, muito elegante por certo, mas s ganhava o necessrio para o sustento de Camilla Beaumont.
         -Poderia se casar com um homem rico - sugeriu-lhe Jeffrey sorrindo, mas Daphne no pareceu achar engraado.
         -Fala como minha me.
         - isto que ela gostaria? 
         - obvio.
         -E o que  que pensa fazer quando terminar os estudos? 
         -Procurar um emprego decente em uma revista, possivelmente em um jornal.
         -Em New York? 
         Ela concordou com a cabea e Jeffrey, sem saber por que, experimentou um grande alvio.
         Ento a olhou com interesse, inclinando a cabea.
         -Vai para a casa de sua me neste vero, Daphne? 
         -No. Vou ficar na universidade tambm durante o vero. Assim poderei terminar antes.
         No dispunha de dinheiro para ficar perdendo tempo.
         -Quantos anos voc tem? 
         Parecia que era ele quem estava realizando a entrevista e no ela.
         Daphne ainda no tinha feito nenhuma pergunta sobre o congresso do Colgio de Advogados, nem sobre seu trabalho. Desde que se afastaram do atracadouro no 
bote, no tinham feito mais que conversar de si mesmos.
         -Dezenove - respondeu com um brilho desafiante nos olhos como se estivesse acostumada a que lhe replicassem que era muito jovem.
         -Em setembro completarei vinte e passarei ao ltimo ano.
         -Estou impressionadssimo!-exclamou ele sorrindo com doura, e Daphne corou. -Falo srio. Columbia  uma universidade onde se exige muito dos estudantes. 
Deve-se ter firmeza nos estudos.
         Pelo tom de sua voz, ela compreendeu que ele falava realmente a srio, e isto a agradou.
         Simpatizava com Jeffrey. Quase demais. Ou talvez tudo se devesse ao calor do sol e do vinho, mas, enquanto o observava com ateno, disse-se que havia algo 
mais que isto. Era a curva de seus lbios, a ternura que descobria em seus olhos, a delicada fora de suas mos quando, de vez em quando, acionava firmemente os 
remos...; e a maneira que tinha de olh-la, com inteligncia e interesse, a sensatez com que falava...
         -Obrigada... -respondeu com voz muito baixa.
         -Como  o resto de sua vida? Daphne pareceu confusa diante da pergunta.
         -O que quer dizer?
         -O que faz em suas horas livres? Quero dizer alm de simular que entrevista advogados ligeiramente bbados no Central Park.
         Ela se ps a rir e suas gargalhadas ressoaram ao passar por baixo de uma ponte.
         -Est bbado? Deve ser por causa do sol, mais que do vinho.
         -No - replicou ele, meneando a cabea quando saam de novo  luz.
         -Acredito que  por sua causa.
         Ento se inclinou para diante e a beijou, e naquela tarde ambos no voltaram ao congresso.
         -Ningum perceber - assegurou-lhe ele enquanto se encaminhavam para o zoolgico.
         Riram com o hipoptamo, atiraram amendoins ao elefante e percorreram as jaulas dos macacos, rindo sem cessar e tampando os narizes.
         Ele quis que Daphne desse um passeio montada em um ponei como se fosse uma garotinha, e ela,rindo, recusou.
         Em vez disto, deram um passeio pelo parque em um cabriol de aluguel, e por ltimo caminharam sob as rvores da Quinta Avenida at chegar  Rua 94, onde 
ela vivia.
         -Quer subir um pouquinho? -perguntou-lhe Daphne sorrindo inocentemente, e sustentando na mo a bola vermelha que Jeffrey tinha comprado no zoolgico.
         -Eu adoraria.
         Mas sua mame aprovaria? Jeffrey tinha vinte e sete anos, e nos trs anos seguintes a sua graduao na faculdade de Direito de Harvard, nem por um s momento 
tinha lhe ocorrido pensar na me de ningum, nem se aprovaria ou no uma determinada conduta.
         Isto era positivo, j que no havia me alguma com quem se preocupar. Tinha estado imerso em uma orgia contnua, assinada pelas sadas com moas e relaes 
sexuais livres, desde que tinha sado da faculdade.
         Daphne se ps a rir enquanto apoiava as mos sobre os ombros de Jeffrey.
         -No, senhor Jeffrey Fields, minha me no o aprovaria.
         -Por que no? -perguntou ele, simulando estar ofendido.
         Um casal que voltava do trabalho os olhou, sorrindo. Viam os jovens, de aparncia agradvel, e faziam um belo casal. Ele tinha os cabelos mais loiros que 
ela; seus olhos eram de um verde arrebatador; suas feies to belamente cinzeladas como as dela, e sua energia juvenil contrastavam com a delicada figura da jovem, 
enquanto ele a rodeava com seus braos.
         -Porque sou ianque? 
         -No... -Daphne inclinou a cabea, e ele sentiu que suas entranhas estremeciam ao lhe pr as mos na cintura.
         -Porque  muito velho e muito arrumado... -sorriu e se liberou de seu abrao.
         -E porque provavelmente ter beijado metade das garotas desta cidade, incluindo a mim. - concluiu, rindo de novo.
         -Tem razo. Minha me tambm se escandalizaria.
         -Bom, ento sobe para tomar uma xcara de ch, e eu no contarei a sua me, se voc no contar  minha.
         A companheira de quarto de Daphne estava de frias; o apartamento era pequeno e sbrio, modesto, mas no era feio. Ela preparou ch gelado e o serviu com 
folhas de hortel, acompanhado de deliciosas bolachas de limo.
         Jeffrey se sentou junto a ela no sof, e quando deram conta j eram oito da noite, e ele no se sentia cansado nem estava aborrecido.
         No podia tirar os olhos dela, e dizia para si mesmo que tinha encontrado a mulher de seus sonhos.
         -O que lhe parece se formos jantar? 
         -Ainda no se cansou de mim? 
         Daphne estava encolhida no sof, sentada sobre seus ps recolhidos, e tinha a sensao de que as horas haviam passado voando como se fossem minutos. O sol 
acabava de ocultar-se atrs das rvores do Central Park, e tinham estado juntos desde antes do meio-dia.
         -No acredito que possa chegar a me cansar de voc, Daff. Quer se casar comigo?
         Ela se ps a rir ao ouvir a pergunta, observando a expresso de seu pretendente, e descobriu uma estranha sombra em seus olhos.
         -Alm de ir jantar ou em vez disto? 
         -Falo srio.
         -Est louco.
         -No-replicou ele, olhando-a com displicncia-. Na realidade, sou inteligente como um demnio. Graduei-me entre os cinco primeiros da classe, tenho um emprego 
excelente e um dia serei um advogado famoso e influente. Voc escrever livros de xito e... -calou-se, entrecerrando os olhos como ponderando a questo.
         -Provavelmente teremos trs filhos. Deveramos ter dois, mas voc  to demoniacamente jovem que o mais provvel  que cheguemos ao terceiro antes de completar 
trinta anos. O que me diz? Daphne no podia conter a risada.
         -Continuo dizendo que est louco.
         -De acordo. Deixaremos em dois filhos. E um co. Uma perdigueira cor canela.
         Ela riu, meneando a cabea.
         -Bom, pois um co de raa francesa... Um chihuahua? 
         -Quer se calar? 
         -Por que? 
         De repente, ele adotou um ar infantil, e o corao dela deu um pulo como tinha ocorrido a Jeffrey naquela tarde.
         -No sou simptico? 
         -Acredito que  terrvel. E que est louco de pedra.  este o mtodo que usa com todas as mulheres ou s para conquistar inocentes estudantes como eu? 
         le olhou para ela muito srio e sereno.
         -Nunca tinha proposto casamento a nenhuma mulher. Jamais.
         Deixou-se cair contra o encosto do sof.
         -Quando nos casamos? 
         -Quando eu fizer trinta anos. Daphne cruzou os braos e ficou o olhando com expresso risonha.
         Em troca ele meneou a cabea com solenidade.
         -Quando voc tiver trinta anos, eu terei trinta e oito. Serei muito velho.
         -E eu sou muito jovem. Telefone para mim dentro de dez anos.
         De repente ela pareceu tornar-se mais amadurecida, mais segura de si mesma e dona de uma notvel fora, e ele adorou isto, enquanto se aproximava lentamente 
do lugar que Daphne ocupava no sof.
         -Se partisse daqui neste momento, telefonaria em dez minutos. Isto se pudesse esperar tanto tempo. Agora me diga, quer se casar comigo? 
         -No.
         Mas algo em seu interior ia se abrandando  medida que ele lhe aproximava.
         -Amo-a, Daff, Embora pense que estou louco, mas no estou. E, acredite voc ou no, posso lhe assegurar que vamos nos casar. 
         -Eu no tenho nem um centavo em meu nome.
         Teve necessidade de dizer lhe como se estivesse falando a srio, como se na verdade fosse sincero. Mas o mais absurdo de tudo era que, no fundo, sabia que 
Jeffrey expressava seus mais ntimos e nobres sentimentos. 
         -Eu tampouco, Daff, mas um dia seremos ricos. Os dois. Enquanto isto poderemos sobreviver comendo estas fabulosas bolachas e bebendo este ch gelado.
         -Fala srio, Jeff? 
         Daphne o olhava com olhos que delatavam a fragilidade de sua resistncia. De repente, sentia a necessidade de saber a verdade. Possivelmente Jeffrey s 
estava jogando com ela... Deus no o quisesse.
         Quando lhe acariciou a face com uma mo enquanto tomava a sua com a outra, sua voz era firme e rouca ao lhe dizer: 
         -Sim, muito a srio. Neste momento estou completamente seguro de que ser o melhor que nos poderia acontecer, Daff. Eu sei. Se nos casssemos esta mesma 
noite, no nos arrependeramos pelo resto de nossos dias. Uma coisa como esta s ocorre uma vez na vida. E no estou disposto a deix-la escapar. Se resistir, no 
a deixarei em paz at que me escute. Porque sei que no me engano, e estou seguro disso. 
         Depois de um breve silncio, disse:
         -E acredito que voc tambm est.
         Os olhos do Daphne pousaram nos seus, e ento ele descobriu o brilho de umas lgrimas em seus olhos.
         -Tenho que pensar... No estou segura de compreender o que passou.
         -Eu sim. Apaixonamo-nos. Assim, simples. Poderamos ter demorado cinco anos para nos encontrar, ou dez possivelmente, mas no foi assim. Conheci-a hoje, 
naquela tediosa reunio, e mais tarde ou mais cedo ser minha esposa.
         Beijou-a com ternura e ficou de p, retendo ainda com firmeza sua mo.
         -E agora vou me despedir, antes que cometa verdadeiramente uma loucura, como a atacar.
         Ela riu, sentindo-se totalmente segura. Havia outros homens para quem nunca teria aberto a porta de seu apartamento, mas a respeito de Jeff, instintivamente 
tinha sabido que no corria risco algum.
         Era uma das coisas que a tinham cativado assim que o conheceu: a sensao de segurana e de bem-estar que a embargava ao estar ao seu lado.
         Com ele se sentia protegida, e se tinha dado conta disto quando se dirigiam do lago ao zoolgico.
         Certamente se devia  energia que irradiava dele, energia que, ao mesmo tempo, parecia moderada por uma profunda ternura.
         -Telefonarei amanh.
         -Estarei na escola.
         -A que hora vai pela manh? 
         -s oito.
         -Ento, telefonarei antes. Quer almoar comigo? Ela concordou com a cabea, dominada de repente por um temor que a abalava.
         -Diz isto de corao? 
         -Com toda minha alma.
         Beijou-a na porta, e ela sentiu que todas as fibras de seu ser vibravam como nunca.
         Esta noite, enquanto permanecia deitada na cama pensando nele, tratando de esclarecer seus pensamentos, apoderou-se dela uma funda saudade que at ento 
jamais havia sentido. Entretanto, tudo que lhe disse aquela noite tinha brotado de seus mais sinceros sentimentos.
         Na manh seguinte, ele telefonou as sete, e foi esper-la na sada da escola de jornalismo as doze em ponto. Levava a jaqueta pendurada no ombro, a gravata 
em seu bolso, e seus dourados cabelos resplandeciam  luz do sol, e quando o viu da escadaria  se deteve, vacilante,presa de uma profunda timidez.Aquilo era muito 
diferente do acontecido no dia anterior.No estavam imersos no barulho de vozes que reinava no Colgio de Advogados; no tinham tomado vinho; no se achavam em um 
bote nem se filtrava o sol do entardecer pelas janelas de seu apartamento.
         Agora se encontrava sozinha diante daquele arrumado jovem loiro, de p sob o sol do meio-dia, que lhe sorria orgulhosamente como se fosse seu dono.
         E no fundo de seu corao, ela compreendia que o era, e que sempre o seria.
         Tomaram um txi e foram almoar no Museu Metropolitano, onde ocuparam uma mesa junto  piscina, e quando Jeffrey a acompanhou de volta  escola, ela j 
voltava a sentir-se natural a seu lado.
         Era um homem notvel, e Daphne se encontrou de novo subjugada por sua energia, segura junto a ele, como no dia anterior.
         Esta noite, ela preparou o jantar em seu apartamento, e tambm desta vez Jeffrey partiu cedo.
         No fim de semana, ele a levou para visitar uns amigos em Connecticut, onde jogaram tnis, praticaram navegao a vela, e retornaram para casa com a pele 
bronzeada pelo sol.
         Nesta ocasio Jeffrey a levou ao seu apartamento e foi ele quem cozinhou.
         Foi ali onde por fim a tomou em seus braos e deslizou brandamente as mos por sua pele morena e sedosa, e Daphne se sentiu morrer de desejo por ele.
         Aquela noite ela passou aninhada em seus braos, e foi s na madrugada seguinte quando ele fez amor com toda sua ternura e todas as precaues que visam 
refrear a paixo do homem que est loucamente apaixonado por uma mulher virgem.
         Ele o fez com mestria, e nesta noite se uniram de novo no apartamento de Daphne.
         Desta vez foi ela quem tomou a iniciativa, e no foi Jeffrey quem se surpreendeu, a no ser ela, ao comprovar a fora do desejo e a paixo que a dominavam.
         Passaram o resto do vero deitando-se e levantando-se da cama, adaptando os horrios a fim de no coincidir com os de seus companheiros de apartamento - 
a de Daphne havia retornado em fins de agosto-, at que por fim Jeff no pde suportar mais e, durante as frias de Pscoa do ltimo ano de estudos de Daphne viajou 
ao Tennessee com ela, e se casaram.
         A cerimnia foi muito ntima, contando com a presena somente da me de Daphne e de uma dzia de amigos.
         Ela usava um vestido comprido de organdi branco e um enorme chapu, com um buqu de flores silvestres e margaridas na mo, e sua me chorou tanto de alvio 
como pela sorte de ver a sua filha casada.
         Camilla estava morrendo de leucemia, mas ainda no o havia dito a Daphne. Antes que os recm casados retornassem ao norte, ela contou a Jeffrey. Este lhe 
prometeu que cuidaria de Daphne eternamente. Ao fim de trs meses, sua sogra estava morta, e Daphne, grvida de seu primeiro filho. Jeff voou a Atlanta com ela para 
o funeral, e foi ele quem se encarregou de tudo, alm de consolar a sua chorosa esposa.
         Agora Daphne no tinha a ningum mais no mundo, salvo Jeffrey e o filho que tinha que nascer em maro.
         Todo o vero Jeffrey presenciou a dor de Daphne pela morte de sua me, enquanto montavam seu novo apartamento com os contados mveis que tinham juntado 
desde Atlanta.
         Ela se graduou em junho, e em setembro conseguiu seu primeiro emprego na Collins Magazine, uma revista para mulheres que gozava de muito prestgio.
         Jeffrey no achou muito certo que comeasse a trabalhar estando grvida, mas por fim no ps impecilhos, e teve que reconhecer que isto lhe fazia um grande 
bem.
         Depois de Natal, Daphne pediu uma licena de dois meses e se preparou para receber seu filho.
         Cada dia que passava se mostrava mais impaciente, at que Jeffrey viu desaparecer de seus olhos o pesar que a tinha arrasado durante todo o vero.
         Ela no cessava de insistir que, sim era um menino, chamaria Jeffrey, mas seu marido desejava que fosse uma menina e que se parecesse em tudo com ela.
         Quando de noite se deitavam, ele lhe tocava o ventre e sentia os chutes do beb, e em seus olhos maravilhados se refletia todo seu amor.
         -No doem? -perguntava-lhe, pois se preocupava com tudo  referente a ela.
         No obstante, aos vinte e um anos, Daphne era a viva imagem da sade, e ria de seus temores.
         -No. s vezes causam uma estranha sensao, mas no doem.
         Olhava-o radiante de felicidade, deitada a seu lado, e lhe assaltava um sentimento de culpa quando alargava a mo para lhe acariciar os seios.
         At agora, desejava-a, e faziam amor quase todas as noites. 
         -No se importa, Jeff? 
         -No,  obvio que no.  linda, Daff, at mais linda que antes.
         Havia algo novo e luminoso em seu rosto quando os cabelos dourados se espalhavam em volta de seus ombros como um feixe de trigo, e seus olhos ardiam com 
um fulgor interior que Jeffrey conhecia pelos livros, mas que nunca antes havia visto na vida real. Sua esposa parecia cheia de promessas e de uma mgica alegria.
         Daphne telefonou ao escritrio depois de ter sentido as primeiras dores, e lhe contou com voz exuberante e quase eufrica.
         Ele correu para casa para estar com ela, esquecendo do cliente que estava com ele, assim como da jaqueta pendurada detrs da porta de seu escritrio, mas 
levando consigo um livro de leis que tinha na mo quando ela ligou; sentia-se um pouco nervoso, e mais assustado do que teria querido reconhecer.
         Mas ao ver que ela estava esperando, sentada tranqilamente em uma poltrona, compreendeu que tudo sairia bem, tal como sempre tinha sado, e, contagiado 
da emoo que ela sentia, encheu duas taas de champanhe.
         -Por nossa filha.
         -Por seu filho! -brincou ela com olhos zombadores, que naquele mesmo instante ficaram frgeis por um espasmo de dor.
         Jeffrey se inclinou para ela e lhe agarrou a mo, esquecendo do champanhe e recordando tudo o que ambos tinham aprendido nas aulas a que tinham assistido 
durante dois meses.
         Ajudava-a suportar a dor, uma vez que calculava o tempo de cada contrao com o cronmetro que tinham comprado para isto, at que pressentiu, muito antes 
que ela, que era hora de ir para o hospital.
         O mdico j estava aguardando, e Daphne lhe sorriu com uma expresso quase majestosa, com a cabea erguida, to emocionada e to orgulhosa que pareceu ainda 
mais vulnervel quando se encolheu agarrando-se a seu marido, ofegando pesadamente, mas com os olhos ainda brilhantes pela felicidade que compartilhavam, sem deixar 
transparecer apenas a dor que experimentava.
         - extraordinria, querida. Oh, meu Deus, como te amo! 
         Jeffrey a acompanhou at a sala de pr-parto, e permaneceu junto a ela, segurando sua mo e compassando sua respirao com a de sua esposa, e s nove, equipado 
com a mscara e a bata entrou na sala de partos junto com ela.
         s dez e dezenove minutos, diante de seus olhos atnitos e assustados, Daphne comeou a empurrar com todas suas foras e, enquanto as lgrimas corriam pelo 
rosto de Jeffrey, nasceu sua filha. Aimee Camilla Fields apareceu sua cabecinha ao mundo proferindo um poderoso alarido, enquanto sua me lanava um grito de triunfo 
e de jbilo.
         O mdico sustentou a recm-nascida no alto, e em seguida foi posta entre os braos de Daphne enquanto Jeffrey as contemplava rindo e chorando ao mesmo tempo, 
sem deixar de acariciar os midos cabelos de sua esposa com uma mo, enquanto com a outra tomava os diminutos dedinhos da menina.
         -No  preciosa, Jeff? Daphne chorava, com um sorriso nos lbios, olhando Jeff com todo seu amor quando este se inclinou sobre ela para beij-la docemente 
nos lbios.
         -Voc jamais me pareceu mais bela, Daff.
         -Te amo.
         As enfermeiras se retiraram, pois nunca chegavam a endurecer suficiente para no emocionar-se ante o milagre que presenciavam todos os dias, e os trs permaneceram 
juntos todo o tempo que o permitiram.
         Por fim, levaram Daphne a seu quarto.
         Assim que ela dormiu, Jeffrey partiu para sua casa, onde chegou a meia-noite, para permanecer acordado na cama, pensando em sua filha, em sua esposa e em 
tudo que havia compartilhado com ela durante dois anos.
         Os trs anos seguintes passaram voando.
         Quando Aimee fez um ano, Daphne voltou a trabalhar na Collins.
         Tinha prolongado a licena tudo que pde, e detestava ter que voltar para a revista, mas embora amasse muito a Aimee, tambm sentia um grande amor pelo 
trabalho.
         Sabia que necessitava disto para poder continuar sendo quem era, e Jeff compreendia que no era suficiente para ela limitar-se a ser me e esposa, mas sim 
devia ser algum ante si mesma.
         Isto ele sempre tinha compreendido.
         Uma bab ia diariamente a sua casa, uma mulher to boa como uma av, que Daphne tinha encontrado pouco depois da menina nascer.
         Jeff ajudava a cuidar de noite, e nos fins de semana saam a passear pelo parque ou iam ao campo visitar os amigos.
         Sua vida familiar tinha uma mgica virtude, que comovia a todos seus conhecidos.
         -Mas vocs dois no brigam nunca? -perguntou-lhes brincando um dos colegas de trabalho de Jeff num fim de semana que passaram em Connecticut. Tinha-lhes 
grande simpatia, mas invejava Jeff mais do que gostaria de reconhecer.
         -Claro que brigamos. Pelo menos duas vezes na semana. Fazemos isto em dia fixo. Eu lhe dou umas pancadas, ela me insulta, os vizinhos avisam  polcia e, 
quando todo mundo partiu, ficamos vendo televiso.
         Daphne lhe sorriu por cima da cabea de Aimee e Jeff soprou um beijo.
         Jeff continuava sendo o de sempre: divertido, carinhoso, franco, e tudo o que ela desejava encontrar num homem.
         Para ela, seguia sendo um sonho feito realidade.
         -Vocs dois me do asco - falou a esposa do amigo.
         -Como  possvel que duas pessoas casadas sejam to felizes? No tm vergonha? 
         -Nem um pingo - respondeu Jeff, passando o brao sobre os ombros de Daphne, enquanto Aimee descia de seu colo atrs de um gato.
         -Suponho que somos muito estpidos para conseguir coisa melhor.
         Mas isto era precisamente o extraordinrio neles: ambos eram muito inteligentes, bons anfitries e grandes piadistas.
         -O Casal Perfeito - os chamavam seus amigos.
         s vezes Daphne se inquietava, pensando que aquilo era muito maravilhoso para que pudesse durar, mas o caso era que ao fim de cinco anos sua relao no 
tinha feito outra coisa que melhorar.
         Ambos tinham crescido dentro do mesmo molde, e com exceo do gosto de Jeff pelo rugby, cujas partidas ia assistir nos domingos a tarde no Central Park, 
no havia absolutamente nada que Daphne tivesse querido modificar.
         Era simplesmente o caso de duas pessoas que tinham encontrado o que melhor se adaptava a cada uma delas e que tinham tido a sensatez de cultivar isto.
         O nico problema que s vezes deviam enfrentar era uma ocasional escassez de recursos, o que, entretanto, nunca parecia ser um motivo de preocupao para 
Daphne nem para Jeff. Com trinta e dois anos, Jeffrey ganhava bons honorrios como advogado, o que o permitia atender a suas necessidades, e o salrio de Daphne 
na Collins servia para cobrir os gastos adicionais.
         Tinham comeado a pensar em ter outro filho, e quando Aimee j tinha trs anos e meio, decidiram tentar de novo, mas no tiveram xito.
         -Mas  divertido tentar, no acha, boneca? -brincava Jeff um domingo pela manh, que era o dia de Natal. 
         -Quer provar de novo? 
         -Depois de ontem  noite? No acredito ter foras suficientes.
         Logo depois de enfeitar a rvore e de preparar os presentes para Aimee, tinham estado fazendo amor at as trs da madrugada.
         Daphne lhe respondeu com uma careta, e ele lhe deu uma palmada no traseiro.
         Sua vida sexual estava melhor que cinco anos atrs.
         Ela se mostrava mais bonita  medida que amadurecia, e aos vinte e quatro anos possua um ar mais feminino e parecia mais atrevida, como naquele momento, 
em que cruzou a sala, aproximou-se de Jeff e comeou a lhe acariciar com o dedo o ventre nu, descrevendo delicados crculos naquelas zonas que mais o excitavam.
         -Se continuar fazendo isto, vou te violentar! 
         Mas ento Aimee entrou na sala como um foguete, com os braos carregados de brinquedos novos, e Jeff se cobriu rapidamente com uma toalha enquanto Daphne 
ajudava sua filha a vestir a boneca que Papai Noel havia lhe trazido.
         -Sinto muito, querido.
         -Meninas! -exclamou ele, revirando os olhos, enquanto se metia no chuveiro para tomar uma ducha.
         Foi um dia tranqilo, em que os trs comeram peru com gelia e molho at que quase no podiam se mexer, e quando por fim Aimee se deitou  noite, eles se 
acomodaram frente  lareira da sala de estar, lendo o ltimo nmero do Time, enquanto bebiam uma xcara de chocolate quente e contemplavam a rvore.
         Foi um Natal perfeito, com aquela tranqila tarde de domingo, culminando no momento em que Daphne se esticou no sof e apoiou a cabea nos joelhos de Jeff.
         -O que  uma cadeia de montanhas do Peru? 
         -Rendo-me. O que ? -Ele no tinha habilidade alguma para lhe ajudar com a palavra cruzada que ela fazia todos os domingos, mesmo que fosse Natal.
         -Como voc faz para acertar esses malditos quebra-cabeas, Daff? Diabos, eu estudei em Harvard, graduei-me com honras, mas sou incapaz de encontrar trs 
palavras seguidas.
         Ela as terminava por volta de tera-feira, e no desistia at as ter resolvidos.
         Apesar de seu marido nunca a ajudar absolutamente em nada, sempre lhe perguntava.
         -E no me pergunte como se chamava a irm do Beethoven, porque sou capaz de te jogar o chocolate quente em cima.
         -Isto! -exclamou ela, sorrindo com malignidade. -Violncia! Esta  a palavra que me faltava no vinte e trs horizontal.
         -Voc me deixa louco! Vem. -ficou de p e lhe estendeu a mo. -Vamos para a cama.
         -Vamos esperar o fogo apaguar.
         Seu quarto e o do Aimee se encontravam no segundo andar do duplex que haviam comprado no vero passado, quando ele teve o ltimo aumento de salrio. Daphne 
adorava a lareira, mas sempre lhe causava certa inquietao deix-la acesa, sobretudo agora, que a rvore de Natal estava to perto dela.
         -J pode desconectar seu dispositivo de alarme, pois j est quase apagada.
         -Ento, esperemos um pouco.
         -No. -Deu-lhe um belisco nas ndegas. - Estou to excitado que mal posso fixar os olhos. Acredito que colocou um afrodisiaco no chocolate.
         -Frescuras! -Daphne sorriu e ficou de p-Comporta-se como um manaco sexual desde que o conheci. Voc no necessita de afrodisiacos, Jeffrey Fields. O que 
lhe faz falta  um pouco de sal na comida para mant-lo em estado normal.
         Ele se ps a rir e a perseguiu escada acima at seu quarto, onde a fez cair sobre a cama e comeou a acarici-la por debaixo do suter.
         Daphne perguntou-se, como no tinha deixado de faz-lo fazia dois meses, se naquela ocasio ficaria grvida.
         -Por que acredita que demora tanto esta vez? - perguntou ligeiramente preocupada.
         No caso do Aimee, tinha ficado grvida quase na primeira tentativa, mas em agora ainda no tinham conseguido.
         Jeffrey se limitou a sorrir, encolhendo os ombros, 
         -Talvez j esteja ficando velho... Diabo, possivelmente deveria lhe conseguir um novo modelo.
         Daphne o olhou com uma grave expresso nos olhos, enquanto se despia.
         -Jamais encontrarei outro homem como voc, Jeff. No importa se no podemos ter outro filho. Sabe quanto te amo? 
         -Quanto?-perguntou ele com voz rouca e profunda, enquanto estendia os braos e a atraa lentamente para si. 
         -Mais do que nunca poder saber, meu amor. Suas palavras foram absorvidas pelos lbios de Jeff, que se uniram aos seus, e comearam a fazer amor sob o cobertor 
que Daphne tinha comprado para sua enorme cama de bronze.
         Aquela cama era um motivo de brincadeira entre eles. O colcho chiava, e a cama toda balanava quando faziam amor, mas era uma antigidade que tinham comprado 
em um leilo, e a adoravam. Tambm tinham adquirido outra menor para Aimee, e Daphne tinha encontrado uma colcha muito bonita, feita por sua av, entre as coisas 
de sua me.
         -Tenho que ir ver como est a nenn.
         Sempre o fazia antes de deitar-se, mas esta noite sentia preguia e cheia de sensualidade enquanto se encontrava entre os braos de seu marido, e a este 
ocorria o mesmo.
         Por um instante, Daphne se perguntou se tinha de novo uma vida em seu ventre.
         Tinham se amado com um ardor e um desejo to intensos que ambos sentiam a esperana de que desta vez tinham gerado seu segundo filho.
         Enquanto cochilava nos braos de Jeffrey, ela sonhava com aquele menino desejado, e no com a filha que tinham.
         -A menina est bem, Daph.
         Ele sempre gracejava porque Daphne adotava um ar muito solene quando  noite ficava de p junto  cama de Aimee, contemplando  pequena de dourados cabelos 
que tanto se parecia com ela. E se a criana dormia muito profundamente, Daphne lhe punha um dedo debaixo do nariz para assegurar-se de que respirava.
         -Fica tranqila. Aimee est bem.
         Daphne sorriu sonolenta, e em um segundo estava profundamente adormecida, nos confortveis braos de Jeff.
         Esteve dormindo na mesma postura durante horas, at que por fim se removeu ligeiramente, perdida em um sonho distante.
         Encontravam-se junto a uma cascata, os trs, ela, Jeffrey e Aimee, e o rudo do salto de gua era to ensurdecedor que perturbava seu descanso; mas havia 
algo mais que a incomodava, uma espcie de aroma caracterstico de bosque.
         Por fim, agitou-se junto a Jeffrey, ergueu-se tossindo, abriu os olhos, para se libertar do sonho, e ao olhar para a porta do quarto, descobriu que o rudo 
da gua que a havia despertado era na realidade o crepitar das chamas, que como um muro se levantavam frente  entrada do dormitrio.
         -Jeff!...Santo Deus, Jeff! Saltou da cama meio enjoada, e ele comeou a mover-se ao ser sacudido violentamente por Daphne, que se tinha posto a gritar.
         -Jeff! Aimee! Jeff despertou bruscamente e em seguida se deu conta do que estava acontecendo, enquanto se esforava para levantar da cama, para dirigir-se 
nu  porta do dormitrio.
         Daphne o seguiu, com os olhos arregalados de terror.
         Jeff se viu detido pelas chamas e retrocedeu um passo.
         -Oh, Deus, Jeff, a nenm! -exclamou Daphne.
         As lgrimas corriam por seu rosto, provocadas pela fumaa e o desesperador espanto; mas ele se voltou para ela, agarrou-a pelos ombros com energia e lhe 
gritou, a fim de se fazer ouvir por cima do rugido das chamas.
         -Basta, Daff! O fogo  na sala de estar. Ns estamos a salvo, e no acontecer nada com a nenn. Agora se enrole com a manta e desa pela escada o mais 
rpido que puder. Vou tirar Aimee da cama e a seguirei. No h nada que temer! Entendeu?
         Enquanto falava, Jeff ia a envolvendo com a manta com rpidos e geis movimentos, e logo a empurrou para a porta murmurando no seu ouvido: 
         -Te amo, Daff. No me acontecer nada.
         Falou com absoluta convico e logo se precipitou para o quarto de sua filha, enquanto Daphne se dirigia  escada, tratando de conservar a serenidade, com 
a certeza de que Jeff cuidaria de Aimee, como sempre cuidava delas...
         Sempre..., sempre..., repetia-se sem cessar para si mesma enquanto descia a escada, tentando ver o que ocorria  suas costas. Porm, a fumaa parecia ter 
se tornado mais densa, e ela se sentiu como se flutuasse em uma nuvem de fumaa ocre, e no podia ver nada.
         De repente se ouviu um rudo como de uma exploso atrs dela, mas quando o ouviu,parecia vir de uma grande distancia.
         Daphne se afundou no sonho que tinha tido momentos antes, encontrando-se junto  cascata com Aimee e Jeff, e ento se perguntou se tudo aquilo no seria 
tambm um sonho.
         Experimentou um profundo alvio ao dar-se conta de que o era..., que era s um sonho..., s um sonho..., enquanto ficava adormecida sentia Jeff a seu lado...
         Logo ouviu vozes em sonhos e, em seguida, percebeu um estranho e sobrenatural barulho... de novo aquele rudo to familiar..., aquele rudo..., e as luzes 
que chegavam at ela atravs da bruma...
         "Senhora Fields - diziam as vozes-, senhora Fields..." 
         De repente, as luzes voltaram violentamente brilhantes, e se encontrou em um lugar desconhecido, horripilante.
         Sentiu que o terror percorria todo seu corpo como sangue ardente, incapaz de recordar como tinha chegado at ali nem por que, e comeou a procurar Jeff..., 
apanhada entre o sonho e a realidade...
         Tinha ataduras nas mos e nas pernas, e sentia que uma capa espessa de pomada cobria seu rosto, e um mdico a olhava com expresso penalizada enquanto ela 
gritava: 
         -No, no!...Minha filha no!...Jeff no!...Noooo...! 
         Daphne Fields gritou nesta noite com voz quebrada e cheia de angstia, recordando que tinha visto antes aquelas luzes to brilhantes..., depois do incndio...
         Era manh do dia de Natal quando despertou, e a enfermeira da unidade de cuidados intensivos foi para seu lado e a viu ali estendida, tremendo, com os olhos 
dilatados e o rosto paralisado por uma aflitiva recordao.
         Ento tinha despertado, tal como despertou agora, sentindo a mesma profunda dor de agonia, que parecia transpassar todo seu corpo como a afiada folha de 
uma faca, do mesmo modo como havia sentido ento, nove anos atrs, na noite em que Jeff e Amee morreram levados pelo fogo.
         Barbara Jarvis chegou ao Lenox Hill duas horas depois que Liz Watkins, que tinha procurado o nmero ao chegar a sua casa, ter lhe telefonado. Barbara foi 
em seguida, tremendo dos ps a cabea.
         Eram nove da manh, e diferente da enfermeira de uniforme engomado que a acompanhava pelo corredor, Barbara Jarvis tinha o aspecto de no ter dormido a 
noite toda. Deitou-se tarde, e a notcia do acidente de Daphne a comoveu at as fibras mais ntimas de seu ser.
         Tinham lhe comunicado que sua chefa se achava na unidade de cuidados intensivos do Lenox Hill e que podia visit-la durante quinze minutos cada hora, com 
o pedido de que avisasse a seus familiares. Depois de telefonar, Liz Watkins se perguntou se a secretria iria ao hospital, e como seria.
         No tinha se mostrado muito simptica por telefone; no agradeceu a Liz que a houvesse avisado e se mostrou bem mais desconfiada a respeito das perguntas 
da enfermeira.
         Liz suspeitou que se tratasse de uma mulher estranha, e a enfermeira que a viu aparecer em seu escritrio teria compartilhado sua opinio.
         No era estranha, mas estava longe de ser simptica; ao perguntar pelo quarto de Daphne o fez com um ar srio, com uma atitude protetora.
         Suas perguntas denotavam uma espcie de parania que provocou irritao e espanto  enfermeira.
         Queria saber se tinha avisado  imprensa, se algum j tinha ido visitar a senhorita Fields, se seu nome tinha sido colocado em algum registro geral e se 
as enfermeiras da unidade tinham idia de quem era a paciente.
         -Sim, algumas sabemos - respondeu a enfermeira, olhando a de cima em baixo. -Temos lido seus livros.
         -Talvez seja assim. Mas ela no veio aqui para escrever. No quero que a senhorita Fields seja incomodada.
         Barbara Jarvis mostrava um aspecto imponente, ao plantar-se ali em toda sua considervel estatura, com os cabelos recolhidos em um coque e uma expresso 
de profunda confuso no olhar.
         -Est claro? Se algum jornalista telefonar, nada de comentrios, nada de histrias, nada de reportagens. A senhorita Fields detesta publicidade, e em momentos 
como estes, devem respeitar seu estado e deix-la tranqila.
         A enfermeira se apressou a lhe responder: 
         -No ano passado tivemos aqui ao governador de New York, senhorita... Estava to cansada que nem sequer recordava o nome daquela mulher, e por um instante 
esteve a ponto de cham-la senhorita Bitch, pela conotao insultante que tinha aquele nome. -E o senhor governador gozou do maior isolamento enquanto esteve neste 
hospital. A senhorita Fields receber a mesma ateno.
         Entretanto, era evidente que a alta morena que tinha diante de si no acreditava em nem uma palavra do que lhe dizia.
         Era notrio o contraste que oferecia se a comparasse com sua chefa, que era uma mulher mida, frgil, delicada e loira.
         -Como vai ela? 
         -No houve nenhuma mudana em seu estado desde que lhe telefonaram. Passou uma m noite.
         Um brilho de preocupao se refletiu como um relmpago nos olhos da Barbara Jarvis.
         -Tem muitos dores? 
         -No deveria ser assim, uma vez que est bem medicada, mas  difcil dizer...
         Ento a enfermeira se perguntou se Barbara poderia lanar alguma luz sobre os terrores que, sem dvida nenhuma, tinham assaltado Daphne na noite anterior.
         Sua voz se suavizou ao acrescentar: 
         -Passou uma noite terrvel.
         Explicou-lhe os pesadelos que Liz Watkins havia descrito em seu histrico clnico, e a expresso que percebeu nos olhos da Barbara Jarvis lhe confirmou 
que esta conhecia sua origem, mas no diria nada a respeito.
         -Sofreu pesadelos..., sonhos..., possivelmente por causa da concusso. Mas no podemos afirmar.
         A secretria guardou absoluto silncio.
         -Se deseja v-la, voc pode entrar por breve tempo. Est quase sempre inconsciente, por isto pode ser que no a reconhea.
         Barbara assentiu com a cabea e desviou a vista por volta dos quartos que se estendiam ao longo do corredor brilhantemente iluminado. At para uma pessoa 
s, aquele ambiente adquiria um carter misterioso que impunha temor.
         Por nenhuma parte se filtrava a luz do dia naquele corredor; tudo era resplandecente e frio sob a luz fluorescente. O resultado era muito impressionante.
         Barbara Jarvis no tinha estado nunca antes em uma unidade de cuidados intensivos, embora soubesse que Daphne j tinha passado por esta experincia. Conheceu-a 
muito depois do trgico incndio, mas uma noite Daphne lhe falou a respeito disso. Barbara sabia de tudo, sabia de Aimee e Jeffrey, e ao fim de trs anos de estar 
ao seu lado conhecia muitas coisas mais sobre ela.
         -Posso v-la agora? A enfermeira assentiu com um gesto e a acompanhou ao quarto de Daphne.
         Entrou em silncio e, depois de contemplar Daphne, percorreu com o olhar os aparelhos de controle e pareceu aliviada ao comprovar que tudo estava em ordem.
         Fazia uma hora que tinham lhe aplicado outra dose de Demerol, e a paciente estaria adormecida durante vrias horas.
         A enfermeira olhou para Barbara e viu que umas lgrimas se deslizavam por seu rosto enquanto aproximava-se de Daphne, tomava a delicada mo entre as suas, 
grandes e fortes, e a segurava como se Daphne fosse sua filha.
         O pulso ainda era dbil, e ainda era muito cedo para poder dizer se conseguiria sobreviver.
         Barbara a observava contendo o flego, fazendo um esforo por no chorar, mas no pde evit-lo.
         Ao fim, a enfermeira as deixou sozinhas, e Barbara permaneceu com o olhar fixo em sua amiga com expresso angustiada, at que a enfermeira voltou e lhe 
fez um gesto da porta.
         Aquela mulher alta e de robusta aparncia estava no mesmo lugar onde se encontrava quando a enfermeira se retirou.
         Com supremo cuidado deixou repousar de novo a mo de Daphne sobre a cama e em seguida saiu do quarto.
         Enquanto percorria o corredor de volta ao vestbulo, caminhando com passo lento, no pde dissimular a dor que sentia, mas assim que se deteve diante do 
escritrio da enfermeira, voltou a adotar a serena expresso como se fosse uma mscara.
         -Ficar bem? Os olhos da Barbara procuravam ofegantes por algo que no podiam encontrar: um sinal de nimo, uma esperana, uma promessa.
         Entretanto, era difcil de acreditar que Daphne pudesse sair com vida daquela agonia, depois de t-la visto ali estendida, to quieta, to imvel e to 
frgil. Parecia que j estava morta.
         Para Liz no servia de muito consolo constatar que Daphne inspirava a mesma devoo apaixonada a quem lhe era prximo como aos leitores de seus livros.
         Mas Barbara Jarvis a olhava agora, implorando uma resposta, uma resposta que, salvo Deus, ningum podia lhe dar.
         -Ainda  prematuro dizer.  muito provvel - disse com o doce tom de voz que tinha adquirido com os largos anos de prtica. -Ou talvez no. Sofreu traumatismos 
generalizados.
         Barbara Jarvis assentiu em silencio com um gesto, e se afastou lentamente at deter-se em frente um telefone pblico.
         Ao sair da cabine, perguntou quando poderia voltar a ver Daphne, e lhe responderam que em uma hora.
         -Gostaria de uma xcara de caf? Poder v-la de novo durante quinze minutos, a cada hora.
         Ou... possivelmente partisse, pois afinal era somente sua secretria.
         Barbara pareceu ler os seus pensamentos.
         -Ficarei. -Tratou de esboar um ligeiro sorriso, mas isto pareceu lhe custar um esforo enorme. -Aceitaria a xcara de caf. E logo, quase como se lhe doesse, 
falou:             - Obrigada.
         Uma estudante de enfermagem a acompanhou at uma mquina de caf convenientemente situada junto a um sof estofado com vinil de cor azul, que havia sido 
testemunha de vrias cenas dramticas.
         At o aspecto do sof pareceu deprimente a Barbara, ao imagin-lo com gente sentada a espera que algum ser amado sasse vitorioso ou derrotado de sua luta 
contra a morte.
         A enfermeira, vestida com uma bata azul, encheu uma xcara de fumegante caf e a ofereceu a Barbara enquanto esta fixava seu olhar nos olhos da jovem.
         -Voc l seus livros? Corando, a jovem enfermeira assentiu com a cabea, e em seguida se afastou dela.
         Liz Watkins chegou de volta s trs, para se encarregar de seu turno.Barbara ainda estava ali, nervosa e com aspecto muito cansado.
         Liz examinou o histrico clnico e comprovou que no havia nenhuma melhora.
         Ao fim de um momento se aproximou para conversar com a Barbara, a quem ofereceu uma nova xcara de caf.
         Ento observou  secretria com mais ateno; calculou que devia ter a mesma idade de Daphne e, por um instante, assaltou-lhe o desatinado impulso de lhe 
perguntar como era realmente Daphne, mas compreendeu que fazer aquela pergunta significaria despertar de novo a hostilidade da secretria, que a envolveria como 
uma nuvem irada.
         -H algum familiar ao que devssemos avisar? Isto foi tudo que se atreveu a perguntar. Barbara vacilou s uma frao de segundo antes de responder: 
         -No, nenhum.
         Quis acrescentar que Daphne estava sozinha no mundo, mas isto no era totalmente certo e, por certo, tampouco se tratava de algo que importasse quela mulher.
         -Entendi que  viva.
         Barbara se surpreendeu que soubesse, mas assentiu com a cabea e tomou um gole de caf. O fato foi comentado uma vez no The Conwoy Show, mas ela no havia 
tornado a falar sobre este tema. No queria que soubessem.
         Agora a conheciam como a "senhorita" Felds, e se tirava disto era que nunca havia estado casada. A princpio,  pareceu a Daphne que isto era como trair 
Jeff, mas chegou  concluso  que era prefervel assim.
         No podia suportar a dor que lhe causava falar dele ou de Aimee. S falava deles com...
         Mas Barbara afastou aquele pensamento de sua mente, temendo o que pudesse ocorrer a ele agora.
         -No houve nenhuma chamada da imprensa? - perguntou, levantando a cabea de repente, extremamente preocupada.
         -Nenhuma - tranqilizou-a Lz com um sorriso. -E eu me encarregarei deles. No se preocupe. No permitiremos que se aproximem nem por um instante.
         Pela primeira vez Barbara se permitiu conceder um verdadeiro sorriso, e coisa estranha, por um instante quase at pareceu bonita.
         -Ela detesta apaixonadamente a publicidade.
         -Isto deve gerar uma dura luta, pois sem dvida sempre a perseguem. 
         -, sim... -Barbara sorriu de novo. -Mas  um gnio se esquivando dos jornalistas quando quer. Estando em excurso isto no  possvel, mas at ento sabe 
evitar as perguntas inconvenientes. 
         - muito tmida? Lz ansiava ter algum dado que a aproximasse da Daphne de carne e osso.
         Era a nica pessoa clebre que sempre quis conhecer e agora, apesar de t-la to perto, Daphne Fields continuava sendo um enigma para ela.
         Barbara Jarvis voltou a esquivar-se com cautela, mas sem mostrar-se hostil, 
         -, em alguns aspectos. Em outros, absolutamente. Acredito que "retrada" seria um termo que a definiria melhor.  muito ciumenta de sua intimidade. No 
 que as pessoas a assustem, mas prefere guardar certa distncia. Salvo... -Barbara Jarvis ficou pensativa e adotou uma atitude distante por uns momentos. -Salvo 
com as pessoas que ama. Com elas se manifesta como uma menina alegre e feliz.
         A imagem pareceu agradar a ambas as mulheres, e Liz sorriu ao ficar em p.
         -Sempre a admirei atravs de seus livros. Lamento ter que conhec-la nestas dolorosas circunstncias.
         Barbara assentiu com a cabea, seu sorriso se desvaneceu, e uma bruma de tristeza lhe nublou o olhar. No podia acreditar que a mulher que adorava estivesse 
agonizando. E o pesar que oprimia seu corao se refletiu em seus olhos ao pous-los em Liz Watkins.
         -Avisarei quando puder voltar a v-la - disse esta.
         -Esperarei aqui.
         Liz assentiu com um gesto e partiu apressadamente. Tinha perdido quase meia hora e tinha milhares de coisas a fazer. O turno de dia era o mais movimentado, 
era como trabalhar em dois turnos seguidos, e, alm disto, tinha que cumprir com seu turno noturno. Seria um dia brutal e interminvel, tanto para ela como para 
a Barbara Jarvis.
         Quando as duas mulheres voltaram a entrar no quarto de Daphne, Barbara advertiu que a paciente abria os olhos e, depois de uma breve piscada, fechava-os 
de novo, enquanto ela dirigia um rpido olhar  enfermeira que a assistia, com uma expresso de pnico no rosto.
         Entretanto, Liz permaneceu calada e serena enquanto tomava o pulso de Daphne, e logo sorriu para Barbara, acompanhando o sorriso com um gesto tranqilizador 
da cabea.
         -Est se acalmando.
         Quase ao mesmo tempo em que a enfermeira falava, Daphne voltavam a abrir os olhos e tentava se concentrar em Barbara.
         -Daphne? -falou para sua chefa e amiga, sob a atenta observao de Liz.
         Daphne abriu outra vez os inexpressivos olhos.
         -Sou eu..., Barbara...
         Desta vez os olhos permaneceram abertos, e se desenhou um ligeiro sorriso nos lbios da paciente; logo pareceu dormir por uns minutos, at que voltou a 
olhar para Barbara, tratando de dizer algo. Sua amiga se inclinou sobre ela para ouvir melhor o que lhe dizia.
         -Deve ter sido... uma grande...festa..., pois a cabea me di...como um demnio...
         A voz se apagou enquanto sorria como celebrando sua prpria piada.
         Os olhos de Barbara se encheram de lgrimas, apesar de estar sorrindo.
         De repente, sentiu um grande alvio ao ouvir Daphne falar, e se voltou para Liz com uma expresso de triunfo, como se sua nica filha tivesse pronunciado 
as primeiras palavras. Liz notou que tinha os olhos midos, pela fadiga e a emoo.
         Reprovou-se por aquela amostra de debilidade, mas a ternura que aquela cena transmitia lhe chegava at o mais fundo de seu ser.
         Aquelas duas mulheres formavam um estranho casal: uma to mida e frgil, e a outra to alta e morena; uma to segura ao falar, apesar de sua aparente de 
debilidade, e a outra to solidamente constituda e, entretanto, to submissa e reverente ante sua amiga.
         Liz notou que Daphne se esforava para falar novamente.
         -Quais as novidades? -perguntou quase num sussurro, que Liz mal pde ouvir.
         -No muitas. As ltimas notcias que tive foram que tinha atropelado um automvel. Disseram-me que ficou totalmente destrudo.
         Aquele era o tipo de brincadeiras que se faziam todas as manhs; mas agora havia uma sombra de tristeza nos olhos de Daphne quando olhava para Barbara.
         -Eu... tambm ...
         -Isto so tolices, e voc sabe.
         -... me diga...a verdade...Como estou? 
         -Forte como um carvalho.
         Os olhos do Daphne se fixaram na enfermeira, como procurando a confirmao para aquelas palavras.
         -Voc est muito melhor, senhorita Fields. E ainda se sentir muito mais animada amanh.
         Daphne assentiu com a cabea como uma menina obediente, como se acreditasse, mas de repente uma sombra de preocupao velou seu olhar.
         Examinou o rosto de Barbara de novo, e sua expresso se endureceu antes de implorar: 
         -No diga... nada ...ao Andrew.-Barbara assentiu.
         -Peo-lhe ist o. Nem a... Matthew...
         Barbara sentiu um baque no corao. Tinha temido ouvir aquelas palavras. Mas e se lhe acontecesse algo? E se amanh no se sentisse mais animada, como tinha 
assegurado a enfermeira? 
         -Prometa-me isto. 
         -Prometo, prometo. Mas, pelo amor de Deus, Daff...
         -... No...
         As foras a abandonavam; os olhos se fecharam e voltou a abri-los em seguida, desta vez com uma viva curiosidade.
         -Quem... me... atropelou? -perguntou, como se isto pudesse suavizar a gravidade de seu estado.
         -Um imbecil do Long Island. A polcia disse que no estava bbado. O indivduo alegou que voc atravessou sem olhar.
         Daphne tratou de assentir com a cabea, mas fez uma careta de dor e demorou uns segundos.
         Para recuperar o flego, enquanto Liz consultava seu relgio de pulso. Quase era hora de terminar a visita. Mas Daphne parecia disposta a falar com toda 
fora.
         -... Dizendo... verdade ...
         Escutaram com ateno, mas ela nada mais disse, e ento Barbara se inclinou sobre elapara lhe perguntar: 
         -O que, querida? 
         -O imbecil... - respondeu Daphne com voz baixa, mas com expresso risonha nos olhos - tem razo... Eu... no olhei...Estava pensando...
         Seus olhos procuraram os de Barbara. S esta sabia quo intolervel era para ela o Natal, quo dolorosas eram aquelas festas todos os anos desde que Jeff 
e Aimee tinham morrido no incndio na noite de Natal. Alm disso, este ano se encontrava sozinha, o que no tinha feito a no ser agravar a situao.
         -Sei.
         Assim, a lembrana de seus seres queridos quase lhe tinha tirado a vida. Ou acaso no desejava viver mais? Aquele horrvel pensamento fez Barbara estremecer. 
Teria se jogado de propsito quando o veculo passou? No era capaz de fazer uma coisa assim. No, Daphne no... Ou sim, tinha feito? 
         -Tranqilize-se, Daff.
         -... No permita... que o incomodem...Ele no teve...a culpa...diga lhes..que eu disse isso...-olhou para Liz para encontrar confirmao ao que pedia.Ela 
tinha sido testemunha.
         -Eu... no recordo...nada..
         -Est bem.
         Mas uma expresso de tristeza lhe escureceu o semblante enquanto que seus grandes olhos azuis se enchiam de lgrimas.
         -... Somente... as sirenes..., que soavam como...
         Fechou os olhos, e as lgrimas desceram lentamente pela face at cair sobre o travesseiro.
         Barbara tomou a mo, enquanto as lgrimas alagavam tambm seus olhos.
         -No chore, Daphne. No pense. Agora tem que ficar boa. -E para lhe dar nimos, acrescentou: 
         -Pensa no Andrew.
         Daphne abriu de novo os olhos e ficou olhando fixamente para Barbara, enquanto Liz consultava seu relgio de pulso e dizia a Daphne: 
         -Agora vamos deix-la descansar, senhorita Fields. Sua amiga poder voltar a v-la dentro de um momento. Quer que lhe apliquem algum calmante? Daphne negou 
com um gesto e pareceu aliviada em poder voltar a fechar os olhos. Antes que elas abandonassem o quarto, j tinha dormido. Quando j tinham percorrida a metade do 
corredor, caminhando uma ao lado da outra, Liz se voltou para Barbara.
         -H algo que ns devssemos saber, senhorita Jarvis? -Seus olhos examinaram inquisitivamente os da secretria. -s vezes, certa informao que pode parecer 
muito pessoal contribui favoravelmente  ajuda que podemos dar ao paciente.
         Esteve tentada de acrescentar: "ajuda que pode redundar em que o paciente escolha entre viver ou morrer", mas no o fez.
         -Ontem  noite ela teve terrveis pesadelos.
         O tom de sua voz continha milhares de perguntas, e Barbara Jarvis assentiu, mas imediatamente levantou as barreiras de resguardo para Daphne.
         -Voc j sabe que  viva.
         Isto era tudo que parecia disposta a dizer, e Liz no insistiu.
         -Compreendo.
         Sem mais, separou-se de Barbara e se dirigiu a seu escritrio, enquanto a secretria voltava para sof estofado de vinil, depois de servir-se de outra xcara 
de caf.
         Sentou-se exalando um suspiro e se sentiu absolutamente exausta. Por que tinha lhe feito prometer que no diria nada ao Andrew? Ele tinha direito de saber 
que sua me corria perigo de morte. E se ela morrese, ento o que faria? Daphne tinha tomado medidas necessrias para que nada lhe faltasse, partindo dos recursos 
que os livros escritos nos ltimos anos tinham lhe proporcionado; mas ele necessitava muito mais que isto.
         Necessitava de Daphne e de ningum mais. E se sua me falecesse...
         Barbara estremeceu, e seu olhar se perdeu entre a neve que comeava a cair de novo do lado de fora, sentindo-se to desolada como o panorama invernal que 
se oferecia a sua vista.
         Daphne nada lhe havia dito de sua vida durante o primeiro ano que esteve trabalhando para ela.
         Absolutamente nada.
         Era uma autora de sucesso, aparentemente solteira, que trabalhava com mais firmeza que qualquer pessoa que Barbara conhecera, e sem vida privada, embora 
isto no lhe houvesse chamado a ateno.
         Como poderia ter tempo para isto, publicando dois volumosos livros por ano?
         Mas na vspera de Natal, dia em que Barbara ficou trabalhando at tarde, encontrou-a em seu escritrio chorando.
         Foi ento que Daphne lhe contou o que ocorreu a Jeff..., a Aimee..., e sobre Andrew...
         Andrew, o filho que concebeu na noite do incndio fatal..., o menino que nasceu nove meses depois, quando ela j estava sozinha no mundo, sem famlia, sem 
marido, sem amigos, j que no queria ver ningum que a recordasse de Jeff; o menino cujo nascimento tinha sido to diferente de Aimee.
         Quando Aimee nasceu, Jeff lhe segurava a mo, e sua filha rompeu em um pranto terminante, enquanto os pais a contemplavam com lgrimas de alegria e risadas 
de triunfo.
         Andrew demorou trinta e oito horas para nascer - apresentava-se de ndegas-, com o cordo umbilical ameaando lhe afogar, at que, por fim, ele e a me 
foram piedosamente liberados do sofrimento com uma cesrea.
         O mdico informou que o menino tinha proferido um surdo gemido ao sair do ventre da me, e todo ele ficou azulado enquanto a equipe mdica trabalhava com 
afinco para salvar sua vida, e a de sua me.
         Passados os efeitos da anestesia, Daphne se sentiu muito enjoada para querer ver seu filho ou segur-lo nos braos.
         Mas Barbara ainda recordava a expresso dos olhos de sua amiga quando lhe falou da primeira vez que o teve em seus braos.
         Uma enfermeira o colocou neles, e de repente tudo deixou de doer, nada mais lhe importou no mundo, salvo aquela criatura, que ficou olhando-a fixamente 
e cujos traos eram idnticos aos de Jeffrey.
         Ps-lhe o nome Andrew Jeffrey Fields.
         Quis pr s o nome de seu pai, mas no teve coragem de faz-lo.
         Isto teria lhe trazido lembranas muito dolorosas cada vez que o chamasse "Jeff", por isto ps Andrew.
         Era o nome que ambos tinham escolhido quando estava grvida de Aimee se por acaso tivessem um menino.
         Tambm contou para Barbara a alegria e a emoo que tinha sentido quando descobriu, seis semanas depois do incndio, que estava grvida.
         Aquilo foi o que a estimulou a seguir vivendo durante aqueles longos meses de pesadelo, a nica coisa que afastou seu desejo de morrer.
         E tinha sobrevivido, igual a Andrew, apesar do traumtico parto.
         Era um menino lindo, de bochechas rosadas e aspecto feliz.
         Tinha os olhos azuis como o oceano, mas continuava parecendo-se extraordinariamente com seu pai.
         Daphne tinha alugado um pequeno apartamento para os dois, e encheu o quarto do menino com retratos de Jeffrey, para que, um dia, o pequeno soubesse como 
era seu pai.
         E em uma moldura de prata colocou uma fotografia de sua irmzinha.
         S quando o menino completou trs meses, Daphne comeou a suspeitar que Andrew no fosse totalmente normal. Era a criana mais tranqila e quieta que j 
tinha visto; era totalmente saudvel, mas um dia ela deixou cair uma pilha de pratos no cho, quando o menino se encontrava tranqilamente deitado em seu cesto na 
cozinha, e o pequeno nem sequer se sobressaltou.
         Ento Daphne bateu as mos sonoramente junto ao ouvido de Andrew, e este se limitou a sorrir.
         Um calafrio de terror lhe percorreu todo o corpo.
         No se atreveu a contar ao mdico, mas na visita seguinte lhe fez algumas perguntas indiretas, e o profissional logo intuiu o que ela suspeitava.
         De vez em quando, o menino proferia estranhos sons, mas no poderiam determinar at mais adiante se tambm era mudo.
         Foi impossvel estabelecer se o defeito era uma conseqncia dos traumticos choques que ela tinha sofrido pouco depois de t-lo concebido, ou da medicao 
indicada no hospital para o tratamento das queimaduras e feridas que o incndio tinha produzido.
         Tinha permanecido internada no hospital mais de um ms, submetida a uma intensa medicao, sem que ningum suspeitasse que estivesse grvida.
         Mas fosse qual fosse a origem da perda da audio, podia afirmar-se que a surdez do menino era permanente e total.
         Daphne dedicou todo seu amor para ele, com um zelo protetor e uma determinao decidida.
         Durante o dia, passava todos os momentos de viglia com ele, pondo o despertador para as cinco e meia da madrugada, a fim de estar preparada para qualquer 
emergncia que pudesse apresentar-se e para assisti-lo nos momentos difceis.
         E estes aconteciam com freqncia.
         No princpio, ela estava obcecada pelos riscos potenciais que constantemente o espreitavam.
         Com o tempo, acostumou-se a adiantar-se aos perigos que corria ao no poder ouvir os sinais de advertncia, como a buzina de um carro, o grunhido de um 
co ou o chiado do leo fervendo na frigideira.
         Portanto, achava-se permanentemente sob uma intensa tenso.
         Entretanto, havia momentos que lhe proporcionava uma alegria indescritvel, preciosos momentos em que lgrimas de alvio e ternura corriam por sua face 
ao compartilhar sua vida com o menino.
         Este era a criana mais risonha e feliz que possa imaginar-se; mas uma e outra vez ela devia enfrentar o fato de que sua vida nunca seria normal.
         Por fim, tudo deixou de ter interesse em sua existncia com exceo das atividades relacionadas com Andrew.
         No visitava os amigos, nunca ia ao cinema, pois todos os minutos do dia eram dedicados  seu filho, temendo deix-lo com outra pessoa que no compreendesse 
to bem como ela os perigos e frustraes que o rodeavam.
         Ela carregava sobre seus prprios ombros todos os contratempos que se abatiam sobre o menino, e assim todas as noites se deixava cair na cama exausta, esgotada 
pelo tremendo esforo que fazia.
         Havia vezes em que ficava aflita por suas prprias frustraes em seu trato com o menino surdo, em que o impulso de lhe gritar por algo que ele no podia 
fazer ou ouvir a obrigava a apertar os dentes e fechar os punhos para no lhe dar uma bofetada.
         Na verdade, no era ao Andrew a quem queria castigar, mas ao cruel destino que tinha deixado surdo a seu adorado filho.
         Penava sob um pesado e cansativo sentimento de culpa, secretamente convencida de que era ela a responsvel pelo ocorrido, por no ter sabido como evitar.
         No tinha sabido evitar que Jeff e Aimee morressem abrasados pelo fogo, e agora tampouco nada podia fazer para mudar aquela brutal e definitiva realidade 
para Andrew.
         Faltava-lhe o poder para modific-la a favor de seu filho.
         Lia todo livro que podia que tratasse sobre os problemas de crianas que nasciam surdas, e o levava a quantos especialistas havia em Nova Iorque, mas estes 
nada podiam fazer nem por Andrew nem por Daphne.
         Ela enfrentava aquela realidade quase com fria, como a um inimigo que tinha de combater.
         Tinha perdido muito, e agora Andrew tambm sofria as conseqncias.
         A injustia do fato acendia uma raiva surda em seu interior, e por vrias noites tinha pesadelos relacionados com o incndio e despertava gritando.
         Os especialistas que tinha consultado lhe aconselhavam que, com o tempo, seria conveniente colocar Andrew em uma escola especial, o que resultaria em benefcio 
para o menino, j que seria impossvel para ele relacionar-se com crianas normais.
         No se cansavam de assinalar que, apesar dos esforos que ela fizesse, se depararia com enormes obstculos que no lhe seria possvel superar.
         Mesmo que Daphne fosse a pessoa que melhor o conhecia, inclusive ela tinha dificuldades para comunicar-se com ele, e os especialistas lhe advertiam que, 
com o tempo, causaria uma espcie de ressentimento contra o pequeno como resultado de seu fracasso.
         Afinal, ela no era uma profissional, insistiam em reforar, e o menino precisava desenvolver habilidades que ela no estava em condies de poder lhe ensinar.
         Alm disso, o constante isolamento em que vivia, em relao com outros meninos, gerava nele desconfiana e hostilidade, que se manifestavam nas estranhas 
ocasies em que podia conviver com eles.
         Os meninos normais no queriam jogar com ele porque o achavam diferente, e sua crueldade causava a Daphne tanto dor que deixou de lev-los aos campos de 
jogos do parque, Mas, contudo, resistia  idia de que estivesse com meninos como ele, por isso se fechava com Andrew em seu pequeno apartamento, como dois prisioneiros, 
enquanto os especialistas continuavam insistindo em lhe aconselhar que deveria lev-lo para uma escola especial.
         -Para uma instituio? -exclamou diante do especialista de mais confiana.
         -Jamais farei uma coisa semelhante! Jamais! 
         -O que voc est lhe fazendo agora  muito pior - respondeu o mdico com amabilidade. -No ser para sempre, Daphne. Mas tem que aceitar os fatos. Voc 
no pode lhe ensinar em casa o que ele precisa aprender. Precisa adquirir habilidades totalmente diferentes das que voc pode lhe ensinar.
         -Ento eu as aprenderei - gritou-lhe, porque no podia gritar para a surdez de Andrew, ou para a vida, ou ao destino, ou aos deuses que tinham sido to 
cruis para com ela.
         -Maldito seja! Aprenderei, e estarei noite e dia ao seu lado para ajud-lo.
         Mas isto ela j tinha feito, sem nenhum resultado.
         Andrew vivia em um isolamento total.
         -E quando voc morrer? -perguntou-lhe o pediatra com toda crueldade. -No tem direito de lhe fazer uma coisa semelhante. Desta maneira, estar dependendo 
absolutamente de voc. Conceda-lhe o direito a viver sua prpria vida, pelo amor de Deus. Em uma escola aprender a ser independente, a conduzir-se no mundo normal, 
quando chegar o momento.
         -E quando ocorrer isto? Quando tiver vinte e cinco anos? Trinta? Quando estiver completamente habituado a viver  margem do mundo? Vi essas pessoas l 
em cima, falei com elas por meio de um intrprete. Nem sequer confiam nas "pessoas que ouvem", como eles as chamam. So todos uns anormais, por Deus! Alguns tm 
quarenta anos e nunca viveram em nenhum outro lugar alm de uma instituio. Eu no o condenarei a este inferno.
         O menino os observava falar, fascinado pelos gestos e expresses de seus rostos, mas no tinha ouvido as iradas palavras que sua me e o mdico trocaram.
         Durante trs anos ela tinha lutado uma batalha pessoal, com a conseqente deteriorao lenta, mas incessante, de Andrew.
         Era evidente que Andrew no poderia falar, e quando completou trs anos, os renovados esforos de Daphne para introduz-lo no mundo das crianas normais 
foram desastrosos.
         Todos fugiam dele, como se de algum jeito soubessem que era tremendamente diferente.
         Um dia o viu sentado na caixa de areia, observando os outros meninos com lgrimas correndo por seu rosto, para depois olhar para sua me como lhe perguntando: 
"O que tem de errado em mim?".
         Ela correu at ele e o abraou, balanando-o brandamente e o acompanhando em seu pranto, sentindo-se isolada e assustada.
         Daphne compreendeu que tinha fracassado.
         Um ms mais tarde, para Daphne a guerra tinha terminado.
         Com pesar, comeou a percorrer as escolas que com tanto desespero detestava, tendo a sensao de que em qualquer momento arrebatariam Andrew de suas mos.
         No poderia enfrentar uma nova perda em sua vida; entretanto, sabia que, em caso de no faz-lo, isto significaria a destruio do menino.
         Liber-lo era o ltimo dom que devia lhe conceder.
         Por fim encontrou uma escola que era a nica em que aceitaria deix-lo.
         Estava situada na pequena cidade de New Hampshire, rodeada de abetos, com um lago e um riacho que serpenteava por seus campos, e junto ao qual tinha visto 
meninos pescando.
         O que mais gostava do lugar era que no havia "estudantes" maiores de vinte anos.
         No os chamavam de "pacientes", "residentes" nem "internados", como tinha ouvido em outras instituies.
         Chamavam de "meninos" e "estudantes", como s pessoas "normais".
         A maioria voltava para suas famlias pouco antes de completar vinte anos, a fim de que pudessem concorrer  universidade quando o momento chegasse, ou trabalhar, 
ou para conviver com seus familiares, que durante tanto tempo lhes tinham dado seu apoio e os tinham esperado.
         Enquanto Daphne percorria o lugar em companhia da diretora, uma solene mulher de cabelos brancos, ela experimentou de novo o peso da perda, ao saber que 
Andrew poderia passar ali at quinze anos de sua vida, ou quando menos oito ou dez.
         Aquele era um sacrifcio que lhe rasgava a alma, pois se tratava de seu nico filho, o nico objeto de seu amor, o nico ser humano vivo que era unido a 
ela por laos de sangue.
         E agora devia separar-se dele.
         Os olhos voltaram a encher-se o de lgrimas s de pensar, e sentiu a mesma pontada de dor que tinha suportado durante os meses que esteve lutando at tomar 
aquela deciso.
         Enquanto as lgrimas escorriam por seu rosto, sentiu a mo da diretora sobre seu brao, e de repente se encontrou com a cabea apoiada nos ombros daquela 
mulher, que a acolheu em um consolador e quente abrao, enquanto ela cedia ao pranto provocado por quatro anos de pesar, at desde antes que Andrew tivesse nascido.
         -Voc faz algo extraordinrio por seu filho, senhora Fields, e eu sei como isto lhe  penoso.
         Quando por fim os soluos acalmaram, ela perguntou-lhe:
         -Voc encontra-se empregada?
         Daphne ficou chocada com a pergunta. Acaso temiam que no pudesse pagar a matrcula e a mensalidade? Tinha guardado o dinheiro que ela e Jeff possuam, 
e tinha levado uma vida tremendamente simples.
         Nem sequer tinha comprado um vestido novo depois do incndio, e pretendia destinar a soma total do seguro de vida de Jeff ao pagamento da escola, durante 
o tempo que fosse necessrio. Claro que, no tendo o Andrew com ela, poderia voltar a trabalhar.
         No o tinha feito aps a morte de Jeff.
         Primeiro teve que recuperar-se, e logo descobriu que estava grvida.
         De qualquer modo, no lhe tinha sido possvel trabalhar naqueles momentos, pois a morte de seus entes queridos a tinha transtornado.
         Por sua parte, a Colhins lhe tinha dado uma generosa indenizao quando aceitaram sua demisso.
         -No, no estou empregada, senhora Curtis, mas meu marido me deixou o suficiente...
         -No me referia a isto, - a diretora lhe sorriu com profunda ternura.
         -Perguntava-me se voc disporia de tempo para ficar aqui por uma curta temporada. Alguns pais o fazem. Durante os primeiros meses, at que os meninos se 
adaptam. E como Andrew  to pequeno... 
         Havia outros cinco meninos de sua idade, o que tinha sido um dos fatores que contriburam para tomar a deciso.
         -H uma pousada encantadora na cidade, gerenciada por um casal austraco, e sempre poder encontrar alguma casinha para alugar. Conviria que pensasse nisto.
         Daphne se sentiu como se lhe tivessem anunciado a suspenso temporria da sentena, e o rosto se iluminou com um radiante sorriso, 
         -Poderia v-lo todos os dias? 
         As lgrimas alagaram seus olhos de novo, 
         -No comeo, sim - respondeu-lhe com tom afetuoso a senhora Curtis.
         -Com o tempo, ser prefervel e conveniente para ambos que v cortando as visitas. Alm disso, deve ter em conta que ele estar terrivelmente ocupado com 
seus amiguinhos - acrescentou com um clido sorriso.
         A voz de Daphne no pde dissimular uma entonao que traduzia sua infelicidade:
         - Acredita que ele se esquecer de mim? Pararam seu passeio, e a diretora a olhou fixamente.
         -Senhora Fields, quero que compreenda que no vai perder Andrew. O que voc fez foi lhe proporcionar tudo que ele precisa para poder levar uma vida til 
quando se reintegrar  sociedade.
         Ao fim de um ms, ela e Andrew empreendiam a viagem, e Daphne dirigia to devagar quanto podia enquanto percorriam os campos da Nova Inglaterra.
         Aquelas eram as ltimas horas de sua antiga vida juntos, e ela desejava prolong-las tanto quanto pudesse.
         Sabia que no estava preparada para separar-se dele.
         E de certo modo a beleza da paisagem ainda tornava mais difcil a situao.
         As folhas mudavam de cor, e as colinas explodiam em vermelhos intensos e amarelos brilhantes; viam-se chcaras e celeiros, cavalos pastando nos prados e, 
de vez em quando, uma igreja pequenina.
         De repente teve conscincia do maravilhoso mundo que se abria alm de seu apartamento e que ela desejava compartilhar com seu filho.
         Ao longo da estrada apareciam vacas e infinidade de coisas que o menino nunca tinha visto, e agora as assinalava com o dedo, enquanto proferia os sons familiares 
como que querendo formular perguntas a sua me.
         Mas como ela poderia lhe explicar aquele mundo cheio de gente, de avies, de exticas cidades, como Londres, So Francisco ou Paris? Ento se deu conta 
das enormes carncias do menino e do pouco que ela tinha conseguido lhe ensinar.
         De novo a invadiu uma sensao de fracasso enquanto rodavam nas colinas vermelhas da Nova Inglaterra.
         Todos os tesouros e brinquedos favoritos de Andrew se encontravam no carro: seu ursinho de pelcia e um elefante de pano que ele adorava; os livros ilustrados 
que tinham olhado juntos, mas que ningum podia ler para ele.
         De repente, Daphne se encontrou pensando nestas coisas, e percebeu a dimenso do que no tinha podido lhe ensinar em comparao com os pequenos lucros.
         Perguntou-se o que teria feito Jeff em seu lugar, se tivesse a oportunidade.
         Talvez ele tivesse mais habilidade, ou mais pacincia, mas do que estava certa era que no poderia sentir mais amor que o que ela sentia por aquela criana.
         Amava-o com toda sua alma e, se tivesse podido lhe dar seus ouvidos, o teria feito.
         Uma hora antes de chegar  escola pararam para comer um hambrguer em um albergue, e ento pareceu que se animava um pouco.
         Andrew parecia emocionado pela viagem, e observava tudo que via seu redor com prazer.
         Ela teria desejado poder lhe falar a respeito da escola, mas no havia maneira de faz-lo.
         No podia lhe contar como era nem o que ela sentia, nem por que iria deix-lo ali nem quanto o amava.
         Durante os poucos anos do menino, ela s tinha atendido as suas necessidades fsicas ou, no mximo, tinha-lhe mostrado os caminhes dos bombeiros correndo 
em silencio pelas ruas.
         Jamais tinha sido capaz de compartilhar seus pensamentos ou sentimentos com ele.
         Compreendia que seu filho tinha que saber que o amava.
         At agora, estivera com ele em todos os momentos, mas o que pensaria o menino quando o deixasse na escola? Como poderia explicar-lhe? 
         Saber que isto era impossvel s contribua para aumentar sua angstia.
         A senhora Curtis, a diretora da escola, tinha alugado uma casinha na cidade em seu nome, e Daphne pretendia ficar ali at o Natal, a fim de poder visitar 
seu filho diariamente.
         Entretanto, sua relao seria diferente da que tinham mantido at ento, quando no se separavam um do outro durante as vinte e quatro horas do dia.
         Sua vida jamais voltaria a ser a mesma, e Daphne sabia.
         A situao mais penosa que tinha tido que confrontar em sua vida se apresentava agora ao ter que separar-se de seu filho, a quem desejava guardar mais que 
a sua prpria vida, embora soubesse que isto era impossvel.
         Chegaram  escola pouco depois do anoitecer, e Andrew olhou em volta com surpresa, como se no compreendesse o que estava fazendo ali.
         Olhou para Daphne, confuso, e ela sorriu, assentindo com a cabea, enquanto o pequeno olhava com apreenso aos outros meninos.
         Porm, aqueles meninos eram diferentes dos que tinha conhecido no Central Park, em New York, e foi como se instintivamente pressentisse que eram como ele.
         Observou-os enquanto jogavam, assim como os gestos que faziam, e uma e outra vez os meninos iam para seu lado.
         Foi a primeira vez que meninos de sua idade o acolhiam com carinho, e quando uma garotinha aproximou-se do Andrew, estendeu-lhe a mo e lhe deu um beijo, 
Daphne teve que voltar-se de costas para que seu filho no visse as lgrimas que corriam por sua face.
         Andrew, por sua parte se limitou a olhar para menina com surpresa.
         Foi a senhora Curtis quem o estimulou para unir-se aos outros, segurando sua mo e o levando ao redor da sala.
         Daphne, ao o observar, sentiu que tinha tomado a deciso correta e que um novo mundo se abria para Andrew.
         Enquanto isto, algo extraordinrio aconteceu; o pequeno comeou a aproximar-se daqueles meninos que eram como ele. Sorriu e riu e, por um instante, at 
se esqueceu de sua me.
         Comeou a fixar-se nos gestos que faziam com as mos, e rindo imitou a um deles; em seguida, proferindo um som estranho, aproximou-se da menina que momentos 
antes lhe demonstrara carinho e a beijou.
         Mais tarde, Daphne foi at ele para lhe dizer que estava indo, e o pequeno no s no chorou, mas tambm nem sequer se mostrou assustado ou infeliz.
         Estava se divertindo muito com seus amiguinhos.
         Reteve-o entre seus braos um instante, com um corajoso sorriso nos lbios, e logo se afastou correndo, temendo que as lgrimas brotassem de novo em seus 
olhos.
         O pequeno no pde ver a expresso alterada do rosto de sua me quando esta pegou a estrada para a cidade.
         -Cuida de meu filho... - murmurou para um Deus que desde menina tinha aprendido a temer.
         E desta vez fez votos para que Ele a escutasse.
         Ao final de quinze dias, Andrew tinha se adaptado por completo a sua nova vida na escola, e Daphne tinha a impresso de sempre ter vivido naquela acolhedora 
cidade de Nova Inglaterra.
         A casinha que a senhora Curtis tinha encontrado para ela era agradavelmente quente no outono frio; tinha uma cozinha tpica das casas de campo e um forno 
de tijolos para assar po, uma pequena sala de estar mobiliada com um magnfico sof e cmodas poltronas diante de uma lareira, adornada com reluzentes vasos de 
cobre com flores, e no quarto havia uma antiga cama com dossel e uma colcha magnfica.
         Era neste quarto que Daphne passava a maior parte do tempo, lendo e escrevendo seu dirio.
         Tinha comeado a escrev-lo quando soube que estava grvida; anotava nele aspectos de sua vida, reflexes e sentimentos, breves ensaios a respeito de sua 
concepo da vida.
         Sempre pensava que, quando fosse mais velha, compartilharia seus escritos com Andrew.
         No momento, proporcionava-lhe a possibilidade de derramar nele o que levava na alma, durante as longas e solitrias noites de New Hampshire.
         Os dias ali eram resplandecentes e ensolarados, e ela dava interminveis passeios pelos caminhos ladeados de rvores ou seguindo o curso de algum riacho, 
pensando em Andrew, e contemplando os picos nevados das montanhas.
         Aquele era um mundo muito diferente de New York.
         Havia celeiros com cavalos, vacas nos prados, colinas e pradarias por onde podia caminhar sem encontrar uma s alma viva, e freqentemente o fazia.
         Seu nico desejava era poder compartilhar tudo com Andrew.
         Durante anos, o menino havia sido sua nica companhia.
         Quase todos os dias ela ia visit-lo na escola.
         Isto significava para ela fazer um tremendo esforo de adaptao.
         Durante quatro anos o menino tinha sido o centro de sua vida, e agora, de repente, no estava ao seu lado; algumas vezes a sensao de vazio era insuportvel.
         Cada vez mais a lembrana de Jeff e Aimee invadia sua mente.
         A menina j teria completado oito anos, e s vezes, quando Daphne via alguma menina dessa idade, tinha que voltar o rosto, com os olhos cheios de lgrimas, 
e conter o desejo de estreit-la entre seus braos.
         No deixava de dizer-se, no entanto, que no tinha perdido Andrew da mesma maneira.
         Ele estava vivo, era feliz, contente, e ela fez por ele o que era mais conveniente ao seu estado.
         De vez em quando, ia  escola, sentava-se em um banco do ptio, junto  senhora Curtis, e o via jogar e como aprendia a falar por gestos.
         Ela tambm ela estava aprendendo a linguagem dos sinais, a fim de se comunicar melhor com ele.
         -Sei como isto  difcil para voc, senhora Fields. Para os meninos  mais fcil adaptar-se que aos pais. Para os pequenos  uma espcie de liberao. Aqui, 
por fim, esto longe de um mundo que no os aceitava.
         -Mas este mundo o aceitar algum dia? 
         -Sim - respondeu com absoluta convico a diretora. -Sem dvida. Ele sempre ser diferente, mas estar provido dos meios adequados; no haver quase nenhum 
obstculo que no possa superar com o tempo.
         Sorriu-lhe amavelmente.
         -Um dia ele lhe agradecer.
         Daphne sentiu desejos de lhe perguntar o que ela faria agora. O que faria sem seu filho? Parecia que a mulher tinha lido seus pensamentos, porque perguntou: 
         -Voc pensou o que far quando retornar para New York? 
         Para uma mulher sozinha, como Daphne, a ausncia de Andrew provocaria um enorme vazio, e ela j sabia que fazia mais de cinco anos, desde que ficara grvida, 
que Daphne no trabalhava.
         A maioria dos pais tinha um ao outro, ou tinham outros filhos, ocupaes, atividades com o que preencher sua vida na ausncia destes meninos.
         Mas era evidente que Daphne no tinha nada disto.
         -Voltar a trabalhar agora? 
         -No sei...
         Daphne deixou a frase flutuando enquanto fixava a vista nas longnquas colinas.
         Como tudo seria vazio sem ele! Quase parecia mais doloroso agora do que quando o tinha deixado ali na primeira vez.
         Por fim, a realidade ia se mostrando com toda sua crueldade.
         Sua vida nunca voltaria a ser a mesma de antes..., nunca...
         -No sei - repetiu, tirando os olhos das colinas para pous-los na senhora Curtis. Passou-se tanto tempo que duvido que queiram me aceitar de novo.
         Sorriu, e o passar do tempo se manifestou em seus olhos.
         Os anos passados tinham lhe dado lies dolorosas.
         -No pensou em ensinar a outras pessoas o que aprendeu com Andrew? 
         -De que forma? -perguntou Daphne com surpresa. Ela no tivera esta idia em nenhum momento.
         -No existem muitos bons livros sobre este tema. Voc mencionou que estudava jornalismo e que colaborava na Collins. Por que no escreve um livro ou uma 
srie de artigos? Pense como teria ajudado a leitura de algo assim quando se deu conta pela primeira vez do que ocorria ao Andrew.
         Daphne recordou a terrvel sensao de solido que sentiu,  a impresso de que ningum no mundo compreendia seu problema.
         - uma idia - disse, assentindo com a cabea, enquanto observava como Andrew abraava uma menina e logo saa correndo atrs de uma enorme bola vermelha.
         -Possivelmente seja a pessoa ideal para lev-la a cabo.
         Entretanto, a nica coisa que sentia desejos de escrever era seu dirio, noite aps noite.
         Agora tinha muito tempo livre, e quando chegava  noite no estava exausta, como lhe tinha ocorrido durante anos desde que tivera o Andrew.
         Este era como qualquer outro menino de pouca idade, e estava constantemente em movimento, mas requeria mais ateno que a maioria dos meninos, j que tinha 
que vigiar que no corresse algum risco pelo fato de no ouvir; alm disto, sempre tinha que o ajudar a vencer a frustrao que experimentava por no poder se comunicar 
com outros.
         Quando fechou o caderno de seu dirio nesta noite, deitou-se, e na escurido meditou sobre a sugesto da senhora Curtis.
         Era uma boa idia, mas ela no queria escrever a respeito de Andrew.
         Tinha a sensao de que seria como uma violao da intimidade do menino como pessoa, e ela mesma no estava preparada para expor publicamente seus prprios 
temores e pesares.
         Tudo era muito recente, e as feridas muito vivas, como as provocadas pela morte de Jeff e Aimee.
         Tampouco nunca havia escrito sobre estes fatos.
         Entretanto, sentia que estava tudo acumulado em seu interior, junto com outros sentimentos que se encontravam adormecidos faziam anos, como quando ainda 
era jovem e mulher.
         Durante quatro anos, s tinha estado em contato com seu filho.
         No tinha havido nenhum homem em sua vida, e muito poucos amigos.
         No tinha tempo para isto.        
         No desejava compaixo.
         Alm disto, sair com outro homem teria sido como trair Jeffrey e tudo o que tinha existido entre eles.
         De modo que tinha jogado todos seus sentimentos dentro de um poo, fechado todas as comportas e cuidara de Andrew ano aps ano.
         E agora no restava nenhuma desculpa.
         O menino viveria na escola, e ela estaria sozinha em seu apartamento.
         A perspectiva gerava nela o desejo de no retornar nunca mais a New York.
         Queria se esconder na casa de New Hampshire e no sair mais.
         Pelas manhs dava longos passeios, e de vez em quando parava para tomar o caf da manh na pousada Austrian Inn.
         O casal que a gerenciava parecia irmos; ambos eram gorduchos e amveis, e a esposa sempre perguntava por seu filho.
         Pela senhora Curtis sabiam dos motivos de Daphne se encontrar ali.
         Como em toda cidade pequena, as pessoas logo percebiam os forasteiros, conheciam as causas que os tinham levado  cidade, quando tinham chegado e quando 
partiriam.
         No era comum que aparecessem pessoas como Daphne; outros pais s iam  cidade para visitar seus filhos.
         Muitos se hospedavam na pousada, e alguns faziam como Daphne, geralmente no vero.
         Alugavam uma cabana ou uma casinha, onde se instalavam com seus outros filhos, e estavam acostumados a fazer uma festa da ocasio.
         Entretanto, a senhora Obermeier pressentia que Daphne era diferente.
         Havia algo mais calmo, mais concentrado na atitude daquela mulher mida, delicada, quase uma menina.
         S quando se observavam seus olhos, percebia-se a maturidade que at superava os seus vinte e oito anos, e se tinha a certeza de que a vida nem sempre a 
havia tratado com doura.
         -Por que acredita que est to sozinha? - a senhora Obermeier perguntou um dia a seu marido enquanto enchia uma cesta de rosquinhas doces e colocava uma 
bandeja de pezinhos no forno.
         As pessoas ficavam com gua na boca s de ver os bolos e tortas que ela preparava.
         - provvel que esteja divorciada. Um filho assim pode chegar a destruir um casamento, sabe? Possivelmente dava muita ateno ao menino, e o marido no 
soube aceitar.
         -Parece to sozinha! 
         O marido sorriu. Sua esposa sempre se preocupava com todo mundo.
         -O mais provvel  que simplesmente sinta falta do menino. A senhora Curtis disse que  muito pequeno, e que  seu nico filho. Voc tambm ficou assim 
quando Gretchen foi para a universidade.
         -Isto foi muito diferente.
         Hilda Obermeier olhou-o, convencida de que neste caso havia algo que seu marido no comprendia.
         -Reparou em seus olhos? 
         -Sim - ele admitiu, esboando um sorriso, enquanto o rubor tingia suas bochechas. - So muito bonitos.
         E dando uma palmada no traseiro de sua esposa, saiu em busca de lenha.
         Naquele fim de semana tinham muitos hspedes.
         Em pleno inverno sempre apareciam os que praticavam esqui.
         E no outono o lugar se enchia de gente de Boston e New York, que ia para contemplar o espetculo da mudana de cor das folhas das rvores.
         Agora, porm, as folhas de cor laranja e marrom brilhante j tinham cado quase todas.
         Estavam em novembro, e no Dia de Ao de Graas, Daphne foi  escola e saboreou peru com Andrew e outros meninos.
         Depois praticaram alguns jogos, e ela ficou espantada quando seu filho se zangou com ela e lhe disse por gestos: "No sabe fazer nada, mame!".
         A fria que brilhou em seus olhos lhe causou um calafrio, e se sentiu to afastada de seu filho como nunca tinha estado.
         De repente, sentiu ressentimento pela escola, por haver lhe tirado seu filho.
         Sem dar-se conta, concentrou sua ira no pequeno, a quem repreendeu por gestos de aborrecimento.
         A senhora Curtis, percebendo o incidente, falou com ela mais tarde para lhe explicar que os sentimentos de ambos eram normais.
         As coisas mudavam agora muito rapidamente para Andrew e, em conseqncia, tambm para Daphne.
         Ela no podia expressar-se na linguagem dos gestos com tanta rapidez que seu filho; cometia enganos e se sentia envergonhada e estpida.
         Entretanto, a senhora Curtis lhe assegurou que com o tempo melhoraria sua relao, e ento compreenderia que havia valido a pena fazer o sacrifcio.
         Na hora do jantar, ela e Andrew j estavam bem; aproximaram-se da mesa segurando-se as mos e, quando o menino disse sua orao por gestos, Daphne se sentiu 
to orgulhosa que lhe pareceu que ia irromper em choro.
         O pequeno, por sua parte, dirigiu-lhe um clido sorriso.
         Depois de jantar, Andrew jogou com seus companheiros, mas quando a fadiga o venceu aconchegou-se no colo de sua me, como estava acostumado a fazer no passado; 
um sorriso de felicidade iluminou o rosto do Daphne ao v-lo dormido em seus braos.
         O menino roncava surdamente em seu sono, e Daphne o abraou com fora, desejando que o tempo retrocedesse.
         Levou-o para seu quarto, ps-lhe o pijama e o agasalhou meigamente em sua cama, sob o olhar da funcionria.
         Logo depois de olhar pela ltima vez o menino loiro adormecido, saiu em silncio do quarto e desceu ao andar inferior, onde se encontravam outros pais. 
Mas nesta noite ela no desejava sua companhia.
         Depois de deitar Andrew, sentiu o urgente desejo de retornar a sua casa.
         Acostumou-se  solido, a dar rdea solta a seus pensamentos e a lanar no dirio tudo que levava na alma.
         Conduziu o carro por um atalho que conhecia at que, de repente, soltou uma exclamao de surpresa, ao ouvir um rudo seco enquanto o veculo afundava a 
parte dianteira e parava. Tinha quebrado um eixo.
         Ela, embora um pouco alterada, no tinha sofrido nenhum dano, e imediatamente se deu conta de como tivera sorte do acidente no ter acontecido na auto-estrada.
         Claro que a sorte era duvidosa.
         Encontrava-se sozinha em um caminho deserto a mais de dez quilmetros de sua casa.
         A nica claridade era a da lua, mas fazia um frio persistente e, apesar de ver o caminho claramente, o trajeto a p at sua casa seria penoso por causa 
do vento cortante.
         Subiu a gola da jaqueta, lamentando no ter apanhado as luvas e no estar com sapatos mais cmodos; como se tratava do Dia de Ao de Graas, havia calado 
salto alto e um traje mais fino.
         Seus olhos lacrimejavam pela ao do frio, as faces se avermelharam e os dedos das mos ficaram rapidamente gelados, apesar de lev-las nos bolsos; ento, 
afundou o rosto na gola da jaqueta e seguiu caminhando, j que no podia fazer outra coisa.
         Estava caminhando a quase uma hora quando vislumbrou umas luzes que avanavam para ela, e de repente foi presa de pnico.
         At naquela tranqila cidade algo desagradvel podia acontecer.
         Ela era uma mulher s em um escuro caminho rural, e se algo lhe acontecesse, ningum ouviria seus gritos nem poderia ir ajud-la.
         Como um coelho assustado, deteve-se no meio do caminho diante das luzes que se aproximavam.
         Logo, instintivamente, procurou refgio atrs de uma rvore, com o corao pulsando velozmente e com tanta fora que at podia ouvir suas batidas.
         Perguntou-se se o motorista teria percebido de sua fuga.
         O veculo ainda se encontrava bastante longe quando ela saiu do caminho.
         Ao aproximar-se do lugar onde ela se achava escondida, viu que se tratava de um caminho.
         Por um momento pareceu que seguia seu caminho, mas de repente parou.
         Daphne conteve o flego, aterrada, esperando.
         A porta do caminho se abriu e um homem desceu.
         -Ei! H algum a? Olhou para os lados do caminho por uns instantes.
         Ela s pde perceber que era muito alto.
         De repente, sentiu-se ridcula por esconder-se daquela maneira.
         Como lhe doam os ps e as pernas de tanto frio, teve o impulso de sair de seu esconderijo e lhe pedir que a levasse, mas como poderia lhe explicar que 
estava se escondendo? Tivera uma reao estpida, e agora devia agentar as conseqncias.
         O homem deu uma volta em torno do veculo, encolheu os ombros, voltou a subir na cabine e prosseguiu a marcha.
         Quando o caminho se perdeu na distncia, Daphne saiu de trs da rvore com um sorriso estpido nos lbios e falando em voz alta consigo mesma.
         -Que tonta voc ! Agora voc congelar a alma at chegar em casa. Merece bem o castigo.
         Logo comeou a cantarolar uma cano, divertida por sua prpria estupidez, dizendo-se que estivera muito tempo vivendo em uma grande cidade.
         No havia motivo algum para sentir-se alarmada nem ameaada, mas j sentira aquela sensao no passado, e cada vez a sentia com maior intensidade.
         Era como se, por sua falta de relao com as pessoas, tivesse cultivado um pavor feroz.
         Alm disto, sentia-se to responsvel por Andrew que de repente a assaltou o desesperado temor de que pudesse lhe ocorrer algo.
         Continuou andando pelo caminho at um quilmetro e meio mais, quando de repente ouviu o distante ronronar do motor de um veculo  suas costas.
         De novo sentiu o impulso de abandonar o caminho, mas desta vez meneou a cabea e se disse com voz baixa:
          -No h nada que temer.
         Ao ouvir-se dizer estas palavras ainda se sentiu mais tola, mas se afastou para um lado do caminho e viu aproximar-se o mesmo caminho de antes.
         O veculo se deteve de novo, e desta vez pde ver o condutor ao acender-se a luz da cabine quando ele abriu a porta.
         Tinha feies rudes, cabelos grisalhos e largos ombros, e levava uma grossa jaqueta de couro, que mantinha bem fechada.
         -Aquele carro na estrada  seu? Ela assentiu com a cabea e sorriu nervosamente, notando que o homem tinha mos grandes e rudes.
         Como antes, um calafrio lhe percorreu a espinha, mas se dominou para no sair correndo.
         Se fosse uma pessoa decente, pensaria que estava louca; se no o era, agora j era muito tarde para tentar se esconder.
         Teria que enfrentar o que acontecesse da maneira que pudesse.
         Sorriu, mas em seus olhos se refletia a cautela.
         -Sim, .
         -Cruzei com voc h uns momentos?-perguntou-lhe com ar confuso, enquanto a olhava de cima a baixo. Pareceu-me ver algum no caminho, mas quando me detive 
no encontrei ningum. Ao ver seu carro a uns quilmetros mais  frente, ocorreu-me que por alguma razo no consegui encontr-la.
         A expresso de seus olhos dava a entender que se dava conta de que havia algo que ela no queria que soubesse.
         Com voz grave e rouca, mas clida, continuou: 
         -Vi que tem um eixo quebrado. Posso lev-la em casa? Faz um frio terrvel esta noite para ir caminhando.
         Permaneceram uns segundos ali parados, enquanto ela examinava seus olhos, e logo assentiu com a cabea.
         -Eu agradeceria muito.
         Daphne confiava que o homem atribusse o tremor de sua voz ao frio, e na verdade nem ela mesma sabia j se era realmente assim.
         Estava gelada at os ossos, e nem sequer pde abrir a porta, pois tinha os dedos congelados.
         O caminhoneiro a abriu, e ela entrou.
         Ao final de um instante, ele abriu a outra porta e se instalou diante do volante, sem sequer lhe dirigir um olhar.
         -Teve sorte de no andar pela estrada principal a oitenta por hora. Notou algo que pusesse lhe avisar? 
         -No; s ouvi um rudo, a parte dianteira desabou para um lado e isto foi tudo.
         Agora se sentia mais tranqila, e o interior da cabine estava confortavelmente quente.
         Doam-lhe os dedos e tratava de esquent-los soprando neles.
         O motorista lhe ofereceu umas grossas luvas forradas de l sem fazer nenhum comentrio, e Daphne as ps, enquanto o caminho avanava em direo a sua casa.
         Tinham passado quase cinco minutos quando o homem lhe falou de novo com sua voz grave e cansada. Tudo nele sugeria a fora rude das montanhas.
         -Sente-se mal? Ela negou com a cabea.
         -No. S tenho frio. Teria demorado um par de horas para chegar at em casa.
         Ento se lembrou de lhe dizer onde vivia.
         - a velha casa dos Lancaster, no? -perguntou ele, com assombro.
         -No saberia dizer. Aluguei de uma senhora chamada Dorsey, mas no a conheo pessoalmente. Tratamos tudo por correspondncia.
          O caminhoneiro assentiu com a cabea.
         -Ela  sua filha. A velha senhora Lancaster faleceu no ano passado. Acredito que a filha no volta aqui h vinte anos. Vive em Boston. Est casada com um 
advogado.
         Tpico de uma comunidade pequena em que todo mundo conhece muito bem a vida dos demais.
         Daphne sorriu ao pensar no temor que tinha sentido de ser assaltada.
         Tudo o que aquele homem pretendia era lhe contar os falatrios da localidade.
         -Voc tambm  de Boston? 
         -No. De New York.
         -Veio para descansar? 
         Ele continuava a falar sobre coisas inconsequentes enquanto avanavam pelo caminho, mas agora Daphne soltou um suspiro. No estava certa se queria lhe responder.
         Ele pareceu dar-se conta em seguida, pois levantou a mo como se desculpando e logo voltou a fixar a vista na estrada.
         -Fique tranqila. No tem obrigao de me responder. Faz tanto tempo que vivo aqui que j esqueci as boas maneiras. Todo mundo nesta cidade faz perguntas 
indiscretas, mas no me importam os motivos que a trouxeram aqui. Lamento.
         Demonstrava tanta delicadeza que ela no pde deixar de rir.
         -No se preocupe. Vim aqui para ficar junto de meu filho.
         Eu o trouxe para intern-lo na... Howarth School.
         Esteve a ponto de dizer "a escola dos surdos", mas as palavras se negaram a sair de seus lbios.
         O caminhoneiro voltou para cabea para ela.
         Era o mesmo que tivesse dito, porque o homem sabia perfeitamente o que era a Howarth School. Todos os habitantes do lugar sabiam. No era algo vegonhoso 
nem um segredo.
         -Que idade tem seu filho? -E com um olhar inquieto, acrescentou: - Ou estou colocando o nariz onde no devo?
         -Absolutamente. Tem quatro anos.
         Franzindo o cenho, ele a olhou como compreendendo seus sentimentos.
         -Deve ser muito penoso para voc separar-se dele.  to pequeno! 
         Curiosamente, ento foi ela que teve desejos de lhe fazer perguntas.
         Como se chamava? Tinha filhos? De repente, converteram-se em companheiros de viagem naquela escura estrada vicinal.
         Minutos mais tarde, ele detinha o caminho diante de sua casa, e saltou rapidamente da cabine para ajud-la a descer.
         Daphne quase se esqueceu de lhe devolver as luvas, e ao lhe faz-lo sorriu olhando-o francamente nos olhos.
         -Muito obrigada, se no fosse por voc, teria demorado horas para chegar a casa.
         O homem sorriu por sua vez, e ela vislumbrou uma risonha expresso em seus olhos que no havia percebido antes.
         -Poderia ter economizado mais de um quilmetro se tivesse confiado em mim na primeira vez.
         Daphne se ruborizou na escurido e soltou uma risada.
         -Sinto muito... Quase sa... -balbuciou, sentindo-se como uma garotinha junto a aquele homenzarro.
         -Estava escondida atrs de uma rvore, e estive a ponto de sair de meu esconderijo, mas, antes de tudo, pensei que era uma estpida ao me ocultar.
         Ele sorriu ao ouvir sua confisso franca enquanto a acompanhava at a porta.
         -Provavelmente fez bem. A gente nunca sabe com quem vai se encontrar, e h alguns moos meio loucos nesta cidade. Esto em todas as partes hoje em dia, 
no s em New York. De qualquer modo, estou contente por t-la encontrado e ter evitado que fizesse uma longa caminhada.
         -Eu digo o mesmo.
         Vacilou um instante sem saber se devia o convidar a entrar para tomar um caf, mas no lhe pareceu correto.
         Eram nove da noite, ela estava sozinha e, na verdade, ele era um desconhecido.
         -Se posso fazer algo por voc durante sua permanncia aqui, pode me avisar. -Estendeu-lhe sua mo possante, e ela notou sua fora enquanto lhe estreitava 
a sua. -Meu nome  John Fowler.
         -Eu sou Daphne Fields.
         -Muito prazer em conhec-la.
         Daphne abriu a porta com a chave e o saudou com uma mo en quanto ele retornava ao caminho.
         Ao final de uns instantes o veculo partiu, e Daphne se encontrou sozinha na casa, lamentando no t-lo convidado para entrar.
         Ao menos teria tido com quem conversar.
         Nem sequer seu dirio conseguiu despertar um interesse especial nela.
         Continuava pensando em seu rosto rude, os cabelos grisalhos e as fortes mos do desconhecido, e comeou a experimentar uma viva curiosidade por saber algo 
mais a respeito dele.
         Na manh seguinte do Dia de Ao de Graas, Daphne foi  pousada e trocou as saudaes de costume com a senhora Obermeier.
         Tomou o caf da manh com ovos e bacon e croissants, e depois de comer perguntou ao Franz o que ele aconselhava fazer com respeito a seu carro.
         Ele lhe indicou que fosse a uma das oficinas mecnicas da localidade.
         Uma vez ali, pediu que rebocassem o automvel at a cidade, e acompanhou o mecnico que conduzia a grua para lhe mostrar o lugar onde havia acontecido o 
defeito.
         Mas, quando chegaram ao lugar, o veculo tinha desaparecido, e a nica coisa que mostrava que tinha estado ali eram os rastros dos pneus no barro da vala, 
que demonstravam que o tinham rebocado.
         -Algum veio antes, senhora.
         O moo que a tinha levado at ali ficou pensativo.
         -No avisou a ningum para que viesse busc-lo? 
         -No. 
         Daphne contemplava com espanto o lugar onde tinha estado o automvel.
         No havia dvida de que aquele era o lugar, mas o veculo havia sumido.
         -Acredita que podem t-lo roubado? 
         -Talvez. Mass seria conveniente que verificasse nas outras oficinas.  possvel que algum tenha se encarregado de reboc-lo para voc.
         -Isto  impossvel. Ningum sabia onde estava.
         Alm disto, ela no conhecia ningum na cidade.
         A menos...
         Mas isto lhe pareceu improvvel. Apesar de tudo, no o conhecia.
         -Quantas oficinas existem mais na cidade? 
         -Duas.
         -Bom, suponho que o melhor que posso fazer  passar por elas, e ento, caso no o encontre, irei  polcia.
         Recordou o que John Fowler tinha comentado na noite anterior a respeito dos "moos loucos" que havia na cidade.
         Possivelmente algum deles o tinha roubado, embora no podia dizer-se que fosse uma jia, sobretudo com o eixo quebrado.
         O moo da grua a levou at a primeira das duas oficinas, e antes que ela entrasse para perguntar, viu seu automvel, no qual j estavam trabalhando os mecnicos 
com jaqueta, jeans, grossas botas e as mos cheias de graxa.
         - ele? 
         -Sim,  - respondeu Daphne sem sair de seu espanto.
         -Est bastante avariado por baixo - explicou-lhe um deles com um sorriso jovial. Mas amanh o deixaremos pronto. John Fowler nos disse que necessitava dele 
para o meio-dia, mas no poderemos repar-lo totalmente at ento.
         De modo que tinha sido ele.
         -Quando o trouxe?
         -Cerca das sete da manh. Trouxe-o guinchado por seu caminho.
         -Sabe onde poderia encontr-lo? O menos que podia fazer era agradecer-lhe Os dois moos negaram com a cabea ao ouvir sua pergunta.
         Corou ao recordar que na noite anterior tinha sentido medo de que a violentasse, e ao contrrio tinha se revelado uma pessoa extremamente honesta. 
         -Trabalha na empresa florestal do Anderson, mas no sei onde mora - respondeu o rapaz ruivo.
         Depois de agradecer, Daphne colocou as mos nos bolsos do casaco e comeou a caminhar para sua casa no outro lado da cidade.
         Na metade de caminho, ouviu uma forte buzinada e viu o caminho azul de John Fowler que parou a seu lado.
         Levantou os olhos e o saudou com um sorriso.
         -Estou muito agradecida. Voc foi to amvel...
         -No tem importncia. Posso lev-la a algum lugar? 
         Ela vacilou por uma frao de segundo e logo assentiu com a cabea, enquanto John Fowler abria a porta.
         -Suba.
         E logo que ela se acomodou no amplo assento e virou para ele, com uma expresso risonha nos olhos ele perguntou: 
         -Tem certeza que no prefere se esconder atrs de uma rvore? 
         -Isto no  justo! -exclamou ela um pouco envergonhada, e ele soltou uma risadinha abafada.
         -Tive medo que...
         -Sei do que teve medo, e de fato o que fez foi muito acertado. Entretanto - acrescentou, sem deixar de olh-la com um amplo sorriso-, parece um pouco insultante. 
Minha aparncia  to apavorante? 
         Mas ao reparar em sua estatura, ele mesmo respondeu a sua prpria pergunta.
         -Suponho que para uma pessoinha como voc devo s-lo, no  certo? 
         Sua voz adotou um tom amvel e apareceu uma doce expresso em seus olhos.
         -No tive inteno de assust-la.
         -Nem sequer o vi quando me ocultei atrs da rvore.
         Daphne ainda estava ligeiramente ruborizada, mas tambm em seus olhos havia uma expresso risonha.
         Logo, enquanto se dirigiam para a casa, exalou um suspiro.
         -Acredito que sou um pouco desconfiada desde..., desde que fiquei sozinha com meu filho.  uma responsabilidade enorme. Se algo me acontecesse...
         Sua voz apagou-se, e ela voltou a pousar os olhos no rosto do caminhoneiro, perguntando-se porque tinha lhe falado assim; teve que reconhecer que havia 
algo nele que inspirava confiana.
         John Fowler guardou silncio durante um longo momento e, por fim, perguntou-lhe: 
         -Voc  divorciada? 
         Ela meneou a cabea lentamente.
         -No. Sou viva.
         Durante cinco anos tinha detestado aquela palavra.
         -Sinto muito.
         -Eu tambm.
         Sorriu-lhe para que no se sentisse to constrangido, e se detiveram diante da casa.
         -Quer entrar e tomar uma xcara de caf? Era o menos que podia oferecer em troca do favor que ele tinha feito.
         -Eu adoraria. Estou livre at na segunda-feira, e no tenho nada para fazer. O que me sobra  tempo.
         Seguiu-a ao interior da casa; penduraram os casacos em um cabide, junto  porta, e Daphne se dirigiu  cozinha para esquentar o caf que tinha sobrado de 
manh.
         -Os moos da oficina me disseram que voc trabalha na empresa florestal - ela comentou, falando por cima do ombro, enquanto tirava as xcaras.
         - verdade.
         Ento Daphne se voltou para ele, e ao v-lo parado na porta, observando-a, se sentiu assaltada por um estranho desassossego.
         Aquele homem a tinha recolhido na estrada a noite anterior e agora se encontrava a ss com ela na cozinha. Era um talador, um desconhecido, no entanto algo 
nele tinha-a induzido a convid-lo para entrar.
         Sentia-se atrada por ele e, ao mesmo tempo, sentia medo; mas, quando se voltou de costas deu-se conta de que a causa de seu medo no era ele, e sim ela 
mesma.
         Como se tivesse pressentido seu nervosismo, Fowler abandonou a cozinha e se instalou no sof da sala de estar.
         -Quer que acenda a lareira?  A reao de Daphne foi instantnea, e ele percebeu uma expresso de alarme em seus olhos.
         -No! E, como se tivesse compreendido que ele tinha aberto uma parte de si que pretendia manter fechada  chave, acrescentou - Esquenta muito a sala. Geralmente, 
eu no...
         -Est bem.
         Aquele homem era extraordinrio. Parecia compreender as coisas antes que ela mencionasse-as, como se tivesse o dom de ver o que ningum percebia.
         Isto a inquietava e, ao mesmo tempo, causava-lhe uma sensao de alvio.
         -Voc tem medo do fogo?  A pergunta foi formulada com naturalidade e tom afvel, mas ela comeou a sacudir a cabea energicamente at que, por fim, deteve-se 
e assentiu com um gesto.
         Colocou as xcaras de caf sobre a mesa e parou diante dele.
         -Perdi meu marido e minha filha em um incndio.
         Nunca havia dito aquelas palavras a ningum, e ele ficou olhando-a como se desejasse lhe estender as mos, com os olhos cinzentos examinando os dela.
         -Voc estava presente? - indagou com voz to doce que as lgrimas afluram aos olhos de Daphne.
         Ela desviou o olhar e lhe ofereceu a xcara em que tinha servido seu caf.
         No obstante, ele continuava olhando-a com olhos interrogadores.
         -O menino tambm? Daphne soltou um suspiro.
         -Estava grvida, mas eu no sabia. Durante os meses seguintes, deram-me tantos medicamentos no hospital..., para as queimaduras..., a infeco..., sedativos..., 
antibiticos... Quando descobri que estava grvida, j era muito tarde. Por isso Andrew nasceu surdo.
         -Ambos tm sorte de estar vivos.
         Agora ele compreendia por que Daphne se mostrava to responsvel a respeito de Andrew e como devia ter sido penoso para ela deix-lo na escola.
         -s vezes a vida tem coisas estranhas - comentou, reclinando-se contra o encosto do sof, com a xcara de caf entre as mos, que quase a cobriam por completo.
         -Em certas ocasies ocorrem coisas que no tm nenhum sentido, Daphne.
         Surpreendeu-se que lembrasse seu nome.
         -Eu perdi minha esposa a quinze anos em um acidente automobilstico, numa noite gelada e terrvel. Era uma mulher admirvel, boa, e as pessoas gostavam 
dela.
         Sua voz se tornou mais clida e baixa por causa da lembrana, e seus olhos se tornaram claros como um cu da manh. - Jamais pude entender. Existindo tantas 
pessoas perversas, por que teve que ser ela? 
         - o mesmo que senti quanto ao Jeff.
         Era a primeira vez que falava disto com algum, mas de repente sentia a necessidade de abrir-se com aquele desconhecido a respeito de seu marido, depois 
daqueles interminveis cinco anos.
         -ramos to felizes! 
         No havia lgrimas em seus olhos, mas somente uma expresso fechada que John observou atentamente.
         -Estiveram casados por muito tempo? 
         -Quatro anos e meio.
         Ele moveu a cabea pensativamente.
         -Sally e eu tnhamos dezenove anos de casados. Casamos aos dezoito. -sorriu. - ramos duas crianas. Trabalhamos muito os dois juntos, passamos aperto no 
princpio, mas logo tudo caminhou direito e estvamos muito bem. Era como se ela fosse parte de mim mesmo. Passei maus momentos quando a perdi.
         Desta vez os olhos de Daphne pareceram querer consol-lo.
         -Eu tambm me senti muito mal ao perder Jeff. Acredito que durante um ano vivi entorpecida. At depois de ter o Andrew. -Sorriu-. Deu-me logo tanto trabalho 
que j no tive muito tempo de pensar nisto, s em algumas vezes..., de noite...
         Suspirou profundamente.
         -Vocs tiveram filhos, John? Pareceu-lhe um pouco estranho pronunciar seu nome e o ouvir de seus prprios lbios.
         -No. Nunca. No princpio no quisemos ter. No queramos ser como outras pessoas, que se casavam ao sair da escola secundria e, em trs anos, j tinham 
quatro filhos e passavam a vida se queixando e detestam-se mutuamente. Fizemos o propsito de no ter nenhum durante os primeiros anos, e depois pareceu-nos que 
era prefervel continuar assim. Nunca lamentei...  e ento, ela faleceu. Voc  afortunada em ter o Andrew.
         -Eu sei - respondeu ela com os olhos brilhantes ao recordar seu adorado filho.
         -s vezes penso que significa tanto para mim por causa de...  seu problema.
         -Tem dificuldade em dizer a palavra adequada? John perguntou com uma voz to carinhosa que ela se comoveu a ponto de sentir vontade de chorar ou de afundar 
seu rosto em seu peito para deixar que ele a estreitasse entre seus braos.
         -s vezes. Detesto o que significar para ele.
         -Significar a necessidade de esforar-se um pouco mais, de no conformar-se com a rotina diria. Isto possivelmente contribura para que seja melhor e 
mais forte. Assim o espero. Acredito que isto  o que aconteceu a voc depois de tudo o que tive que passar.
         O caminho reto no sempre  o melhor, Daphne. Ns achamos que sim, mas observe as pessoas que mais admira, e ver que geralmente elas triunfaram quando 
a vida no foi fcil, mas sobreviveram e amadureceram no meio da dor. As pessoas para as quais tudo  fcil no chegam a parte alguma. So as outras, as que escalam 
montanhas com a cabea erguida, recebendo os arranhes em pleno rosto e com as pernas cobertas de feridas, que merecem nossa ateno. No ser um espetculo fcil 
de contemplar, mas  possvel que este seja o caminho que seu filho seguir.
         -No teria desejado por nada do mundo que fosse assim.
         - obvio. Quem o desejaria? Mas conseguir sobreviver, como voc tem feito. E no acredito que tenha sido fcil. Ao contrrio, deve ter sido tremendamente 
penoso para voc.
         Ela o olhou pensativa, sustentando seu olhar.
         -s vezes ainda .
         John assentiu com a cabea.
         -A que se dedica quando no vive em uma cabana de troncos? 
         Daphne vacilou um instante relembrando os cinco anos passados.
         -A cuidar do Andrew.
         -E o que far agora que ele est na escola? 
         -Ainda no sei. Antes trabalhava para uma revista, mas faz muitssimo tempo.
         -Voc gostava do trabalho? 
         Ela refletiu um segundo e logo assentiu.
         -Sim, muito. Mas era mais jovem. No sei se agora eu gostaria tanto. O emprego me parecia divertido quando estava casada com Jeffrey, mas passou tanto tempo...
         Sorriu-lhe sentindo-se mais velha que Matusalm.
         -Tinha vinte e quatro anos.
         -E agora,quantos tem? - perguntou ele, sorrindo divertido. -Vinte e cinco? Vinte e seis? 
         -Vinte e nove - respondeu ela com ar solene, e John ps-se a rir.
         -Claro. No fazia idia que fosse to velha. Eu, minha amiga, tenho to somente cinqenta e dois. Uma jovem de vinte e nove anos para mim  uma menina de 
colo.
         John aparentava sua idade e ao mesmo tempo parecia mais velho.
         Tinha alguma coisa que lhe dava a aparncia de um respeitvel ancio dotado de grande discernimento. Semelhante a um conhaque muito delicado e antigo. Terminaram 
de tomar o caf, e ento ele ficou de p e olhou em torno.
         -Sente-se bem aqui, Daphne?  um lugar muito acolhedor.
         -Eu adoro. s vezes penso que ficarei aqui a vida toda.
         Daphne sorriu, observando-o. Era um belo exemplar de homem, mesmo aos cinqenta e dois anos.
         -Por quem ficaria aqui, por voc ou pelo Andrew? 
         Ela quis responder que no estava certa, mas estava. Era por ele, e John descobriu a resposta em seus olhos.
         -Deveria retornar a Nova Iorque o quanto antes possvel. No perca o tempo aqui, em uma cabana, desperdiando a vida por seu filho. Deve voltar para junto 
de sua gente, seus colegas de trabalho, seus amigos. Tenho a impresso que estve hibernando todos estes anos. E sabe de uma coisa? No deve perder o tempo desta 
maneira. Quando menos pensar despertar de sua letargia, e voc estar to velha como eu, e ento se perguntar o que fez com sua vida. O futuro lhe tem reservado 
algo melhor que isto, eu estou certo.
         Os olhos do Daphne pousaram nos seus, e ele os viu escurecidos por toda a dor que a perda de seus entes queridos tinha lhe causado.
         -Eu no estou to certa disto. No tenho objetivos notveis, nem me sinto apressada pelo desejo de criar algo memorvel, nem tenho sonhos de grandeza. Por 
que no poderia ser feliz aqui? 
         -Fazendo o que? Visitando o Andrew, se agarrando a ele quando o que deve fazer  o deixar em liberdade? Caminhando por escuros caminhos quando seu carro 
quebrar? Indo jantar na Austrian Inn nos sbados de noite? Vamos, senhora, eu no sei onde esteve voc escondida todos estes anos, mas apenas em olh-la me dou conta 
de que voc merece algo melhor.
         -Seriamente? Por qu? 
         -Porque  mais arisca que um esquilo e tremendamente bonita, tanto se quiser reconhecer ou no.
         Daphne corou, e ele sorriu, enquanto pegava sua jaqueta.
         -E agora que j falei pelos cotovelos e me portei como um estpido, esgotando sua pacincia com meus sermes, vou  com a msica para outro lugar; vou ver 
como vai o conserto do carro para voc.
         -No tem por que se incomodar.
         Por um momento, e sabendo que era uma loucura, desejou que no partisse. Sentia-se confortvel a seu lado, protegida e feliz. E agora voltaria a ficar sozinha.
         Durante cinco anos tinha sido assim, mas de repente se sentia angustiada s de pensar.
         John lhe sorria da porta.
         -Sei que no tenho nenhuma obrigao, mas quero fazer. Simpatizo com voc, senhora Daphne Fields.
         E como se acabasse de ter uma idia, perguntou: 
         -Por que no jantamos juntos um dia destes na pousada? Prometo no a incomodar com meus conselhos e sermes.  que sempre me chateia ver como uma moa e 
bonita desperdia sua vida.
         -Eu adoraria jantar com voc, John.
         -Bem, ento est certo. - ficou pensativo um instante e logo disse sorrindo: -  muito cedo amanh  noite? 
         Ela meneou a cabea lentamente, perguntando-se se sabia o que estava fazendo, quem era aquele homem e por que sentia a necessidade de conhec-lo melhor, 
de estar com ele.
         -Seria magnfico.
         -Passarei para lhe buscar s seis e meia. Horrio do campo.
         Saudou-a com uma inclinao de cabea, sorriu e logo saiu, fechando suavemente a porta.
         Daphne ficou de p, observando-o pela janela.
         Ele agitou a mo uma vez enquanto manobrava o caminho para sair na estrada e, com uma derrapagem sobre o cascalho, o veculo se perdeu na distncia.
         Ela permaneceu um longo tempo sem mover-se de seu lugar, com o olhar fixo no caminho deserto, perguntando-se que rumo estaria tomando sua vida e quem era 
realmente John Fowler.
         No sbado, John chegou pontualmente s seis e meia, usando a mesma jaqueta de pele, mas desta vez usava cala cinza, uma jaqueta de l, camisa e gravata.
         As roupas no eram finas nem caras, mas ele possua certo estilo.
         Sua aparncia extraordinariamente mscula possua o poder de realar a superioridade de tudo quanto usava.
         Daphne se comoveu por ele ter se vestido formalmente para sair para jantar com ela.
         Aquele antiquado cavalheirismo a fascinava.
         -Puxa! Est maravilhosa, Daphne.
         Ela vestia uma saia branca e um suter de um azul que quase rivalizava com a cor de seus olhos, e tinha posto o jaqueto de pele de ovelha que lhe dava 
a aparncia de um peludo cachorrinho francs.
         Tudo nela parecia suave e pequeno, no entanto aquela mulher irradiava uma energia que seu pequeno porte freqentemente parecia desmentir.
         Prendera o cabelo em um coque, e ele a observou com um tmido sorriso.
         -Alguma vez usa o cabelo solto? Daphne vacilou um instante e logo meneou a cabea.
         -Ultimamente no. 
         Tinha-o usado solto para Jeff.
         Nessa poca lhe caa at mais abaixo dos ombros.
         Mas isso tinha sido em outro tempo, em outra vida, em uma mulher que tinha sido para outro homem.
         -Eu adoraria v-lo solto alguma vez - confessou ele rindo baixinho, sem tirar os olhos dos dela. Devo lhe advertir que tenho uma queda pelas belezas loiras.
         Entretanto, apesar do completo interesse que descobria nos olhos do John, ela se sentia segura ao sair da casa em sua companhia.
         J tinha sentido aquela sensao antes.
         Possivelmente se devia a sua estatura, ou a sua atitude quase paternal, mas o caso era que sempre se sentia confortvel junto a ele, como se aquele homem 
se encarregasse de cuidar dela, no importa o que ocorresse.
         No obstante, agora sentia que tambm se produzira uma mudana nela.
         Tinha a certeza de que podia cuidar de si mesma.
         No sentia isto quando se casou com Jeff.
         Agora no necessitava daquele homem.
         Simplesmente, gostava dele.
         Ele a levou para jantar na Austrian Inn, e os Obermeier se surpreenderam ao v-los juntos, tratando de lhes dedicar uma ateno preferencial.
         Tanto Daphne como John estavam entre seus clientes favoritos, e quando diminuiu a agitao na cozinha, Hilda olhou para seu marido com olhos intrigados 
e um sorriso de triunfo nos lbios.
         -Como supe que a conheceu? 
         -Ignoro-o, Hilda. E no  algo que nos importe - seu marido a repreendeu carinhosamente, sem que por isso tivesse sua curiosidade satisfeita ou deixasse 
de mostrar-se assombrada.
         -D-se conta de que no tinha vindo jantar acompanhado desde que sua esposa faleceu?
         -D-se conta de que no deveramos estar falando disto, Hilda? So pessoas adultas, e o que fazem s importa a eles mesmos.  E se ele pode convidar a uma 
mulher bonita para jantar, por que no haveria de faz-lo? 
         -Acaso falei que isto  ruim? Parece estupendo.
         -Bem. Ento lhes sirva o caf e fecha o bico.
         Deu-lhe uma afetuosa palmada no traseiro e saiu para o salo para ver se todos os clientes tinham o que haviam pedido.
         Logo depois, viu John e Daphne conversando enquanto saboreavam o caf; ele dizia algo engraado, que ela escutava rindo como uma menina.
         -E ento o que voc lhe disse? Seus olhos ainda conservavam uma expresso risonha.
         -Que se no eram capazes de dirigir uma explorao florestal, podiam dedicar-se a dirigir um bal. E sabe de uma coisa? Que me enforquem se, em seis meses, 
eles j no venderam o negcio e se encarregaram de uma espcie de corpo de baile de Chicago.
         Meneou a cabea, com olhos brilhantes.
         -Malditos estpidos! Ele tinha lhe contado dos farsantes nova-iorquinos que vislumbraram a possibilidade de tomar conta de um negcio h uns anos atrs, 
a fim de justificar a deduo de impostos.
         -Demnios! No pus isto em marcha para que viessem dois imbecis de New York e mandassem tudo ao diabo.
         -Voc gosta de seu trabalho, John? 
         Aquele homem a intrigava. Sem dvida era inteligente, instrudo, estava  parte do que acontecia no mundo e, entretanto, passou toda a vida naquela pequena 
localidade da Nova Inglaterra, trabalhando com suas fortes mos e dobrando as costas.
         -Sim, eu gosto. Sinto-me bem. Nunca me senti confortvel em um escritrio.
         Poderia ter feito este tipo de trabalho. O pai de Sally era um diretor de um banco local e desejava que eu trabalhasse com ele, mas aquilo no foi feito 
para mim. Eu gosto mais disto; todo o dia ao ar livre, brigando com os homens, trabalhando com as mos.
         Sorriu para ela.
         -Tenho alma de operrio, senhora Fields.
         Mas era evidente que havia algo mais nele.
         No obstante, aquele trabalho lhe tinha dado vivncia, fora e um grande sentido da realidade, e lhe tinha oferecido a possibilidade de observar a natureza 
humana.
         Era uma pessoa sensata, e  medida que transcorria a noite ela valorizava cada vez mais esta qualidade.
         Depois das sobremesas ele a olhou longamente e tomou uma mo entre as suas.
         -Ambos sofremos umas perdas terrveis e, no entanto, aqui estamos os dois, fortes e com vida. Conseguimos sobreviver ao desastre.
         -No sempre tive a certeza de conseguir.
         Sentiu um grande alvio ao admiti-lo para outra pessoa.
         -Sempre conseguir seguir adiante. Mas ainda no est segura disto, no  mesmo? 
         -s vezes tenho minhas dvidas. Em certas ocasies, penso que no conseguirei chegar ao dia seguinte.
         -Conseguir. - disse-lhe ele com sereno convencimento. - Mas possivelmente chegou o momento de deixar de lutar sozinha todas as batalhas.
         Ento, ele tinha pressentido que fazia um longo tempo que no havia nenhum homem em sua vida.
         Daphne deixava transparecer a dor da mulher que quase esqueceu o doce contato do amor.
         -Houve algum outro homem em sua vida depois da morte de seu marido, Daphne? Ou acaso no devia lhe fazer esta pergunta? 
         Ela sorriu com recato, e os enormes olhos da cor do oceano se tornaram ainda maiores.
         -Pode perguntar o que quiser. No, no houve. Na realidade... -acrescentou, corando, e John sentiu um desejo quase irresistvel de beij-la, - esta  minha 
primeira sada... desde ...
         No teve necessidade de completar a frase.
         Ele entendeu.
         -Que lstima, desperdiar tanta beleza! Mas desta vez suas palavras eram muito diretas, e Daphne afastou seus olhos de John.
         -Foi melhor assim. Deste modo, pude me entregar mais plenamente ao Andrew.
         -E agora? 
         -No sei... - respondeu, perturbada. - No sei o que farei sem ele.
         -Acredito - replicou John entrecerrando os olhos, fixos nela, - acredito que far algo muito importante.
         Daphne riu, sacudindo a cabea, divertida pelo que ele havia dito.
         -Por exemplo? Candidatar-me como deputada no Congresso? 
         -Possivelmente, se for isto o que deseja. Mas no  isto. H algo no mais profundo de seu ser, Daphne, que se debate dolorosamente para aflorar. E talvez 
um dia destes voc vai deixar que se manifeste abertamente.
         Ela ficou pasma com suas palavras.
         Ela tambm tinha pensado freqentemente nisto, e a nica vlvula de escape que tinha para dar sada para aqueles sentimentos eram seus dirios.
         Por um instante, esteve tentada de lhe falar deles, mas lhe pareceu que era uma tolice.
         -Voc gostaria de dar um passeio? 
         Ficaram de p, terminado o jantar, e John a seguiu at a porta da pousada, sob o olhar atento da senhora Obermeier, que os observava com evidente complacncia.
         -Fez amigos nesta cidade, pequena - disse John a Daphne ao sair. -A senhora Obermeier simpatiza com voc.
         -Eu tambm a acho muito agradvel.
         Eles caminharam em silncio um ao lado do outro pelas ruas desertas, e logo ele colocou a mo enluvada de Daphne sob seu brao.
         -Quando poderei conhecer o Andrew? 
         No parecia haver nenhum obstculo para isto.
         Daphne tinha a impresso de que em poucos dias aquele homem tinha passado a fazer parte de sua vida, e embora no estivesse segura de como terminaria sua 
relao, o que no podia negar era que gostava.
         De repente se sentia liberada dos laos que a tinham mantido presa durante anos, e agora tinha a sensao de ir um pouco  deriva; mas esta sensao era 
muito prazerosa.
         Voltou o rosto para ele, enquanto foram caminhando, e contemplou o enrgico perfil de seu acompanhante.
         No estava segura se aquele homem entraria definitivamente em sua vida, mas no duvidava de que seria um amigo fiel.
         -O que voc acha de ir amanh? Tenho que ir v-lo  tarde. Voc gostaria de me acompanhar? 
         -Eu adoraria.
         Dirigiram-se com passos lentos ao caminho de John, e este a conduziu at em casa.
         Acompanhou Daphne  porta, mas ela no o convidou para entrar, coisa que ele tampouco parecia esperar.
         Daphne o saudou com a mo enquanto fechava a porta, e ele entrou no veculo e se afastou, com a mente povoada de pensamentos vinculados com Daphne.
         Andrew se encontrava aguardando do lado de fora, junto a dois conselheiros e alguns meninos quando Daphne e John chegaram  escola, e ela percebeu um brilho 
de desconfiana nos olhos de seu filho.
         O pequeno ignorava quem era aquele homem, e possivelmente se sentiu intimidado pela estatura de John.
         Mas Daphne teve a impresso de que ele no gostava do fato de que sua me estivesse acompanhada.
         Dominava-o um instintivo sentimento possessivo, que ela tinha deixado florescer.
         Estreitou-o rapidamente entre seus braos, beijou-lhe a face e o pescoo, aninhando seu rosto junto ao do pequeno e sentindo o calor familiar daquela criana 
que era uma parte to importante de seu prprio ser.
         Logo se separou e, por gestos, indicou-lhe que seu acompanhante era um amigo, como os que ele tinha na escola, e se chamava John.
         Este se ajoelhou no cho junto a ele.
         Desconhecia a linguagem dos sinais, que Daphne j tinha aprendido, mas parecia se comunicar com o menino com os olhos e com suas enormes e ternas mos; 
em poucos minutos Andrew se aproximou vacilando, igual a um cachorrinho desconfiado.
         Sem lhe dizer nem uma s palavra, John estendeu a mo e segurou a mozinha de Andrew.
         Ento comeou a lhe falar; com sua voz grave e doce, enquanto Andrew o observava com ateno.
         Os olhos do pequeno estavam fixos nos de John, e em algumas ocasies assentiu com a cabea, como se entendesse o que lhe dizia.
         Parecia haver-se estabelecido uma total e mtua comunicao entre eles, sob o olhar fascinado de Daphne.
         Ento, sem sequer olhar para sua me, Andrew conduziu John at a sombra de uma rvore, sob a qual se sentaram para "conversar".
         O menino o fazia com gestos, e o homem lhe falava, e parecia que se entendiam, como se sempre tivessem sido amigos ntimos.
         Daphne permaneceu afastada, observando com absoluta fascinao enquanto uma profunda emoo a invadia, mesclada de dor, por ter perdido outra poro do 
afeto de seu filho, e de felicidade, ao ver que John se sentia atrado por aquele ser que ela amava com toda sua alma.
         E em algum lugar de seu corao brotava um ressentimento, ao comprovar com que facilidade tinham se aberto ao John as portas que conduziam ao mundo de silncio 
de seu filho, quando ela tivera que lutar to ferozmente para as conquistar.
         Entretanto, por cima de tudo isto se impunha a ternura que ambos lhe inspiravam, ao v-los retornarem, sorridentes e de mos dadas, para junto dela.
         Ento comearam a jogar, e ao final de uns instantes os trs riam cheios de felicidade.
         As horas at o momento da refeio transcorreram como se fossem minutos.
         Daphne mostrou a escola a John, orgulhosa de repente por ter tomado a deciso mais certa para o bem de Andrew.
         Enquanto desciam pela escada que conduzia ao quarto onde dormia o menino, John a olhou com tanto afeto que ela teve a sensao de que se espalhava por todo 
seu corpo o calor dos estivais raios do sol do Mediterrneo.
         -Alguma vez algum lhe disse como voc  extraordinria, pequena? Daphne corou, enquanto ele lhe passava o brao pelos ombros e a estreitava contra seu 
corpo.
         Era a primeira vez que o sentia to perto, e lhe pareceu que uma fora poderosa se apoderava dela, enquanto fechava os olhos.
         - valente e maravilhosa. Fez algo grandioso com o Andrew, e isto resultar em benefcio para ambos.
         E com voz baixa, que a tomou completamente de surpresa, acrescentou: 
         -E eu te amo por isto.
         Daphne ficou imvel um instante, o olhando sem saber o que dizer, e logo ele sorriu, inclinou-se sobre ela e lhe deu um beijo na testa.
         -Tranqilize-se, Daphne, no vou machuc-la.
         -Obrigada - respondeu ela, sem estar muito certa por que o havia dito.
         De repente, deslizou seu brao em torno da cintura de John e se apertou contra ele.
         Tinha ansiado com desespero que algum lhe dissesse o que John acabava de dizer, que ela no tinha abandonado Andrew, que aquilo era o correto, que tinha 
trabalhado bem.
         -Muito obrigada.
         John a estreitou brevemente e continuaram descendo a escada at em baixo, onde encontraram Andrew e seus companheiros dispostos a sentar-se  mesa para 
jantar.
         Para eles tinha chegado a hora de partir, e desta vez Andrew choramingou uns minutos ao despedir-se.
         Daphne o apertou contra seu peito com lgrimas nos olhos, murmurando docemente com os lbios sobre sua face:
         -Te amo.
         Logo se separou dele, para que Andrew pudesse ler as palavras em seus lbios, ento o menino se jogou violentamente em seus braos proferindo um som rouco 
que significava: "Eu tambm te amo".
         A senhora Curtis se aproximou e acariciou a face do pequeno, sorrindo com ternura, e perguntou-lhe por gestos se estava preparado para sentar-se  mesa.
         Andrew pareceu titubear um instante; logo assentiu esboando um sorriso, e depois de agitar a mo e lanar um beijo de despedida para sua me, e dirigindo 
um olhar amistoso para John, afastou-se deles para reunir-se com seus amiguinhos.
         -Vamos ou deseja ficar mais um momento? John no queria apress-la.
         Quase experimentava em suas entranhas a dor viva que Daphne sentia.
         Mas ela assentiu lentamente com a cabea, sem tirar os olhos de seu filho, e logo se voltou para John, a quem dirigiu um franco olhar que traduzia o alvio 
que sentia ao t-lo a seu lado.
         -Voc est bem? 
         -Sim. Vamos.
         John a seguiu, enquanto ela se maravilhava com a sensao de bem-estar que a embargava ao ter algum que se preocupava com ela, depois de estar sozinha 
por tanto tempo.
         De repente, ao sentir o ar frio da noite em seu rosto, apressou-a o desejo de pr-se a correr.
         A dor de deixar Andrew se havia atenuado, e se sentia mais viva do que havia se sentido em muitos anos.
         Ps-se a rir e subiu no caminho de um salto, como uma menina.
         - um menino magnfico, sabe? - John a olhava como compartilhando seu orgulho enquanto colocava o veculo em movimento. -Fez um estupendo trabalho.
         -O mrito  todo dele. No acredito ter nada que ver com isto.
         -Est equivocada. Tem a ver, e muito. No o esquea.
         Falava com um tom severo, enquanto se afastavam da escola, e comprovou com satisfao que Daphne parecia feliz.
         -Quer jantar na pousada? Tenho a impresso de que devemos celebrar algo, embora no saberia dizer o que.
         Seus olhos se encontraram e ficaram olhando-se fixamente.
         Entre eles um forte lao ia se formando, e Daphne acabava de compartilhar com ele um dos momentos mais importante de sua vida.
         Por sua parte, John estava comovido e agradado pelo fato de que lhe tivesse permitido conhecer o Andrew.
         -O que lhe parece se eu preparar o jantar? 
         -Ah! Sabe cozinhar? -brincou ele, e ambos tornaram a rir.
         -Olhe que como muito.
         -Que tal uns espaguetes? 
         -S isto! -exclamou John, simulando aborrecimento.
         Daphne riu, sentindo-se como uma menina, e de repente, sem motivo algum, recordou da primeira vez que tinha cozinhado para Jeff em seu apartamento.
         Fazia uma eternidade, e se sentiu envergonhada ao dar-se conta de que tudo parecia muito impreciso, distante no espao e no tempo, e no totalmente real.
         s vezes tinha a sensao de que as lembranas de Jeffrey eram cada vez mais vagas e dbeis.
         -S espaguete? A voz do John a trouxe de novo ao presente.
         -Est bem. Que tal um bife? Com salada.
         -Aceito. Com muito prazer - acrescentou ele, e Daphne voltou a rir.
         -Deve sair muito caro te alimentar, John Fowler.
         Ele pareceu achar divertida a expresso de seu rosto.
         -No precisa se preocupar. Ganho um bom salrio como lenhador.
         -Mas no  um trabalho perigoso? Daphne franziu o cenho, e ele gostou de ver que estava preocupada.
         -s vezes. Mas no sempre. Quase todos ns sabemos o que temos nas mos. Temos que vigiar os novatos, os moos que assinam um contrato temporrio para o 
vero. Se no ficamos com os olhos muito abertos, podem pr suas vidas em perigo.
         Ela assentiu silenciosamente enquanto paravam em frente   sua casa.
         Entraram, e durante a meia hora seguinte ela se dedicou a preparar o jantar.
         Ele ps a mesa e se ocupou dos bifes.
         Daphne cozinhou os espaguetes e preparou a salada, enquanto John contemplava a lareira com ar sonhador.
         Ela logo adivinhou o que ele estava pensando.
         -Est bem, John. Se quiser, acende-a. Esta sala ficar muito bonita com o fogo aceso.
         -No faz falta.  bonita sem ele.
         Entretanto, de repente ela tambm o desejou.
         Queria deixar o passado para trs.
         Estava farta dos temores, os medos e as angstias do passado.
         -Vamos, acende o fogo.
         Havia algo naquele homem que lhe infundia coragem.
         -No quero que voc se altere, Daphne.
         -No temas, eu acho que j  hora de me liberar do passado.
         Experimentou uma estranha sensao ao diz-lo, mas logo considerou que no se tratava da sensao de ter trado sua lembrana.
         John se levantou da mesa para pr uma tora na lareira, e logo adicionou lenha mida.
         O fogo ardeu rapidamente, e Daphne permaneceu um momento contemplando-o em silncio, pensando nem tanto naquele Natal fatal, mas nas muitas vezes que ela 
e Jeff ficavam em casa nos domingos de noite, lendo os jornais dominicais e aproveitando o calor e a luz.
         Sem pronunciar uma palavra, John estendeu o brao por cima da mesa e lhe segurou a mo; ento ela lembrou a impresso de sentir seu brao sobre os ombros 
na escola e a sensao de bem-estar que a tomava ao estar com ele.
         -No que estava pensando h um instante? Parecia to feliz! 
         Os olhos de Daphne refulgiam pelos reflexos do fogo, e ele sups que estava pensando em Jeffrey.
         -Pensava em voc. Agradeo que me encontrasse na estrada naquela noite.
         John sorriu diante da lembrana.
         -Teria lhe encontrado antes se no tivesse se escondido.
         Ambos riram ao recordar, e Daphne levou para a mesa duas xcaras de caf fumegante.
         - uma boa cozinheira.
         -Obrigado. Voc tambm cozinha bem. Os bifes estavam no ponto.
         Ele sorriu quase com uma sombra de tristeza.
         -Tenho muita prtica. Faz quinze anos que cozinho para mim.
         -Por que no voltou a se casar? 
         -Nunca o desejei. Tampouco conheci ningum que me interessasse at este extremo.
         "At este momento", quis acrescentar, mas no desejava inquiet-la, e sabia que estas palavras teriam causado nela este efeito.
         -Suponho que no quis comear de novo. Mas voc ainda  jovem para refazer sua vida, pequena.
         Ela meneou a cabea pensativamente, sem tirar os olhos de John.
         -Eu no acredito. H coisas que no podemos fazer "de novo" na vida; no se pode recriar o que j se foi. Isto s acontece uma vez na vida.
         -Esta experincia em particular, sim. Mas surgem outras experincias que se tornam to importantes quanto aquela. S que so diferentes.
         -Olhe quem fala! Seu caso no  diferente do meu.
         -Sim. Voc  mais afortunada.
         -Seriamente? Por qu? 
         -Voc tem o Andrew. 
         Ambos sorriram.
         -De vez em quando, conheo alguma criana que desperta em mim a pena de no ter tido um filho.
         -Ainda no  muito tarde.
         Mas John ps-se a rir.
         -Sou um homem velho, Daphne Fields. Tenho cinqenta e dois anos. Demnios, at poderia ser seu pai! 
         Ela, entretanto, limitou-se a sorrir, pois no o via sob aquela luz, e tampouco ele se sentia assim respeito a ela.
         Eram amigos em diversos nveis.
         Daphne nunca tinha tido um amigo como ele at ento.
         Talvez porque nunca tinha sido a mulher que era agora.
         Com o correr dos anos, tornou-se forte, mais do que ela jamais tinha sonhado.
         Sua fortaleza podia competir com a de qualquer homem.
         Inclusive com a de um como John.
         Sentaram-se no sof, contemplando o fogo.
         Ela no saa de seu assombro ao perceber como se sentia confortvel ao lado do John.
         Havia uma serenidade, uma calma em sua maneira de agir..., como se tivesse uma eternidade por diante e todo o tempo do mundo para desfrutar de cada precioso 
instante.
         Os rudes traos, que pareciam ter sido esculpidos por um artista, pareciam bonitos sob o resplendor do fogo.
         -John...
         Daphne no conseguiu encontrar as palavras precisas.
         Por fim, com voz calidamente rouca, disse a nica coisa que lhe ocorreu.
         -Estou contente de ter lhe conhecido.
         John assentiu lentamente com a cabea, experimentando o mesmo que ela sentia, e percebendo a paz e a compreenso que reinavam em sua relao.
         Ento, ele passou o brao por cima de seus ombros, e ela notou a mesma fora contida que tanto a tinha confortado aquela tarde.
         Gostava de sentir o peso de seu brao, o contato de sua mo e o aroma que exalava.
         Era uma deliciosa mescla de loo ps-barba, l, ar fresco e tabaco.
         Sua fragrncia harmonizava com seu aspecto, o aspecto de um homem viril, atraente, que tinha passado a vida entre as rvores nas montanhas.
         Neste momento ele a olhou e descobriu uma lgrima que deslizava por sua face.
         Isto o alarmou, e a estreitou ainda mais contra seu corpo.
         -Est triste, querida? -perguntou-lhe com voz grave e terna..., mas ela negou com a cabea.
         -Estou feliz. S por estar aqui, desta maneira...
         Levantou os olhos para ele.
         -Deve pensar que estou louca. O que ocorre  que voltei para a vida. Sinto-me como se tivesse estado morta durante um longo tempo. Pensava...
         Era difcil para ela pronunciar aquelas palavras, mas tinha que diz-las.
         -Pensava que tinha que estar morta porque eles estavam. Se continuei vivendo foi exclusivamente pelo Andrew. S por ele segui com a vida.
         E agora voltava a viver por ela mesma.
         Por fim.
         John permaneceu calado durante um tempo interminvel, com o rosto muito perto do dela, observando-a.
         -Agora tem direito de viver sua vida, Daphne. J cumpriu com sua obrigao.
         Ento a beijou docemente nos lbios, e para ela foi como se tivesse sido transpassada uma seta.
         O contato de sua boca fez vibrar as fibras mais intimas de seu ser, e ficou sem flego, com os lbios presos aos do homem que a estreitava entre seus braos.
         Logo tomou o rosto entre suas mos e ficou por uns instantes contemplando-a, encantado.
         -Onde esteve todos estes anos de minha vida, Daphne Fields?
         Beijou-a de novo, e desta vez ela deslizou seu brao em torno do pescoo dele e o reteve apaixonadamente.
         Desejava agarrar-se a ele por toda a eternidade e no separar-se jamais.
         John, por sua vez, a abraou como se tambm quisesse ret-la para sempre.
         Suas mos comearam a deslizar lentamente pelos ombros de Daphne, e logo acariciaram seus seios, at que por fim se introduziram por debaixo do suter.
         Ela proferiu um doce gemido, e John acentuou suas carcias, ao sentir a possante paixo que despertava no fundo daquela mulher.
         De repente, imobilizou-se para separar-se dela no final de uns instantes e fixar o olhar em seus olhos.
         -No quero fazer nada contra sua vontade, pequena. Eu sou um homem amadurecido, e no quero me aproveitar de voc.
         Mas ela sacudiu a cabea e o beijou, enquanto ele comeava a tirar as presilhas que prendiam seus cabelos em um coque, e eles se soltaram caindo como uma 
cascata at seus ombros.
         John afundou os dedos em sua cabeleira, e logo lhe acariciou o rosto e os seios de novo, at que suas grandes mos se deslocaram at as pernas, e ela no 
pde reprimir um estremecimento de prazer com seu contato.
         -Daphne... Daphne... - murmurava ele.
         Ambos continuavam no sof em frente ao fogo, John com o corpo pulsando de desejo por ela; Daphne se levantou, segurou sua mo e o levou para a cama de seu 
quarto.
         -Tem certeza? Ele sabia o longo tempo que Daphne tinha passado sozinha, e apenas o conhecia.
         Tudo tinha acontecido muito rapidamente, e no queria que Daphne fizesse algo de que pudesse arrepender-se pela manh.
         Desejava conhec-la a fundo, no s durante uma noite ou um momento passageiro.
         -Completamente.
         Sua voz no era mais que um sussurro enquanto ele a despia lentamente, at que por fim ficou nua diante ele, pequena, de formas perfeitas, seu corpo banhado 
pela luz da lua, e os loiros cabelos resplandecentes como fios de prata. John a levantou nos braos e a depositou sobre a cama; ento tirou calmamente a roupa, que 
deixou cair no cho, e deslizou para junto dela.
         O contato com sua pele acetinada foi quase insuportvel, e o desejo de possu-la se tornou to intenso que no podia dominar-se.
         Mas foi ela quem tomou seu rosto entre as mos, quem o apertou contra seu corpo, enquanto se arqueava para ele, e lentamente, como uma lembrana esquecida 
aflorando com deliciosa violncia, sentia que ele a penetrava e a levava nas asas do prazer at cpulas que nem sequer com Jeffrey tinha alcanado.
         John era um hbil e extraordinrio amante.
         Ficaram exaustos um junto ao outro, as pernas dela entrecruzadas com as dele, enquanto murmurava com os lbios encostados em seu pescoo que o amava.
         -Eu tambm a amo, pequena. Oh, meu Deus, como a amo! 
         Enquanto John pronunciava estas palavras, ela o olhava com um sorriso sonolento, apertava-se contra seu corpo e, fechando os olhos, adormecia em seus braos, 
transformada de novo em mulher, em uma mulher que nunca tinha sido..., sua mulher, e dona de si mesma. Ele no se equivocou ao julg-la. Os anos tinham a tornado 
forte, mais forte do que ela supunha.
         -O que  isto? John segurava em suas mos dois cadernos com capas de couro.
         Eram seis da manh do dia seguinte, e ele se encontrava nu na cozinha.
         Daphne tinha levantado para lhe preparar o caf da manh antes que ele sasse para trabalhar, mas atrasaram-se arrastados por outra intensa exploso de 
paixo.
         Ela olhou por cima de seu prprio ombro nu com um sorriso, sem sair de seu assombro por se sentir to bem e confiante em sua companhia.
         -O que? Ah, so meus dirios!
         -Vai me deixar ler isto algum dia? 
         -Claro.
         Daphne pareceu ligeiramente perturbada ao pr os ovos fritos com bacon sobre a mesa.
         -Embora talvez lhe paream um pouco tolos. Joguei toda minha alma neles.
         -Isto no tem nada de tolo. Ento sorriu admirando o traseiro nu de Daphne.
         -Sabe que tem um traseiro maravilhoso?
         -Fecha o bico e tome seu caf da manh.
         -Isto parece como o fim de um romance.
         Seu romance, entretanto, apenas tinha comeado.
         Ainda tiveram tempo de entreter-se, para passar um "tempinho" mais antes que ele partisse para o trabalho uma hora mais tarde.
         -No acredito que hoje tenha energia suficiente para trabalhar, depois de tanto fazer amor to deliciosamente.
         -Bom, ento fique em casa. Eu cuidarei de voc.
         -Claro que sim! -exclamou ele, soltando uma gargalhada enquanto subia o fecho da grossa jaqueta de pele que guardava no caminho para trabalhar.
         -Voc sim sabe deixar um homem mal acostumado, Daphne Fields.
         Mas enquanto a abraava para despedir-se, ela disse com voz baixa: 
         - voc quem me deixa mal acostumada. Fez-me feliz como nunca fui, e quero que saiba.
         -Lembrarei o dia todo. Na volta, comprarei alguns mantimentos e jantaremos em casa. Est bem? 
         -Parece perfeito.
         -O que voc far? 
         Os olhos de Daphne brilharam maliciosamente um instante e ela sorriu.
         -Talvez escreva algo em meu dirio.
         -Bom. Lerei quando voltar. At mais tarde, pequena.
         O caminho se afastou fazendo ranger o cascalho do caminho, enquanto ela se despedia abanando a mo, com os peitos nus, da janela da cozinha.
         O dia pareceu interminvel a partir daquele momento, e se perguntou o que faria sem ele.
         Pensou em ir ver Andrew, mas era muito cedo para uma nova visita.
         De modo que ficou em casa, fez a limpeza e escreveu em seu dirio.
         Mas algo diferente ficou rondando sua cabea toda a manh, e depois de almoar encontrou-se escrevendo um conto.
         Saiu todo de uma vez, correntemente, e quando terminou, ficou olhando com espanto a dzia de paginas que tinha escrito.
         Era a primeira vez que lhe acontecia uma coisa semelhante.
         Quando John chegou de noite, estava o esperando vestida com cala cinza e suter vermelho brilhante.
         -Como voc est bonita, pequena! Como passou o dia? 
         -Senti sua falta.
         Tinha a impresso de que ele sempre tinha feito parte de sua vida, que estivera esperando por ele todas as noites.
         Cozinharam o jantar juntos, com os mantimentos que ele havia trazido, e John lhe contou anedotas que tinha escutado em seu trabalho.
         Mais tarde, lhe mostrou o conto que tinha escrito, e John leu-o com ateno, sentados junto ao fogo.
         - maravilhoso, Daff! Olhou-a com orgulho e satisfao evidentes.
         -Vamos, me diga a verdade, no  uma besteira? 
         -Diabos, no!  estupendo.
         - o primeiro que escrevo. Nem sequer sei de onde me veio a inspirao.
         Ele acariciou seu sedoso cabelo, sorrindo.
         -Daqui, pequena. E eu suspeito que aqui existam mais muitas histrias como esta.
         Na verdade ela tinha encontrado uma fonte que desconhecia, e experimentava um alvio ainda maior que quando escrevia seu dirio.
         Nesta noite fizeram amor diante do fogo, e de novo na cama, e s cinco e meia da manh repetiram a experincia.
         Ele foi trabalhar com uma cano nos lbios, e desta vez ela no esperou at de tarde, mas se sentou para escrever assim que John se foi, e completou outro 
conto.
         Era diferente do que tinha escrito no dia anterior, mas quando John o leu de noite, achou que era melhor.
         -Tem um estilo incrivelmente original, Daphne.
         A partir deste dia, John passou vrias semanas lendo todos os dirios dela. Quando chegou o Natal,j tinham estabelecido uma relao cmoda e fluida.
         Ele havia mais ou menos se mudado para a casa dela, Andrew se tornava cada vez mais independente na escola e Daphne dispunha de mais tempo do que j tivera 
em muitos anos, o que lhe permitia dedicar-se a escrever contos todos os dias.
         Alguns eram melhores que outros, mas todos eram interessantes, e todos possuam o mesmo estilo caracterstico.
         Parecia que Daphne tinha descoberto uma faceta de sua prpria personalidade que lhe era desconhecida, e tinha que reconhecer que adorava.
         -Sinto-me to feliz, John! No sei,  difcil de explicar. Tenho a impresso de que tudo sempre esteve dentro de mim, sem eu saber.
         -Talvez devesse escrever um romance - sugeriu John com expresso grave.
         -No seja tolo. A respeito de que? 
         -No sei. Tente para ver o que sai. Sei que tem capacidade para faz-lo.
         -No estou to segura. Escrever contos curtos  diferente.
         -Isto no significa que no possa escrever um romance. Tente. Demnios, por que no? Dispe de tempo. Aqui no se pode fazer nada durante todo o inverno.
         E era certo que nada teria que fazer, s visitar Andrew.
         Daphne passava duas tardes com ele cada semana, e John a acompanhava cada fim de semana.
         No Natal, era fcil comprovar que o menino era completamente feliz, que aceitava John com naturalidade e lhe contava coisas divertidas na linguagem de sinais, 
pois John agora j o compreendia.
         Jogava alegremente com ele, e a maioria das vezes terminava levando Andrew sobre um ombro e a um de seus amiguinhos no outro.
         John tinha chegado a sentir verdadeiro afeto pelo menino, e Daphne os contemplava com orgulho, maravilhada com a sorte que a vida tinha lhe proporcionado.
         Parecia-lhe que, por fim, sumira toda a dor e a amargura do passado.
         Agora a lembrana do Jeff se tornara mais suportvel.
         S quando via alguma menina da idade de Aimee, experimentava ainda uma amarga pontada.
         Mas at nestes casos era mais suportvel, pois John possua o dom de mitigar suas dores e sabia fazer com que se sentisse tranqila e feliz.
         De quando em quando levavam Andrew para casa com eles.
         John sempre encontrava uma dzia de pequenas tarefas que fazerem.
         Pegavam lenha juntos, e John esculpia alguns animaizinhos aproveitando ramos e pequenos troncos.
         Ajudava Daphne a assar biscoitos, e em uma ocasio pintaram uma velha cadeira de balano de vime que John tinha descoberto no fundo de um celeiro vazio.
         Tornava-se evidente que Andrew se voltava cada vez mais independente, e lhe era mais fcil comunicar-se com ambos.
         Daphne dominava com mais preciso a linguagem dos sinais, por isto a tenso entre eles havia se atenuado.
         Andrew se mostrava mais paciente com sua me quando esta cometia algum engano, e s vezes ria alegremente se ela interpretava errado algum sinal; ento, 
sorrindo, explicava ao John por gestos que sua mame havia dito que ia cozinhar uma r para o jantar.
         Entretanto, a comunicao silenciosa que estabelecia com John continuava sendo profundamente comovente.
         Os dois ficaram amigos, como se sempre tivessem compartilhado as mesmas experincias de vida, caminhando em silencio pelos campos, detendo-se para observar 
um coelho ou um gamo, sem que tivessem necessidade alguma de dizer-se nada, pois lhes bastava trocar um olhar.
         Quando chegava o momento de retornar  escola, Andrew se sentava nos joelhos de John no caminho e colocava suas mozinhas sobre o volante junto s grandes 
e rudes mos de John, sob o atento olhar de Daphne, que os contemplava com um sorriso nos lbios.
         O pequeno sempre se mostrava contente de voltar para junto de seus companheiros, e j no era uma tortura separar-se dele.
         Ela e John viviam suas prprias vidas, e Daphne se dizia que nunca tinha sido to feliz em toda sua existncia, o que se manifestava em sua escrita.
         Em fevereiro, por fim, juntou energia para escrever um romance, e dedicava-se a ele com esforo, enquanto John se encontrava trabalhando; de noite, ele 
lia a produo do dia, acompanhando a leitura com seus comentrios e louvores, sem que em nenhum momento tivesse dvida alguma a respeito da capacidade de Daphne 
para levar a cabo sua obra.
         -Se no fosse por voc, no poderia faz-lo.
         Daphne estava recostada no sof, em jeans e botas, enquanto sustentava uma pilha de pginas sobre seu colo.
         Ele, por sua parte, estava cortando umas mas para ambos.
         -Claro que poderia. Eu no tenho nada que ver com isto, sabe? Tudo surge de voc mesma.  algo que leva dentro de si e que ningum poder lhe tirar jamais.
         -No sei... Ainda no consigo compreender de onde sai tudo isto.
         -Isto no importa. S deve compreender que est a, em seu interior. Nada e nem ningum pode interferir nem afetar seu desenvolvimento.
         Daphne aceitou o pedao de ma que John lhe oferecia e se inclinou para ele para lhe dar um beijo.
         Adorava sentir o contato de seu rosto em seus lbios, sobretudo no final do dia, quando tinha a aspereza da rude barba crescida.
         Tudo nele era muito masculino, e possua um extraordinrio atrativo sexual.
         -Continuo acreditando que voc  o culpado. Se no fosse por voc, no teria escrito nem uma s palavra.
         Ambos recordaram com um sorriso que Daphne tinha escrito seu primeiro conto depois da primeira vez que fizeram amor.
         Tinha-o enviado  Collins depois de primeiro do ano, para ver se o publicavam, e ainda estava esperando a resposta.
         Em maro, a resposta chegou de sua antiga chefe, Allison Baer. Tinham aceitado e lhe ofereciam quinhentos dlares.
         -O que lhe parece, John, aceitaram meu conto?! Esto loucos! 
         Daphne o estava aguardando na porta, com uma garrafa de champanhe, o cheque e a carta de Allison.
         -Felicidades! John se mostrou to contente como ela, e celebraram na cama at altas horas da madrugada.
         Ele brincava lhe dizendo que no o deixava dormir nunca, mas era evidente que ambos gostavam da situao.
         A aquisio do conto pela Collins a estimulou, e ao longo de toda a primavera trabalhou com esforo no livro, de modo que em julho j o tinha terminado.
         Ficou com a vista fixa nele, sustentando-o em suas mos, avaliando o manuscrito, bastante assombrada pelo que tinha conseguido, e ao mesmo tempo entristecida 
pela perda daqueles personagens que tinham se tornados to reais durante os meses que levou para escrev-lo.
         -E agora o que farei? Era um pouco como perder um emprego, e at quase lamentava t-lo terminado.
         -Esta, meu amor,  uma pergunta interessante.
         John a contemplava transbordante de orgulho, com o torso nu, o rosto e os braos torrados pelo sol, enquanto saboreava uma cerveja depois de uma jornada 
exaustiva.
         Tinha sido um vero maravilhoso.
         -No estou certo, mas acredito que deveria conseguir um agente literrio. Por que no consulta a sua antiga chefe na Collins. Telefone amanh mesmo.
         Mas Daphne sempre detestava falar com ela.
         Allison no deixava de reprovar a vida to pouco natural que Daphne levava.
         Ela no lhe havia dito nada a respeito de John, e ela supunha que Daphne continuava em New Hampshire a fim de estar perto de Andrew.
         Sempre insistia em tratar de convenc-la de que devia voltar para New York e conseguir um emprego, mas Daphne encontrava, toda vez, a desculpa de que havia 
sublocado seu apartamento at setembro.
         Depois desta data encontraria outras razes.
         Na realidade no tinha nenhum projeto de afastar-se dali.
         Era feliz com John, e desejava ficar em New Hampshire para sempre.
         Entretanto, at John discutia em ocasies sobre o assunto, dizendo que ela pertencia a New York, onde         
         NB "os de sua classe" e onde a esperava um emprego interessante.
         Considerava que ela no tinha que passar toda sua vida junto a um lenhador.
          obvio que no queria que partisse, e ela, por sua parte, no tinha inteno alguma de abandon-lo, nem agora nem nunca.
         -Como supe que pode encontrar um agente? 
         -Talvez devesse pegar o livro, ir a New York e averiguar.
         -Farei isto, sempre e quando voc for comigo.
         -Isto  uma tolice, meu amor. Para isto no necessita de mim em absoluto.
         -Sim, necessito. -Sentada junto a ele, Daphne parecia uma garotinha-. Necessito de voc para tudo. Ainda no se deu conta? 
          obvio que John se dera conta, mas ambos sabiam que ela era capaz de desembaraar-se sozinha, e da melhor maneira.
         -O que eu faria em Nova Iorque? 
         Fazia vinte anos que John no punha os ps na cidade, e no tinha desejo algum de faz-lo agora. Era feliz nas montanhas da Nova Inglaterra.
         -De qualquer modo, por que no telefona a Allison amanh e v o que diz? 
         No dia seguinte Daphne no telefonou. Resolveu aguardar at o outono.
         De certo modo, no estava pronta para se desprender do livro, e argumentava que desejava rel-lo algumas vezes mais, a fim de efetuar as correes definitivas.
         -Covarde - disse John de brincadeira-. No pode permanecer escondida eternamente, pequena.
         -Por que no? 
         -Porque eu no consentirei. Vale muito para isto.
         John sempre a fazia sentir que no havia nada no mundo que no fosse capaz de fazer.
         Era notvel como tinha recuperado a confiana em si mesma no correr dos meses que estava com ele. Tambm Andrew tinha mudado.
         Agora j quase tinha cinco anos, j no era um beb.
         Em agosto, Daphne tinha pensado em unir-se com ele ao grupo de meninos e pais que iriam acampar, com o consentimento da senhora Curtis.
         Aquele era um acontecimento muito especial para todos, e Daphne quis que John fosse com eles naquela excurso de quatro dias, para compartilhar a experincia 
com o Andrew, mas no foi possvel.
         Tinham uns vinte estudantes na explorao florestal, e todos os veteranos deveriam estar ali a fim de fiscalizar o trabalho dos "novatos".
         -No pode escapulir? -insistiu ela, com grande desencanto.
         -No posso realmente, querida. Tomara pudesse. Vocs vo se divertir muito.
         -No sem voc.
         Daphne quase fazia beicinho, e ele ps-se a rir, pois adorava a menina que havia nela.
         Na terceira semana de agosto partiram, providos com os sacos de dormir, as barracas de campanha e os cavalos.
         Era uma nova experincia para os meninos viajar atravs dos bosques, e tudo que os rodeava era um descobrimento e causa de novas emoes.
         Daphne tinha levado seu dirio, a fim de poder anotar tudo nele para que depois John lesse; todas as coisas divertidas que Andrew fizesse, assim como os 
breves momentos que temia no recordar depois.
         Entretanto, a maior parte o tempo passava escrevendo a respeito de John, e pensando na noite que passaram juntos antes da partida.
         Aquela era a primeira vez que se separavam em nove meses, e Daphne se sentiu desfalecer diante da perspectiva de no o ter com ela.
         Tendo perdido o ser amado uma vez, sentia-se tomada por um medo feroz ao ter que se separar de John.
         Houve noites que at teve pesadelos de que um dia o perderia.
         -No se libertar de mim to facilmente, pequena - murmurou ele junto a seu pescoo quando ela comunicou seus temores.
         -Sou um tronco muito duro de cortar.
         -Eu no poderia viver sem voc, John.
         -Claro que poderia. Mas no ser necessrio que faa a prova, e no ser por muito tempo. Assim, divirta-se com os meninos, e depois me contar tudo o que 
fizeram.
         O amanhecer a surpreendeu deitada junto a ele, depois de ter feito amor, sentindo a quente e suave carne masculina junto a sua coxa.
         Aquele contato sempre causava um fundo estremecimento em todo seu corpo.
         Em suas relaes sexuais, John a deixou mal acostumada.
         Apesar de que ele mesmo dizia ser um "velho", no havia nenhum sintoma de velhice em sua paixo.
         Possua o ardor de um homem com bem menos idade, unido a uma experincia que havia lhe permitido ensinar a Daphne coisas que ela no tinha conhecido antes.
         s vezes ela se perguntava se o gozo era to grande simplesmente porque o amava.
         Era sobre isto que escrevia em seu dirio, aproveitando os momentos em que no estava brincando com Andrew. 
         Ela saboreava aqueles dias to especiais que passava com seu filho, observando como brincava com seus amiguinhos, vivendo juntos no bosque e despertando 
pela manh para contemplar aquela carinha radiante, que fazia muito tempo no via junto a ela ao acordar.
         Retornaram para casa depois de quatro dias, como qualquer respeitvel grupo de excursionistas, sujos, fatigados e relaxados, e acima de tudo felizes pelo 
que tinham vivido.
         Os adultos tinham aproveitado a excurso tanto como os meninos.
         Daphne deixou Andrew na escola, carregou o saco de dormir e a mochila para carro e sentou-se ao volante bocejando.
         No via o momento de reunir-se com John, mas ao chegar em casa no o encontrou.
         Havia pratos na pia e a cama estava sem fazer.
         Daphne sorriu enquanto se metia com grande satisfao sob a ducha.
         At que ele voltasse, j teria posto tudo em ordem.
         Entretanto, enquanto estava na cozinha lavando os pratos, a forma de bater  porta pareceu-lhe pouco familiar.
         Foi abrir com as mos cheias de sabo e sorriu ao ver um dos amigos do John, um homem que no via muito freqentemente, mas que gozava da estima de John, 
como ela bem sabia.
         -Ol, Harry, como est? Daphne tinha um saudvel tom bronzeado e parecia descansada e feliz, mas o amigo de John estava tenso.
         -Quando voltou? Tinha uma grave expresso e havia uma profunda tristeza em seus olhos, como era habitual nele.
         John sempre brincava dizendo que tinha uma cara como se tivesse morrido seu melhor amigo, mas o caso era que tinha uma esposa ranzinza e seis filhos, o 
que era suficiente para deprimir a qualquer um, como dizia John.
         -Como est Gladys? 
         -Daphne, eu posso falar com voc um minuto? 
         Desta vez, Harry parecia verdadeiramente perturbado.
         De repente, Daphne ouviu s suas costas o tic-tac do relgio da cozinha.
         -Claro. -enxugou as mos nos jeans e se aproximou de Harry.
         -Aconteceu alguma coisa ruim algo? 
         Ele assentiu lentamente com a cabea, sem saber como dizer-lhe. 
         -Harry? O que aconteceu? O que se passou? 
         Os olhos de Harry semelhavam dois tristes seixos negros enquanto olhava para Daphne. As palavras no conseguiam sair de seus lbios, e entre ambos se fez 
um silncio espectral.
         -Vamos nos sentar. -Harry se deslocou nervosamente at o sof, e ela o seguiu como em um sonho. -John est morto, Daphne. Morreu enquanto voc estava ausente.
         Ela sentiu que a sala dava voltas a seu redor, enquanto via o rosto de Harry na distncia...
         "John est morto. John est morto..." 
         Aquelas palavras brotavam de um sonho, no da realidade; isto no podia ter lhe acontecido, no a ela... , no de novo.
         E de repente, no silncio que os rodeava, Daphne ouviu uma mulher gritar, histericamente, com uma voz rouca.
         -No! No! No! O agudo grito se converteu em soluos.
         Harry observava-a, ansioso por lhe explicar como ele tinha morrido, mas ela no queria ouvi-lo.
         Isto no importava.
         Ela j tinha passado por isto antes.
         Entretanto, Harry, alheio aos seus sentimentos, comeou a falar, enquanto Daphne cobria os ouvidos com as mos e gritava e andava a esmo pela sala.
         -Houve um acidente na explorao no dia que voc se foi. Telefonamos para a escola, mas nos disseram que no tinham como se comunicar com voc. Um destes 
malditos estudantes perdeu o controle de um guindaste, e uma carga de troncos caiu em cima de John...

         Harry comeou a chorar, e Daphne ficou o olhando com os olhos muito abertos.
         -Fraturou a coluna e o pescoo. Nem sequer soube o que aconteceu.
         Tampouco Jeff soube. Ou pelo menos disseram isto. Que importncia podia ter? Que importncia tinha agora? Olhava fixamente para Harry e s conseguia pensar 
em Andrew.
         O que ia dizer a seu filho? 
         -Todos ns lamentamos at a alma. Enviaram os estudantes de volta para casa, e decidimos que o corpo ficasse na funerria. John no tem famlia aqui, nem 
em nenhuma outra parte. Todos faleceram. No sabamos o que voc iria querer fazer... Gladys pensou...
         -Fizeram bem. 
         Daphne estava plida e tensa. 
         -No se preocupe.
         Ela j tinha passado por um transe similar.
         S depois que Harry partiu que as lgrimas afloraram em seus olhos, copiosos rios de silenciosas e angustiadas lgrimas.
         Olhou em volta da sala e se sentou de novo.
         John Fowler jamais voltaria para seu lar.
         "Voc pode se valer por si mesma, pequena." Recordava as palavras que ele havia dito no passado.
         Mas ela no queria valer-se por si mesma.
         Ela queria fazer sua vida com ele.
         -Oh, John! Foi um murmrio surdo, que se quebrou em sua garganta e ressoou no silncio da cabana.
         Ela recordou tudo o que haviam dito um ao outro, ele a respeito da perda de sua esposa e ela a respeito da perda de Jeff.
         Aquilo tinha sido algo to sem sentido como o que tinha ocorrido agora, e tampouco ela o compreendia melhor; entretanto, desta vez era diferente, pois Daphne 
sabia quo intil seria agarrar-se s lembranas.
         Entrou no bosque ao pr do sol, e as lgrimas brotaram de novo enquanto contemplava o cu de vero e pensava em John, em seus largos ombros e grandes mos, 
em sua voz grave e profunda; John, o homem que os tinha amado, a ela e a Andrew.
         -Maldito! -Daphne gritou para o cu, que se tingia de uma cor alaranjada e malva. -Maldito seja! Por que teve que faz-lo? 
         Permaneceu um longo momento ali, parada, com lgrimas fluindo livremente de seus olhos, enquanto o cu ia escurecendo com lentido.
         Logo, enxugou as lgrimas com as mangas da camisa de lenhador que usava e fez um gesto de assentimento.
         -Est bem, meu amigo. Est bem. Seguiremos adiante. S recorda que te amei.
         Ento, sem deixar de chorar, fixou o olhar no ponto sobre as colinas onde minutos antes o sol estivera e murmurou: 
         -Adeus.
         Em seguida, com a cabea curvada, encaminhou-se para sua casa.
         Na manh seguinte, Daphne despertou antes do amanhecer, naquela cama que de repente lhe pareceu muito grande para ela sozinha.
         Permaneceu deitada, pensando em John e recordando as primeiras manhs em que ficavam um junto ao outro, e freqentemente seus corpos se fundiam em um s 
antes do amanhecer.
         O sol foi entrando s escondidas pelas janelas, enquanto ela se sentia pesada, desejando no tornar a levantar-se nunca mais.
         No experimentava o horror e o pnico que a assaltaram quando morreu Jeff.
         Agora sentia somente um enorme vazio, e se apoderava dela uma sensao de perda, uma pena sem fim, que a curvava como o peso de sua prpria lpide sepulcral, 
enquantoacariciava uma e outra vez com os dedos da mente a ferida aberta...
         As palavras cruzavam ritmicamente por seu crebro: "John est morto..., est morto..., est morto..., No voltarei a v-lo nunca mais..., nunca mais..." 
         E o pior de tudo era que tampouco Andrew voltaria a v-lo.
         Como explicaria para seu filho? 
         Era quase meio-dia quando fez um esforo para levantar-se da cama, e sentiu um ligeiro enjo ao ficar de p.
         Sentiu nuseas, um vazio no estmago, pois no tinha comido nada desde a manh anterior; tampouco agora pde provar qualquer coisa, enquanto aquelas palavras 
continuavam ressonando em sua cabea: "John est morto... John est morto...".
         Permaneceu meia hora sob a ducha, com o olhar perdido, enquanto a gua batia sobre seu corpo como uma chuva furiosa, e levou quase uma hora mais para decidir-se 
a vestir jeans, uma camisa de John e uns sapatos.
         Ficou com o olhar fixo no armrio de ambos como se guardasse preciosos segredos de toda uma vida; entretanto, ela j tinha passado por uma experincia semelhante, 
e no estava disposta a deixar-se abater por isto.
         Quando Jeff morreu, o conhecimento de que levava seu filho em seu ventre a havia ajudado a seguir adiante, mas nesta ocasio no contaria com semelhante 
ajuda: o milagre da vida para rebater o absurdo da morte.
         Desta vez contava com a presena do mesmo Andrew.
         Sabia que agora devia encontrar o caminho para aproximar-se dele, por seu bem e pelo seu prprio.
         Ainda tinha a seu filho.
         Dirigiu-se  escola em seu carro, aturdida e dominada ainda por uma estranha sensao; s quando viu Andrew brincando com uma bola comeou a chorar de novo.
         Ficou contemplando-o durante um longo momento, tratando de ordenar seus pensamentos e deter as lgrimas, mas parecia que estas no queriam deixar de fluir, 
at que finalmente o menino, ao voltar a cabea, viu-a.
         Ento franziu o cenho, abandonou a bola e se dirigiu lentamente para ela com uma expresso preocupada nos olhos.
         Ela se sentou sobre a grama e estendeu os braos, sorrindo em meio das lgrimas.
         Agora ele era o centro de sua vida, como sempre tinha sido antes.
         -Ol - disse-lhe por gestos, assim que o pequeno se sentou junto a ela.
         -O que aconteceu?
         Todo o amor e o amparo que sentiam um pelo outro se refletiam nos olhos de Andrew.
         Seguiu-se uma interminvel pausa durante a qual ela notou que suas mos tremiam.
         No conseguia dominar-se para expressar-se por gestos. Por fim o fez.
         -Tenho algo muito triste que lhe contar.
         -O que? -perguntou o menino, surpreso.
         Ela o tinha mantido afastado de dores e desastres, e ainda no tinha ocorrido nada como aquilo em sua vida.
         Mas no havia modo algum de lhe evitar aquele desgosto.
         O menino tinha crescido muito apegado a John.
         O queixo de Daphne tremia, e os olhos se encheram de lgrimas ao estreitar seu filho entre seus braos.
         Logo o soltou para expressar por gestos o que tinha que lhe dizer.
         -John morreu enquanto estvamos no acampamento, querido. Sofreu um acidente. Eu soube ontem. No voltaremos a v-lo.
         -Nunca mais? Andrew abriu muito os olhos com incredulidade.
         Sua me assentiu e lhe respondeu por gestos: 
         -Nunca mais. Mas lembraremos sempre dele, e o amaremos, como eu amo a seu papai.
         -Mas eu no conheo meu papai - argumentou o menino, com mos trmulas. - Eu amo o John.
         -Eu tambm o amo. -As lgrimas deslizaram de novo pela face de Daphne. -Eu tambm o amo... -E acrescentou-: E tambm amo voc.
         Ento ambos se abraaram, enquanto o pequeno comeava a chorar com entrecortados e guturais soluos, que rasgavam o corao de sua me.
         Pareceu que transcorriam horas sem que nenhum dos dois se decidisse a romper o abrao.
         Depois, deram um passeio em silncio, de mos dadas.
         De vez em quando Andrew dizia algo em gestos a respeito de John, das coisas que tinham feito, de como se comportava com ele.
         Daphne sentiu novamente como aquele homem tinha cativado seu filho sem precisar falar nem uma s palavra.
         John era um homem que no necessitava das palavras.
         Havia nele uma poderosa e rara essncia que transcendia todo o resto, at o problema de Andrew e os medos de Daphne.
         Surpreendeu-se quando Andrew lhe perguntou: 
         -Vai ficar aqui sem ele, mame? 
         -Sim. Voc sabe que estou aqui por voc.
         Porm, ambos sabiam que isto no tinha sido inteiramente exato nos seis ltimos meses.
         Andrew havia se tornado cada vez mais independente, e Daphne ficou em New Hampshire por causa de John.
         Entretanto, ela no podia ir-se agora.
         Andrew precisava dela mais que nunca, e ela precisava dele.
         As semanas restantes do vero transcorreram lentamente, enquanto Daphne sofria em silncio por John.
         Ao final de um tempo deixou de chorar, e tampouco voltou a escrever em seu dirio.
         Apenas provava a comida, e no via ningum, somente Andrew.
         A senhora Obermeier foi quem que finalmente foi at sua casa, e ficou aturdida pelo que viu.
         Daphne tinha perdido mais de cinco quilos, tinha as feies tensas e um vinco de amargura em torno da boca.
         A velha austraca a estreitou entre seus braos, mas nem sequer ento Daphne chorou.
         Tinha superado a etapa da dor, e agora simplesmente resistia para sobreviver, sem saber muito bem por que, como se nem fosse por seu filho. Na realidade, 
nem sequer ele necessitava dela.
         Andrew tinha a escola, e a senhora Curtis tinha sugerido que suspendesse as visitas.
         -Por que no retorna a New York? -perguntou-lhe a senhora Obermeier diante da xcara de ch que Daphne apenas tinha provado. -Para seus amigos.  penoso 
para voc permanecer aqui. Est repleto da presena dele.
         Daphne tambm percebia, mas no queria retornar.
         Queria ficar na cabana para sempre, com os objetos do John, com suas botas, com seu cheiro, com a aura de sua pessoa.
         Muito antes de morrer, John j tinha abandonado o apartamento onde vivia.
         -Quero ficar aqui.
         -Isso no te faz nenhum bem, Daphne - disse a anci com firmeza. - No pode se agarrar ao passado.
         Daphne esteve tentada de lhe perguntar por que no, mas ela j conhecia as respostas.
         J tinha passado antes por aquele transe.
         Entretanto, isto no fazia a no ser agravar a presente situao.
         Seu conto saiu na Collins em outubro, e Allison lhe enviou um exemplar com uma nota que dizia: "Quando, demnios, voc vai voltar? Com carinho, Allie".
         Mentalmente, Daphne respondeu: "Nunca".
         Mas no fim de um ms recebeu uma carta da proprietria da cabana, que morava em Boston, lhe comunicando que seu contrato de aluguel tinha vencido, e que 
a cabana tinha sido vendida.
         Pedia-lhe que a desocupasse at princpio de novembro.
         Ela j no podia alegar como desculpa que tinha o apartamento de New York ocupado.
         Seu inquilino se mudou os primeiros dias de outubro, por isto o nico lugar para onde podia ir era New York.
         Teria podido encontrar outra cabana ou apartamento em New Hampshire, mas isto no fazia muito sentido.
         S via Andrew uma vez por semana, e ele no lhe dava muita ateno.
         O menino ficava cada vez mais independente, e a senhora Curtis tinha observado recentemente que tinha chegado o momento que se concentrasse por completo 
na escola. 
         De certo modo, as visitas de Daphne retardavam seus progressos, j que o menino se apegava a sua me.
         Na realidade, era Daphne quem se agarrava a ele.
         Fez as malas com todas suas coisas e as de John,  despachou-as por nibus para New York, e pela ltima vez lanou um olhar em torno da cabana, com um n 
na garganta, at que escapou dela um afogado soluo.
         O pranto a sacudiu durante uma hora, sentada no sof, onde chorou em silncio.
         Estava sozinha.
         John tinha desaparecido.
         Nada podia o trazer de novo  vida.
         Foi-se para sempre.
         Daphne fechou a porta quietamente ao sair, e apoiou o rosto contra ela, sentindo a madeira na face e recordando os momentos que tinha compartilhado com 
John.
         Logo se afastou com passo lento para seu carro.
         Tinha dado a Harry o caminho de John.
         Na escola, Andrew estava absorvido por suas atividades e seus amiguinhos.
         Despediu-se dele com um beijo e lhe prometeu voltar dentro de algumas semanas, para passar juntos o Dia de Ao de Graas.
         Hospedaria-se na Austrian Inn, igual aos outros pais.
         A senhora Curtis no mencionou John quando Daphne se foi, apesar de t-lo conhecido e de lamentar profundamente sua perda.
         A viagem de carro para New York demorou sete horas.
         Daphne no experimentou nenhuma emoo ao entrar na cidade e observar ao longe a familiar silhueta do Empire State Buiding.
         Aquela era uma cidade que ela no queria ver, um lugar ao qual no desejava voltar, pois j no era um lar o que ali a esperava, mas s um apartamento vazio.
         O apartamento se encontrava em boas condies.
         A inquilina tinha o deixado limpo.
         Daphne lanou um suspiro ao descarregar a mala sobre a cama.
         Inclusive ali habitavam fantasmas.
         Devia enfrentar o quarto vazio do Andrew, onde se encontravam os jogos com os quais j no se distraria, os livros que j no leria.
         Os tesouros mais apreciados foram levados com ele para a escola, e o resto era algo que pertencia a uma idade que o menino j tinha superado.
         Daphne se sentiu como se tambm ela tivesse superado o que aquele apartamento podia lhe dar.
         Tinha um horrvel aspecto urbano, que a deprimia depois de ter vivido tantos meses na cabana com vista para as colinas de New Hampshire.
         Aqui s se oferecia a vista de outros edifcios, uma cozinha completamente diferente daquela to cmoda a que estava acostumada, uma sala de estar com umas 
cortinas que se tornaram velhas, um antigo tapete pudo pelas brincadeiras de Andrew e uns mveis que comeavam a apresentar arranhes e desprendendo pequenas lascas.
         Em outros tempos, tinha significado muito para ela e para seu filho.
         Agora, sem ele, no tinha nenhum valor.
         Limpou o tapete no primeiro fim de semana que passou no apartamento, trocou as cortinas e comprou novas plantas, mas o resto simplesmente ficou sem cuidado.
         A maior parte do tempo dedicou-se a passear, tratando de adaptar-se a New York de novo, evitando voltar para apartamento.
         Era de fato uma bonita poca do ano, sem dvida a melhor em New York, mas nem sequer aquele clima fresco, em que tudo parecia dourado pelos raios do sol, 
conseguia lhe levantar o nimo.
         Tudo isto no lhe importava nada.
         Em seus olhos aparecia uma expresso sombria quando se levantava pela manh e se perguntava o que faria com sua alma.
         Dizia-se que devia sair e procurar um emprego, mas no tinha vontade de faz-lo.
         Ainda tinha dinheiro suficiente para seguir vivendo por um tempo sem trabalhar, e disse a si mesma que depois do Ano Novo comearia a pensar nisto.
         Colocou o manuscrito em uma gaveta do escritrio e nem sequer se deu ao trabalho de telefonar para sua antiga chefe, a Allie.
         Mas um dia encontrou com ela em uma loja do centro, onde tinha entrado para comprar um pijama para o Andrew.
         Durante o ano, o menino tinha crescido tanto que devia procurar roupa dois tamanhos maiores; a senhora Curtis tinha lhe enviado uma lista de tudo o que 
ele precisava.
         -O que anda fazendo por aqui, Daff? 
         -Umas compras para o Andrew - respondeu ela com naturalidade.
         Tinha pior aspecto que no ano anterior e Allison Baer no pde deixar de perguntar-se o que lhe teria acontecido.
         -Voc est bem? -perguntou com uma sombra de preocupao nos olhos.
         -Perfeitamente. 
         -E voc?
         -Bastante bem. -Daphne - disse-lhe sua amiga, tocando seu brao, com verdadeiro interesse em saber por que tinha to mau aspecto-, no pode se agarrar a 
seu filho eternamente.
         Seria possvel que o fato de ter que deixar o menino na escola lhe causasse uma dor to grande? Na realidade, isto no era saudvel.
         -Sei. Andrew est bem. Adora a escola.
         -E voc? Quando retornou? 
         -H duas semanas. Quis lhe telefonar, mas estive muito atarefada.
         -Escrevendo? -perguntou Allie, esperanosa.
         -Na verdade, no.
         Nem sequer queria pensar nisto agora.
         Aquilo fazia parte de sua vida com John, e isto tinha terminado.
         No que lhe dizia respeito, tambm tinha concludo sua carreira literria.
         -O que aconteceu com o livro que conforme me disse estava escrevendo e que prometeu me mandar? Ainda no o terminou?
         Daphne quis responder que no, mas no o fez.
         -Sim, terminei-o neste vero. Mas ento no soube o que fazer. Pensei que devia lhe telefonar para que me ajudasse a procurar um agente.
         -E ento? - Tudo em Allison tinha o ritmo trepidante de New York, e Daphne no se sentia com nimos de suport-la neste momento.
         Aos cinco minutos de estar com ela, j se sentia cansada.
         -Poderei v-lo? 
         -Suponho que sim. Vou lev-lo.
         -O que lhe parece se amanh almoarmos juntas? 
         -No acredito que me seja possvel... Eu...
         Desviou o olhar, nervosa pela multido que enchia a loja e pela presso que Allie exercia sobre ela.
         -Veja, Daff - disse-lhe esta, agarrando ligeiramente seu brao, - falando claro, tem pior aspecto agora do que quando partiu no ano passado.Na realidade, 
parece um despropsito. Tem que se reerguer. No pode passar o resto de sua vida se escondendo das pessoas. Perdeu Jeff e Aimee, e Andrew est bem instalado nesta 
escola; pelo amor de Deus, agora deve fazer algo por si mesma. Vamos almoar juntas e conversaremos sobre isto.
         A perspectiva era verdadeiramente aterradora.
         -No quero falar disto.
         Mas enquanto tratava de livrar-se de Allie, pareceu-lhe ouvir a voz de John na distncia, que lhe dizia: "Vamos, pequena, voc pode faz-lo... Maldita seja, 
tem que faz-lo...".
         Quanta f tinha nela, como estava emocionado com o resultado de seu livro! Deixar o livro fechado em uma gaveta era como negar ao John a satisfao de ver 
a obra concluda.
         -Est bem, de acordo. Almoaremos juntas. Mas no quero falar disto. Voc me dir o que devo fazer para encontrar um agente.
         Encontraram-se no dia seguinte no Veau d'Or, e Allie se mostrou cheia de idias e de sugestes interessantes.
         Parecia disposta a examinar os olhos de Daphne, mas esta se manteve estritamente dentro do tema.
         Allie lhe forneceu uma lista de agentes literrios para que entrasse em contato com eles por telefone, pegou o manuscrito em suas mos e lhe prometeu devolver 
logo depois do fim de semana.
         Quando o fez, no podia conter sua euforia.
         Considerava que era o melhor que tinha lido em muitos anos.
         Daphne no pde sentir menos que prazer pelo elogio.
         Allie sempre tinha sido muito dura em suas crticas, e poucas vezes generosa com o aplauso.
         Mas, neste caso, estava-a aplaudindo.
         Indicou a Daphne qual agente da lista convinha contactar, e na segunda-feira ela assim o fz, ainda convencida de que fazia isto por John.
         Entretanto, no tardou para contagiar-se com o ardente entusiasmo de Allie.
         Deixou o manuscrito no escritrio da agente, achando que demoraria vrias semanas para ter alguma notcia, mas em quatro dias, enquanto fazia a bagagem 
para ir celebrar o Dia de Ao de Graas com Andrew, ris, a agente literria, telefonou s quatro horas e lhe perguntou se poderia v-la na segunda-feira.
         -O que lhe pareceu o livro? De repente sentiu um desejo irreprimvel de saber.
         Lentamente, ia voltando para a vida, e o livro ia se tornando importante para ela.
         Era seu ltimo vnculo com John, e tambm seu ltimo vnculo com a sobrevivncia.
         -O que me pareceu? Honestamente? -Daphne conteve o flego. -Eu adorei. Allison tem razo; telefonou-me no mesmo dia que voc trouxe isto.  o melhor que 
li em muitos anos.
         Pode apostar que tem um ganhador seguro, Daphne.
         Pela primeira vez em trs meses, Daphne esboou um autntico sorriso, enquanto seus olhos se enchiam de lgrimas.
         Lgrimas de emoo e de alvio, e de novo sentiu aquela antiga dor, ao desejar compartilh-lo com John e sentir uma vez mais que ele no estava nem estaria 
nunca mais a seu lado. 
         -Pensei que talvez na segunda-feira poderiamos almoar...
         -Vou viajar... - Daphne no queria se comprometer em almoar com ela, mas sabia que no domingo estaria de volta  cidade. - De acordo.
         -Onde? Allison tinha advertido a ris que Daphne era uma pessoa difcil de tratar, que tinha ficado traumatizada pela morte de seu marido e de sua filha, 
e que, alm disto,  tinha um filho em uma "instituio", por isto nunca se recuperou de tanta dor.
         Allison sempre havia suposto que, pelo fato de que Andrew ser surdo, significava que, mentalmente, no era  "normal".
         -No Cygne,  uma.
         -Estarei l.
         -timo. Ah, Daphne...
         -Sim? 
         -Parabns.
         Depois de desligar, Daphne se sentou na beira da cama, pois suas pernas fraquejaram e o corao pulsava com fora.
         Tinham gostado do livro..., o livro que tinha escrito para John...
         Era surpreendente.
         Mais surpreendente seria que algum editor adquirisse os direitos.
         A refeio do Dia de Ao de Graas com Andrew teve sua cota especial de alegria, mas nesta noite, quando se deitou na cama da Austrian Inn, no pde conciliar 
o sonho, e sua mente comeou a vagar inquieta de um lugar para outro.
         Era difcil esquecer que um ano antes John a tinha recolhido naquele escuro caminho rural, e ento tinha comeado a vida para ambos, e que agora, s um 
ano mais tarde, tudo tinha terminado.
         Agora tinha outra festa marcada para odiar.
         O Dia de Ao de Graas e o Natal.
         E sabia que este ano tambm Andrew tinha sentido.
         Freqentemente observou que o menino ficava pensativo, e em algumas ocasies, com uma expresso ansiosa nos olhos, falou-lhe com gestos a respeito de John.
         Andrew tinha muitas lembranas que compartilhar.
         Demais, dizia-se a si mesma enquanto evitava passar diante de sua cabana.
         Mas agora no podia permitir-se pensar em John, j que tinha que concentrar seus pensamentos em Andrew e nos progressos que o menino fazia na escola.
         Desta vez, quando se despediu de seu filho, a separao no foi particularmente traumtica, pois voltaria para as festas natalinas.
         Deu um solitrio passeio pelas colinas onde tinha espalhado as cinzas de John antes de retornar a New York, e se encontrou falando com ele em voz alta, 
sabendo que ningum podia ouvi-la.
         Contou-lhe sobre o livro e de Andrew, e logo, olhando para as profundidades do bosque e para o cu de inverno, murmurou: 
         -Como sinto sua falta! 
         Pareceu-lhe ouvir um eco dos pensamentos de John e soube que tambm ele sentia falta dela.
         Possivelmente, de certo modo, era uma sorte ter se apaixonado por ele.
         Talvez isto fosse o que importava, quando tudo tinha acabado.
         Voltou para carro e retornou a New York, e nesta noite desabou sobre a cama, exausta.
         No dia seguinte, colocou um vestido de l branco, um grosso casaco negro e botas altas.
         Fazia um frio glacial, e lhe parecia que fazia mil anos que no comparecia a um almoo deste tipo.
         Agora lhe parecia estranho ter que encontrar-se com uma mulher para conversar sobre seu livro.
         Recordava dos almoos com autores de quando trabalhava na Collins, mas o curioso do caso residia no fato de que nesta ocasio era ela a autora.
         -Daphne? Sou ris McCarthy.
         A agente era uma ruiva muito polida, com uma coleo de elegantes anis que refulgia em suas bem cuidadas mos quando batia as unhas sobre a mesa.
         Todo o tempo que durou o almoo passaram falando do livro, e quando lhes serviram o caf e uma mousse de chocolate, comearam a conversar a respeito da 
idia que tinha ocorrido a Daphne para um segundo livro.
         Tratava-se de uma idia que tinha comentado com John, e ele ficara entusiasmado.
         O mesmo aconteceu com ris, e Daphne sorriu satisfeita.
         Parecia-lhe ouvir a voz de John lhe murmurando ao ouvido: "Isto, pequena..., voc pode faz-lo".
         Quando terminaram de almoar, j tinham escolhido os ttulos dos dois livros.
         Daphne ficou encantada com eles.
         O primeiro se chamaria Anos Outonais, e era o que tinha escrito em New Hampshire, sobre uma mulher que fica viva aos quarenta e cinco anos, e como consegue 
sobreviver a esta desgraa.
         Era um tema que ela conhecia muito bem.
         ris comentou que havia "um grande mercado para este tema".
         O segundo se chamaria simplesmente Agatha, a histria de uma jovem que vive na Paris de ps-guerra.
         Tratava-se de um argumento que ela tinha desenvolvido em forma de conto, mas que parecia poder dar para muito mais, e isto era o que Daphne deixaria que 
acontecesse.
         Prometeu comear a trabalhar imediatamente, e logo o discutiria com ris.
         Nesta mesma tarde se encontrou sentada em seu escritrio com a vista fixa em uma folha de papel em branco.
         Quando as idias comearam a fluir para o livro, ela deixou que seguissem seu curso.
         A meia-noite j tinha um slido esboo do princpio, e quando retornou das festas de Natal passadas com Andrew, o rascunho no s estava terminado, mas 
tambm cuidadosamente revisado.
         O rascunho foi entregue a ris em seu escritrio, e a agente o aprovou.
         Durante os trs meses seguintes, Daphne se fechou em seu apartamento e trabalhou de dia e de noite.
         No era um livro fcil de escrever, mas a encantava.
         A maioria das vezes estava to concentrada que nem sequer atendia ao telefone.
         Mas quando este tocou em um dia do ms de abril, Daphne se levantou da cadeira, soltou um grunhido e foi  cozinha para responder.
         -Daphne? 
         -Sim. "No, Drcula", sempre ficava tentada de responder.
         Que outra pessoa poderia atender ao telefone? A donzela da torre? Era ris.
         -Tenho notcias para voc.
         Mas Daphne estava to cansada que quase no lhe prestava ateno.
         Tinha trabalhando no livro at as quatro da madrugada na noite passada e estava exausta.
         -Acabam de me telefonar da Harbor e Jones.
         -E? De repente, o corao de Daphne comeou a pulsar rapidamente.
         Nos ltimos quatro meses tudo tinha comeado a ter importncia e sentido para ela.
         Por seu bem, pelo de Andrew e pela memria de John.
         Desejava que acontecesse, e lhe parecia que demorava muitssimo tempo.
         No obstante, ris lhe assegurou que quatro meses no eram nada.
         -Gostaram? 
         -Poderamos dizer que sim - respondeu ris, sorrindo no outro extremo da linha. - Eu diria que uma oferta de vinte e cinco mil dlares significa que gostaram.
         Daphne ficou boquiaberta, olhando fixamente o telefone.
         -Fala a srio? 
         -Claro que falo a srio.
         -Oh, meu Deus!... Oh, meu Deus! ris! -Seu rosto se iluminou com um amplo sorriso, e olhou pela janela da cozinha para o glorioso dia que o sol de primavera 
tornava radiante. -ris! ris! ris! 
         Afinal aconteceu, John tinha razo ela podia faz-lo! 
         -E agora o que devo fazer? 
         -Almoar com seu editor na tera-feira. No Four Seasons. Voc se elevou ao topo do mundo, senhora Fields.
         -Tomara que tenha razo! 
         Tinha quase trinta e um anos e estava a ponto de publicar seu primeiro livro, assim como almoar com seu editor no Four Seasons.
         Este sim era um almoo que no perderia por nada do mundo.
         E no o perdeu.
         Na tera-feira ao meio dia chegou na hora marcada, usando um vestido novo rosado, de Chanel, que comprou para a ocasio.
         A diretora da editora era uma mulher de aspecto feroz com um sorriso carnvoro, mas at o final do almoo Daphne compreendeu que se dariam bem e que aprenderia 
muito com dela.
         Comearam a comentar o segundo livro, sentadas  mesa prxima a um aqurio, no centro do salo de mrmore branco, rodeadas de garons que se empenhavam 
em atend-las.
         A diretora da Harbor e Jones lhe perguntou se poderia dar uma olhada no que Daphne j tinha escrito de seu novo livro.
         Ao final de um ms, recebeu uma segunda oferta, e quando acabou o livro em fins de julho, partiu de volta a New Hampshire para passar um ms junto a Andrew.
         O primeiro livro foi lanado no Natal, dedicado a John, e fez um moderado sucesso, mas foi o segundo que consagrou Daphne.
         Saiu na primavera, e quase em seguida figurou na lista dos livros mais vendidos do The New York Times.
         Alm disto, venderam os direitos para a edio de bolso por cem mil dlares.
         -O que sente em ser uma autora de sucesso, Daff? -Allie sentia um orgulho maternal diante de sua consagrao, e a tinha convidado para almoar quando fez 
trinta e dois anos. -Diabos, eu deveria obrig-la a pagar o almoo! 
         Mas era evidente que no lhe cobrava o reconhecimento pelo que tinha feito.
         Havia-a devolvido ao mundo dos vivos quando Allison nem sonhava que conseguiria faz-lo, e todos os que sabiam das angstias que tinha sofrido na vida se 
alegravam com profunda emoo com seu xito.
         -No que est trabalhando agora? 
         Tinha o terceiro livro bem avanado, que Harbor e Jones j lhe tinham comprado antes de terminar e tinham programado public-lo no vero seguinte.
         -Em algo que chamei Pulsar do Corao.
         -Eu gosto do ttulo.
         -Espero que voc goste do livro.
         -Eu gostarei, e tambm seus leitores.
         Allie nunca tinha duvidado de seu talento nem um s instante.
         -Estou um pouco inquieta por este. Vo me mandar viajar para promov-lo.
         -J  hora.
         -Alegro-me que ache assim. De que vou falar nas entrevistas que darei em Cleveland? Daphne ainda parecia tremendamente jovem, e era um pouco tmida, por 
isto a perspectiva de aparecer na televiso a deixava muito nervosa.
         -Fale de voc mesma. Isto  o que as pessoas desejam. Sempre me perguntam isto.
         -E o que lhes diz? 
         Allison se limitou a lhe contar o estritamente necessrio para que formasse uma idia da realidade.
         -Devo lhes dizer que tive uma vida trgica? Isto  precisamente o que no quero contar.
         -Ento conte como escreve seus livros, este tipo de coisas. -Soltou uma risadinha cheia de malcia. - Conte com quem sai ultimamente.
         Daphne parecia to animada no ltimo ano que Allie supunha que tinha uma corte de pretendentes.
         O que no sabia era que no havia nenhum outro homem na vida de Daphne, depois da morte de John.
         Ela j imaginava que as coisas seriam assim, definitivamente.
         Sabia que no poderia suportar a perda de outro ser querido, e no estava disposta a correr este risco.
         -Por certo, quem  o homem de sua vida? Daphne sorriu.
         -Andrew.
         -Como est seu filho? Na realidade, Allie no se interessava muito em saber. Encantava se com os adultos, as pessoas vencedoras.
         Nunca tinha se casado e no sentia uma especial predileo pelas crianas.
         -Est muito bem. Bonito e grande, e sempre anda muito ocupado.
         -Ainda continua na escola? 
         -E ficar l por um longo tempo ainda. -Uma sombra de tristeza nublou os olhos de Daphne, e Allison lamentou lhe ter feito esta pergunta. -Espero que dentro 
de um par de anos possa traz-lo de volta para casa.
         -Parece-lhe sensato? -perguntou Allie com evidente surpresa.
         Ela ainda acreditava que o menino era louco.
         Mas Daphne sabia o que sua amiga pensava, embora no lhe guardase ressentimento por isto.
         -Logo veremos. H vrias teorias que diferem umas das outras sobre este assunto. Eu gostaria de matricul-lo em uma escola normal aqui, em New York, assim 
que esteja em condies de poder freqent-la.
         -Isto no vai interferir em seu trabalho? 
         Allison nunca chegaria a entender e Daphne sabia. Como podia interferir em seu trabalho uma criana que ela amava com toda sua alma? Daphne sabia que inclusive 
resultaria em benefcio para sua obra. Possivelmente complicaria um pouco as coisas, mas ela desejava este tipo de complicao.
         -Bom, me fale da viagem. Aonde ir? 
         -Ainda no sei. Para a regio do meio oeste, Califrnia, Boston, Washington DC. Pelo que todos dizem a loucura de sempre. Vinte cidades em outros tantos 
dias, sem dormir, sem comida quente, e com o espanto de no saber onde se encontra ao acordar pela manh.
         -Parece formidvel.
         -Imagino. Para mim parece muito com um pesadelo.
         Daphne ainda tinha saudades da vida sossegada que tinha na cabana de New Hampshire, mas depois disto muita gua passara sob as pontes, e aqueles tempos 
no voltariam nunca mais.
         Acalentava a idia de comprar um apartamento no East Sixties.
         Depois de almoar se dirigiu para casa para trabalhar no novo livro, como fazia todos os dias, todas as noites e todas as horas que no destinava a visitar 
o Andrew.
         Assim tinha encontrado a forma de encher o vazio.
         Um mundo de fantasia, cheio de gente que vivia e morria em sua cabea, para distrao de centenas de milhares de leitores, e de milhes nas edies de bolso.
         No havia nada mais em sua vida salvo o trabalho, mas valia a pena.
         Antes de completar os trinta e trs anos, o livro Apache de Daphne Fields alcanou o primeiro lugar na lista dos livros mais vendidos do The New York Times.
         Daphne tinha triunfado.
         -Como vai? Os olhos de Barbara pousaram desanimadamente na enfermeira, que estava verificando de novo os registros dos aparelhos de controle, mas no tinha 
motivo para perguntar.
         Era evidente que no houvera nenhuma mudana.
         Parecia incrvel pensar que Daphne jazia naquela cama, to imvel, to carente de vitalidade, to desprovida daquela energia que, com tanta generosidade, 
dedicava s pessoas que necessitavam dela.
         Barbara sabia melhor que ningum que era capaz de mover montanhas.
         Tinha-as movido por Andrew, por ela mesma e por Barbara, no correr dos anos.
         Quando a enfermeira saiu de novo do quarto, Barbara fechou os olhos um instante, recordando o comeo, o dia que conheceu Daphne, quando ela, Barbara, ainda 
vivia com sua me naqueles dias de pesadelo que agora lhe pareciam to longnquos.
         Tinha sado para comprar mantimentos, e voltava exausta e sem flego, depois de subir a escada, para seu apartamento sombrio e sujo do West Side, onde Barbara 
morava h anos, com sua me invlida.
         Daphne tinha chegado a ela atravs de sua agente, que sabia que Barbara fazia trabalhos de datilografia em sua casa,  para complementar o baixo salrio 
que ganhava como secretria, e para proporcionar-se secretamente uma via de escape daquela vida que detestava com desespero e daquela realidade que lhe era to insuportvel.
         Os manuscritos lhe ofereciam uma dose de fantasia, a possibilidade de vislumbrar outros mundos, mesmo que isto representasse uma grande quantidade de trabalho.
         Barbara havia transposto a porta com os braos ocupados pelas bolsas de mantimentos, para logo sentir, como sempre, o aroma de couve cozida e de carne consumida 
pela velhice.
         E ali estava sentada Daphne, muito sria, calada, vestida simplesmente e envolta em uma aura de frescor.
         Olhar para ela foi, para Barbara, como abrir uma janela e aspirar ar puro.
         Os olhos de ambas as mulheres se encontraram imediatamente, e Barbara corou.
         Ningum ia a seu apartamento, era ela quem ia  agncia literria para recolher o trabalho.
         Barbara se dispunha a dizer algo a Daphne, quando ouviu a conhecida voz chorosa que perguntava: 
         -Voc trouxe o arroz? 
         Barbara sentiu um urgente desejo de gritar, enquanto Daphne a observava, compreendendo logo a situao.
         -Sempre compra o de pior qualidade.
         A voz de sua me era, como de costume, chorosa e queixosa, sempre zangada e irritante.
         -Sim, trouxe o arroz. Agora, me, por que no vai para seu quarto e se deita enquanto eu...
         -E caf? 
         -Tambm trouxe.
         A velha comeou a remexer nas duas bolsas de papel, fazendo estalos surdos com a lngua.
         Barbara tinha as mos tremendo enquanto tirava a jaqueta.
         -Me, por favor...
         Olhou para Daphne como lhe pedindo desculpas, e esta lhe sorriu, tratando que aquela cena no lhe alterasse os nervos.
         Mas s estando ali experimentava uma sensao de claustrofobia.
         Sentia-se presa s de contemplar Barbara e sua me.
         Por fim, a velha se fechou em um quarto, e Daphne pde explicar os motivos que a levaram ali.
         O manuscrito tinha chegado de volta a suas mos ao final de duas semanas, perfeitamente datilografado, sem um s erro.
         Daphne confessou que lhe parecia admirvel que tivesse podido faz-lo apesar de que sua me, sem dvida nenhuma, deixava-a louca.
         Parecia-lhe que Barbara levava uma vida horrvel, e se perguntou por que teria resolvido viver com sua me.
         A partir daquele dia, Daphne lhe levou outros trabalhos, rascunhos corrigidos, rudes apontamentos e notas ocasionais, e chegou um momento em que pediu a 
Barbara que fosse a seu apartamento e trabalhasse ali com ela.
         Foi ento que Barbara lhe contou finalmente a histria de sua vida.
         Seu pai havia falecido quando ela tinha nove anos, e sua me teve que trabalhar como uma louca para cri-la,  coloc-la nas melhores escola que fosse possvel 
e, por fim, ajud-la para que pudesse cursar os estudos pr-universitarios.
         Assim, Barbara tinha ido  Universidade Smith e se graduou com honras, mas ento sua me sofreu um derrame e no pode ajud-la mais.
         Agora era Barbara que tinha que trabalhar para cuidar da me, que durante dois anos esteve acamada.
         Barbara se empregou como secretria de dois advogados, e de noite cuidava de sua me. No sobrava tempo para muitas coisas mais, e contou a Daphne que nesta 
poca estava permanentemente exausta.
         A relao amorosa que tinha iniciado na universidade deu em nada, pois o jovem no quis compreender as exigncias que a vida impunha a Barbara, e quando 
lhe props casamento, com lgrimas nos olhos ela se negou a separar-se de sua me.
         No tinha recursos para p-la em um asilo, e sua me lhe implorou que no o fizesse.
         Barbara simplesmente no podia abandon-la, sobretudo depois dos anos que Eleanor Jarvis tinha passado trabalhando de dia e de noite em dois empregos para 
que ela pudesse ir  escola.
         Aquela era uma dvida que teria que pagar, e sua me lhe isto recordava constantemente.
         -Depois de tudo que fiz por voc, quer me abandonar... -acusava-a choramingando, gerando em sua filha um sentimento de culpa.
         Barbara no tinha inteno de abandon-la.
         Na realidade, no podia faz-lo.
         Passou dois anos cuidando de sua me, cuidando para que recuperasse a sade, enquanto trabalhava no escritrio dos advogados.
         No final destes dois anos, seu chefe se separou de sua mulher e comeou a cortejar Barbara.
         O advogado sabia a vida que ela levava e sentia uma grande compaixo por ela.
         Era uma jovem muito inteligente, e lhe chateava ver como desperdiava sua vida daquela maneira.
         Aos vinte e cinco anos tinha o aspecto de uma velha e se comportava como tal.
         Era ele quem a impulsionava a sair em cada oportunidade que tivesse.
         Estava acostumado a passar para procur-la e conversava com sua me.
         Esta protestava energicamente cada vez que Barbara saa, mas o advogado se mostrava firme com Barbara, a fim de lhe fazer compreender que devia aproveitar 
algo da vida para si mesma.
         Ela tratava de passar com ele todo o tempo que podia, enquanto tentava, ao mesmo tempo, acalmar a sua me.
         Aquela relao durou seis meses, e foi o nico raio de sol que Barbara teve em sua vida.
         No Natal, ele anunciou que se reconciliou com sua esposa.
         Esta se encontrava na etapa difcil de sua vida, e sofria muitos transtornos; alm disto, os filhos lhe causavam muitos problemas.
         -Tenho responsabilidades, Barbara. Devo voltar para junto dela para lhe dar uma mo.
         Necessita de mim. No posso deix-la sozinha...
         Tratava de justificar-se, e Barbara o olhava com um sorriso amargo, enquanto as lgrimas brilhavam em seus olhos.
         -E o que me diz de sua prpria vida? Como fica tudo o que me dizia a respeito de pensarem minha prpria convenincia e no danar ao som que os outros tocam? 
         -Tudo isto  certo. Acredito em tudo que disse. Mas, Barb, tem que ser compreensiva. Isto  diferente. Ela  minha esposa. Em seu caso, trata-se de uma 
me possessiva, exigente e irracional que a tem subjugada. Tem direito de viver sua prpria vida. Em troca, a minha pertence  Georgia tambm... No se podem jogar 
vinte e dois anos pela janela.
         E o que supunha que ela devia fazer a respeito de sua me? Sair pela porta e no voltar mais? O tipo era um merda, e ela s agora percebeu.
         Voltou para sua esposa no dia seguinte, e o namorico acabou abruptamente.
         Barbara deixou o emprego depois do Ano Novo, e ao final de duas semanas percebeu que estava grvida.
         Analisou a situao durante uma semana, fechando-se em seu quarto e soluando em silencio sobre o travesseiro.
         Ela acreditava que ele a amava, que ele se divorciaria e se casaria com ela algum dia..., que afinal se liberaria de sua me.
         E o que iria fazer agora? No podia cuidar de uma criana sozinha, e abortar era algo que ia contra suas crenas.
         No queria faz-lo.
         Finalmente, decidiu lhe telefonar.
         Encontrara-se para almoar; ele se mostrou muito formal e um pouco distante.
         -Est bem? -Ela assentiu, com expresso sria e sentindo-se tremendamente enjoada. -E sua me? 
         -Est muito bem. Mas o mdico se mostra preocupado com seu corao.
         Ao menos isto era o que dizia a Barbara, cada vez que esta mostrava vontade de ir ao cinema.
         Agora no saa nunca.
         No tinha estmulos, e tampouco tinha vontade, pois estava permanentemente atormentada pelas nuseas.
         -Tenho algo para lhe dizer.
         -O que? -Em seguida se elevou um muro entre ambos, como se ele suspeitasse do que se tratava. -No chegou seu ltimo cheque? -Havia resolvido que ela deixasse 
o emprego, e ele tinha proposto lhe pagar uma importante soma como indenizao a fim de amenizar seu sentimento de culpa.
         "Sim, filho da puta - pensou ela -, mas esta vez no se trata de dinheiro. Trata-se de minha vida. E de seu filho." 
         -Estou grvida.
         No lhe ocorreu outra forma mais elegante de diz-lo, e tampouco desejava procur-la.
         -Veja, isto representa um pequeno problema - disse ele, tratando de conservar a calma, mas seus olhos demonstravam nervosismo. -Tem certeza? Foi em algum 
mdico?
         -Sim.
         -Tem certeza que  meu? 
         Mesmo conhecendo o tipo de vida que Brbara levava, disse isto sem pestanejar.
         Os olhos dela se encheram de lgrimas, que no demoraram em deslizar por seu rosto.
         -Sabe de uma coisa, Stan?  um verdadeiro merda. Acredita seriamente que me deitei com outro? 
         -Sinto muito. S pensei...
         -No. O que queria era se livrar.
         Por um instante, ele no replicou.
         Quando voltou a falar, sua voz tinha um tom mais amvel, mas nem sequer tentou lhe segurar a mo enquanto ela continuava chorando.
         -Conheo uma pessoa que...
         Barbara estremeceu ao adivinhar o que ele queria lhe dizer.
         -No sei se poderei faz-lo... No posso...
         Comeou a soluar convulsivamente, e Stan olhou com nervosismo a seu redor por cima do ombro.
         -Veja, Barb, deve ser realista. No tem alternativa.
         E sem acrescentar nada mais, escreveu um nome em um papel, estendeu-lhe um cheque de mil dlares e entregou para Barbara.
         -Ligue para este nmero e diga que  de minha parte.
         -Por qu? Fazem preo especial para voc? Parece que j se encontrou antes em uma situao semelhante.
         Com expresso de desencanto, Barbara olhou para Stan; aquele no era o homem que ela conhecia, no era o homem em quem tinha acreditado..., o homem que 
sups seria sua salvao.
         -Poria Georgia em suas mos? 
         Stan a olhou inexpressivamente durante um longo momento.
         -Pus minha filha em suas mos no ano passado.
         Barbara baixou os olhos e enclinou a cabea.
         -Sinto muito.
         -Eu tambm. -Essas foram as ltimas palavras amveis que lhe dirigiu, enquanto ficava em p e fixava seu olhar nela. -Barb, faa isto logo. Termina com 
isto de uma vez. Vai sentir-se muito melhor.
         Barbara levantou os olhos para ele.
         -E se no fizer? 
         -O que quer dizer? -exclamou ele, quase cuspindo as palavras.
         -Quero dizer, o que acontecer se decidir ter a criana? Ainda tenho capacidade de deciso, sabe? No sou obrigada a abortar.
         -Isto fica inteiramente por sua conta.
         -Quer dizer para no te chamar? Naquele momento Barbara o odiava com toda sua alma.
         -Quero dizer que nem sequer sei se  meu filho. E estes mil dlares ser todo o dinheiro que receber de minhas mos.
         -Seriamente? -Barbara agarrou o cheque, olhou-o, rasgou-o pela metade e o devolveu para Stan. -Obrigado, Stan. Mas acredito que no vou precisar dele.
         E sem mais, levantou-se e saiu do restaurante.
         Chorou todo o caminho at sua casa, e esta noite sua me entrou bruscamente em seu quarto.
         -Deixou-a plantada, no ? Voltou para junto de sua esposa. -Era to maligna que quase parecia regozijar-se diante da dor de sua filha. -Sabia... J lhe 
havia dito que no era boa coisa... Provavelmente, nunca se separou de sua mulher.
         -Me, me deixe em paz..., por favor...
         Barbara se esticou na cama e fechou os olhos.
         -O que voc tem? Est doente? -de repente compreendeu o que acontecia. -Oh, meu Deus... Est grvida, no ? No ? Avanou para Barbara com uma expresso 
perversa no olhar e parou diante de sua filha.
         Esta se levantou para fixar os olhos doloridos em sua me.
         -Sim, estou.
         -Oh, meu Deus, um filho ilegtimo... Sabe o que as pessoas falaro de voc, puta imunda? 
         E desfechou uma bofetada que teve a virtude de despertar toda a frustrao e toda a desesperana que se aninhavam na alma de Barbara.
         -Deixe-me em paz, maldita! Aconteceu o mesmo com voc e meu pai.
         -No  verdade... Ns estvamos comprometidos... Ele no era um homem casado. E se casou comigo.
         -Casou-se porque estava grvida. E a odiava por t-lo feito cair na armadilha. Muitas vezes ouvi o que lhe dizia quando brigavam. Sempre te odiou. Ele estava 
comprometido com outra...
         Sua me voltou a esbofete-la, e Barbara desabou sobre a cama soluando.
         Nas duas semanas seguintes apenas se falaram nos momentos em que sua me lhe jogava na cara que tinha concebido um filho ilegtimo.
         -Ser sua runa..., sua desgraa... Jamais voltar a encontrar um emprego.
         Na verdade Brbara tambm estava preocupada com isto.
         Desde que se afastou do escritrio de Stan, no tinha conseguido outro trabalho.
         A partir do vero anterior o ndice de desemprego no tinha feito mais que aumentar, e apesar de se apresentar com seu diploma "summa cum laude" da Universidade 
Smith, no conseguia encontrar nada.
         E agora ia ter um filho.
         Em ltima instncia, no teve outra sada.
         Sendo muito orgulhosa para pedir ao Stan o nome do mdico conhecido dele, ligou para uma amiga, conseguiu o nome de outro mdico e fez um aborto em New 
Jersey.
         Voltou para casa de metr meio enjoada, sangrando copiosamente no assento, e desmaiou assim que ps o p na plataforma.
         Avisaram a sua me da sala de urgncias do Roosevelt Hospital, mas a velha se negou a ajudar.
         Quando Barbara chegou a sua casa ao fim de trs dias, sua me a aguardava na sala de estar e disparou trs simples palavras: 
         -Assassina de crianas.
         A partir deste momento, aumentou o dio que sentiam, e Barbara resolveu se mudar.
         Ento sua me sofreu outro derrame, e a jovem no pde abandon-la.
         Tudo que Barbara desejava era ter seu prprio apartamento e seguir sua prpria vida.
         Em vez disso, conseguiu um subsdio de desemprego, j que Stan lhe permitiu alegar que a tinha despedido, e sua me obteve uma penso, e assim puderam subsistir, 
embora a duras penas.
         Barbara cuidou de sua me durante seis meses, at que esta se recuperou, e ao longo deste perodo nunca deixou que sua filha se esquecesse do aborto.
         Era uma forma de vingar do ataque sofrido e da decepo que lhe tinha causado sua filha como ser humano.
         Sem que desse por conta, Barbara vivia em um estado de depresso constante.
         Afinal, conseguiu outro emprego, em outro esritrio de advogacacia.
         Entretanto, desta vez no houve namorico, no houve nenhum outro homem em sua vida, s sua me.
         Tinha perdido o contato com todas as amigas da universidade, e quando telefonavam para ela, no se dava o trabalho de retornar a chamada.
         O que podia lhes contar? Elas estavam todas casadas ou comprometidas ou cuidavam de seus filhos.
         Em troca ela tinha tido um caso com um homem casado, feito um aborto, trabalhava como secretria e servia como enfermeira de dedicao completa para sua 
me.
         Sua me a atormentava a todo instante lhe dizendo que necessitavam de mais dinheiro para viver.
         Foi outra secretria da firma onde estava empregada quem lhe sugeriu que ficasse em contato com vrios agentes literrios, pois assim poderia dedicar-se 
a trabalhar de noite como datilgrafa em sua casa, e as tarifas que pagavam eram bastante convenientes.
         De fato, em alguns casos eram muito boas.
         Barbara seguiu seu conselho, e foi assim que Daphne Fields a encontrou, dez anos depois que comeou a datilografar manuscritos em sua casa a horas a fio, 
quando j tinha se transformado em uma solteirona nervosa, solitria e calada, de trinta e sete anos.

         Aquela mulher antigamente bonita, atraente e atltica, que tinha sido a presidente de sua irmandade e que se graduou com honras na Universidade Smith em 
Cincias Polticas, dedicava-se a datilografar manuscritos no quarto andar de um prdio de apartamentos do West Side, enquanto cuidava de uma me doente que cada 
vez se tornava mais e mais desptica.
         A velha detestava tudo o que Barbara era, e odiava sua falta de esprito e de coragem.
         No obstante, era ela quem tinha conseguido afogar aquelas qualidades de sua filha.
         E em grande parte por culpa dela, Barbara no tinha conseguido sobrepor-se ao trgico desenlace de sua relao amorosa e posterior aborto.
         A princpio, Barbara ficou fascinada por Daphne, mas no se atrevia a lhe perguntar nada sobre sua vida.
         Daphne dava a impresso de ser muito fechada e ciumenta de sua intimidade, como se guardasse uma infinidade de segredos.
         S ao fim de um ano que trabalhava para ela, uma noite que Barbara foi levar um manuscrito a seu apartamento, em uma hora bastante inoportuna, que as duas 
mulheres comearam a abrir-se uma com a outra.
         Foi ento que Barbara lhe falou de seu aborto e lhe confessou que vivia escravizada por sua me invlida.
         Daphne escutou em silncio a longa e infeliz histria, e logo lhe contou tudo referente ao Jeff, Aimee e Andrew.
         Sentaram-se no cho, e estiveram conversando e bebendo vinho at altas horas da madrugada.
         Para Barbara parecia que tinha sido ontem, enquanto a contemplava estendida na cama do hospital, inerte, quase sem vida, ela, que s uns dias antes se apresentava 
to enrgica.
         Ao ouvir a histria de Barbara, Daphne tinha manifestado com firmeza que devia abandonar sua me. 
         -Escuta, demnios, trata-se de sua sobrevivncia! Ambas estavam ligeiramente bbadas, e Daphne disparou estas palavras apontando-lhe com um dedo.
         -O que posso fazer, Daff? Mal pode caminhar. Sofre uma cardiopatia, teve trs derrames...
         -Leva-a a uma residncia para ancies. Ou no pode pagar? 
         -Poderia se me rasgasse de trabalhar, mas ela diz que se mataria.  o mnimo que posso fazer por ela...
         Os pensamentos de Barbara voltaram ao passado.
         -Colocou-me na escola e at me custeou os estudos pr-universitrios.
         -E agora est lhe arruinando a vida. Isto voc no deve a ela. Acaso no pensa em si? 
         -Em mim? No fica nada para mim.
         -Claro que fica.
         Barbara a olhou, desejando acreditar no que lhe dizia, mas fazia anos que no pensava em si mesma. Sua me j quase a tinha destrudo.
         -Voc pode fazer tudo que se proponha a fazer.
         Isso era o que John lhe dizia em sua cabana de New Hampshire.
         Ento Daphne falou dele para Barbara.
         Era a primeira pessoa a quem contava.
         No final da noite, j no havia segredos entre elas.
         Uma e outra vez a conversa girava em torno de Andrew.
         Ele era a nica coisa deste mundo que interessava a Daphne, a nica coisa que realmente contava, o nico que colocava vigor e fogo em seus olhos.
         - afortunada por t-lo.
         Barbara a olhava com inveja. Seu prprio filho agora teria dez anos. Ainda pensava nele freqentemente.
         -Sei que sou. Mas a verdade  que no "tenho-o" neste sentido.
         Uma expresso dolorida escureceu seu rosto.
         -Est na escola. E eu devo viver minha prpria vida.
         Barbara teve a suspeita de que, a sua maneira, Daphne no vivia muito melhor que ela mesma.
         Tinha a seu filho e seu trabalho, mas nada mais.
         No tinha nenhum homem em sua vida depois da morte de John, e ela se encarregava por todos os meios de que no houvesse.
         Parecia que vrios homens a tinham convidado para sair ao longo daqueles anos, velhos amigos de Jeff, um escritor que conheceu por intermdio de sua agente, 
pessoas que assistiam aos lanamentos literrios; mas Daphne sempre recusou.
          sua maneira, estava to s como Barbara.
         E isso criava um lao que as unia.
         Barbara confiava nela mais que em nenhuma outra pessoa, e depois que comeou a ir trabalhar em sua casa, de vez em quando saam para almoarem juntas ou, 
os sbados pela tarde, iam s compras.
         -Sabe uma coisa, Daphne? Penso que est louca.
         -Isto no  uma novidade.
         Sorriu para sua amiga enquanto examinava os vestidos pendurados nos cabides da Saks.
         Barbara tinha conseguido escapar da tirania de sua me por toda uma tarde, e haviam resolvido pass-la juntas.
         -Falo srio.  jovem e bonita. Poderia conseguir qualquer homem que a amasse muito. Pode me dizer o que est fazendo indo s compras comigo? 
         -Voc  minha amiga e eu gosto de estar com voc. E no necessito de nenhum homem.
         -Esta  que  a loucura.
         -Por qu? Muitas pessoas nunca sequer sonharam com a felicidade que eu consegui.
         Em seguida se arrependeu de hav-lo dito, sabendo quo vazia tinha sido a vida de Barbara.
         -Est bem - disse-lhe Barbara com um clido sorriso que a rejuvenesceu de repente.
         -Sei o que quer dizer, mas esta no  uma razo para render-se.
         - sim. Jamais poderei voltar a viver o que vivi com Jeffrey ou com John. Por que procurar um substituto? 
         -No me parece uma reflexo razovel.
         -Em meu caso, . No  possvel encontrar outro homem como eles em toda a vida.
         -No  necessrio que seja como eles. Pode ser diferente. Seriamente pensa viver assim durante cinqenta anos? 
         Barbara pareceu horrorizar-se s de pensar.
         - uma loucura.
         Em troca no lhe parecia uma loucura ter renunciado a viver sua vida em favor de uma me a que detestava.
         Mas o caso era que no via a si mesma sob a mesma luz.
         Daphne era bonita e delicada, e Barbara tinha pressentido desde o primeiro momento que triunfaria na vida.
         Para Barbara, ambas viviam em mundos separados.
         Entretanto, era Daphne quem vislumbrava uma sombra de esperana para sua amiga, e no cessava de pression-la para que sasse daquela angustiosa situao.
         -Por que no se muda para outro lugar? 
         -Para onde? Para o Central Park com uma barraca de acampamento? E o que fao com minha me? 
         -Ponha-a em um asilo.
         Aquilo j tinha se convertido em um estribilho entre ambas.
         Assim, quando Daphne comprou um apartamento na Rua 69 Est, armou um plano e o exps a Barbara, com o olhar brilhante pela excitao.
         -Raios,Daphne, eu no posso! 
         -Claro que pode.
         Daphne queria que Barbara se mudasse para seu antigo apartamento.
         -No posso manter duas casas.
         -Espere at que tenha escutado o resto de meu plano.
         Ofereceu-lhe um emprego de jornada completa com um magnfico salrio que lhe permitiria realiz-lo amplamente.
         -Quer que trabalhe para voc? Fala a srio? 
         Os olhos de Barbara tinham se tornado resplandecentes como um cu estival.
         -Seriamente? 
         -Seriamente, mas no acredite que estou lhe fazendo um favor. Preciso de voc, diabos!  a nica que sabe manter minha vida sem sobressaltos.
         E no estou disposta a aceitar um "no" como resposta.
         O corao de Barbara saltava de gozo, mas ao mesmo tempo estava aterrada. O que seria de sua me? 
         -No sei, Daff. Tenho que pensar.
         -Eu j pensei em tudo por voc. 
         Daphne sorriu com uma careta.
         -No poder ter o emprego a menos que se afaste de sua me. Trato feito? 
         Estava feito, e ambas sabiam.
         Ao fim de um ms atormentando-se pelo que Daphne lhe havia dito, Barbara se armou de coragem para faz-lo.
         Daphne lhe serviu uma dose de bebida forte e a acompanhou de txi a seu apartamento.
         Despediu-se dela com um abrao e um beijo, e lhe desejou nimo.
         -Trata-se de sua vida, Barbara. No a estrague. No custa nada, e voc j pagou sua dvida. No esquea isto. Quanto mais pode dar?...Quanto mais quer dar? 
         Barbara j conhecia a resposta. Pela primeira vez em muitos anos vislumbrava uma luz ao final do tnel, e correu para ela to rapidamente e com tanta energia 
como pde.
         Subiu ao apartamento e disse a sua me que se mudava, e se negou a escutar as ameaas, os insultos, os anncios de vingana ou a chantagem sentimental.
         No ms seguinte sua me entrou em um lar geritrico, e embora ela nunca quisesse reconhecer para Barbara, de fato se sentia feliz nele.
         Convivia com pessoas de sua idade, e se juntou a um crculo de amigas entre as quais podia abrir o corao contra sua egosta filha.
         Assim que o novo apartamento de Daphne ficou pronto, Barbara se instalou no antigo e sentiu como se a tivessem libertado da priso.
         Sorriu agora ao recordar aquela sensao. Despertava pela manh com o corao alegre e uma sensao de liberdade, preparava o caf na ensolarada cozinha, 
se largava na cama, sentindo-se como se fosse a dona do mundo, e utilizava o quarto que Andrew tinha ocupado como escritrio  quando levava trabalho para casa, o 
que ocorria freqentemente.
         Trabalhava para Daphne todos os dias das dez da manh at as cinco da tarde, e quando ia para casa, sempre ia carregada com pilhas de papis para datilografar.
         -Pelo amor de Deus, no tem outra coisa que fazer? Por que no deixa isto aqui? 
         Mas enquanto Daphne dizia isto, ela mesma se sentava em seu escritrio, disposta a trabalhar at altas horas da madrugada.
         Ambas se davam bem, mas nenhuma das duas tinha uma vida normal.
         Tudo que Barbara mais desejava na vida era compensar Daphne pelo que esta havia feito por ela. Tinha-a ajudado a liberar-se de sua me.
         Entretanto, Daphne previa outro perigo: que Barbara a fizesse objeto de suas habituais submisso e devoo.
         -No me trate como sua me! Ela disse brincando quando Barbara apareceu levando seu almoo em uma bandeja enquanto Daphne estava trabalhando.
         -Oh, calada! 
         -Falo a srio, Barbara, passou toda sua vida cuidando de sua me. Para variar, deve cuidar de si mesma. Seja feliz.
         -Sou feliz. Adoro meu trabalho, sabe? Apesar de trabalhar para voc ser exaustivo.
         Daphne sorriu distradamente e voltou a concentrar-se em seu trabalho, para ficar diante da mquina de escrever desde o meio-dia at as trs ou as quatro 
da madrugada.
         -Como consegue resistir? 
         Barbara a observava com assombro.
         Daphne no parava nem um instante, salvo uma s vez depois de um longo momento para tomar uma xcara de caf ou para ir ao toalete.
         -Perder a sade, trabalhando desta maneira.
         -No acredito. Escrever me deixa feliz.
         Entretanto, Barbara no teria usado a palavra "feliz" para descrever seu estado.
         Nos olhos do Daphne sempre havia uma expresso que dizia s claras que no era feliz h muitos anos, com a exceo dos momentos seguintes s visitas a Andrew.
         Os episdios de sua vida se achavam gravados no fundo de seus olhos, e no podia se livrar da dor que lhe tinha causado a morte de seus seres queridos.
         Interpunha o gozo e a satisfao que lhe produzia sua obra entre ela e os fantasmas que conviviam com ela, mas no conseguia afast-los de sua mente, embora 
poucas vezes fizesse algum comentrio a respeito com Barbara.
         Entretanto, quando se achava sozinha em seu escritrio, sentava-se em frente da janela e sua mente vagava por lugares distantes..., por New Hampshire com 
John, ou por algum lugar que havia visitado com o Jeff..., ou apesar do frreo controle que exercia sobre si mesma, seus olhos se umedeciam pela lembrana de Aimee.
         Esta era uma parte de sua alma que ningum conhecia e ela tomava cuidado para que no a descobrissem; em troca falava para Barbara de seus mais ntimos 
sentimentos, e contava como tinha sido sua vida em diferentes ocasies, do muito que sentia falta daqueles instantes, das pessoas que tinha perdido, como John, Jeff 
e Aimeee.
         E sempre, sempre, falava de Andrew e do muito que sentia saudades.
         No obstante, agora levava uma vida diferente de quando Andrew vivia com ela.
         Uma vida cheia de jantares de trabalho, realizaes e xito, de editores e agentes de publicidade, entre os quais destacava sua agente.
         Possua um claro discernimento para as questes econmicas, do qual no se deu conta antes, e exercia seu trabalho com talento, com mo direita leve e bom 
critrio para agradar o gosto dos leitores.
         A nica coisa que detestava de seu trabalho eram as entrevistas que s vezes tinha que conceder para promover seus livros, porque no queria que ningum 
colocasse o nariz em sua vida ntima ou lhe perguntasse por Andrew.
         Queria proteger a seu filho de tudo isto.
         Nada havia em sua vida pessoal que Daphne desejasse compartilhar com o mundo, e tinha certeza que seus livros falavam por si mesmos, embora reconhecesse 
que seus editores tinham o direito considerar a publicidade importante.
         A questo apareceu de novo quando lhe pediram que aparecesse no Conroy Show de Chicago.
         Vacilou, antes de tomar uma deciso, mordiscando o extremo de um lpis.
         -O que quer que lhes diga, Daff? Deseja voltar de Chicago amanh? 
         Tinham pressionado Barbara a manh toda, e ela tinha que lhes dar uma resposta.
         -Sinceramente? Daphne fez uma careta, esfregando o pescoo.
         Tinha trabalhado at muito tarde em seu novo livro e esta manh se sentia muito cansada.
         Mas este era um tipo de cansao que gostava, pois o livro andava bem, e sentia a gostosa sensao que sempre lhe causava o que fazia.
         No lhe importava a dor nas costas nem o inevitvel peso que sentia nos ombros.
         -No, no quero ir a Chicago. Telefone para Murdock na Harbor e lhe pergunte se acredita que  importante.
         Ela, porm, j conhecia a resposta.
         Embora naquele momento no tivesse nenhum livro novo por lanar, a publicidade sempre era importante, e o Conroy Show de Chicago era um grande programa.
         Barbara retornou em cinco minutos e se plantou diante ela com um triste sorriso.
         -Quer realmente saber o que me respondeu? 
         -No, no  necessrio que me diga isto.
         -Supunho que no.
         Barbara a observou enquanto ela se afundava em uma cmoda poltrona lanando um suspiro e repousando a cabea em um macio almofado branco.
         -Por que se mata trabalhando desta maneira, Daff? No pode passar a vida fugindo.
         Daphne parecia ainda uma menina ali sentada, embora todo seu ser irradiasse uma inegvel maturidade.
         Mostrava-se bondosa com todas as pessoas que se relacionavam com ela, os editores, sua agente, sua secretria, seus seletos amigos, seu filho, o pessoal 
da escola, os outros meninos.
         Era complacente com todo mundo, salvo consigo mesma.
         Impunha-se uma disciplina que poucos seres humanos seriam capazes de suportar, e estabelecia metas difceis de alcanar.
         Trabalhava quinze horas dirias, mas sempre se mostrava paciente, afetuosa, interessada nos problemas de outros.
         A nica pessoa com quem se mostrava implacvel era ela mesma.
         Jamais deixava que ningum estabelecesse uma ntima relao com ela.
         Tinha conhecido muita dor em sua vida, muita perda, e agora os muros que a protegiam eram infranqueveis.
         Barbara meditava sobre isto de novo enquanto a contemplava na cama do hospital onde jazia imvel, e o eco das palavras de Daphne ressonava em sua cabea.
         -No estou fugindo, Barb. Estou garantindo minha carreira, o que  muito diferente.
         -Srio? Parece que  a mesma coisa.
         -Talvez. -Com Barbara sempre era sincera. -Mas o fao por uma boa causa.
         Daphne tratava de juntar uma fortuna para Andrew.
         Algum dia seu filho precisaria, e ela desejava que no encontrasse obstculos em sua vida.
         Tudo que fazia parecia centrar-se em Andrew.
         -Este conto eu sei de cor. Mas j fez bastante pelo Andrew, Daff. Por que no pensa um pouco em si mesma para variar? 
         -J o fao.
         -Ah, sim? Quando? 
         -Durante uns dez segundos, quando me lavo o rosto pela manh.
         Sorriu para sua amiga e confidente, mas havia coisas sobre as quais no queria falar.
         -Ento querem que eu v a Chicago, no ? 
         -Pode interromper o livro? 
         -Se no houver outro remdio...
         -Ento, vamos? 
         -No sei. -Franziu o cenho e olhou pela janela antes de pousar de novo os olhos em Barbara.
         -Preocupa-me aparecer neste programa. Nunca participei dele e realmente no me atrai absolutamente.
         -Por qu? 
         Entretanto, Barbara suspeitava da razo de seus receios.
         Bob Conroy dava golpes baixos e sondava a alma das pessoas.
         Contava com uma extraordinria equipe de produo, e sua habilidade estava em escavar a fim de desenterrar fragmentos ocultos do passado da pessoa, para 
jogar-lhe na cara quando apareciam em seu programa nacional de televiso.
         Barbara sabia que Daphne temia que acontecesse isto.
         Tinha se garantido pr todo seu empenho para preservar sua vida ntima da curiosidade do pblico.
         Jamais falava de Jeff, ou de Aimee, e se violentava quando saa  luz o assunto de Andrew.
         No queria que jamais se visse exposto  curiosidade venenosa ou aos falatrios das pessoas.
         O menino vivia feliz fechado na Howarth School de New Hampshire, e no suspeitava sequer que tinha uma me famosa.
         -Tem medo de enfrentar o Conroy, Daff? 
         -Sinceramente? Sim. No quero trazer meu passado a tona.
         Olhou para Barbara com seus enormes olhos azuis inundados de tristeza. A ningum importa o que foi minha vida. J sabe o que penso a respeito.
         -Sim, mas no pode manter tudo em segredo eternamente. Se soubessem, seria to terrvel? 
         -Para mim, sim. No desejo a compaixo de ningum, e Andrew tampouco. No necessitamos dela.
         Levantou-se, nervosa, adotando um ar desafiante.
         -Provavelmente a nica coisa que aconteceria  que os leitores a amariam ainda mais.
         Ela sabia melhor que ningum o quanto que j a adoravam, pois se encarregava de responder  correspondncia dos admiradores de Daphne.
         De certo modo, esta estava acostumada a jogar sua alma em seus livros, de modo que os leitores tinham a impresso de conhec-la pessoalmente.
         De fato, conheciam-na melhor do que ela mesma queria reconhecer; os segredos de sua alma eram que contribuam para tornar reais seus personagens, embora 
ela os apresentasse como frutos de sua imaginao.
         -Eu no quero que me amem mais. O que quero  que gostem de meus livros.
         -Talvez no exista diferena alguma entre uma coisa e a outra.
         Daphne assentiu em silncio e logo se levantou soltando um suspiro.
         -Suponho que no tenho alternativa. Se no for, George Murdock no deixar jamais de me importunar. Passaram todo o ano tratando de me fazer aparecer neste 
programa.
         Olhou para Barbara com um sorriso.
         -Quer vir? H lojas magnficas em Chicago.
         -Deseja passar a noite l? 
         -Claro.
         Agora tinha um hotel favorito naquela cidade, como em todas as principais cidades do pas.
         Sempre escolhia os mais tranqilos, os mais conservadores e at os mais elegantes da cidade.
         Eram hotis onde se hospedavam vivas que usavam casacos de pele e as pessoas falavam em sussurros.
         Daphne pedia as refeies em seu quarto, e gozava das comodidades que seu trabalho lhe proporcionava.
         Adaptou-se perfeitamente quela vida, e devia reconhecer que havia aspectos de seu sucesso que lhe davam uma grande satisfao.
         J no tinha que preocupar-se com dinheiro, com a tranqilidade de saber que Andrew tinha o futuro assegurado.
         Tinha investido bem seu capital, e adquiria roupas caras, antiguidades e pinturas que lhe agradavam, sempre que se apresentava a oportunidade.
         Ao mesmo tempo, porm, no havia nada ostentoso em sua pessoa.
         No se servia de seu dinheiro para enfeitar seu xito, tampouco o esbanjava em recepes, nem tratava de impressionar a seus amigos.
         Sempre estava serena, agia com simplicidade e o resultado era sua notvel integridade.
         E, curiosamente, Daphne sabia com exatido o que Jeffrey e John teriam esperado dela.
         Tinha amadurecido plenamente, e lhe agradava saber disto.
         -O programa vai ao ar s dez. Quer viajar de manh ou  tarde? Poderia descansar um pouco e jantar antes de ir para o estdio.
         -Sim, me.
         -Oh, calada! Barbara tomou notas em sua agenda e desapareceu, enquanto Daphne se instalava em seu escritrio com o cenho franzido e fixava o olhar, que 
denotava preocupao, no teclado da mquina de escrever.
         Havia dito para Barbara que tinha um estranho pressentimento a respeito do programa, que a preocupava.
         E Barbara tinha respondido que se comportava como uma tola.
         Agora esta recordava enquanto observava Daphne, to ferida pelo veculo que a tinha atropelado.
         Parecia que tinham se passado mil anos desde o dia em que foram a Chicago.
         Daphne e Barbara chegaram ao estdio s nove e meia em ponto.
         Daphne usava um vestido simples de seda bege e tinha os cabelos recolhidos em um elegante e discreto coque.
         Brincos de prolas enfeitavam suas orelhas, e usava um anel com um lindo e grande topzio que tinha comprado no comeo do ano na Cartier.
         Estava elegante e envolta pelo xito, mas nada nela parecia opulento e ostentoso. Isto era caracterstico de Daphne.
         Como sempre, Brbara vestia um de seus conjuntos azul marinho.
         Daphne sempre se divertia dizendo que tinha quatorze e que todos pareciam iguais, mas estava impecvel, elegante, e seus negros cabelos caam como uma suave 
e lustrosa lmina at seus ombros.
         Parecia mais jovem agora do que quando se separou de sua me.
         E no ltimo ano, Daphne tinha notado que se tornou mais atraente.
         Parecia muito mais com a moa das fotos de sua poca de universitria.
         Agora, ao olhar para Daphne, havia uma expresso risonha em seus olhos.
         Enquanto eram introduzidas na sala de espera, onde havia cmodas poltronas, um bar e uma garonete para servi-las, Barbara se inclinou para ela e lhe disse 
em voz baixa: 
         -No fique to tensa, que ele no vai te morder.
         -Como sabe? 
         Claro que sempre ficava nervosa antes de uma entrevista.
         Em parte, era por isto que levava Barbara com ela.
         Era agradvel ir acompanhada de uma amiga, para conversar no avio, para que a ajudasse a resolver os inconvenientes quando se complicavam as coisas com 
respeito  reserva de hotel.
         Barbara possua uma maravilhosa habilidade para manter tudo em ordem.
         Com Barbara presente, a bagagem nunca se extraviava, refeies chegavam ao quarto de Daphne na hora, sempre tinha revistas e livros  mo, os jornalistas 
eram acompanhados por ela  porta quando Daphne j estava cansada, e sempre tinha a roupa arrumada antes de apresentar-se s entrevistas.
         Tinha a virtude de que tudo parecesse milagrosamente fcil.
         -Quer uma taa? Daphne negou com a cabea.
         -S me faltaria isto, entrar a meio bbada. Ento sim que diria algumas coisas.
         Ambas sorriram, e Daphne se instalou em uma poltrona.
         Nem sequer em momentos como aquele gostava de beber.
         -Senhorita Fields? -Um assistente de produo apareceu com a cabea na porta. -Voc vai entrar primeiro.
         -Oh, cus! 
         -O senhor Conroy no quer faz-la esperar.
         Isto no fazia mais que piorar as coisas, pois ela no teria tempo de relaxar antes da entrevista e observar como se comportavam os outros; entretanto, 
tambm sabia que esta noite ela era a estrela.
         -Preferiria que no me tivesse feito tamanho favor - disse Daphne a Barbara em voz baixa, sentindo as palmas das mos midas.
         Mas Barbara a tranqilizou.
         -Estar magnfica.
         -Por quanto tempo ficarei no ar? 
         Era como pr em marcha um cronmetro interno antes que o dentista lhe extrasse um molar.
         Vinte minutos... "Posso suportar a dor durante vinte minutos... ou no?" Ao menos o dentista lhe aplicava anestesia para que no sentisse dor. Aqui lhe 
aplicavam o golpe ao vivo.
         -No me disseram isto. Perguntei ontem, mas a jovem me disse que Conroy no quer pr um limite de tempo. Entretanto, no acredito que se estenda mais de 
quinze minutos.
         Daphne concordou, ficando de p, e naquele momento reapareceu o ajudante de produo e lhe fez gestos para que o seguisse.
         -At mais tarde, nenm - murmurou Daphne.
         Dirigiu um olhar a Barbara por cima do ombro, pensando na antiga citao: "Os que vo morrer te sadam".
         -Estar formidvel.
         Daphne firmou os olhos e saiu do salo, enquanto Barbara, provida de uma taa de vinho, dispunha-se a v-la pelo monitor.
         O ajudante de produo conduziu Daphne ao estdio, indicou-lhe a cadeira que devia ocupar e prendeu-lhe um micro fone na gola do vestido, enquanto uma maquiadora 
arrumava seu rosto.
         O cabelo estava perfeito, e o resto da maquiagem tambm.
         A mulher fez um movimento de aprovao com a cabea e desapareceu.
         O ajudante de produo lhe fez um gesto de assentimento e ajustou os aparelhos de udio antes de dizer a Daphne em um murmrio: 
         -O senhor Conroy vir em seguida. Sentar al. -apontou uma cadeira. - Ele far os primeiros noventa  segundos sozinho, e logo apresentar voc.
         Daphne assentiu, observando que sobre uma mesinha baixa se encontravam seus dois ltimos livros.
         Em geral, estavam acostumados a lhe indicar os pontos principais em torno dos quais giraria a entrevista, mas Conroy no agia desta maneira.
         Isto era precisamente o que a preocupava.
         -Deseja um copo de gua? 
         -Obrigado
         Parecia-lhe que tinha os olhos muito abertos, sentia a boca seca, e notava que o suor lhe corria lentamente pelas costas.
         Nesse instante apareceu Bob Conroy com seu traje escuro, a camisa azul claro e uma gravata vermelha.
         Tinha quarenta e tantos anos e era inegavelmente de aparncia agradvel.
         Entretanto, havia algo muito frio e resistente em seus olhos; tudo nele causava uma impresso de volubilidade, e parecia tremendamente artificial.
         -Daphne? 
         No. Mata Hari.
         -Sim.
         Sorriu-lhe, tratando de no perder a cabea.
         -Encantado de t-la no programa. Como est o tempo em New York?
         -Esplndido.
         Conroy se sentou e lanou uma olhada para verificar os ngulos que apresentavam as cmaras.
         Mas antes que pudesse dizer algo mais, o ajudante de produo comeou a contar, acendeu-se uma luz vermelha, e uma cmara avanou para o rosto do Conroy, 
enquanto ele esboava o sorriso que possua um atrativo sexual capaz de subjugar o pblico feminino de todo o pas e anunciava o que os telespectadores veriam em 
seu programa nesta noite.
         Tudo era exatamente como nos outros programas a que Daphne tinha assistido.
         A um participante pediram que efetuasse o nmero onde parecia ser um seu co bailarino e o despediram do estdio sem sequer lhe agradecer, enquanto o apresentador 
fazia suas piruetas egocntricas para encantar as suas admiradoras.
         -Nosso primeiro convidado desta noite  uma mulher cujos livros a maioria de vocs tm lido, particularmente as senhoras...
         Fez uma pausa para sorrir para a cmara, e logo pegou um dos dois livros que estavam na mesinha baixa antes de voltar a olhar para a cmara.
         -Mas eu suspeito que seja muito pouco o que tm lido sobre a autora. Percebi que Daphne Fields  uma pessoa muito zelosa de sua intimidade.
         Sorriu outra vez e se voltou lentamente para Daphne, enquanto a cmara a inclua tambm no enquadramento e uma segunda cmara avanava com lentido para 
ela.
         - um prazer t-la aqui conosco em Chicago.
         - um prazer estar aqui com voc, Bob.
         Daphne sorriu timidamente, sabendo que a cmara a mostraria de frente sem ter que voltar-se para ela.
         Isto era o habitual, exceto em cidades atrasadas onde o nico ngulo que as cmaras mostravam era o do apresentador.
         Uma vez, em Santa F, Daphne esteve uma hora em um programa, sem dar-se conta de que tudo que os telespectadores viam era a parte de trs de seu penteado.
         -Voc vive em New York, no  mesmo? 
         Uma tpica pergunta insignificante.
         -Isto mesmo.
         Daphne sorriu.
         -Est trabalhando em um novo livro? 
         -Sim. Chama-se Amantes.
         -Veja,  um ttulo que combina to bem como o anel com o dedo.
         Conroy olhou profundamente nos olhos de suas telespectadoras.
         -A suas leitoras adoraro. Como anda o trabalho de pesquisa? Soltou uma risadinha sugestiva, e Daphne se ruborizou ligeiramente sob a maquiagem.
         -No geral, minha obra  fruto da imaginao.
         Havia doura em sua voz e em seu sorriso, e tinha um ar to extraordinariamente delicado que a pergunta de seu entrevistador resultou impertinente, e sua 
atitude quase grosseira.
         Mas ele a faria pagar caro, sempre o faziam.
         Aquele era seu programa, e estava disposto a que continuasse sendo por longo tempo.
         Daphne era to somente flor de uma noite.
         Era o pescoo de Conroy que estava em jogo, no o do Daphne, e disto ele no esquecia em nenhum momento.
         -Vamos, vamos, uma mulher to bonita como voc... deve ter um exrcito de amantes.
         -No ultimamente.
         Desta vez havia um brilho malicioso em seus olhos, e no se ruborizou.
         Comeava a pensar que sairia com vida daquele encontro.
         Entretanto, a nota maliciosa tinha desaparecido da voz de Conroy quando se dirigiu a ela.
         -Entendi, Daphne, que  voc viva.
         Aquilo era algo que Daphne no esperava e, por um instante, a respirao quase lhe faltou.
         Conroy tinha feito uma minuciosa investigao.
         Assentiu com a cabea.
         - uma pena. Mas - adicionou com voz que gotejava simpatia e compaixo - possivelmente  por isto que voc escreve to bem. Tem escrito muito a respeito 
de sobrepor-se a uma terrvel perda, e  evidente que voc o tem feito. Disseram-me que tambm perdeu a sua filhinha.
         Os olhos de Daphne se encheram de lgrimas, comovida ao ouvir falar de Jeff e Aimee, e ficou ali sentada, com o corao no altar onde Conroy efetuava seu 
sacrifcio.
         -No sei falar da relao de minha vida privada com a minha obra, Bob.
         Daphne se debatia por recuperar sua compostura.
         -Possivelmente deveria faz-lo - disse ele com grave expresso e voz sonora. Isto a faria parecer mais autntica aos olhos de seus leitores.
         Pronto! Tinha-a apanhado.
         -Enquanto meus livros sejam autnticos...
         -Mas como podem ser - atalhou ele-, se o pblico no souber como  voc? 
         Antes que ela pudesse replicar, Conroy perguntou: 
         -Estou certo ao dizer que seu marido e sua filha morreram em um incndio? 
         -Sim.
         Daphne aspirou profundamente, e Barbara, atravs do monitor, pde ver que seus olhos se enchiam de lgrimas. Que canalhice! O filho da puta... Daphne tinha 
razo ao temer participar daquele programa.
         -Era seu marido o personagem que descreveu em Apache?
         Daphne balanou a cabea. Era John.
         De repente, presa de pnico, perguntou-se se estaria tambm informado de sua relao com ele; mas era impossvel que tivesse averiguado isto.
         -Que personagem to interessante. Estou certo de que todas as mulheres de pas se apaixonaram por ele. Poderia fazer um maravilhoso filme deste livro, sabe? 
         Daphne comeou a recuperar-se, rezando para que terminasse a entrevista.
         -Estou contente que acredite nisto.
         -Vislumbra-se alguma perspectiva no horizonte? 
         -Ainda no, mas minha agente acredita que se apresentar.
         -Daphne, diga-nos, quantos anos voc tem? 
         Merda! No perdoava nada. Mas ela riu baixinho.
         -Tenho que dizer a verdade? -Entretanto, Daphne no fazia segredo de sua idade. - Estou caminhando para os trinta e trs.
         -Santo Deus! 
         Conroy a olhou de cima em baixo com admirao.
         -No parece. Eu no teria dado mais que vinte.
         Aquilo era o que encantava suas telespectadoras.
         Mas enquanto Daphne sorria, ele se inclinou para ela com aquela expresso condescendente que despertava tanta desconfiana em sua entrevistada, que ela 
de novo se sentiu acuada.
         -E nunca voltou a casar-se. Quanto tempo faz que  voc   viva? 
         -Sete anos.
         -Deve ter sido um golpe terrvel. -Com olhos que aparentavam inocncia, perguntou: - Existe algum homem permanentemente em sua vida? Daphne quis gritar 
ou o esbofetear.
         Estes tipos de perguntas nunca eram feitas aos escritores de sexo masculino, mas as mulheres resultavam numa presa fcil, pois de certo modo se pressupunha 
que a vida ntima de uma escritora formava parte integrante de sua obra e, por conseguinte, era de propriedade pblica.
         Um homem o teria mandado plantar batata, mas de qualquer modo ele nunca lhe faria uma pergunta deste gnero.
         -Neste momento no, Bob - respondeu com um sorriso cordial.
         Conroy sorriu docemente.
         -No sei se acredito. Voc  muito bonita para estar sozinha. Alm disso, existe este livro que est escrevendo agora..., como se chama, Amantes? -Ela assentiu 
com a cabea. -Quando ser lanado? Estou certo que todos seus leitores o estaro esperando contendo o flego.
         -Espero que no estejam contendo o flego, pois o livro no ser publicado at o prximo ano.
         -Esperaremos.
         Trocaram outro sorriso forado enquanto Daphne aguardava o fim da entrevista, pois sabia que no podia demorar, e no via o momento de abandonar aquele 
estdio, para que ele no fizesse mais perguntas.
         -H algo mais que desejava lhe perguntar, sabe? Daphne esperou, quase certa que seria sobre quem criara seu broche.
         -Nosso prximo convidado tambm  escritor, mas no no mesmo campo que voc. Seu livro no  uma obra de fico. Est escrevendo uma magnfica obra sobre 
crianas autistas.
         Daphne sentiu que empalidecia, pois pressentiu o que ia lhe perguntar, mesmo que fosse impossvel que soubesse...
         -Uma boa amiga minha de Nova Iorque, da Collins, onde voc trabalhava, disse-me que voc tem um filho autista. Possivelmente, do ponto de vista de uma me, 
possa lanar alguma luz sobre este tema.
         Daphne o olhou com evidente dio, se bem que estivesse pensando em Allie. Como pde lhe dizer uma coisa como esta? Como tinha podido faz-lo? 
         -Meu filho no  autista, Bob.
         -Ah..., possivelmente entendi errado...
         Daphne quase podia imaginar as telespectadoras ofegando.
         Em dez breves minutos se inteiraram de que tinha perdido seu marido e sua filha em um incndio, que tinha trabalhado na Collins, que no havia nenhum outro 
homem em sua vida at o momento, e agora acreditavam que seu nico filho com vida era autista.
         -Tem atraso mental? 
         -Absolutamente - respondeu Daphne, elevando a voz e o fulminando com o olhar. Que direito tinha aquele homem...? -Meu filho  surdo, est internado em uma 
escola para surdos, mas  parte seu defeito auditivo,  um menino maravilhoso, perfeitamente normal.

         -Alegro-me por voc, Daphne.
         O filho da puta! Daphne estava a ponto de explodir. Tinha a sensao de ter sido exposta ao pblico completamente nua. Mas o que era pior, muito pior: tinha 
despido a seu filho.
         -E celebro saber sobre Amantes. Agora, temo que nosso tempo tenha terminado. Mas esperamos poder v-la de novo na prxima vez que voltar a Chicago.
         -Eu adoraria.
         Daphne lhe sorriu com os dentes apertados, e logo dedicou um sorriso aos telespectadores.
         Ento interromperam a emisso para passar os anncios comerciais.
         Com uma furiosa expresso mal dissimulada, Daphne desprendeu o microfone do vestido e o entregou ao Conroy.
         -O que voc tem fez  indesculpvel.
         -Por qu? Porque gosto da verdade? Agora Conroy no sorria.
         Os sentimentos de Daphne no lhe importavam nada. O nico que importava era ele mesmo, os telespectadores e os patrocinadores do programa.
         -O que voc ganha com isto? Que direito tem de fazer este tipo de perguntas? 
         -So as coisas que as pessoas querem saber.
         -Estas so coisas que as pessoas no tm nenhum direito de saber. No h nada em sua vida que queira manter resguardado? No h nada sagrado para voc?
         -Eu no sou o entrevistado, Daphne. -respondeu Conroy friamente, enquanto o convidado seguinte ocupava seu lugar.
         Daphne ficou o olhando fixo um instante sem lhe estender a mo.
         -Ento voc pode considerar-se muito afortunado.
         Dito isto, Daphne girou sobre seus saltos e abandonou o estdio, para dirigir-se rapidamente  sala de espera, onde fez gestos a Barbara para que a seguisse.
         Duas horas mais tarde voavam de volta a Nova Iorque.
         Era o ltimo vo do dia, e chegaram ao La Guardia s duas da madrugada.
         s duas e meia, Daphne estava de volta a seu apartamento.
         Barbara tinha seguido no txi at sua casa.
         Na Rua 69, Daphne fechou a porta, foi diretamente a seu dormitrio sem acender as luzes, jogou-se sobre a cama e irrompeu em soluos.
         Tinha a sensao de que toda sua vida tinha sido exposta publicamente nesta noite, com todo seu infortnio e sua dor.
         A nica coisa que Conroy no sabia era a sua relao com o John.
         Por sorte nunca tinha contado a Allie...
         "E nos diga, senhorita Fields,  certo que voc se deitava com um lenhador em New Hampshire?" voltou-se de costas na cama e permaneceu com a vista fixa 
no teto, pensando em Andrew.
         Possivelmente era uma sorte que estivesse na escola.
         Talvez se estivesse em Nova Iorque com ela, sua vida se teria convertido em um circo.
         As pessoas como Allie o tratariam como se fosse uma raridade...
         Autista..., atrasado... Daphne estremeceu s em pensar nestas palavras, e ficou imvel at que dormiu, com o vestido bege que usava, com os rastros das 
lgrimas em sua face, e o corao dolorido como se o tivessem apedrejado.
         Nesta noite sonhou com Jeffrey e com John, e despertou  manh seguinte, com o telefone tocando, sentindo que a invadia uma de onda de terror..., temendo 
que tivesse acontecido algo a Andrew.
         - Daphne, sente-se bem? 
         Era ris. Tinha visto o programa.
         -Estou viva. Mas no voltarei a faz-lo de novo. Pode dizer a Murdock de minha parte, ou o direi eu mesma. Pode escolher, mas estou decidida. Minha vida 
no campo da publicidade chegou ao fim.
         -No deveria pensar assim, Daff. Foi s um mau programa.
         -Possivelmente, para voc. Mas no estou disposta a passar de novo um mau momento como este, e no tenho nenhuma necessidade de faz-lo. Meus livros se 
vendem bem sem necessidade de me prostituir para que uns estpidos pendurem minha roupa ntima em seu varal.
         Entretanto, o que mais lhe doa era o que tinham feito ao Andrew.
         Tinha lutado ferozmente para proteg-lo deste mundo, e num instante haviam derrubado todas as barreiras protetoras que ela tinha erguido e tinham o exposto 
 curiosidade do pblico como um menino "autista".
         Ainda se estremecia pelo que lhe tinham feito.
         E cada vez que pensava nisso, sentia desejos de matar Allie.
         Teve que fazer um esforo para voltar a prestar ateno ao que ris dizia.
         Insistia para que aceitasse almoar com ela no Four Seasons, mas Daphne no queria.
         -Aconteceu algo grave? 
         -No. Uma oferta muito interessante, mas quero falar dela com voc, amadurec-la um pouco. Quer vir ao meu escritrio? 
         -Por que voc no vem at minha casa? No me sinto com nimos de sair.
         O certo era que desejava ocultar-se.
         Ou voltar para a escola, para estreitar Andrew entre seus braos.
         -De acordo. Passarei ao meio dia. Parece-te bem? 
         -Perfeito. E no se esquea de telefonar ao Murdock.
         Mas ris planejava aguardar um pouco.
         A publicidade para os livros de Daphne era muito importante para tomar uma deciso precipitada, e havia a possibilidade de que Daphne mudasse de idia. 
Embora a conhecendo, o mais provvel era supor que no o faria.
         Era mais teimosa que uma mula, e o que mais lhe importava na vida fosse sua intimidade.
         O fato de que esta tivesse sido violada em cadeia nacional de televiso sem dvida havia sido uma experincia demolidora para ela.
         -Daqui a pouco nos veremos.
         J eram dez horas, e Daphne ouviu quando Barbara introduziu a chave na fechadura, enquanto ela dirigia-se  cozinha calada s com as meias e usando o enrugado 
vestido da noite anterior.
         Por seu aspecto, podia-se pensar que tinha participado de uma festa onde tinha rolado muita bebida.
         -Cus, que maraviha est esta manh! Barbara usava cala cinza e um suter vermelho, e tinha um radiante sorriso.
         Daphne lhe fez uma careta enquanto punha a cafeteira no fogo.
         Barbara entrou na cozinha e deixou a bolsa sobre a mesa.
         Era uma das estranhas ocasies em que no a via com um bloco de papel na mo.
         -Acaso no dormiu ontem  noite? Barbara tinha estado muito preocupada com ela, mas no tinha se atrevido a lhe telefonar.
         Esperava que Daphne tivesse dormido e suspeitava que sua amiga desejasse que a deixassem tranqila.
         Mas esta manh Daphne estava em pssimo estado, e Barbara no quis amol-la.
         -Se me permite dizer, voc parece mal. No dormiu? 
         -Um pouco.
         Barbara tomou um gole do caf fumegante.
         -Lamento o que ocorreu ontem  noite, Daff.
         -Eu lamento mais ainda. Mas no voltar a acontecer. Acabo de lhe pedir para ris que telefone ao Murdock.
         -No o far.
         Disse-o to convencida que Daphne sorriu.
         -Voc tem calado a todo mundo, verdade? Talvez tenha razo.
         Mas se ela no lhe falar, eu o farei.
         -O que pensa fazer a respeito de Allison Baer? 
         Uma expresso maligna escureceu os olhos de Daphne.
         -Francamente, eu a mataria. Mas me conformarei em dizer-lhe umas boas e no lhe dirigir a palavra nunca mais.
         -Foi uma canalhice o que fez.
         -Poderia perdoar-lhe quase tudo, mas no o que o disse a respeito de Andrew.
         Ambas guardaram silncio uns instantes, e Daphne soltou um suspiro enquanto se deixava cair em uma cadeira, com ar abatido e aspecto lastimoso.
         Parecia que precisava de algum que a ajudasse a despir-se, que lhe preparasse o banho e lhe escovasse o cabelo.
         Barbara lamentou que no tivesse um marido para fazer lhe isso. Daphne teria sido uma excelente esposa para qualquer marido, e por sua vez necessitava de 
algum que cuidasse dela.
         Trabalhava muito, preocupava-se muito, e levava todos os problemas sobre suas frgeis costas.
         Necessitava de um homem, igual a Barbara, mas no era provvel que nenhuma das duas o encontrasse.
         Por certo que Daphne no.
         Ela nem sequer deixava que ningum se aproximasse para lhe tirar o casaco; muito menos, pois, ia permitir a algum que tivesse inteno de lhe propor casamento.
         -Ento, o que ris queria? 
         -No sei. Disse algo sobre uma oferta interessante. E se tratar-se de uma excurso publicitria - acrescentou Daphne, sorrindo maliciosamente e ficando 
de p, - vou dizer que lhe dem uma salsicha.
         -Gostaria muito de ouvir. Quer que faa alguma chamada? 
         Daphne lhe entregou uma lista e foi tomar uma ducha.
         Quando sua agente chegou cinco minutos antes do meio-dia, Daphne vestia uma cala de gabardina branca e um suter de cachemira da mesma cor.
         -Veja, est maravilhosa.
         ris sempre se mostrava impressionada por sua elegncia tranqla.
         A maioria dos autores termina por tornar-se pretensiosa, mas Daphne no era destes.
         Ela tinha estilo, e se destacava por seu ar distinto.
         s vezes, isto a fazia parecer maior do que era, mas assim era ela, e no era de estranhar que depois de tudo o que tinha passado ela parecesse mais velha.
         Enfrentar as circunstncias mais dolorosas da vida lhe tinha dado sensatez e ponderao, e uma enorme dose de compaixo.
         -E bem, o que h de novo? -sentaram-se  mesa para almoar e Daphne serviu uma taa de vinho branco para ris, enquanto esta a olhava fixamente, examinando 
seu rosto.
         -Est passando mal? Voc trabalha muito.
         ris disse isto com o tom de uma me muito rgida, mas a conhecia o suficiente para ser capaz de ler em seus olhos o que lhe proporcionava a vida, tal como 
o fazia agora.
         E no lhe custou muito perceber que Daphne estava cansada.
         -O que a faz supor isto? 
         -Est emagrecendo, e pela expresso de seus olhos se diria que tem cento e cinqenta anos.
         -Na realidade, tenho. Cento e cinqenta e dois, para ser mais exata. Farei cento e cinqenta e trs em setembro.
         -Falo srio, Daphne.
         -Eu tambm.
         -De acordo, vou me ocupar de meus assuntos. Como anda o livro? 
         -Bastante bem. Eu o terei pronto dentro de um ms.
         -E ento o que far? Algum plano? 
         -Pensei em passar uma temporada com o Andrew. J sabe-acrescentou, olhando com amargura para sua agente, - meu filho autista.
         -Daphne, no o tome to a srio. Sempre dizem coisas como estas nos programas desta classe e nos jornais.
         -Bom, pois no voltaro a dizer de mim nem de meu filho. Isto  definitivo. Falou com Murdock? 
         Seus olhos tinham um brilho resistente quando pousaram em ris.
         -Ainda no. Mas falarei.
         Barbara tinha razo, e ela sabia. ris dava um tempo.
         -Se voc no lhe falar, eu o farei. Falo muito a srio nesta manh.
         -Est bem, est bem. -ris levantou uma mo, como implorando perdo. -Acima de tudo, h algo mais que quero conversar com voc. Voc recebeu uma oferta 
muito interessante.
         -Para fazer o que? Daphne no parecia impressionada, mas demonstrava desconfiana.
         A noite passada a escaldou terrivelmente.
         -Para fazer um filme, na costa do Pacfico. - ris parecia enormemente satisfeita, e Daphne se limitou a observ-la. -Esto interessados em adquirir os 
direitos de Apache. Os Comstock Studios telefonaram ontem depois de que voc saiu.
         Querem comprar o livro, mas tambm gostariam que pensasse na possibilidade de escrever o roteiro.
         Daphne ficou em silncio durante um longo momento.
         -Voc acha que posso faz-lo? No tenho experincia alguma.
         Seus olhos refletiam preocupao.
         -No h nada que no possa fazer, caso se propuser a isto.
         As palavras de ris ressonaram como um eco das de John, e Daphne sorriu.
         -Tomara que eu pudesse acreditar.
         -Bom, eu acredito, e eles tambm. Ofereceram uma magnfica soma por tudo. Teria que se instalar l de modo que tambm se encarregariam dos gastos, dentro 
do razovel.
         -O que significa isso? 
         -Casa, comida, distraes, faxineira, automvel e chofer.
         Daphne ficou com a vista fixa em seu prato e logo olhou para ris.
         -No posso aceitar.
         -Por que no? -ris se mostrou surpreendida. -Daphne,  uma oferta fabulosa.
         -No tenho nenhuma dvida de que , e eu adoraria lhes vender os direitos sobre o livro. Mas no posso escrever o roteiro.
         -Por que no? 
         -Quanto tempo deveria ficar l?
         -Provavelmente um ano; alguns meses para escrev-lo, e tambm querem lhe consultar durante a filmagem.
         -Ao menos um ano. Possivelmente mais.
         Exalou um suspiro enquanto olhava para sua agente com expresso grave.
         -No posso abandonar Andrew durante tanto tempo.
         -Mas se ele nem sequer vive com voc.
         -ris, eu vou v-lo pelo menos uma vez por semana quando posso. s vezes fico todo o fim de semana. Vivendo em Los Angeles, no poderia faz-lo.
         -Ento, leve-o consigo.
         -Ainda no est em condies de deixar a escola Por mais que eu quisesse, ainda no  o momento.
         -Pode o colocar em uma escola l.
         -Isto seria muito penoso para ele. No seria justo. -Meneou a cabea resolutamente. -No posso. Talvez dentro de alguns anos, mas no agora. Lamento muito. 
Possivelmente possa explicar-lhes.
         -No quero lhes explicar nada, Daphne. Do ponto de vista de sua carreira,  um suicdio. Penso que  um sacrifcio que os dois teriam que fazer. Quero que 
pense, pela menos at na segunda-feira.
         -No mudarei de opinio. 
         Conhecendo Daphne, ris compreendeu que assim seria.
         -Cometer um grave erro se no aceitar esta proposta. Este  realmente o seguinte passo importante em sua carreira. Se no o der, lamentar por toda sua 
vida.
         -E como quer que explique isto a um menino de sete anos? Como posso lhe dizer que minha carreira  mais importante que ele?
         -Pode explicar-lhe e, alm disso, poderia tomar o avio e vir passar um par de dias com ele quando tivesse uma folga.
         -E se no poder vir? Ento, o que? No posso nem telefonar para lhe explicar.
         Isto fez ris emudecer. Claro que no podia lhe telefonar.
         Este era um aspecto em que ris no tinha pensado.
         -No posso, ris.
         -Por que no espera para decidir? 
         Mas Daphne j sabia qual seria a resposta que lhe daria na segunda-feira, e depois que ris partiu, falou com Barbara, sentada com as pernas encolhidas 
em uma enorme e cmoda poltrona branca.
         -Voc gostaria de ir se pudesse? 
         -No estou muito certa. Para falar a verdade, no sei se seria capaz de escrever um roteiro, e viver um ano em Hollywood no  algo que me entusiasme. -Olhou 
em torno do bonito e pequeno apartamento lanando um suspiro e logo deu de ombros. -Mas no vale a pena pensar nisto. No posso abandonar Andrew por tanto tempo, 
e possivelmente no seria sempre fcil escapar para vir v-lo.
         -No caso de que no pudesse escapar, por que no procurar uma maneira de que ele fosse te ver? Eu poderia ir lev-lo.
         Embora nunca tivesse visto o menino, Barbara tinha a impresso de que o conhecia.
         Daphne sorriu com o generoso oferecimento.
         -Agradeo que me diga isto.
         -Por que no conversa com a senhora Curtis quando for visitar Andrew este fim de semana, Daff? 
         Mas que sentido tinha em voltar ao assunto? 
         Nenhuma delas compreendia. No podiam compreender.
         Elas no sabiam o que tinha sentido ao descobrir que seu filho era surdo quando s tinha uns meses de vida, lutar para comunicar-se com ele, discutir com 
todos os mdicos que aconselhavam intern-lo em uma instituio.
         No sabiam o que tinha sofrido ao pr suas coisas em uma mala e o levar para New Hampshire..., ao lhe dizer que seu amigo John tinha morrido...
         No sabiam o que sentia em suas entranhas, nem o que representaria para ela encontrar-se a mais de quatro mil quilmetros de distncia no caso de que algo 
chegasse a acontecer ao menino.
         No sabiam, e nunca poderiam compreend-lo.
         No havia nada que pensar, disse-se uma vez mais quando pegou sua mala, colocou no carro e empreendeu a solitria viagem a New Hampshire para ver Andrew.
         Daphne realizou a viagem em cinco horas, e chegou ao caminho de entrada da Howarth School quando comeava a escurecer.
         Ao chegar ali o corao sempre se apertava, no s por causa de Andrew, mas tambm pela lembrana de John.
         Seus pensamentos sempre retornavam aos dias que tinham passado na cabana.
         Entretanto, a escola estava brilhantemente iluminada, e ela sabia que em um momento veria Andrew.
         Consultou o relgio e viu que chegava a tempo para jantar com ele.
         A senhora Curtis se encontrava no vestbulo quando ela entrou, e no pde ocultar sua surpresa e complacncia ao v-la.
         -No sabia que viria esta semana, Daphne.
         Com o correr dos anos ficaram amigas, e a senhora Curtis a tratava com intimidade; mas Daphne no se acostumava a faz-lo, devido a sua idade avanada.
         No obstante, enviava-lhe todos seus livros, e Helen Curtis demonstrava que adorava.
         -Como est nosso moo? Daphne tirou o casaco no vestbulo e teve a sensao de ter chegado ao seu lar.
         A Howarth School era clida e acolhedora, e era notvel como estava bem cuidada.
         Tinha sido totalmente remodelada no vero anterior, e agora havia murais de pinturas nos corredores, que faziam as delcias dos meninos, que tinham pintado 
nuvens nos cus nas partes baixas.
         -No o reconhecer! -respondeu a senhora Curtis com um sorriso.
         -Cortou o cabelo de novo? As duas mulheres puseram-se a rir, ao recordar como havia ficado no inverno passado depois que ele e dois amiguinhos seus se divertiram 
com umas tesouras.
         Andrew no se saiu to mal como os outros dois.
         E umas meninas que tinham lindas tranas loiras quase ficaram carecas, e pareciam uns patinhos molhados quando eles terminaram com elas.
         -No, nada disto. -A senhora Curtis meneou a cabea com um sorriso. -Mas este ms deve ter crescido uns cinco centmetros pelo menos. Como ver, est enorme. 
Voc vai ter que comprar roupa de novo.
         -Obrigado, meu Deus, pelos direitos autorais! -E com olhar ansioso, perguntou:- Onde est? 
         Em resposta, a senhora Curtis apontou para a escada.
         Andrew descia naquele momento, vestido com cala de veludo cotel bege e uma camisa de flanela vermelha, e usava as botas novas de vaqueiro que Daphne tinha 
lhe levado na visita anterior.
         O rosto do menino se iluminou com um amplo sorriso e seus olhos brilharam de alegria, enquanto ela se aproximava lentamente.
         -Ol, querido. Como est? 
         Alm de lhe falar por gestos, agora Daphne pronunciava as palavras, e o menino lia seus lbios sorrindo.
         Ento, Andrew a surpreendeu ao falar.
         -Estou bem, mame... Como ... voc est? A pronncia era deficiente, mas qualquer um poderia entender o que havia dito.
         -Senti sua falta.
         E ento se jogou nos braos de sua me, e ela o estreitou contra seu peito, contendo as lgrimas que com tanta facilidade enchiam seus olhos quando ele 
chegava.
         Habituaram-se  sua nova vida, e os dias de solido compartilhados em seu antigo apartamento pareciam um sonho longnquo.
         Andrew tinha estado no novo, mas tinha falado a sua me, por gestos, que gostava mais do antigo.
         Ela garantiu que tambm se acostumaria quele, e mostrou qual seria seu quarto, dizendo que ele um dia moraria ali todo o tempo, como quando ocupavam o 
outro.
         Entretanto, agora a nica coisa que ocupava sua mente era a sensao de estreitar seu corpinho quente e macio contra o seu.
         -Eu tambm senti sua falta.
         Daphne se afastou um pouco para que o menino pudesse ver seu rosto enquanto ela dizia:
         -O que voc estava fazendo? 
         -Estou cultivando hortalias!-parecia entusiasmado. -E colhi dois tomates.
         Expressava-se com gestos, mas quando sua me lhe falava ele lia seus lbios, e parecia no ter nenhuma dificuldade em entender.
         -Em pleno inverno? Como o fez? 
         -Em uma caixa enorme iluminada com luzes especiais, e quando a primavera chegar, vamos plantar flores do lado de fora.
         -Que maravilha! 
         Entraram no refeitrio segurando as mos, e Daphne sentou-se com ele e os outros meninos, para saborear frango frito com espigas de milho e batatas assadas.
         Todos riam e contavam piadas, por gestos.
         Ela ficou at que Andrew foi dormir; agasalhou-o com todo cuidado e logo desceu para ver a senhora Curtis antes de partir.
         -Teve uma boa semana? Havia uma estranha expresso em seus olhos ao formular a pergunta, e Daphne compreendeu instintivamente que tinha visto o programa 
na televiso. E quem no vira? 
         -No muito boa. Ontem estive em Chicago.
         Vacilou antes de acrescentar alguma coisa, mas no teve necessidade disto.
         -Sei. Foi uma baixeza o que Conroy fez.
         -Viu o programa? 
         -Vi. Mas no voltarei a assisti-lo nunca mais.  um canalha.
         Daphne sorriu diante daquela expresso to carrancuda, to pouco caracterstica nela.
         -Voc tem razo. Disse a minha agente que em conseqncia disso, no voltarei a participar de nenhuma outra campanha publicitria. Com isto tive o bastante. 
O que mais me chateia  que nunca fazem aos homens este tipo de perguntas. Claro que o pior foi o que disse a respeito de Andrew.
         -Na realidade, isto no tem nenhuma importncia, sabe? Voc e ele conhecem a verdade, e o resto das pessoas se esquecer disto.
         -Possivelmente sim ou possivelmente no - respondeu Daphne, que no estava to certa. -As pessoas intrometidas so muito especiais. Dentro de dez anos algum 
desenterrar a fita de vdeo deste programa e elaborar uma histria.
         -Sua profisso no  um mar de rosas, mas deve ser muito gratificante.
         -s vezes.
         Daphne sorriu, mas em seus olhos se via que algo a perturbava, e a senhora Curtis se deu conta disto.
         -Aconteceu algo grave? 
         -No..., na realidade no, mas..., preciso que me aconselhe. Pensei que possivelmente poderamos falar em qualquer momento deste fim de semana.
         -Por que esperar? Poderamos conversar agora. Quer entrar e se sentar? 
         Fez um gesto para suas dependncias privadas, e Daphne assentiu com a cabea. Seria um alvio falar agora.
         O apartamento da senhora Curtis na escola era pequeno e limpo como ela mesma.
         Estava cheio de antiguidades muito bonitas da poca da colonizao, que ela mesma tinha comprado, e havia quadros com paisagens de New Hampshire.
         Sobre uma mesinha baixa havia um vaso com flores frescas, e abaixo dela se estendia um tapete redondo que tinha adquirido em uma casa de antiguidades de 
Boston. De certo modo, parecia a casa de uma professora de escola, mas tinha um calor adicional, e algumas de suas coisas eram adorveis.
         Daphne olhou em torno, pois igual a tudo da escola, tambm aquele ambiente lhe era familiar.
         Helen Curtis olhou em torno por sua vez, quase com nostalgia, mas Daphne no percebeu.
         A senhora Curtis preparou um ch em sua cozinha, que serviu em delicadas xcaras floreadas de Spode com um guardanapo de encaixe.
         -Bem, do que se trata, querida? Algo relacionado com o Andrew? 
         -Indiretamente, sim. - Daphne resolveu ir direta ao assunto. Tive uma oferta para fazer um filme. O Comstock Studios quer adquirir os direitos de Apache, 
o que  maravilhoso. Isto me obrigaria a ficar em Los Angeles durante um ano. E no acredito que deva faz-lo.
         -Por que no? A mulher parecia satisfeita e surpresa ao mesmo tempo.
         -E Andrew? 
         -O que tem ele? Acaso quereria coloc-lo em uma escola l? 
         Diante desta possibilidade, a senhora Curtis se mostrou preocupada. Sabia que, no momento, qualquer mudana seria difcil para ele.
         Howarth tinha sido seu lar durante um longo tempo, e sofreria muito.
         -Penso que coloc-lo em uma escola de l representaria uma mudana muito brusca para Andrew. No; se aceitasse ir, eu o deixaria aqui. Mas se sentiria abandonado.
         -No, se lhe explicarmos convenientemente. No sentiria mais que qualquer outro menino de sua idade. Poderia lhe dizer que seu trabalho exige isto e que 
s seria por um tempo. Poderia ir lhe visitar, ns o acompanharamos at o avio, ou voc poderia vir visit-lo.
         -Provavelmente no poderia vir muito freqentemente. Deduzo que, uma vez que comece a filmar, ser quase impossvel afastar-me de l. Mas acredita seriamente 
que ele poderia ir? 
         -No vejo por que no poderia - respondeu Helen Curtis com amabilidade, deixando a xcara de ch sobre a mesa. -Andrew est crescendo, Daphne, j no  
um beb, e adquiriu muitos conhecimentos prticos que o ajudaro a se desenvolver. -Ele j viajou de avio alguma vez? -Daphne negou com a cabea. -Certamente adoraria.
         -No acredita que seria uma experincia muito dura para ele? No me veria to freqentemente como agora.
         -Tem que saber que outros pais no vm de visita com tanta freqncia como voc.  muito sortuda por poder faz-lo; a maioria das mes no pode, j que 
tm seus maridos, outros filhos, empregos que as impedem... Voc e Andrew so muito afortunados.
         -E se eu for? 
         -Ele se adaptar. No ter outro remdio.
         Seria terrivelmente penoso separar-se de Andrew. Daphne sentia nascer nela um sentimento de culpa.
         -Sei que no ser fcil no princpio, mas far bem a ambos. Poderia ser uma maravilhosa experincia para voc. Partiria logo? 
         -Muito em breve. Este ms mesmo.
         -Ainda teria algum tempo para prepar-lo.
         Soltou um suspiro e ficou contemplando sua jovem amiga. Sentia um grande carinho por Daphne, pois era uma jovem com garra e dotada de uma grande ternura.
         Ambas as qualidades estavam estampadas em seus livros e constituam uma combinao fascinante.
         -Temo que no eu tenha a mesma oportunidade para preparar voc.
         -Me preparar para que? 
         Daphne no pde ocultar seu assombro, embora em sua mente ainda se debatesse a questo de separar-se de Andrew para ir a Los Angeles ou ficar junto a ele.
         -Vou deixar a escola, Daphne. Vou me aposentar.
         - srio? 
         Daphne sentiu como se uma pedra lhe acertasse o corao.  Demorava a adaptar-se s mudanas e a perder as pessoas que amava.
         -Mas por qu? A mulher de cabelos grisalhos ps-se a rir.
         -Obrigado por me perguntar isto. Eu acreditava que a razo fosse evidente. Estou ficando velha, Daphne. J  hora de voltar para casa, e deixar a escola 
a cargo de algum mais jovem, mais dinmico.
         -Mas isto  terrvel! 
         -No tem nada de terrvel. Ser um bem para a escola. Daphne, eu sou uma anci.
         -No diga isto! -exclamou Daphne, irritada.
         -Sou sim. Tenho sessenta e dois anos. So muitos anos. E no quero esperar que tenham que me tirar daqui em uma cadeira de rodas. J  hora, me acredite.
         -Mas se nunca esteve doente...
         Daphne parecia uma menina a ponto de perder sua me.
         Andrew se sentiria assim quando lhe dissesse que ia para Los Angeles.
         E como poderia o deixar agora que a senhora Curtia tambm partiria? O menino se sentiria abandonado por todas as pessoas a quem amava.
         Daphne olhou para Helen Curtis quase com desespero.
         -Quem ocupar seu lugar? Como se algum pudesse! 
         -No acredite que  to impossvel. Minha antecessora estava convencida de que ningum podia substitu-la, e ao final de quinze anos ningum se lembra dela. 
E  melhor que seja assim. A escola  to importante como as pessoas que a regem, e o que voc quer  que essas pessoas sejam jovens e vitais e cheias de idias 
novas. H um homem maravilhoso que ficar no cargo por um ano. Atualmente dirige a Escola para Surdos de New York, e pediu uma licena por um ano para estudar como 
fazemos as coisas aqui. Esteve  frente da escola de New York durante oito anos, e considera que precisa renovar as idias a fim de no estagnar-se. Certamente que 
ter ocasio de conhec-lo. Amanh o teremos conosco. Veio durante a semana para ambientar-se um pouco.
         -Isto no acarretar muitas mudanas para os meninos? 
         -No acredito. Nossa junta de diretores o aceitou, e ocupar o cargo por um ano. Matthew Dane goza de grande prestgio em nossa rea. Por certo que no ano 
passado te dei um livro escrito por ele. Publicou trs. Assim, tero algo em comum.
         Daphne lembrou do livro, que lhe tinha parecido estar escrito com grande sensatez. Mas...
         -Amanh os apresentarei.
         Ento, esboando um sorriso, ficou de p.
         -E se me perdoa que me mostre excessivamente maternal, direi que te faz falta uma boa noite de descanso. Parece extremamente cansada.
         Daphne assentiu em silncio, aproximou-se da Helen e fez algo que nunca tinha feito antes: rodeou-a com seus braos e a estreitou afetuosamente.
         -Sentiremos sua falta, senhora Curtis.
         Quando a boa mulher se separou dos braos de Daphne tinha os olhos cheios de lgrimas.
         -Eu tambm sentirei falta de vocs. Mas virei de visita com freqncia.
         Daphne se despediu dela e se dirigiu  pousada familiar, onde a senhora Obermeier a acompanhou a seu quarto e lhe deixou um recipiente trmico com chocolate 
quente e um prato de biscoitos.
         Os habitantes da cidade tinham simpatia por Daphne; era uma celebridade que eles conheciam e uma mulher a quem respeitavam.
         Alguns recordavam de John, e adoravam v-la passear com Andrew.
         Para eles, Daphne era uma mulher extremamente humana.
         Estendeu-se na cama bocejando, serviu-se uma xcara de chocolate e a bebeu com uma expresso sonhadora no rosto.
         De repente, estavam acontecendo muitas mudanas.
         Apagou a luz e repousou a cabea sobre o amaciado e grande traveseiro, e em cinco minutos j estava dormindo.
         Nem sequer trocou de posio at que o sol comeou a filtrar-se pelas janelas na amanh seguinte.
         No sbado pela manh, depois de tomar o caf da manh na pousada, Daphne chegou  escola a tempo de presenciar como os meninos brincavam no jardim.
         Andrew ria e jogava com seus amiguinhos, e quase nem se deu conta da chegada de sua me.
         Nada de amostras de desespero nem desejos de agarrar-se  sua me, como Daphne sempre tinha imaginado que aconteceria quando o deixasse ali.
         Agora, o menino compreendia seu modo de viver to bem como ela, e s vezes melhor.
         Ela quase se perguntava em algumas ocasies como reagiria seu filho quando chegasse o momento de abandonar definitivamente a escola.
         Ficaria muito sozinho sem a constante companhia dos outros meninos?
         Isto a preocupava quando pensava no dia longnquo em que estaria preparado para voltar para casa.
         Entretanto, ento j seria maior, e a vida seria diferente.
         Teria seus estudos e novos amigos, meninos que ouviriam, e no s de meninos como ele.
         Ficou um momento contemplando, aguardando inconscientemente a chegada da senhora Curtis, para continuar a conversa da noite anterior. Mas quando voltou 
a v-la, a mulher estava distrada em um bate-papo com um homem bem apessoado, alto e magro, que tinha um sorriso animado.
         Daphne ficou olhando-o fixamente.
         Aquele homem lhe parecia vagamente conhecido.
         Naquele momento, a senhora Curtis se voltou e, ao v-la, fez-lhe gestos para que se aproximasse.
         -Daphne, queria lhe apresentar ao nosso novo diretor, Matthew Dane. Matthew, a senhorita Fields  a me do Andrew.
         Tambm na escola a tratavam de senhorita, depois de ter se tornado uma escritora famosa.
         Daphne estendeu a mo para saud-lo, mas a expresso de seus olhos se tornou interrogadora.
         - um prazer conhec-lo. Eu gostei muito de seu ltimo livro.
         Ele sorriu diante do cumprimento, e seu franco sorriso de moo lhe deu uma aparncia de pessoa mais jovem; ningum lhe teria dado quarenta anos.
         -Eu adorei todos os seus.
         -Voc os leu? Daphne pareceu encantada e talvez assombrada, e ele pareceu achar divertido.
         -Junto com uns dez milhes de leitores, imagino.
         Daphne sempre se perguntava quem leria seus livros; passava horas e horas em seu escritrio, criando personagens e situaes, contudo era difcil imaginar 
que havia gente de carne e osso que lia seus livros.
         Quando algum lhe revelava t-los lido, ela sempre se surpreendia.
         O mais surpreendente de tudo era ver um desconhecido caminhando apressadamente pela rua com um de seus livros debaixo do brao.
         "Ei, oua..., este livro, eu o escrevi ...Gostou?...Quem  voc?" Sorriu de novo para Matthew Dane, e seus olhos se encontraram, cheios de interrogaes.
         -A senhora Curtis comentou que voc ficar em Howarth durante um ano. Ser uma grande mudana para os meninos - disse Daphne, com uma sombra de inquietao 
nos olhos.
         -Tambm ser para mim.
         Havia algo tranqilizador naquele homem, que a olhava de sua considervel estatura.
         Tinha um ar de adolescente, mas ao mesmo tempo emanava dele uma serena energia.
         -Imagino que muitos pais estaro preocupados porque minha estadia aqui  s temporria, mas a senhora Curtis continuar a nosso lado para nos ajudar.
         Dirigiu um rpido olhar  mulher, sorrindo, e logo voltou a pousar os olhos em Daphne.
         -Acredito que todos saremos beneficiados desta experincia. Temos muito que aprender uns com os outros...
         Daphne assentiu.
         -E existem novos programas que desejamos pr em prtica, em intercambio com a escola de New York.
         Era a primeira vez que Daphne ouvia falar disto, e se mostrou intrigada.
         -Um programa de intercmbio? 
         -Algo assim. Como voc sabe, a maioria de nossos alunos so maiores, e os daqui so pequenos. Eu e a senhora Curtis estivemos conversando sobre este particular, 
e acredito que poderia ser muito til que alguns dos estudantes da escola de New York passassem algumas semanas aqui, para ver como  a vida no campo, possivelmente 
para estabelecer uma relao do tipo irmo maior com os meninos desta escola, e logo alguns dos pequenos poderiam ir a New York por uma ou duas semanas. Aqui levam 
uma vida muito isolada, e essa mudana poderia constituir uma interessante abertura para eles, sem sair de um meio que lhes  relativamente familiar. Veremos como 
podem desenvolver-se estas idias.
         Apareceu de novo o sorriso juvenil.
         -Tenho alguns truques na manga, senhorita Fields. O importante reside em no apartar os olhos do objetivo que pretendemos alcanar para nossos meninos: 
incorpor-los ao mundo das pessoas dotadas do sentido do ouvido. Na escola de New York colocamos muita nfase na leitura dos lbios por esta razo, mais que na linguagem 
dos sinais, porque se tiverem que ingressar no mundo dos ouvintes, tem que entender o que acontece seu redor, e apesar de haver-se criado uma nova conscincia do 
problema, o certo  que muito pouca gente conhece essa linguagem. No queremos condenar a estes meninos a viver s entre os que so como eles.
         Era algo em que Daphne tinha pensado freqentemente, e por isto agora olhou para Matthew quase com alvio.
         Quanto antes ensinasse ao Andrew os conhecimentos prticos que o menino necessitava, antes poderia voltar para seu lar com ela.
         -Eu gosto de sua teoria, senhor Dane. Por isto eu adorei seu livro. Pareceu-me muito sensato e realista e desprovido de sonhos absurdos.
         -Oh - exclamou Matthew, com olhos brilhantes, - eu tambm  tenho alguns sonhos absurdos. Como fundar um internato para surdos e no surdos. Mas ainda falta 
muito para chegar a isto.
         -Talvez no.
         Olharam-se fixamente uns instantes, como se nascesse entre eles uma espcie de respeito mtuo, e logo os olhos de Matthew se enterneceram, como se tivesse 
esquecido da presena da Helen Curtis. Dois dias antes tinha visto Daphne no Conroy Show de Chicago, e tinha compreendido muitas coisas com respeito a ela que sentia 
sem a conhecer.
         O que tinha constatado por meio do programa televisivo lhe provocava nusea como uma espcie de violao, e no desejava que ela soubesse que a tinha visto.
         No obstante, Daphne descobriu em seus olhos ao v-lo vacilar, e tambm seu olhar foi eloqente para Matthew.
         -Viu-me no Conroy Show anteontem  noite, senhor Dane? -perguntou-lhe Daphne com voz baixa e triste, e com os olhos muito abertos.
         Ele assentiu com a cabea.
         -Sim, vi-a. Pensei que voc soube se sair bem.
         Ela suspirou e meneou a cabea.
         -Foi um pesadelo.
         -No deveria lhes permitir fazer isto.
         -Mas o fazem. Por isto no penso em conceder nenhuma entrevista mais, como disse  senhora Curtis ontem  noite.
         -Nem todos so como Conroy, no acredita? 
         -A maioria  como ele. No lhes interessa a obra que algum faz. Querem colocar os narizes na intimidade, em seu corao, em suas vsceras, em sua alma. 
E se podem descobrir algo turvo, ficam encantados.
         -No havia nada de turvo nisto. Havia dor, pena e vida.
         A voz do Matthew era como um quente abrao sob uma corrente de ar gelado.
         -Lendo seus livros, a gente sabe mais a seu respeito do que ningum possa lhe fazer dizer. Isto  o que desejava lhe expressar. Tenho descoberto algo sobre 
voc em seus livros, mas ainda tenho descoberto mais coisas a respeito de mim mesmo. Eu no experimentei as perdas que voc sofreu...
         E em silncio se maravilhava de como tinha conseguido sobreviver e manter-se to ntegra.
         -Mas todos ns sofremos perdas, perdas que machucam, que nos parecem as tragdias mais terrveis da terra. Eu li seu primeiro livro quando me divorciei 
uns anos atrs, e sua leitura atuou de uma maneira muito especial em mim. Ajudou-me a superar aquele transe.
         Pareceu perturbado ao dizer isto.
         -Li-o duas vezes e enviei um exemplar para minha esposa.
         Aquelas palavras comoveram profundamente a Daphne.
         Comprovar que seus livros significavam tanto para algumas pessoas era algo extraordinrio o contemplou encantada; ento olhou para Matthew Dane, para dirigir-se 
a ele por gestos.
         -Senhor Dane, este  meu filho. Andrew, apresento-lhe o senhor Dane.
         Mas quando Matthew Dane lhe falou por gestos, tambm o fez em voz normal, movendo cuidadosamente os lbios.
         -Muito prazer em lhe conhecer, Andrew. Eu gosto de sua escola.
         -Voc  amigo de minha mame? -perguntou-lhe Andrew por gestos e com evidente curiosidade.
         Matthew sorriu, dirigindo um rpido olhar a Daphne.
         -Espero s-lo. Vim visitar a senhora Curtis.
         De novo lhe falou por gestos e em voz alta:
         -Vou passar aqui todos os fins de semana.
         Andrew o olhou com ar zombador.
         -Voc  muito grande para freqentar a nossa escola.
         -Sei.
         -Voc  professor? 
         -Sou o diretor de uma escola de New York, igual  senhora Curtis.
         Andrew assentiu com a cabea e, satisfeita sua curiosidade no momento, voltou-se para sua me, a quem abraava, com seus loiros cabelos agitados pelo vento.
         -Almoar conosco, mame? 
         -Eu adoraria.
         Cumprimentou Matthew e a senhora Curtis e seguiu Andrew ao interior da escola, enquanto o menino saltava e corria,  agitando a mo e fazendo gestos para 
seus amiguinhos.
         Entretanto, era o novo diretor quem ocupava os pensamentos de Daphne.
         Era um homem interessante.
         Mais tarde voltou a v-lo, caminhando por um corredor carregando com uma pilha de papis.
         Conforme havia dito a senhora Curtis, lia tudo que caa em suas mos, correspondncia, arquivos, informes e livros de contabilidade, e no deixava de observar 
os meninos.
         Era muito meticuloso em seu trabalho.
         -Passou um bom dia com o Andrew? Em seus olhos pardos havia interesse e ternura.
         -Acho que sim. E a voc parece que lhe impuseram muitos deveres.
         Daphne lhe sorriu, e ele assentiu com um gesto.
         -Tenho muito que aprender desta escola.
         Detiveram se no corredor, e ela se fixou na amabilidade de sua voz.
         -Acredito que todos ns temos muito que aprender com voc.
         Daphne estava intrigada pela nfase que punha na leitura dos lbios, e tinha notado que falava com todos os meninos em voz alta ao mesmo tempo em que por 
gestos, e que os tratava como se pudessem ouvir.
         -Por que  que voc se dedica a isto, senhor Dane? 
         -Minha irm nasceu surda. ramos gmeos. E sempre estive muito apegado a ela. O curioso  que entre os dois elaboramos nossa prpria linguagem. Era uma 
linguagem a base de sinais muito extravagante, mas eficaz. Mas logo meus pais a puseram em uma escola - acrescentou denotando desassossego, - mas no era uma escola 
como esta. Era uma dessas escolas que havia trinta anos atrs, nas que algum devia passar o resto de sua vida. Nunca aprendeu os conhecimentos prticos que necessitava, 
nunca lhe ensinaram nada que lhe permitisse reintegrar-se ao mundo.
         Daphne no se atreveu a lhe perguntar o que tinha sido dela, mas Matthew esboou seu sorriso carinhoso.
         -Bom, foi assim que comecei nisto. Graas a minha irm. Quando me formei, propus-lhe que fugisse da escola, e fomos viver mo Mxico durante um ano, contando 
com o que eu tinha economizado trabalhando no vero como ajudante de pedreiro. Ensinei-lhe a falar, a ler nos lbios, e quando retornamos contamos a nossos pais. 
Ela j era maior de idade e, legalmente, podia fazer o que quisesse. Nossos pais tentaram que a declarassem incompetente, e em uma ocasio trataram de me fazer prender... 
Foi uma poca terrvel, mas minha irm seguiu adiante.
         Por fim Daphne se animou a lhe perguntar: 
         -Onde ela est agora? 
         O sorriso de Matthew ficou maior.
         -Ensina na escola de New York. Ocupar meu posto enquanto eu estiver ausente este ano. Est casada e tem dois filhos; ambos ouvem perfeitamente, claro. 
Seu marido  mdico. E  obvio agora nossos pais dizem que eles sempre souberam que minha irm conseguiria superar suas deficincias.  uma jovem extraordinria, 
e voc gostaria dela.
         -Estou certa disto.
         -Ela adora seus livros. A cara que far quando souber que a conheci!
         Daphne se ruborizou, pois lhe parecia uma tolice que uma mulher que tinha conseguido superar-se daquela maneira se deixasse impressionar pelos livros medocres 
que ela escrevia.
         Comparando-se com ela, depois do relato de seu irmo, Daphne se sentia muito insignificante.
         -Eu gostaria de conhec-la.
         -Conhecer. Vir  escola, e a senhora Curtis me contou que voc vem aqui muito freqentemente.
         De repente, Daphne pareceu preocupada, e lhe examinou os olhos.
         -Sim..., vinha...
         Soltou um suspiro, e ento ele indicou com um gesto as duas poltronas de um lado do vestbulo.
         -Quer sentar-se, senhorita Fields? 
         Estavam h quase meia hora de p no vestbulo, e ela assentiu com a cabea.
         -Peo lhe que me chame Daphne.
         -Farei isto, se voc tambm o fizer.
         Daphne sorriu, e se sentaram.
         -Algo me diz que tem algum problema - disse ele. -Posso fazer algo para lhe ajudar? 
         -No sei. Eu e a senhora Curtis conversamos sobre isto ontem  noite.
         -Est relacionado com o Andrew? Ela assentiu com um gesto.
         -Sim. Ofereceram-me para fazer um filme em Hollywood. Isto significa que teria que passar um ano na Califrnia.
         -E pensa em levar seu filho com voc? 
         Matthew parecia contrariado, mas ela negou com a cabea.
         -No, realmente penso que deveria deix-lo aqui. Mas este  o problema. Andrew no poderia me ver...  No sei se poder suport-lo, ou mais concretamente, 
no sei se deveria...
         Levantou a vista para ele; seus enormes olhos azuis pousaram em Matthew.
         -Na verdade, no sei o que fazer.
         - uma situao difcil. Nem tanto para o Andrew. Mas para voc. Ele se adaptaria.
         E com amabilidade, acrescentou:
         -Eu poderia ajud-lo. Todos o faramos. Talvez se mostre zangado por um tempo, mas acabar por compreender. Alm disso, este ano vou mant-los muito ocupados. 
Penso fazer muitas excurses com eles, para que entrem em contato com o mundo tanto como seja possvel. Aqui vivem um pouco isolados.
         Ela assentiu. Matthew tinha razo.
         -O que acharia se fosse visit-la durante as frias? 
         -Acredita que poderia faz-lo? 
         -Com a devida preparao. Definitivamente, este  o modo de vida que desejo para ele. O que se pretende  que seja capaz de tomar um avio, de ir de um 
lado a outro; que seja independente, para poder ver algo mais do mundo, e no s este lugar.
         Dapnne assentiu lentamente com a cabea.
         -Mas  to pequeno! 
         -Daphne, tem sete anos. Se fosse um menino normal, no vacilaria em faz-lo tomar um avio, no  certo? Por que o tratar de maneira diferente?  um menino 
muito inteligente.
         Enquanto o escutava, Daphne se sentia invadida por uma sensao de alvio, e os muros que tinha erguido mentalmente em torno de seu filho comearam a cair.
         -E no s isto, mas tambm  importante para ele que voc seja feliz, que a veja levar uma vida plena. No pode agarrar-se a ele indefinidamente.
         No havia nenhuma recriminao em sua voz, s ternura e compreenso.
         -Se fosse o caso, estaria somente a sete ou oito horas de vo. Se aparecesse algum problema, lhe telefonaramos, e de um salto estaria em Boston. Eu mesmo 
poderia lhe esperar no aeroporto, e em um par de horas estaria aqui. Pensando bem, no estaria muito mais longe que em New York.
         Tinha uma maravilhosa maneira de resolver os problemas, de encontrar solues, e fazer que tudo parecesse muito simples.
         Agora compreendia como tinha conseguido convencer sua irm para que abandonasse a escola e fosse com ele ao Mxico.
         Sorriu ao constat-lo.
         -Ouvindo-o tudo parece muito simples.
         -Pode s-lo; para voc e para o Andrew, se propuser isto. Sua deciso deve apoiar-se no que voc deseja fazer.
         Um dia, ele tambm ter que tomar decises, decises independentes, decises que lhe permitiro ser livre e forte e escolher por si mesmo, no por sua mediao. 
         Ensine lhe a faz-lo o quanto antes possvel. Voc quer fazer um filme? Voc quer ir a Hollywood durante um ano? Estas so as questes que deve ter em conta. 
No Andrew. 
         No deve renunciar a algo que  uma parte importante de sua vida por causa de seu filho. 
         Oportunidades como esta no aparecem muito freqentemente, ou talvez sim para voc. Mas se  importante para voc, se  que voc deseja, ento faa. Diga-lhe, 
deixe que a idia v amadurecendo. Eu te ajudarei.
         Daphne compreendeu que ele o faria.
         -Tenho que pensar.
         -Pense; podemos voltar a falar disto manh. Deve estar preparada, pois  provvel que Andrew reaja raivosamente, mas isto  o que se pode esperar de qualquer 
menino de sua idade se a me lhe diz que tem que separar-se dele. Deve compreender que a raiva e a reao so normais. Ser pai nem sempre  fcil.
         Matthew lhe sorriu de novo.
         -Eu fui testemunha do que minha irm teve que passar. Ela tambm teve gmeas. Suas filhas tm atualmente quatorze anos. E se lhe parece difcil brigar com 
um menino de sete, imagine o que deve ser quando tm o dobro desta idade, e so meninas! -Revirou os olhos. -Eu no resistiria! 
         -Voc no tem filhos? 
         -No. -Parecia lamentar-. Exceto os cento e quarenta e seis que deixarei na escola de New York em mos de Martha, minha irm. Minha esposa no quis ter 
filhos. Ela tambm era surda...
         Daphne assentiu compreensivamente, acostumada como estava a tudo que podia chegar aquele trmino, que parecia pouco familiar a outras pessoas.
         -Mas era muito diferente de minha irm. Aterroriza-a pensar que seus filhos no pudessem ouvir. Tinha muitos traumas por causa de sua surdez. Ao fim, isso 
foi a causa de nossa separao - acrescentou dolorido.- Era modelo em New York, e era incrivelmente brilhante. Eu lhe dava aulas particulares durante algum tempo, 
e assim foi como nos conhecemos. Mas seus pais a tratavam como se fosse uma boneca de porcelana, e ela no teve um irmo louco como eu quando era adolescente. Fechou 
se em sua surdez. Ela constitui um exemplo perfeito do porque no deve tratar o Andrew de uma maneira diferente de como trataria a qualquer outro menino. No lhe 
faa uma coisa semelhante, Daphne. Se o fizer, vai priv-lo de tudo que no dia de amanh ser fundamental para ele.
         Guardaram silncio uns instantes, cada um deles perdidos em seus prprios pensamentos. Matthew tinha pensado muito no caso de Daphne no decorrer da ltima 
hora.
         Tinha-o feito participante de uma parte importante de sua vida, e Daphne compreendeu que tinha ganhado um amigo.
         -Penso que tem razo, Matt. Mas me assusta terrivelmente deix-lo aqui sozinho.
         -H muitas coisas na vida capazes de nos inspirar medo Mas no geral, tambm as coisas boas tambm os so. Pensa em todas boas coisas que tem feito em sua 
vida. Quais foram fceis? Provavelmente, nenhuma, mas apostaria que sempre valeu a pena lutar por elas. E imagino que fazer um filme constitui um passo importante 
em sua carreira.
         -Afinal, de que livro se trata?
         -Apache.
         Daphne lhe sorriu, orgulhosa de si mesma e nada envergonhada que ele percebesse isto.
         -Este  meu livro favorito.
         -O meu tambm.
         Ento, recolhendo sua pilha de papis, Matthew ficou de p.
         -Ficar para jantar? -ela assentiu.
         -Deverei tomar caf contigo. Antes disto, vou comer um sanduche l em cima, assim poderei fazer os deveres.
         Daphne recordou o que lhe havia dito.
         As melhores coisas da vida no eram fceis.
         Ou no tinham sido para nenhum dos dois.
         -Nos veremos logo, Matt.
         Separaram-se ao p d escada, e ela ficou o observando um instante.
         Ele se voltou como se pressentisse.
         -E obrigado - acrescentou Daphne.
         -Estou a suas ordens. Sempre lhe direi a verdade, Daphne, do que penso e do que sinto. Lembre-se quando estiver na Califrnia. Eu lhe direi como ele se 
encontra, e se necessitar de voc, lhe avisarei. Ento poder tomar ou avio, ou eu mesmo porei o Andrew em um.
         Ela assentiu, e Matthew a saudou com a mo e desapareceu no ltimo patamar da escada.
         Daphne estranhou que j desse como certo que ela que iria para a Califrnia.
         Acaso lhe tinha lido os pensamentos? Como podia conhecer sua deciso antes que ela a tivesse tomado? Ou talvez ela j houvesse resolvido secretamente, e 
morria de vontades de partir.
         Enquanto isto, no estava to segura quando entrou na espaosa sala de jogos para ver Andrew.
         Ao v-lo, seu corao se encolheu.
         Como poderia separar-se dele? Era to pequeno e to tenro...
         Mas nesta noite, enquanto jazia na cama da pousada, voltou a pensar em tudo isto, pesando os prs e os contra, pondo o dever, a obrigao e o amor em um 
prato da balana, e a fascinao, a curiosidade, a ambio e sua carreira no outro.
         Era uma deciso difcil.
         De repente soou o telefone; era Matthew.
         Daphne se sobressaltou ao ouvir sua voz, e em seguida se perguntou se teria ocorrido algo.
         - bvio que no. Se fosse isto quem lhe teria telefonado seria a senhora Curtis. Oficialmente, ainda no sou ou diretor, sabe, e no o serei at dentro 
de poucas semanas.
         Estava pensando em sua deciso, e me ocorreu uma idia.
         Se ficar muito atarefada em Los Angeles em um determinado momento e no puder arrumar as coisas para que Andrew fosse te ver, poderia lev-lo para a casa 
de minha irm. Teria que nos dar uma permisso especial, claro, mas estou certo que se divertiria muito. Minha irm  um fenmeno, e suas filhas so extraordinrias. 
O que lhe parece?
         -No sei o que dizer-lhe, Matthew. Estou confusa,
         -No fique. No ano passado levei quarenta e trs estudantes nossos para a minha casa para o jantar de Natal. Martha cozinhou, e seu marido promoveu uma 
partida de rugby no parque. Foi sensacional.
         Daphne quis lhe dizer que ele tambm era, mas no se atreveu.
         -No sei como lhe agradecer por isto 
         -No tem nada que agradecer. S confie em mim e deixe  Andrew em minhas mos.
         Daphne ficou em silncio por alguns segundos; era tarde, e Matthew tinha sido muito franco com ela. Desejava, pois, ser tambm com ele.
         -Matt,  muito penoso para mim o deixar... Ele  tudo que tenho na vida.
         -Sei. Ou pelo menos, imaginava - disse ele com voz muito doce. Andrew ficar bem, e voc tambm.
         Enquanto o escutava, Daphne se convenceu disto, e finalmente tomou a deciso.
         -Creio que vou aceitar a oferta.
         -Parece muito certo.
         Suas palavras contribuam para ser mais fcil o fato de ter tomado aquela deciso, e de repente lhe pareceu surpreendente que o tivesse conhecido naquela 
mesma manh e j confiasse em seu julgamento, at o extremo de deixar seu filho em suas mos.
         -Quando voltar a New York, eu a apresentarei para minha irm. Possivelmente voc gostaria de vir aqui na prxima semana para conhec-la, se  que dispe 
de tempo.
         -Encontrarei o tempo.
         -Magnfico. Verei voc pela manh. E parabns.
         -Por qu? 
         -Por ter tomado uma deciso to difcil. Alm disto, eu tenho um motivo egosta em tudo isto. Quero ver meu livro favorito convertido em um filme.
         Daphne ps-se a rir, e logo concordou.
         Nesta noite, por fim, pde dormir tranquilamente.
         -Sei que parece muito tempo, querido, mas poder ir me visitar durante as frias, e nos divertiremos muito na Califrnia; alm disso, prometo vir te ver...
         Daphne se desesperava para expressar-se por gestos, mas Andrew se negava a olhar para ela.
         Tinha os olhos cheios de lgrimas.
         -Andrew..., querido..., peo-lhe isto...
         Tambm seus olhos se umedeceram, enquanto brigava para manter seu filho ao seu lado, no jardim da escola.
         O menino se virou de costas, com os ombros cados e a cabea baixa, sacudido pelos soluos; e quando sua me quis pux-lo brandamente para ela, comeou 
a proferir uns horrveis sons guturais, e Daphne sentiu como se o corao se partisse.
         -Oh, Andrew..., meu amor..., quanto eu sinto.
         Oh, Deus, no podia fazer isto. No podia fazer uma coisa semelhante a seu filho.
         "Ele se adaptar", diziam-lhe.
         Demnios,era como pretender que se adaptasse a uma nova vida depois de ter sofrido uma dupla amputao.
         E por que ele tinha que fazer isto? S porque tinha ocorrido a ela que desejava fazer um filme?
         Daphne se sentiu m e egosta, detestando a si mesma por ter tomado aquela deciso e pelo dano que evidentemente estava lhe causando.
         No podia fazer isto a seu filho.
         O menino precisava dela consigo desesperadamente.
         Depois de tudo...
         Tentou peg-lo em seus braos, mas Andrew no permitiu, e ela ficou olhando-o cheia de desnimo, quando Matthew Dane surgiu.
         Ele os observou por uns instantes, sem dizer nada, e pela expresso de Andrew compreendeu imediatamente que Daphne lhe havia dito.
         Aproximou-se lentamente deles e olhou para Daphne com um sorriso clido.
         -Vai passar logo, Daphne. Lembre-se do que eu lhe disse. Qualquer menino teria reagido assim, inclusive um menino dotado do sentido da audio.
         -Mas ele no  dotado deste sentido - replicou Daphne, fulminando-o com um olhar e com voz cortante. - Ele   especial.
         Quis adicionar: "Maldito seja!", mas no o fez.
         Tinha a certeza de que Matthew errou ao julgar a situao, que lhe havia dado um mau conselho a respeito de seu filho, e ela tinha cometido um engano ao 
escut-lo.
         Inclusive tinha sido um engano considerar sequer a possibilidade de mudar-se para o oeste por um ano.
         Enquanto isto, Matthew no parecia disposto a desistir de sua primeira opinio, nem mesmo agora.
         - bvio que  especial; todas as crianas so.  especial, mas no diferente. O que voc pretende dizer  que Andrew  diferente. No deve abonar seu defeito, 
Daphne. Isto no lhe far nenhum bem. Qualquer menino de sete anos se mostraria contrariado ao saber que sua me vai para longe dele. Isto  normal. Outros pais 
se encontram em situaes a que seus filhos devem se adaptar, situaes causadas pelo nascimento de um irmozinho, por um divrcio, uma morte, uma mudana, por problemas 
financeiros.
         No pode ficar criando eternamente um mundo perfeito para ele.
         Seria impossvel mant-lo para sempre, e logo seria prejudicial para Andrew.
         Alm disso, pode realmente mant-lo? Deseja faz-lo? 
         Daphne quis gritar que ele no compreendia nada, e muito menos a responsabilidade que ela tinha para com seu filho.
         Matthew a olhou nos olhos e, ao adivinhar o que estava pensando, sorriu-lhe.
         -Est bem, adiante, me odeie. Mas o que lhe digo  certo. Se mantiver firme sua deciso, ver como lhe passa.
         Ento ambos se deram conta que Andrew os estava observando, e lia seus lbios.
         Daphne se voltou para seu filho com uma expresso dolorida no olhar.
         Desta vez lhe falou em voz alta assim como por gestos.
         -Tampouco me sinto feliz com esta separao, meu amor. Mas acho que para mim  importante aceitar esta proposta.
         Quero ir para Hollywood para fazer um filme baseado em um de meus livros.
         -Por qu? -perguntou o menino por gestos.
         -Porque ser muito emocionante e  conveniente para minha carreira.
         Como explicar a um menino de sete anos as exigncias que impe a execuo do triunfo em uma carreira de toda sua vida?
         -Prometo que voc ir me visitar, e eu tambm voltarei para lhe ver. No poderei vir todas as semanas, mas isto no durar para sempre...
         Sua voz falhou, e ento apareceu um brilho de interesse nos olhos do menino.
         -Poderia ir de avio? Ela assentiu com a cabea.
         -Sim. Em um avio muito grande.
         Isto pareceu despertar ainda mais seu interesse.
         Logo baixou os olhos e deu um chute no cho.
         Quando voltou a erguer os olhos, Daphne no estava certa do que acontecia na mente de seu filho, mas era evidente que no parecia to desconsolado como 
momentos antes.
         -Poderamos ir a Disneylndia? 
         -Claro. -Daphne sorriu. -Poderemos fazer muitas outras coisas e at poder ver como fazem um filme.
         De repente, ajoelhou-se junto a ele e o tomou entre seus braos um instante antes de separar-se para que ele pudesse ver seus lbios de novo.
         -Oh, Andrew, sentirei muito sua falta. Eu o amo com todo meu corao, e assim que terminar meu trabalho na Califrnia, eu voltarei e ficarei aqui, prometo-lhe 
isto.
         E o senhor Dane diz que o levar a New York para que conhea sua irm e as filhas dela...
         -Possivelmente se nos mantivermos muito ocupados, e estudarmos tudo que possamos, o tempo passar mais rpido...
         Isto era o que ela tambm desejava.
         Queria que tudo j tivesse passado.
         No fundo de seu corao no queria separar-se dele, mas compreendia que devia faz-lo.
         Por ela mesma.
         Era a primeira vez em muitos anos que faria algo que desejava com toda sua alma, mesmo no sendo fcil.
         De repente recordou tudo o que Matt havia dito na noite anterior.
         As boas coisas da vida no eram fceis, nem para ela nem para Andrew.
         Algo na expresso do menino lhe dizia que embora no gostasse que ela fosse, estaria bem e no sofreria.
         -Andrew, sabe... Quanto te amo? Daphne o observou, perguntando-se se lembraria do jogo que praticavam freqentemente quando era menor.
         -Quanto? -perguntou-lhe o menino por gestos.
         Nos olhos do Daphne brilharam umas lgrimas que no chegaram a cair, ao comprovar que ele se recordava.
         Abriu muito os braos e disse: 
         -Assim.
         Logo o abraou com fora e murmurou apoiando os lbios em seus cabelos: 
         -Tanto como a minha prpria vida.
         Matthew os deixou sozinhos, e eles passaram uma hora tranqila juntos, conversando de coisas que eram importantes para Andrew, sobre a viagem de sua me 
e que retornaria logo.
         Contou que s iria dentro de um ms e que enquanto isto o visitaria com freqncia.
         Logo falaram de quando ele fosse para a Califrnia, das coisas que fariam e como aproveitariam.
         -Voc vai me escrever? Os olhos de Andrew procuraram os de sua me com tristeza, e de novo ela sentiu uma pontada em seu corao.
         Andrew era ainda muito pequeno, e a Califrnia para ele parecia como se estivesse em outro planeta.
         -Sim. Prometo lhe escrever todos os dias. E voc, vai me escrever? Mas desta vez o menino lhe sorriu.
         -Tentarei me lembrar - respondeu brincando, e o corao de Daphne se aliviou.
         Quando nesta noite retornou a New York, sentia-se como se tivesse escalado uma montanha.
         Esvaziou a mala e comeou a andar acima e abaixo pelo apartamento.
         Finalmente seus pensamentos se afastaram de Andrew enquanto contemplava pela janela as brilhantes luzes de Manhattan.
         De repente, sentiu-se exaltada pelo que fazia, e pela primeira vez em trs anos teve conscincia da realidade de sua carreira.
         Iria para a Califrnia para levar Apache s telas! Bruscamente, sorriu e ps-se a rir...
         Realmente tinha conseguido! 
         -Aleluia! -murmurou baixinho.
         Ento se dirigiu ao seu quarto, deitou-se e apagou as luzes.
         -Bem, menina - disse Daphne a Barbara sorrindo quando esta chegou na manh seguinte. -Ser melhor que se sente.
         -O que aconteceu? 
         -Ns iremos.
         Barbara ficou espantada.
         -Para onde? 
         -Para a Califrnia, boba.
         -Vamos fazer isto, Daff? Barbara no saa de seu assombro.
         -Com certeza.
         -E o que me diz do Andrew? Detestava perguntar lhe, mas tinha que faz-lo.
         -Contei-lhe neste fim de semana, e a princpio no pareceu muito contente, mas acredito que ambos conseguiremos sobreviver.
         Ento lhe contou aquilo que a senhora Curtis lhe havia dito e do novo diretor da escola.
         -Andrew ir me ver, e eu voltarei para visit-lo sempre que puder. Alm disso, Matthew diz que o trar para New York, para visitar e escola para surdos 
e visitar sua irm...
         Sua voz se apagou, sufocada por um acesso de risada ao ver a confuso que aparecia no rosto de Barbara.
         - o novo diretor de Howarth.
         -Matthew? Nossa, que confiana! -exclamou Barbara com olhos zombeteiros. -Devo pressentir a presena de um homem atraente? 
         -Muito atraente, como amigo, senhorita Jarvis, nada mais, eu asseguro.
         -Bobagens! Voc falou dele se fosse um deus. E diz que vai trazer o Andrew para visitar sua irm? Demnios, se nem sequer me deixou conhecer o menino, e 
agora o confia a um desconhecido? Este indivduo deve ser realmente extraordinrio, Daff, ou voc no permitiria que fizesse uma coisa semelhante.
         -Tem razo,  extraordinrio, e o ser humano mais inteligente e capaz que conheci no campo do ensino de pessoas com problemas auditivos, mas isto no significa 
que esteja interessada nele como homem, em nome de Deus.
         Daphne ainda estava rindo.
         -Por que no?  feio por acaso? 
         -No - respondeu Daphne sem deixar de rir.
         -Na realidade  muito bonito. Mas no se trata disto. Vamos falar de ns.
         -Ns? Barbara continuava confusa. Tudo parecia assombr-la nesta manh.
         -Quero que venha comigo.
         -Est brincando? -sentou-se, com um pacote de correspondncia de admiradores nas mos.
         -O que eu faria l? 
         -Dirigiria minha vida, tal como faz aqui - respondeu Daphne sorrindo.
         -Isto  o que eu fao? -Barbara lhe devolveu o sorriso.
         -Dirijo sua vida? Imaginava que servia para algo mais que responder s cartas de seus fs.
         -Sabe muito bem para que serve.
         Barbara sabia que era imprescindvel para Daphne, e o muito que esta a amava.
         Por sua parte, ela no podia esquecer que tinha sido Daphne quem a ajudou a liberar-se de sua antiga vida.
         -Bem, vir comigo? 
         -Quando fazemos a malas? Amanh parece muito tarde? Barbara estava radiante de alegria, e Daphne riu dela.
         -Acredito que poder esperar algumas semanas.
         Primeiro temos que organizar as coisas aqui, e quero que esta tarde me acompanhe para ver ris McCarthy, para que oua do que se trata junto comigo. Penso 
que poderemos viajar no prximo ms. Assim teremos tempo de deixar tudo arrumado.
         -O que pensa em fazer com o apartamento? 
         -Deix-lo tal como est. Eu o usarei quando visitar o Andrew, e a Comstock pagar o aluguel de uma casa em Los Angeles, de maneira que os gastos no se 
duplicaro. Alm disto, no quero que nenhum estranho durma em minha cama.
         Fez uma careta, e Barbara ps-se a rir maliciosamente.
         -Oua, acredito que no seria to ruim, de vez em quando...
         As duas mulheres trocaram um sorriso.
          tarde foram juntas ver a agente de Daphne, depois que Daphne levou Barbara para almoar ano Plaza, onde brindaram  costa do Pacfico e  Comstock.
         Tudo comeava a se tornar emocionante.
         Quando saram do escritrio de ris s quatro e meia, Daphne mal podia esperar o momento de partir.
         No txi que as levava de volta ao apartamento, voltou-se nervosamente para Brbara com o cenho franzido.
         -Seriamente acredita que poderei faz-lo, Barb? Diabos, quero dizer que no tenho a menor idia de como se escreve um roteiro.
         -Voc saber arrumar isto. No deve ser muito diferente de um livro. Toca de ouvido, e eles lhe diro o que querem.
         -Assim espero - disse Daphne, sentindo um n na boca do estmago, enquanto Barbara lhe batia na mo.
         Na semana seguinte voltou a visitar Andrew.
         Ento o menino parecia ter se habituado  idia de separar-se de sua me por um tempo.
         S protestou uma vez e sem muita convico; o resto do tempo no fez mais que falar da Disneylndia e do filme, e se mostrava contente e feliz.
         Daphne ficou assombrada com a rapidez com que tinha aceitado a nova situao.
         As crianas eram realmente surpreendentes, pensou, e comentou para Matthew quando tornou a v-lo, na hora de jantar, no refeitrio da escola.
         -Lembra que j lhe disse isto, Daphne? Ele sorriu quando terminavam de jantar, e ela fez uma careta.
         Nesta semana ela tambm parecia contente e feliz, e muito mais jovem, com a loira cabeleira solta sobre os ombros, vestindo jeans e uma camisa de vaqueiro 
cqui.
         -Talvez, de modo que ande com cuidado.
         -Olhe como tremo.
         Falavam com ar zombador, e parecia ter se estabelecido uma agradvel relao entre eles.
         Matthew lhe contou o que tinha acontecido na escola de New York durante a semana, e ela explicou-lhe os planos preliminares para a realizao do filme.
         O tempo parecia voar enquanto conversavam, e Helen Curtis os deixou sozinhos depois do jantar, dizendo que tinha trabalho que fazer; e parecia que, para 
variar, Matthew estava ocioso.
         -No sei como voc acerta em escrever estes livros tal como o faz, Daphne.
         Matthew esticou as pernas para o fogo na acolhedora sala de estar da escola, depois que os meninos se deitaram.
         Daphne no tinha vontades de partir para a pousada, e  alm disto ainda era cedo.
         Por outra parte, estava em boa companhia, e Matthew lhe agradava.
         Dava gosto conversar com ele, e ela percebeu que tinham muito em comum. Andrew e o interesse que ele demostrava por suas obras os unia.
         -Realmente no sei como faz.
         Matthew pensava em Apache, e ela o olhou divertida.
         -Como pode dizer isto? Voc j escreveu trs livros.
         -Mas os meus no so romances, e sim, sobre um tema que me absorve as vinte e quatro horas do dia, quando como, quando durmo e at quando respiro. Isto 
no tem muito mrito - acrescentou com um sorriso.
         -Pois me parece muito mais difcil do que eu fao. Deve ser muito preciso na exposio, e com estes livros ajuda a muitas pessoas, Matthew. Os meus narram 
histrias inventadas, e s o que fazem  entreter as pessoas.
         Daphne sempre era modesta ao falar de sua obra, e Matthew gostava desta qualidade.
         Falando com ela, ningum teria adivinhado que era uma das escritoras mais lidas do pas.
         Era uma mulher brilhante, inteligente e divertida, e no fazia alarde de seus mritos.
         -Est equivocada, Daphne. Seus livros fazem muito mais que entreter. Como lhe disse, um de seus romances me ajudou grandemente, e todas me proporcionaram 
um ensinamento... -ficou pensativo uns instantes. -A respeito das pessoas..., de suas relaes..., das mulheres. Olhou-a com interesse. -Como sabe tanto sobre a 
natureza humana, levando uma vida to solitria? 
         -O que o faz pensar assim?  Que levo uma vida solitria, quero dizer.
         Daphne pareceu achar divertida a pergunta.
         -Voc mesma me disse isto a semana passada.
         -Seriamente? -encolheu os ombros e sorriu-. Falo muito. Bom, suponho que no sobra tempo para nenhuma outra coisa.
         Trabalho como um co toda a semana, e logo tenho Andrew...
         Matt a olhou com desaprovao um instante, e logo sua expresso se suavizou sob o resplendor do fogo.
         -No o use como desculpa.
         Daphne o olhou com franqueza.
         -Geralmente, no o fao. -E com um sorriso, adicionou:  -S quando algum me pe em um apuro, como voc est fazendo.
         -Sinto muito. No era minha inteno...
         -Claro era. O que me diz de voc? Acaso a sua  uma vida plena? 
         -s vezes - respondeu ele, evitando a questo. -Durante longo tempo tive medo de me envolver em uma relao sentimental, por causa da experincia com minha 
esposa.
         -E agora? Parecia estranho interrog-lo daquela maneira, como se fossem velhos amigos, mas Matthew era to acessvel e tranqilo que no lhe parecia embaraoso 
falar com ele.
         Ela tinha a impresso de que se conheciam desde h muitos anos, e era como se estivessem em uma ilha deserta, de maneira que o resto do mundo no contava.
         Sentados sozinhos diante do fogo, sentiam-se naturais um com o outro, e cada um sentia a curiosidade de saber o que interessava ao outro.
         -No sei... No tenho muito tempo para manter uma relao formal atualmente. Tenho muitas preocupaes de ordem profissional. -Voltou a sorrir-. E suponho 
que no encontrarei a mulher de minha vida durante o prximo ano, por estarrm um lugasr to ermo.
         -Nunca se sabe. Possivelmente a senhora Obermeier resolva separar-se de seu marido.
         Ambos riram com a possibilidade, e Matthew a olhou atentamente por uns segundos com expresso grave.
         Por Helen Curtis soubera do acontecido com John Fowler, mas no estava certo de poder abordar aquele assunto com ela ou se era um tabu.
         -Alguma vez sentiu desejo de tentar de novo, Daphne? 
         Suspeitava que estivesse muito sozinha, e assim mesmo no parecia desejar a aproximao a outro homem; pelo menos, tinha a certeza de que isto no era de 
seu interesse.
         Havia uma serenidade nela que recordava sua irm, e sua afeio se encontrava nela mesma.
         Dava a impresso de que se esquecera de que era mulher, e no queria recordar de novo.
         Era evidente que tinha sido profundamente machucada.
         Enquanto a contemplava sob o resplendor das brasas, Matthew descobriu em seus olhos uma tristeza infinita, e compreendeu que as coisas que ela sabia nunca 
lhe seriam confessadas.
         -No, no desejo tentar de novo, Matt. J tive tudo que queria. Em duas ocasies, por certo.
         Daphne se surpreendeu com a facilidade com que lhe tinha escapado aquele segredo.
         -No seria justo pedir mais; seria estpido..., e egosta..., e uma grande tolice. Pensei que jamais voltaria a encontrar o que j tive uma vez, com meu 
marido, e ento  conheci outra pessoa. Foi muito diferente, muito especial. Estive unida a dois homens extraordinrios em minha vida, Matt. No poderia pedir mais.
         De modo que estava disposta a falar de Fowler.
         -E ento renuncia a isto? E o que far durante os prximos cinqenta ou sessenta anos? 
         A perspectiva de sua solido o deprimia. Daphne merecia algo mais..., muito mais...
         Merecia a companhia de um ser maravilhoso que a amasse.
         Era muito boa, forte, jovem e inteligente para passar o resto de sua vida sozinha.
         Ela, porm, sorriu filosoficamente.
         -No tenho nenhuma dificuldade em me manter ocupada. E um dia, quando menos pensar Andrew voltar para casa...
         -Est usando-o de novo como uma desculpa - atalhou ele em um tom mais amvel, menos reprovador. -Quando for maior ser um moo extraordinrio e totalmente 
independente. De maneira que no continue baseando sua vida nele.
         -No o fao, mas devo reconhecer que penso muito no momento de t-lo de volta em casa.
         Matthew sorriu sob a luz fraca do fogo.
         -Este ser um dia maravilhoso para ambos, Daphne, e no est muito longe.
         Ela soltou um leve suspiro.
         -Tomara soubesse com certeza. s vezes tudo isto parece que durar indefinidamente.
         Os olhos de Matthew pareceram perder-se em uma lembrana longnqua, como se pensasse nos anos que esteve separado de sua irm quando era jovem.
         -Isto mesmo eu estava acostumado a sentir a respeito de Martha. Ela esteve por quinze anos longe de casa, e no era um lugar como Howarth. Foi terrvel 
para ela. Graas a Deus, j no existem lugares como aquele.
         Daphne assentiu em silncio e, ao final de um momento, ficaram de p e resolveram que era hora de se despedir.
         -Eu adoro conversar com voc, Daphne.
         Olhava-a com ternura enquanto a acompanhava at a porta, e ento disse algo inesperado, que encheu a ambos de perplexidade.
         Matthew no tinha inteno de dizer, mas no pode evitar.
         -Andrew no  o nico que sentir sua falta no prximo ano.
         Se o vestbulo estivesse mais iluminado, ele veria que Daphne ruborizava; mas no estava, e ela estendeu sua frgil e mida mo.
         Ele a estreitou com a sua e a reteve por uns momentos.
         -Obrigado, Matthew. Estou contente de saber que voc estar aqui com o Andrew. Telefonarei a cada momento para saber como vai e ou que ele faz.
         Matthew assentiu com a cabea, sentindo-se s ligeiramente contrariado.
         Mas no tinha direito a esperar mais.
         Ele era s o diretor da escola onde seu filho estudava.
         Nada mais.
         Alm disto, sabia como vida de Daphne era solitria, e algo lhe dizia que ela no faria nada para mud-la.
         Era uma mulher com uma grande tenacidade, que se ocultava atrs de muros slidos.
         -No deixe de faz-lo. Telefone quantas vezes quiser. Estarei aqui.
         Ento ela sorriu e se foi com um simples "boa noite", dito em voz baixa.
         Enquanto retornava para a pousada dirigindo devagar, Daphne pensava em Matthew.
         Era um homem encantador, e era uma sorte poder t-lo na escola de Howarth.
         No obstante, teve que adimitir, muito para si mesma, que sentia algo mais por ele; um interesse vago, mas profundo, que a consumia, como se desejasse saber 
tudo sobre ele e passar horas e horas interminveis conversando a respeito de mil coisas.
         No tinha experimentado nada semelhante desde que conhecera John Fowler, mas tambm estava certa de que no se deixaria levar de novo por aquele sentimento.
         Nem com Matthew nem com qualquer outro homem.
         Duas perdas eram suficientes.
         Matthew Dane seria uma pessoa importante para ela, na vida de Andrew, por tudo o que poderia ensinar a seu filho a fim de que pudesse incorporar-se ao mundo 
das pessoas dotadas do sentido da audio.
         Mas este seria o nico papel que teria em sua vida; estava convencida disto, por mais que gostasse dele.
         Estas coisas j no importavam, nem permitiria que fosse de outra maneira.
         Era suficiente ter amado e perdido; no tinha desejo algum de voltar a amar desta forma.
         Jamais.
         Entretanto, era to fcil imaginar que amava Matthew Dane! Era um homem admirvel, simptico, capaz de inspirar amor.
         Mas precisamente por esta razo devia manter-se em guarda.
         Para estar segura de que estava a salvo.
         Agora todo seu amor, todo seu sentimento, todo instante e todo pensamento eram para Andrew.
         Ela vivia exclusivamente para ele.
         E talvez um pouquinho para si mesma.
         A viagem para a Califrnia era o primeiro sintoma disto.
         A nica coisa que Daphne deveria fazer na ltima sexta-feira que passava em Nova Iorque era fechar seu apartamento.
         Tinha embalado todas suas coisas.
         As malas aguardavam no vestbulo, tudo estava preparado, e s faltava passar o ltimo fim de semana com Andrew.
         Voltaria no domingo de noite, deixaria o carro na garagem e tomaria o avio para Los Angeles em companhia de Barbara na segunda-feira de manh.
         Conforme o combinado, elas ficariam hospedadas no Beverly Hills Hotel, em uma sute, at que encontrassem uma casa confortvel e conveniente, e no final 
de uma semana de sua chegada a Los Angeles, teria que comear a trabalhar no roteiro.
         De acordo com o contrato, dispunha de dois meses para terminar, e isto j estava lhe causando insnia.
         No deixou de pensar nisto durante todo o caminho at New Hampshire, e quando se instalou na pousada ficou tomando notas at altas horas da noite.
         Passou a manh seguinte com o Andrew, e como de costume almoou em sua companhia, no saiu de seu lado por toda a tarde, nem na hora do jantar, e s ento 
viu Matthew,que parecia to cansado como ela se sentia.
         -Diria que voc teve uma semana dura - disse Daphne sorrindo, na hora do caf.
         Ele passou a mo nos cabelos castanhos e soltou um grunhido.
         -Oh, Deus, e como foi! Quatro crises na escola de New York desde segunda-feira, e este  o ltimo fim de semana que passo aqui como observador. Assumo oficialmente 
o cargo na prxima sexta-feira. A senhora Curtis partir definitivamente na segunda-feira seguinte pela manh, e se at ento no sofrer um ataque de nervos, me 
darei por satisfeito.
         -Bem vindo ao clube. Eu disponho de dois meses para escrever um roteiro, e j estou comeando a sentir pnico.
         No tenho nem idia do que estou fazendo, e cada vez que me sento diante de uma folha de papel, minha mente fica em branco.
         Matthew sorriu ante aquela imagem, identificando-se com ela.
         -Isto costumava me acontecer cada vez que chegava ao limite de tempo para terminar um livro. Mas, finalmente, preso de desespero, tirava foras da fraqueza 
para superar o problema. Voc tambm o far.
         Provavelmente quando chegar a Los Angeles, tudo andar nos trilhos.
         -Primeiro tenho que procurar uma casa.
         -Onde se hospedar enquanto isto? 
         -Deixei com a senhora Curtis todos meus nmeros de telefone. Estarei no Beverly Hills Hotel at encontrar casa.
         Matthew revirou os olhos e tentou sentir pena dela sem muito xito.
         -Que vida dura, senhora! 
         -Sim, no  verdade? -respondeu ela com uma careta.
         S ficou conversando com ele uns instantes no vestbulo antes de voltar para a pousada.
         Matthew tinha que conversar com a senhora Curtis durante aquele ltimo fim de semana, antes de instalar-se na escola de forma permanente, e Daphne estava 
exausta com o cansativo trabalho da longa semana.
         Na manh seguinte, como de costume, foi  igreja com Andrew, e voltou para a escola para passar o dia com ele.
         Agora cada instante que compartilhava com seu filho era um instante precioso.
         O menino se agarrava a ela mais que de costume, mas isto era de se esperar.
         E ela sentia uma grande necessidade de estar to perto dele quanto era possvel, para o tocar, acariciar, abraar, sentir seus cabelos deslizando entre 
os dedos a fim de poder recordar seu sedoso contato quando se encontrasse longe dele, sentir o aroma do sabonete em sua pele infantil quando se abraavam.
         Tudo nele se tornava muito mais especial agora, e de certo modo mais amado.
         Aquele foi o fim de semana mais doloroso, e Matthew, pressentindo isto, procurou manter-se afastado deles.
         S quando Daphne se dispunha a partir, se aproximou de novo, observando com muda compreenso como abraava seu filho, desejando juntar-se ao abrao quando 
viu aparecer as primeiras lgrimas nos olhos de Daphne.
         Sabia que aquela despedida no seria fcil para nenhum deles.
         Entretanto, Andrew se recuperaria mais rapidamente.
         Era Daphne quem sofreria mais, preocupada com o menino, sem conseguir tir-lo de seus pensamentos em nenhum momento, perguntando-se como estaria e desejando 
t-lo junto a ela quando estivesse longe.
         -Como vai isto? -disse por cima da cabea de Andrew, fingindo no ter visto as lgrimas de Daphne.
         -Dentro de umas horas ele se tranqilizar, Daphne, por mais que chore quando voc se for.
         Ela assentiu com a cabea, enquanto um soluo lhe subia na garganta, e ento soltou um profundo suspiro.
         -Sei. Ele estar bem, mas e eu, poderei resistir? 
         -Sim, poder. Prometo-lhe isto. -Matthew tocou-a ligeiramente no brao. -E pode me telefonar quando quiser. Darei as ltimas informaes e a porei a par 
de seus progressos.
         -Obrigado.
         Daphne sorriu atravs das lgrimas e acariciou a cabea de seu filho com ternura; ento se inclinou para dizer a Andrew que era a hora de deitar-se.
         Nesta noite ficou longo tempo junto a sua cama, falando-lhe da Califrnia, do muito que se divertiriam e de quanto sentiria falta dele.
         Ento, tristemente, proferindo aquele estranho som que sempre lanava quando estava triste, Andrew comeou a chorar; ela estendeu os braos e o estreitou 
com fora, e lhe disse por gestos: 
         -Vou sentir sua falta.
         -Eu tambm.
         As lgrimas corriam pelo rosto de Daphne.
         Possivelmente era conveniente que o menino a visse chorar, pois assim compreenderia o muito que o amava.
         -Mas nos veremos muito em breve.
         Sorriu-lhe sem deixar de chorar, e por fim, o menino lhe sorriu tambm.
         Daphne permaneceu a seu lado at que adormeceu.
         Ento desceu como se tivesse perdido seu melhor amigo, e encontrou Matthew que a estava esperando sentado em uma poltrona ao p da escada.
         -Ele dormiu? 
         -Sim.
         Nos enormes olhos de Daphne se refletia uma grande tristeza, e nem sequer se esforou em sorrir.
         Sem dizer nada mais, Matthew a seguiu at a porta. Ela j se despedira da senhora Curtis antes de acompanhar o menino para a cama, pagara a conta da pousada 
e colocado a maleta no carro, por isto s faltava partir.
         Como pressentindo que no tinha vontade de falar, Matthew a acompanhou at o automvel.
         Depois de abrir a porta, Daphne se voltou para ele, e Matthew ento segurou seus ombros com as duas mos.
         -Ns tambm o amamos e cuidaremos muito dele, prometo-lhe isto.
         Sempre o tinham feito antes, mas agora seria diferente, porque ela se acharia muito longe.
         Tudo era mais doloroso que nos anos passados e ela tinha a sensao de haver envelhecido milhares de anos quando fixou o olhar nos olhos castanhos de Matthew.
         -Sei. - Tinha sido testemunha de tantas perdas em sua vida, de tantas pessoas amadas... Agora o nico que restava era aquele menino. - No sirvo para isto, 
apesar de que j deveria ter me acostumado. Passei a vida me despedindo.
         Matthew assentiu, pois ela parecia levar tudo escrito nos olhos.
         -Isto  diferente, Daphne. Este  o momento mais difcil. Um ano agora parece uma eternidade, mas no .
         Ela sorriu.
         Que estranha era a vida! 
         -Quando eu retornar, voc ter passado um ano aqui, e estar se prepararando para partir.
         -E todos ns teremos aprendido muitas coisas. Pense nisto.
         As lgrimas brotaram de novo enquanto ela meneava a cabea.
         -No posso... S posso pensar na expresso de seu rosto na primeira vez que o trouxe para esta escola.
         -Desde ento j passou muito tempo, Daphne.
         Ela assentiu.
         Aquele tinha sido no comeo do ano que viveu com John.
         Por que tinha que terminar sempre com um adeus? Matthew ento se inclinou e lhe deu um beijo no rosto.
         -Boa sorte. E me telefone.
         -Telefonarei.
         Daphne ficou olhando-o de novo e por um momento teve o desatinado impulso de aconchegar-se em seus braos, para sentir-se segura como em outras ocasies 
havia se sentido, quando no tinha que armar-se de cuidado todo o tempo.
         -Cuide-se..., e cuida do Andrew tambm. -Entrou no carro e levantou os olhos para Matthew atravs do vidro aberto. -Obrigado por tudo, Matt. E boa sorte.
         -Precisarei. - Em seu rosto apareceu o sorriso juvenil. -E voc faa um formidvel roteiro. Sei que o far.
         Ela sorriu e deu partida no carro, e enquanto se afastava agitou a mo para corresponder  saudao de Matthew.
         Quando ela se perdeu na noite, ele ainda permaneceu ali de p durante um longo, longo momento.
         O avio aterrissou em Los Angeles com uma ligeira sacudida e deslizou pela pista at deter-se e taxiar para a porta de desembarque.
         Barbara olhava emocionada pela janela, e Daphne sorriu.
         Viajar com ela tinha sido como viajar com uma menina.
         Tudo a fascinava, e tinha se mostrado excitada de New York at Los Angeles.
         Daphne tinha se mantido mais calada que o habitual, e j tinha escrito trs cartes para Andrew.
         Agora seus pensamentos j no se concentravam nele.
         Tinha conscincia de que estava a ponto de iniciar uma nova vida.
         Na sada foram recebidas pelo chofer que o Comstock tinha contratado para ela, um homem alto, de aspecto doentio e idade indeterminvel, com traje negro 
e boina, e um longo bigode que acentuava o ar de tristeza de seu rosto.
         Sustentava em suas mos um carto grande com o nome dela escrito com tinta vermelha: "Daphne Fields" 
         -Que sutileza! -exclamou Daphne, olhando para Barbara, divertida.
         Sua secretria fez uma careta.
         -Isto  Hollywood, Daff. Nada  sutil aqui.
         Aquela acabou sendo uma sentena proftica, como puderam comprovar ao chegar ao Beverly Hills Hotel.
         Este se erguia com todo o esplendor que lhe outorgava o estuque rosado, rodeado de palmeiras, com o nome pintado na frente com brilhantes letras verdes.
         No vestbulo imperava o caos; as mulheres andavam em excesso de um lado a outro usando jeans apertados, correntes de ouro, blusas de seda, loiras cabeleiras 
e sandlias de saltos altos; os homens vestiam caros trajes italianos, ou calas ajustadas e camisas abertas at a cintura.
         O aroma que flutuava no hotel era uma verdadeira sinfonia de perfumes caros; os carregadores se requebravam sob o peso de volumosos arranjos florais ou 
de pesadas malas Gucci, e o registro do hotel parecia a lista de prmios da Academia.
         -Senhorita Fields? Claro. Sua sute est preparada.
         Um carregador empurrava com ar solene o carrinho de mo carregado com sua bagagem entre as estrelas e os supostos produtores que se espalhavam ao redor 
da piscina, enquanto Daphne ficava fascinada diante do espetculo que ofereciam aqueles corpos, tambm adornados com mais correntes de ouro, e ao observar que todo 
mundo bebia martinis ou vinho branco em pleno dia.
         A "suite"  acabou tendo quatro dormitrios, trs banheiros, uma geladeira provida de caviar e champanhe, e com uma vista de mais palmeiras; havia tambm 
um arranjo de rosas e uma caixa de bombons de parte da Comstock, com um carto que dizia: " Nos veremos amanh".
         Ento, de repente, Daphne se voltou para Barbara com expresso de terror.
         -No posso fazer isto - exclamou com voz tensa.
         O carregador acabava de sair, e elas ficaram plantadas na enorme e floreada sala de estar de sua sute.
         Daphne tinha os olhos to abertos como Barbara jamais os tinha visto.
         -Barb, no posso.
         -O que? Comer bombons? Brincar era a nica esperana que restava a Barbara, pois era evidente que Daphne estava tomada de pnico.
         -No. Olhe tudo isto.  Hollywood. Que demnios estou fazendo aqui? Eu sou escritora. No conheo absolutamente nada de tudo isto.
         -Nem precisa conhecer. Tudo o que tem que fazer  se sentar diante de sua mquina de escrever e fazer o mesmo que fazia em casa. Esquea todas estas tolices. 
 somente o cenrio de uma vitrine.
         -No, no . No viu todos a fora? Eles acreditam que  verdadeiro.
         -Pelo amor do Deus, isto  um hotel. So todos de Saint Louis. Tranqilize-se.
         Barbara se serviu de uma taa de champanha, e Daphne sentou-se em sof estampado de flores rosadas e verdes, com a expresso de uma menina rf.
         -Quero voltar para casa.
         -Bom, pois eu no permitirei isto. Ento, cale-se e aproveite a vida. Diabos, ainda no vi a Rodeo Drive.
         Daphne sorriu, recordando a vida que Barbara tinha levado com sua me.
         Havia uma distncia enorme de tudo aquilo.
         -Quer comer algo?
         -Eu vomitaria
         -Cus, Daff! Por que no se tranqiliza e aproveita tudo isto? 
         -Aproveitar o que? Do fato de ter assinado um contrato para fazer algo que no tenho a menor idia de como fazer, em um lugar que parece pertencer a outro 
planeta, a cinco mil quilmetros de onde est meu nico filho? Pelo amor de Deus, Barbara, o que estou fazendo aqui? 
         -Ganhando dinheiro para seu filho.
         Aquela era uma resposta que a convenceria, como Barbara bem sabia.
         -Entendeu? 
         -Sim. -Mas isto era um fraco consolo. -Sinto-me como se me tivesse alistado na legio estrangeira.
         -Voce j faz isto. E quanto antes comear a trabalhar, antes iremos embora daqui.
         Isto no significava que Barbara tivesse vontade de ir, pelo contrrio. Na verdade, estava encantada.
         -Esta  uma boa idia.
         Daphne comeou a desfazer a bagagem, e ao final de meia hora j tinha melhor aspecto.
         Barbara telefonou ao estdio e lhes disse que tinham chegado ss e salvas, e depois disto foram  piscina para nadar.
         Nesta noite jantaram tranqilamente, deram uma olhada no Plo Lounge, cheio de pessoas que pareciam atores, modelos, homens de negcios e obscuros personagens 
que possivelmente eram traficantes de drogas, e s dez em ponto j estavam na cama, Barbara  tomada pela emoo e  expectativa, e Daphne com uma sensao de temor 
com o futuro que lhe proporcionaria.
         Na manh seguinte tiveram uma reunio nos estdios Comstock, e quando ao meio-dia voltaram de novo ao esplendor do hotel, Daphne tinha a vaga impresso 
que conseguiria sobreviver.
         Tinha uma idia mais clara do que desejavam fazer com Apache; tinha tomado inmeras notas, e planejava pr-se a trabalhar naquele mesmo dia.
         Barbara tambm tinha planejado seu trabalho.
         Estava com os nomes de meia dzia de corretores de imveis.
         Iria se dedicar a procurar uma casa para alugar.
         Tambm se comunicou com a agente de Daphne, e anotou todas as mensagens que ris tinha para ela.
          tarde, as coisas pareciam andar nos trilhos.
         Daphne havia trazido consigo sua mquina de escrever, tinha colocado uma mesa e uma cadeira em um canto, e comeara a escrever enquanto Barbara ia para 
a piscina.
         Quando ela retornou ao final de meia hora, Daphne ainda estava absorvida em seu trabalho.
         Barbara acendeu as luzes.
         Sua amiga se achava to absorta no que estava fazendo que nem sequer se deu conta de que estava escurecendo.
         -Hum? Daphne levantou a vista distraidamente, como sempre estava acostumada a fazer quando escrevia.
         Tinha o cabelo recolhido sobre a cabea com uma caneta atravessada nele, e havia posto uma camiseta esportiva e jeans.
         -Ah, ol! Aproveitou o banho? 
         -Muito. Quer comer algo? 
         -Hum..., no..., talvez mais tarde.
         Barbara adorava v-la trabalhar, pois se concentrava completamente no que fazia.
         Era de fato como presenciar o processo criador em atividade.
         s oito, pediu ao servio de restaurante que lhes mandassem jantar para dois, e quando o levaram, tocou  Daphne no ombro.
         Ela nunca lembrava de comer quando estava trabalhando; em Neww York, Barbara se limitava a depositar a bandeja sobre a escrivaninha e lhe recordar que a 
comida estava preparada.
         -Hora do rancho.
         -Bem. Espere um minuto.
         O que significava, geralmente, uma hora, tal como ocorreu neste caso.
         -Vamos, garota. Tem que comer.
         -Em seguida.
         Por fim, deixou de teclar e se recostou no encosto da cadeira com um suspiro, enquanto se espreguiava e massageava os ombros.
         Ento sorriu para Barbara.
         -Ah, que bom! 
         -Como vai? 
         -No de todo mal. Sinto-me de novo como uma principiante.
         Depois de jantar, voltou a sentar-se diante a mquina de escrever, e permaneceu ali at as duas da madrugada.
         Na manh seguinte, Daphne se levantou as sete, e quando Brbara levantou, j estava teclando de novo.
         -Deitou-se ontem  noite? -perguntou-lhe Barbara, pois sabia que s vezes no dormia a noite toda.
         -Sim. Acredito que deviam ser duas horas.
         -Est trabalhando a todo vapor, no ? 
         -No quero parar enquanto conservo fresco na memria o que conversamos ontem.
         Manteve-se firme todo o dia.
         Barbara foi ver trs casas, almoou sozinha e ento descansou junto  piscina.
         Depois foi trabalhar em seu quarto, onde se dedicou a responder a correspondncia dos admiradores de Daphne.
         Voltaram a jantar em seus aposentos.
         De certo modo, Barbara era como uma me para Daphne, mas no se importava.
         Tinha muitos anos de experincia de quando vivia com sua me, e Daphne era um tesouro.
         Era divertido estar com ela, seu trabalho era emocionante, e lhe parecia maravilhoso o fato de estar junto a um gnio como Daphne.
         Claro que esta no se via com os mesmos olhos, mas Barbara sempre tinha isto em conta.
         No quarto dia, Daphne telefonou  senhora Curtis para perguntar por Andrew, a quem, fiel a sua promessa, tinha escrito todos os dias.
         A senhora Curtis disse-lhe que o menino estava bem e contente, e que se readaptou logo depois da partida dela.
         Tambm lhe recordou que no voltaria a falar com ela at que Daphne retornasse a New Hampshire e fosse visitar seu novo lar.
         O dia seguinte seria o ltimo que passaria em Howarth.
         Daphne desejou-lhe sorte de novo e desligou, pensando de repente em Matthew, perguntando-se o que estaria fazendo.
         Sabia que provavelmente estaria enlouquecido preparando-se para abandonar a escola de New York.
         -Como est Andrew? Barbara chegou com uma bandeja para Daphne, e esta levantou a cabea sorrindo.
         -A senhora Curtis diz que est muito bem. E ento, como vai a procura de casa? Barbara fez uma careta.
         -Vai bem, mas ainda  cedo. De todo modo, logo aparecer algo. Quer uma piscina em forma de mquina de escrever, ou se conforma com uma que tenha forma 
de livro? 
         -Muito engraada.
         -Escuta, hoje vi uma em forma de corao, uma oval, uma em forma de chave e outra como uma coroa.
         -Parece muito extico.
         -E , e muito brega, mas o pior do caso  que eu adoro. Estou descobrindo um lado oculto de minha personalidade.
         Daphne sorriu, divertida.
         -Olhe, se aparecer aqui com a blusa aberta at a cintura, e cheia de correntes de ouro, acharei que est louca de pedra.
         No dia seguinte, de brincadeira, Barbara assim o fez, e Daphne soltou uma sonora gargalhada.
         -Chegamos aqui s h cinco dias e voc j caiu na armadilha.
         -No posso evitar. Respira-se no ar.  mais forte que eu.
         -Nada  mais forte que voc, Barbara Jarvis.
         Era um cumprimento sincero, mas Barbara balanou a cabea.
         -Isto no  verdade, Daff. Voc sim que .  a mulher mais forte que conheo, no melhor sentido da palavra.
         -Tomara fosse verdade.
         -E .
         -Voc fala como Matthew Dane.
         -Matthew de novo. -Barbara a observou atentamente-. Continuo acreditando que voc perdeu a oportunidade de sua vida. Vi sua foto na contra capa de um de 
seus livros, e  fenomenal.
         -E o que mais? O que  que eu perdi? A oportunidade de passar uma noite antes de partir de New York por um ano? Vamos, Barbara, que sentido tem isto? Alm 
disto, ele no se declarou.
         -Talvez o tivesse feito se lhe tivesse dado a ocasio de faz-lo. E, afinal, vo voltar para New York.
         -Matthew  o diretor da escola de meu filho. Isto seria uma indecncia.
         -Pense nele como escritor.
         Porm, Daphne estava tratando de no pensar nele absolutamente.
         Era um homem magnfico e um bom amigo.
         E nada mais.
         Como de costume, voltou a pr mos  obra depois do jantar.
         Barbara ficou em seu quarto, lendo um livro.
         No dia seguinte resolveu ir dar uma volta pela Rodeo Drive.
         Tinha acabado tudo o que devia fazer para Daphne e neste dia no tinha casa para visitar, por isso decidiu fazer compras.
         A limusine a deixou na Beverly Wilshire, e ela ficou olhando fascinada ao seu redor.
         Uma bonita e larga rua se estendia diante dela, na qual se alinhavam luxuosas lojas que vendiam roupa, jias, artigos de viagem e pinturas por um total 
de vrias centenas de milhes de dlares.
         Era surpreendente, pensou admirada, e pensou que havia um abismo entre aquele mundo e a pocilga de West Side que tinha compartilhado com sua me.
         Sua primeira parada foi na Giorgio's.
         Quando entrou, logo foi abordada por uma vendedora que usava sapatos de cor lavanda com altos saltos, prolas e um vestido rosado e malva de Norell que 
custava dois mil dlares.
         As etiquetas de preos que viu nos vestidos pendurados nos cabides estavam na mesma linha.
         Barbara disse que "s queria dar uma olhada", que foi o que fez, esforando-se por no soltar uma risada.
         Na loja havia tambm um departamento com roupa para homem, onde se ofereciam casacos de visom e coletes de raposa prateada, preciosas camisas de camura, 
couro e seda, e enormes quantidades de fabulosos suteres de cachemira.
         Barbara provou chapus, admirou sapatos e, por fim, comprou um guarda-chuva em que aparecia "Giorgio's".
         Sabia que Daphne zombaria sem piedade disto, mas fazia tempo que no comprava nenhum, e desejava adquirir algo.
         Ao sair seguiu caminhando rua acima, at a Herms e Celine e, finalmente, at a Gucci, uma loja enorme com um intenso aroma de couro, abarrotada de objetos 
de couro italiano cujos modelos eram desenhados por eles mesmos.
         Ficou pasma diante um mostrurio cheio de bolsas negras de mo de couro de crocodilo.
         Havia uma em particular da qual no podia despregar os olhos.
         Era uma bolsa de forma retangular, grande, de linhas simples, com um fecho do ouro e uma ala para pendurar no ombro; apesar do fato de estar confeccionado 
com a pele daquele caro rptil, no parecia nada pretensiosa.
         Gostou porque no era ostentosa, mas no se atreveu a perguntar o preo.
         Estava certa de que seria incrivelmente cara.
         -Deseja examinar esta bolsa, senhora? Uma vendedora com um uniforme simples de l negra abriu o mostrurio e tirou a bolsa para mostrar para Barbara.
         Esta esteve a ponto de negar-se a peg-la, mas ao v-la oscilar diante de seus olhos, no pde resistir  tentao e aceitou.
         Era suave ao tato e, olhando-se ao espelho, Barbara a pendurou no ombro.
         Era um sonho.
         - a medida exata para sua estatura - disse a vendedora, com seu amvel acento italiano.
         Barbara a contemplava encantada, e s para ter o gosto, deu uma olhada  etiqueta do preo. Custava setecentos dlares.
         - muito bonita. -Com relutncia, a tirou do ombro e a devolveu  vendedora. -Quero ver alguma outra coisa.
         - claro, senhora.
         A bonita jovem loira lhe sorriu, enquanto Barbara dava uns passos.
         Ento viu que um homem alto e atraente a estava observando atentamente.
         Olhou-o com certo embarao ao pensar que possivelmente a tinha visto devolver a bolsa, e por um momento lamentou no poder voltar sobre seus passos para 
compr-la.
         Sentia-se um pouco incomodada ao percorrer aquelas lojas luxuosas, sem poder se dar ao luxo de comprar nada.
         Enquanto isto, os olhos do desconhecido no se despregavam de seu rosto enquanto ela se afastava e contemplava uns lenos para o pescoo.
         Estava pensando em comprar um para Daphne.
         Esta tinha feito tanto por ela que seria um prazer lhe levar um presente enquanto trabalhava como uma escrava, fechada na sute.
         Quando entregava o leno vermelho e negro que tinha escolhido a uma das vendedoras, notou que o homem que a estava observando a seguia.
         Voltou-lhe as costas e fingiu no perceber, mas ao olhar por um dos elegantes espelhos viu que ele se aproximava lentamente.
         O desconhecido se deteve atrs dela.
         Usava calas de flanela cinza, uma camisa azul de elegante corte, com a gola desabotoada, um suter de cachemira azul marinho descuidadamente colocado sobre 
os ombros, e se Barbara tivesse baixado a vista, teria adivinhado que os sapatos marrons eram da Gucci.
         No obstante, no tinha o ar dos cidados de Los Angeles; mas bem parecia nova iorquino, bostoniano ou da Filadelfia.
         Tinha os cabelos da cor de areia, e olhos azuis.
         Barbara calculou que estaria beirando os quarenta.
         Enquanto o via refletido no espelho, teve a impresso de que o tinha visto antes em algum lugar, mas no sabia quem era nem conseguia determinar onde poderia 
t-lo conhecido.
         Seus olhos se encontraram no espelho, e com um sorriso envergonhado ele finalmente se aproximou.
         -Lamento profundamente... por ter ficado olhando-a com tanta insistncia, mas me pareceu...
         "Agora soltar a conhecida frase: "No a vi antes em algum lugar?", e colocar seu carto na minha mo", pensou Barbara.
         A expresso dos olhos de Barbara no era to amvel como lhe tinha parecido quando avanava para ela.
         Enquanto isto, agora que a via mais de perto, esteve seguro de quem era.
         Tinha mudado muito, mas sua aparncia era a mesma, embora em seu rosto persistisse uma expresso distante, quase receosa.
         Parecia que a vida no se mostrara generosa para Barbara Jarvis.
         -Barbara? 
         -Sim - respondeu ela, sem que sua voz ou seus olhos demonstrassem amabilidade.
         Mas o desconhecido sorriu agora, certo de que era ela.
         -Sou Tom Harrington. No sei se lembrar de mim. Conhecemo-nos no dia de meu casamento... Casei-me com Sandy Mackenzie.
         Ento Barbara se recordou, e seus olhos se arregalaram e o olhou com assombro.
         -Oh, meu Deus!...Como me reconheceu? Passou tanto...
         Enquanto calculava o tempo, Barbara parecia resistir a faz-lo.
         Tinha-o conhecido quando ela tinha vinte anos, fazia quase exatamente vinte anos.
         Tom se casou com sua companheira de quarto do terceiro ano na universidade.
         Sua amiga abandonou os estudos porque estava grvida, e se casaram na Filadlfia.
         Barbara tinha assistido o casamento, e ento o conheceu.
         Mas desde aquele dia no havia voltado a v-los.
         Naquela poca Tom era estudante de Direito, e depois de nascer seu primeiro filho, mudaram-se para a Califrnia.
         -Como est? Como est Sandy? Tinham enviado cartes de Natal durante para Brbara uma dzia de anos, mas depois deixaram de faz-lo.
         De sua parte, ela tinha estado muito ocupada cuidando de sua me para poder lhes responder, mas lembrava de Sandy com carinho e, agora, de Tom tambm.
         Ento lhe sorriu carinhosamente.
         -Ela est aqui? 
         Seria uma alegria voltar a v-la, sobretudo agora que ela estava trabalhando para Daphne.
         No havia voltado a lhes escrever, porque no tinha nada de novo para contar.
         O que iria dizer-lhes? Que estava vivendo em um pequeno apartamento deprimente com sua me, que cozinhava, e trabalhava como secretria em uma firma de 
advogado? Do que podia sentir-se orgulhosa ento? Mas agora as coisas tinham mudado.
         -Como esto os meninos? 
         Lembrava que tinham tido outro filho quatro anos mais tarde.
         -Fabulosamente bem. Robert estuda arte dramtica na UCLA, o que no nos entusiasma muito, mas tem talento para isto, e se  o que ele gosta... -Suspirou 
esboando um sorriso.
         -Sabe como so os jovens. E Alex est ainda em casa com sua me, e em abril far quinze anos.
         -Santo Deus! Barbara estava realmente surpreendida.
         Um filho na UCLA e a filha a ponto de fazer quinze anos? Como tinha acontecido? Tanto tempo tinha transcorrido? Assim era, com efeito.
         Estava to aturdida que nem sequer tinha prestado ateno  resposta de Tom.
         -E voc o que faz? Mora aqui? 
         Barbara observou que ele dirigia um olhar para sua mo esquerda, mas ela no levava anel algum no dedo.
         -No, estou aqui por causa de meu trabalho. Minha chefa est escrevendo um roteiro, e residiremos aqui durante um ano.
         -Que interessante! Trata--se de algum conhecido? 
         Barbara sorriu com evidente orgulho.
         -Daphne Fields.
         -Deve ser um emprego interessante. Quanto tempo faz que vocs esto aqui? 
         -Uma semana - respondeu ela com um sorriso. -Estamos no Beverly Hills Hotel;  uma vida muito dura a nossa.
         Ambos se puseram a rir, e ento uma ruiva surpreendentemente bonita vestida com jeans brancos e uma blusa de seda branca se aproximou deles.
         A jovem observou Barbara com seus penetrantes olhos verdes.
         No devia ter mais de vinte e cinco anos, no mximo.
         Tinha a ctis cremosa de um camafeu, e sua avermelhada cabeleira lhe chegava quase at a cintura. Era uma jovem espantosa.
         -No encontro nada que fique bem - disse a Tom com uma careta, depois de decidir que Barbara no era uma mulher que pudesse inquiet-la. - Tudo  muito 
grande.
         Barbara sorriu com franca admirao, porque faziam um magnfico casal, perguntando-se quem devia ser.
         -Tomara eu tivesse este problema.
         Mas havia uma amvel expresso nos olhos de Tom ao olhar para Barbara.
         -Voc est maravilhosa, pouco mudou em todos estes anos.
         Era uma mentira amistosa, mas lhe pareceu uma gentileza de sua parte.
         Tom no parecia excessivamente incomodado com a presena da bela jovem que tinha a seu lado.
         Barbara percebeu que Tom levava uma bolsa de compras cheia de artigos caros.
         No conseguia compreender qual o papel da jovem em sua vida com Sandy, mas sua apresentao em seguida lhe deu a explicao.
         -Eloise, quero apresentar-lhe Barbara. -Sorriu para Barb e tambm para Eloise. -Barbara  uma antiga amiga de minha ex-esposa.
         Ento Barbara compreendeu que se divorciaram. De modo que aquela jovem era sua amante.
         -Barbara Jarvis - disse ela, estendendo a mo, enquanto seu olhar procurava os olhos de Tom, com o desejo de lhe perguntar mais sobre Sandy, mas aquele 
no era o momento oportuno. - Muito prazer em lhe conhecer.
         A ruiva no falou muito, mas foi examinar uma bolsa de mo de pele de crocodilo de cor bege, sob o atento olhar de Tom, que se voltou para Barbara com expresso 
risonha.
         -Devo reconhecer que tem um gosto verdadeiramente extraordinrio.
         Isto no parecia lhe importar muito, nem parecia excessivamente entusiasmado com ela.
         -Lamento saber de sua separao da Sandy. -Barbara parecia verdadeiramente compungida. Fazia oito ou nove anos que tinha deixado de receber os cartes de 
Natal. - Quanto tempo faz? 
         -Cinco anos.
         -Ela voltou a se casar. -E depois de um momento de vacilao, adicionou: - Com Austin Weeks.
         Barbara se sobressaltou ao ouvir aquela novidade.
         -O ator? A pergunta era estpida; quantos Austin Weeks podia haver? Weeks era um conhecido ator ingls, mas devia ter o dobro da idade de Sandy, e tinha 
sido um autntico Romeu em sua poca, embora Barbara pudesse comprovar que em seu ltimo filme tinha a aparncia extraordinariamente agradvel.
         -Como aconteceu? 
         -Tive que o representar em um caso legal muito importante e ficamos amigos... -encolheu os ombros, mas havia certa amargura em seus olhos; ento se voltou 
para Barbara com um sorriso forado. - Isto  Hollywood, sabe? Tudo faz parte do jogo. A Sandy adora o ambiente. Combina com ela como o anel com o dedo.
         -E a voc? H vinte anos antes, quando Barbara apenas o conhecera no dia do casamento,tinha simpatizado com Tom.
         Ela tinha sido dama de honra, e lhe parecia que era um jovem inteligente, perspicaz e decente, e felicitou Sandy pela sorte que tinha.
         Sandy pareceu agradecida, mas sempre dava a impresso de estar... insatisfeita, inquieta, ansiosa.
         No gostava de estudar, e Barbara sempre teve a sensao de que tinha ficado grvida para poder se casar.
         Tom vinha de uma influente famlia da Filadlfia, mas no era s isto que o tornava um bom partido.
         Quando Barbara retornou  universidade, no podia pensar neles sem sentir um pouco de inveja.
         -Voc gosta disto, Tom? 
         -Muito, mas devo reconhecer que fiquei aqui estes cinco anos por causa dos dois meninos. E como exerci minha profisso aqui durante tanto tempo, seria difcil 
voltar para Nova York. -Barbara recordou que trabalhava como advogado relacionado  indstria cinematogrfica, e por tanto se encontrava em seu ambiente; mas no 
parecia muito contente de viver em Los Angeles. -A gente se sente muito acomodado aqui ao final de um tempo. Vigie para no acontecer com voc. Este ambiente cria 
hbito.
         -Sei. -Sorriu por sua vez. - J estou comeando a gostar.
         -Oh, oh, mau sinal.
         Ento, a vendedora que tinha atendido Brbara voltou com o leno embrulhado para presente, e Eloise voltou para junto de Tom; havia resolvido que a bolsa 
de couro de crocodilo de trs mil dlares no lhe assentava bem.
         -Foi um prazer voltar a lhe ver, Tom - disse-lhe Barbara,  estendendo a mo. - Cumprimente a Sandy de minha parte, quando a vir.
         -Vejo Alex algumas vezes por semana, e ento a vejo tambm.
         De novo apareceu uma dolorida expresso em seus olhos.
         Tinha sido trado por sua esposa e por um homem que considerava como um amigo.
         Aquela cicatriz nunca desapareceria de sua alma.
         -Darei lhe suas saudaes. Se tiver tempo, deveria lhe fazer uma visita.
         Ento, Barbara titubeou.
         Estando casada com Austin Weeks, que interesse teria Sandy em v-la?
         -Diga lhe que estou no Beverly Hills Hotel com Daphne Fields, e se quiser, que me ligue. No quero me intrometer em sua vida.
         Tom assentiu, e momentos depois Barbara se despedia, pensando como a vida era estranha e interessante.
         -E ento, conquistou a Rodeo Drive? -Daphne estava estendida no sof, lendo a produo do dia; dava a impresso de ter trabalhado duro. -Como foi? 
         -Fabuloso.
         Ainda tinha passado outras duas horas e meia rondando por Jourdan, Van Cleef, Arpels, Bijan e uma srie de lojas mais, e por ltimo entrou em um restaurante 
para comer um sanduche.
         Aquele foi outro espetculo digno de se ver, e Barbara ficou encantada com a tarde que havia passado.
         At tinha comprado para si um traje de banho, um chapu e dois suteres.
         -Eu adoro esta cidade, Daff.
         Daphne sorriu.
         -Sempre soube que estava louca. O que comprou? 
         Barbara mostrou, e logo lhe jogou a caixinha da Gucci no colo.
         -E isto  para voc, senhora chefe. Teria gostado de dar-lhe de presente o penhoar de arminho branco que vi na Giorgio's mas no era de seu tipo.
         Barbara estava radiante de felicidade.
         -Oh, demnios! No pde deix-lo reservado? Ambas puseram-se a rir.
         Daphne abriu a caixa e mostrou-se comovida e contente.
         O vermelho e o negro era suas cores favoritas.
         -No devia t-lo feito, boba. -Olhou a sua amiga com profundo afeto. -Est me deixando mal acostumada, Barb... No poderia fazer nada sem voc.
         -Tolices. Ficaria perfeitamente bem sem mim.
         -Alegro-me de no ter necessidade de faz-lo.
         -E ento, como est ficando? 
         -Bastante bom. Mas realmente  como aprender um novo ofcio. Sinto-me to lenta s vezes! 
         -Dentro de pouco tempo se sentir mais segura, e aposto que sair com tanta fluidez como seus romances.
         -Espero que os estdios tenham a mesma opinio.
         -No duvide.
         Naquele momento foram interrompidas pelo toque do telefone, e Barbara foi atender em seu quarto.
         Quando Barbara saa, Daphne pedia ao posto telefnico do hotel que recebesse as chamadas para ela, e quando Barbara se encontrava presente atendia as inumeras 
chamadas dos corredores de imveis em seu prprio quarto a fim de no incomodar Daphne.
         Levantou o aparelho e sentou-se na beira da cama.
         Ao menos tinha tido um dia de descanso na tarefa de procurar casa, mas desejava encontrar algo logo, pois sabia que para Daphne seria mais fcil trabalhar 
em um ambiente mais caseiro.
         -Al.
         -Posso falar com Barbara Jarvis, por favor? 
         -Sou eu. Com a fora do costume, pegou um bloco de papel e um lpis.
         -Sou Tom Harrington.
         Barbara ficou surpresa, e seu corao deu um salto.
         Por que lhe telefonava? Mas era uma tolice ficar nervosa.
         Tom era s o ex-marido de uma antiga amiga, que desejava mostrar-se amvel.
         -Alegro-me em ouvi-lo, Tom.
         Quis perguntar logo o que podia fazer por ele.
         Possivelmente, como a maioria das pessoas que chamavam, queria entrevistar-se com Daphne.
         -Divertiu-se esta tarde?
         -Muito. Percorri a Rodeo Drive de ponta a ponta.
         - um passatempo muito caro.
         Tom dirigiu um olhar ao seu talo de cheques, que repousava sobre a cama a seu lado.
         Eloise fazia estragos nele, mas no era diferente das demais.
         Tinha havido dzias de Eloises em sua vida nos ltimos cinco anos, e nenhuma como Barbara.
         -O que comprou? 
         Barbara sentiu-se perturbada, e se perguntou aonde Tom queria chegar. Por que tinha lhe telefonado? 
         -Algumas quinquilharias. Nada que possa comparar-se com o que est a seu alcance.
         -Era muito bonita a bolsa que estava olhando na Gucci.
         De modo que ele tinha notado.
         Seus olhos pareciam captar tudo, e tinha estado observado-a durante um longo momento antes de decidir lhe falar.
         -Temo que no esteja ao meu alcance.
         Alm disto, o que faria ela com uma bolsa de couro de crocodilo negro como aquela? Levaria seus lpis e suas agendas?
         -Diga  sua chefa que lhe aumente o salrio.
         Ela ficou em silncio. No precisava dizer a Daphne uma coisa semelhante. Comportava-se muito bem com ela.
         -Ou procure um bom homem para que lhe d de presente.
         -Temo que este no seja o meu estilo - respondeu Barbara, adotando de repente um tom frio.
         -No pensei que fosse - replicou ele com voz grave e amvel.
         Se tivesse pensado, no teria ligado.
         Para isto j tinha Eloise.
         Mas Barbara era diferente.
         -No pudemos conversar muito esta tarde. Voc se casou? 
         -No. Minha me adoeceu quando me graduei e durante muito tempo tive que cuidar dela - disse Barbara com naturalidade, sem ressentimento, pois isto era 
o que j tinha passado.
         -Deve ter sido um golpe terrvel para voc - observou Tom, mas com tom de admirao.
         Sandy no teria sido capaz de fazer uma coisa semelhante, e tampouco ele estava seguro se teria feito um sacrifcio como aquele.
         De fato, estava convencido de que no teria feito.
         -Quando comeou a trabalhar para Daphne Fields? 
         -H uns quatro anos, nas horas livres, pois ento tinha um emprego de horrio completo.
         -Voc gosta do que faz? 
         -Eu adoro. Daphne  a melhor amiga que tenho, e  um sonho trabalhar para ela.
         -Isto no  muito comum em uma mulher famosa.
         Ele tivera oportunidade de conhecer algumas, e a maioria era de trato difcil.
         -Daphne deve ser a exceo.  a mulher mais simples que conheci. Limita-se a fazer seu trabalho e vive tranqilamente sua vida.  realmente um ser humano 
extraordinrio.
         -Isto  uma sorte para voc. - No parecia muito interessado em Daphne. - Oua, hoje no tivemos oportunidade de conversar. O que lhe parece se logo mais 
tomarmos uma bebida juntos? Tenho que me encontrar com um de meus scios na hora de jantar para discutir um par de contratos, mas calculo que por volta das nove 
j estarei desocupado. Poderia me esperar no Polo Louge se lhe parecer bem... - Deixou a frase em incerteza, e parecia um pouco nervoso.
         No se equivocava ao pensar que Barbara sabia guardar-se.
         -O que me diz? Barbara guardou silncio no outro extremo d linha.
         Na realidade, no tinha vontade de ir, e suspeitava que o "scio" com quem tinha que jantar era a jovem ruiva.
         Mas, por outra parte, ela no tinha nada que fazer.
         Daphne ficaria escrevendo e no necessitaria dela para nada.
         E Tom era um homem simptico.
         Sem pensar duas vezes, tomou uma repentina deciso.
         -De acordo. -Por que no? -Eu o verei no Louge s nove. Se me demorar, lhe telefonarei.
         -Estar em seu quarto at ento? 
         -Sim, quero me encarregar do jantar para Daphne.
         -Acaso no sai? A imagem que Tom tinha dos escritores correspondia com a de um pessoal que passava a vida bebendo, farreando e assistindo a festas.
         -S muito poucas vezes, e nunca quando escreve. Agora est absorvida no roteiro, e no saiu de seu quarto desde que chegamos aqui.
         -No me parece muito divertido.
         -No . Trata-se de um trabalho rduo. Realmente, trabalha com mais afinco que qualquer outra pessoa que conheo.
         -Parece que est pronta para uma canonizao - comentou Tom com um sorriso.
         -No meu entender, sim.
         Pareceu que Barbara queria lhe advertir que no criticasse Daphne, nem naquela nem em posteriores conversas.
         Barbara defendia-a como uma sacerdotisa no altar de seu deus privado, tanto se isto fosse razovel como se no.
         Assim era simplesmente como se sentia a respeito de Daphne.
         -At mais tarde, Tom.
         -Espero com ansiedade o momento de rev-la.
         E enquanto tomava banho e se barbeava antes de reunir-se com seu scio em sua casa de Bel-Air, assombrou-se ao comprovar isto.
         Barbara era atraente, mas no uma beleza espetacular.
         Parecia mais interessante que sexualmente atraente, mais inteligente que bonita, mas havia algo nela que resultava sedutor, algo slido, algo autntico.
         Dava a impresso de ser uma mulher com que algum poderia conversar, rir, sentir-se cmodo e at confiar nela.
         Tom Harrington nunca tinha conhecido uma mulher assim, mas j havia descoberto estas qualidades em Barbara vinte anos atrs, em marcado contraste com Sandy.
         Sandy era uma jovem bonita e loira que fazia sua entrada na sociedade em New York, com deslumbrantes olhos azuis e um sorriso que fez estremecer todo seu 
ser.
         Mas tinha sido muito malcriada por seus pais, e depois por ele mesmo, e sempre o havia humilhado, sobretudo nos ltimos tempos, quando fugiu com Austin.
         Levou seus dois filhos, e telefonou-lhe ao final de duas semanas.
         Ele pensou em lev-la a julgamento por lhe tirar a custdia dos dois meninos, uma vez que haviam se divorciado, mas considerou que isto os teria destroado, 
e no teve coragem  de faz-lo.
         Aps isto no tinha havido ningum importante em sua vida.
         No sabia por que, mas de repente sentia-se irresistivelmente atrado por Barbara.
         No momento em que a tinha visto esta tarde, sentiu desejos de voltar a v-la, mesmo se s para conversar com ela. 
         -Daff, j comeu? Barbara entrou no quarto e, dirigindo um olhar  bandeja, viu que no havia mexido em nada.
         Com o cenho franzido, Daphne seguia teclando e nem sequer a ouviu.
         -Daff..., ei, menina, a comida.
         Daphne levantou a vista com um vago sorriso.
         -Hum? Oh! Sim, est bem. Em seguida. Quero terminar isto antes de jantar.
         E olhando-a por cima do ombro, perguntou-lhe:
         -Vai sair? 
         -S por um momento. Precisa que faa algo antes de ir? 
         -No, estou bem. Lamento no ser muito divertida.
         -Sei cuidar de mim mesma. - Comeou a lhe contar do Tom, mas Daphne j estava teclando de novo. -At mais tarde. E no se esquea de comer.
         Mas Daphne no lhe respondeu.
         Sua mente se encontrava a quilmetros de distncia, concentrada na cena, e Barbara fechou brandamente a porta a suas costas.
         Tom deu a Barbara o nome de seu corretor de imveis, e na tarde seguinte ela saiu com o corretor para ver as casas de Bel-Air e Beverly Hills, e encontraram 
exatamente o que procuravam em Bel-Air.
         Era uma bonita casa em Cielo Drive, com trs quartos com vista para um enorme jardim bem cuidado.
         A casa e o terreno estavam rodeados de uma alta parede de ladrilhos, contra a qual cresciam arbustos e sebes, de modo que no parecia uma priso, mas preservava 
a intimidade.
         Havia uma vasta extenso coberta de grama e uma simples piscina retangular, uma sauna, uma banheira, e a casa era realmente linda.
         Os pisos eram de mrmore bege claro, havia grandes sofs brancos por todo lado, uma coleo de peas de arte moderna muito valiosa e uma cozinha que parecia 
atirada da House & Garden.
         Toda a casa estava iluminada pela luz natural e se respirava um ambiente de tranqilidade.
         Havia uma biblioteca com prateleiras de madeira de pinho sem envernizar, que dava para a piscina, e era o lugar perfeito para que Daphne pudesse escrever.
         Possua tudo o que elas necessitavam.
         E embora o aluguel fosse alto, no era tanto para que a Comstock protestasse.
         Pertencia a um ator muito respeitado e a sua esposa, que se encontravam na Itlia para fazer um filme.
         Barbara ficou olhando em torno com um sorriso fascinado, enquanto o corretor a observava. Barbara foi abrindo todos os armrios, todas as gavetas, e esteve 
revisando todos os quartos com extremo cuidado, pensando em sua chefa.
         -Bem, o que lhe parece, senhorita Jarvis?   
         -Acredito que nos mudaremos amanh mesmo, se voc no tiver inconveniente.
         Trocaram um sorriso.
         -Meus clientes ficaro encantados. Faz um ms que se foram. -Era um milagre que a casa no tivesse sido alugada antes, mas eles nos tinham imposto severas 
restries a respeito do tipo de inquilino que queriam. - Sua chefe no desejar conhec-la primeiro? 
         -No acredito. -Enquanto Daphne estivesse atarefada com o roteiro, se Barbara alugasse uma cabana de palha, ela nem sequer se daria conta. - Est muito 
ocupada.
         -Ento, se lhe parecer bem, podemos ir ao meu escritrio para assinar o contrato. 
         Barbara assinou o contrato por um ano, e ela e Daphne mudaram-se no dia seguinte.
         Nesta noite Daphne rondou pela casa, para adaptar-se ao novo ambiente.
         s vezes parecia-lhe difcil trabalhar em seguida em um lugar novo, e estava tratando de pr mos  obra. Tinha arrumado suas coisas, e a mquina de escrever 
j estava instalada no bonito estdio.
         Tudo estava no ponto e esperando, mas Barbara tinha sado, e de repente ocorreu a Daphne que no sabia aonde ela tinha ido.
         Ultimamente parecia ter se tornado muito independente em Los Angeles.
         Dava a impresso de ter florescido desde que tinham chegado  Califrnia, e Daphne alegrava-se com isto.
         A vida de Barbara nunca tinha sido muito excitante, e se era feliz em Los Angeles, Daphne era feliz tambm.
         Mas enquanto se encontrava sozinha na cozinha, comendo uns ovos mexidos e pensando em seu roteiro, de repente sentiu-se mais s do que se sentia em muito 
tempo.
         Comeou a pensar em Andrew, nas refeies que tinham compartilhado juntos em seu apartamento, nos momentos dos dias anteriores  sua ida para a escola.
         Ento, imaginou-o em Howarth, e sentiu um doloroso desejo de abra-lo, acariciar e v-lo.
         Perdida naqueles pensamentos, rompeu em soluos e afastou o prato com os ovos mexidos.
         Sentindo-se ela mesma como uma menina, apoiou a cabea na mesa e chorou, sentindo saudades de seu filho.
         Como consolo, prometeu a si mesma, enquanto assuava o nariz, que mandaria busc-lo o quanto antes possvel; mas enquanto isto tinha que armar-se de coragem.
         O pior era pensar no que o menino estaria sentindo, e o temor de que pudesse estar sozinho em seu quarto chorando a fez derramar lgrimas de novo.
         Foi presa de uma sensao de pnico, de desespero, com o convencimento de ter falhado, de ter cometido um equvoco ao ir para a Califrnia.
         De repente compreendeu que precisava recuperar a tranqilidade, que algum lhe dissesse que seu filho estava bem; e s havia uma pessoa que podia faz-lo: 
Matthew.
         E sem sequer consultar o relgio para ver que hora era na costa do Atlntico, precipitou-se ao telefone da cozinha.
         Com dedos trmulos discou o nmero familiar, rezando para que ele estivesse acordado. Tinha que falar com algum. Imediatamente.
         Tinha discado o antigo nmero privado da senhora Curtis, e ao final de um instante uma voz rouca e grave atendeu; s ouvindo-a, j se sentiu menos sozinha.
         -Matt? Sou Daphne Fields. -Sentiu um n na garganta ao ouvir sua voz, e os olhos se encheram de lgrimas de novo, enquanto tratava de dominar-se. -Espero 
que no seja uma hora inoportuna para ligar.
         Ele riu calmamente.
         -Est brincando? Sobre minha escrivaninha tenho trabalho para duas ou trs horas mais.  um prazer ouvir sua voz. Como est a Califrnia?
         -No sei dizer. Ainda no a vi. Tudo o que vi foi a sute do hotel, e agora minha casa. Mudamos hoje. Queria lhe dar meu novo nmero de telefone.
         Disse o nmero e, enquanto ele o anotava, recuperou sua compostura; ao lhe perguntar como estava Andrew, tratou de dissimular o tremor de sua voz.
         -Est perfeitamente bem. Hoje aprendeu a andar de bicicleta, em duas rodas, mame. No v a hora de lhe contar isto. Queria escrever uma carta esta noite 
mesmo.
         Tudo soava to normal e to saudvel que de repente comeou a perder o sentimento de culpa que a tinha assaltado.
         Entretanto, havia um toque de tristeza em sua voz ao dizer: 
         -Como gostaria de estar a.
         Seguiu se um breve silncio, enquanto Matthew imaginava as emoes que Daphne estava sentindo.
         -Logo chegar este momento.
         De novo guardaram um silncio confortante.
         -Est bem, Daff? 
         -Acredito que sim..., sim. -E exalou um suspiro. -S que me sinto sozinha como um demnio.
         -Escrever  uma tarefa muito solitria.
         -Tambm o  separar-se de seu nico filho. -Suspirou profundamente, mas no afloraram mais lgrimas. -Como esto as coisas em Howarth? 
         -Agitadas para mim, mas estou comeando a me pr em dia.
         Antes de me instalar aqui pensava que dominava a situao, mas agora sempre h uma tonelada de relatrios para ler ou algum menino com quem tenho que falar. 
Estamos introduzindo algumas pequenas mudanas, mas nada que faa mover suas bases ainda. Eu a manterei informada.
         -Agradeo por isto, Matt.
         Pelo tom de sua voz, Matthew imaginou com Daphne estava cansada; lembrava uma garotinha a quem mandam para longe de casa e  tomada por uma saudade desesperadora.
         Durante a pausa que se seguiu, ele tentou visualiz-la na longnqua Califrnia.
         -Como  sua casa? Ela explicou, e ele pareceu impressionado, sobretudo quando disse a quem pertencia.
         A conversa teve a virtude de distra-la um pouco de sua dolorosa preocupao.
         At nisto Matthew era um mestre.
         Era um homem sensvel, inteligente e forte.
         Entretanto, ela ainda sentia aquele profundo pesar por Andrew.
         -No sabe como sinto falta de vocs.
         Matthew se sentiu comovido ao ver-se includo.
         -Ns tambm sentimos sua falta, Daphne.
         A voz de Matthew soava clida em seu ouvido, e se sentiu emocionada at o mais profundo de sua alma; enquanto permanecia na silenciosa cozinha s oito da 
noite, seu corao se enterneceu por aquele homem que conhecia h to pouco tempo e que assim mesmo tornou-se seu amigo antes de partir.
         -Sinto falta das nossas conversas, Matt.
         -Sei... No sei por que, mas esperava te ver por aqui no fim de semana passado.
         -Tomara tivesse podido ir. Tenho a impresso de estar a um milho de quilmetros de minha casa, apesar daqui ser to bonito.
         -Muito em breve estar de novo em sua casa.
         De repente ela sentiu como se aquele ano que tinha pela frente fosse durar toda uma vida, e teve que conter as lgrimas enquanto ele seguia dizendo: 
         -Pense na grande oportunidade que se abre para voc. Ambos aprenderemos uma srie de novas e importantes lies durante este ano.
         -Sim, suponho que sim...
         -Como voc est em Howarth? 
         Pouco a pouco foram recuperando a desenvoltura com que se tratavam na escola, e ela se sentiu reconfortada e menos sozinha.
         - como voc esperava? 
         -At o momento sim. Mas devo reconhecer... que sinto-me to longe de New York como voc na Califrnia.
         Ele sorriu e se recostou no encosto da cadeira.
         -New Hampshire  terrivelmente tranqila.
         Ela riu baixinho.
         -Isto eu sei! Quando cheguei a na primeira vez, para internar Andrew na escola, ficava nervosa s de ouvir o silncio.
         -Como conseguiu se acostumar? Matthew sorriu, recordando a expresso dos olhos de Daphne, e teve a sensao que desaparecia a distncia que os separava.
         -Fazia um dirio, que foi como um amigo fiel. Curiosamente, acredito que foi assim que comecei a escrever. As anotaes no dirio se converteram em ensaios, 
comecei a escrever contos, depois escrevi o primeiro livro, e agora... -Olhou em torno da moderna cozinha. -E agora, olhe o que aconteceu: encontro-me na costa do 
Pacfico escrevendo um roteiro sem ter a mnima idia de como se faz. Pensando bem, possivelmente ser melhor que voc se habitue ao silncio e fique a tranqilo.
         Ambos se puseram a rir.
         -Senhorita Fields, voc est se lamentando? 
         -No. - Meditou sobre isto com um ligeiro sorriso. -Acredito que de fato estou relinchando. Quando o chamei, sentia-me sozinha como um demnio.
         -No deve se envergonhar disto. Na outra noite telefonei para minha irm e lhe asseguro que eu estava a ponto de chorar. Pedi a uma de minhas sobrinhas 
que lhe transmitisse todos meus lamentos, com a esperana de despertar um pouco de compaixo em Martha.

         -O que ela disse? 
         -Que eu era um ingrato, que me pagavam o dobro do que ganhava na escola de New York e que, por conseguinte, devia calar meu maldito bico e me dar por contente. 
-Riu ao recordar as palavras que sua sobrinha tinha repetido no telefone. - Minha irm  assim. Tem razo,  bvio, mas eu fiquei como um diabo. Implorava compaixo 
e recebia um chute no traseiro. Suponho que eu tenha merecido isto. Estes eram os argumentos que estava acostumado a utilizar com ela antes de irmos para o Mxico.
         -Como se viraram por l? Daphne tinha perdido a vontade de escrever. S desejava ouvir a voz de Matt.
         -Oh, Deus, Daphne, ir para o Mxico foi a coisa mais descabelada que tinha feito em minha vida! Mas eu adorava.
         Vivemos na Cidade do Mxico uma temporada. Passamos trs meses em Puerto Vallarta, que naquele tempo era um pequeno povoado com ruas de paraleleppedos, 
onde ningum falava ingls. Martha no s aprendeu a ler os lbios, mas tambm aprendeu a entender o espanhol - explicou com voz cheia de admirao e de amor por 
sua irm.
         -Deve ser uma mulher admirvel.
         -Sim - respondeu com ternura. -Ela . Parece-se muito com voc, sabe? Tem coragem e corao ao mesmo tempo, o que  uma estranha combinao. A maioria das 
pessoas que tiveram que suportar momento terrveis na vida tornam-se terrveis elas tambm. E este no  o caso de Martha, nem o seu tampouco.
         Daphne perguntou-se que outras coisas ele sabia a respeito dela, alm do que lhe tinha contado.
         Mas naquele momento ele j havia resolvido confessar-lhe abertamente.
         -A senhora Obermeier me contou o que aconteceu com seu amigo, o homem a que se referiu na ltima vez que conversamos. 
         Matt temia pronunciar seu nome, como se no tivesse nenhum direito de faz-lo.
         -Devia ser um homem maravilhoso.
         -Ele era. - concordou ela com um suspiro, e tentou, inutilmente, no voltar a sentir a dor que lhe tinha causado sua perda. -Esta noite dizia a mim mesma 
como minha vida agora seria diferente se ele ou Jeff ainda vivesse. Suponho que no estaria aqui, queimando os miolos diante de uma mquina de escrever.
         -Neste caso, no seria a mesma pessoa que  agora, Daphne. Todas estas experincias fazem parte de voc. Isto, em parte,  que a faz ser to especial.
         Daphne perguntou-se se ele no teria razo.
         -No me atreveria a dizer que foi afortunada precisamente, mas de certo modo foi. Ocorreram-lhe coisas terrveis na vida, mas voc soube forj-las at convert-las 
em ferramentas que pode usar e que constituem uma linda parte de seu ser. E isto  uma vitria total.
         Na verdade, Daphne nunca havia se considerado uma pessoa vitoriosa, mas somente uma sobrevivente; entretanto, tambm compreendia que aos olhos das pessoas 
assim era como aparecia.
         Tinha triunfado, alcanara o sucesso.
         Mas havia mais que isto na vida, como ela sabia dolorosamente bem.
         Muito mais.
         Mesmo que agora j no o possusse.
         Entretanto, de uma ou outra maneira, Matthew Dane lhe fazia ter uma melhor disposio ante a vida e um melhor conceito de si mesma cada vez que falava com 
ele.
         -Voc , sem dvidas, um bom amigo, Matthew Dane. Graas a suas palavras, sinto-me com nimos de sair e conquistar o mundo de novo.
         -H um mundo fabulosamente bonito para conquistar. Quem ensinou Andrew a andar de bicicleta? - Na realidade, ela j sabia antes de perguntar.
         -Eu. Nesta tarde tive um momento livre, e ele tampouco tinha muito que fazer. Tinha-o visto observar aos meninos maiores que andavam de bicicleta e me chamou 
 ateno a expresso de seus olhos, de modo que samos para ver o que acontecia, e Andrew o fez s mil maravilhas.
         Daphne sorriu ao visualizar a cena que evocavam suas palavras.
         -Obrigado, Matt.
         -Tambm  meu amigo, sabe?
         - um menino afortunado.
         -No, Daff. O afortunado sou eu. Os meninos como o Andrew  fazem que a vida merea a pena ser vivida.
         A conversa esmorecia.
         -Suponho que deveria desligar. Ambos temos trabalho que fazer.
         Tornava-se confortante saber que quando ele se instalasse diante de sua escrivaninha, ela se sentaria diante da sua, e ambos trabalhariam de noite durante 
as mesmas horas.
         -D meu carinho ao Andrew amanh e um beijo bem grande.
         -Darei. E Daphne... -Vacilou um instante, sem saber, como sempre, o que mais podia lhe dizer. -Estou feliz que me tenha telefonado.
         -Eu tambm.
         Matthew tinha conseguido tranqiliz-la, e sentia-se contente ao saber que tinha um amigo a que podia recorrer.
         -Voltarei a telefonar muito em breve.
         Despediram-se, e ento ela teve a sensao de que Matthew continuava a seu lado na cozinha.
         Dirigiu-se a seu escritrio e deu uma olhada no que tinha escrito, mas ento entrou no quarto, vestiu um traje de banho e foi para a piscina.
         A gua estava morna, e sentiu uma deliciosa sensao quando entrou em contato com sua pele.
         Deu umas braadas pensando em Matthew.
         Quando saiu da piscina, sentiu-se renovada, e voltou para o escritrio depois de trocar de roupa.
         Ao final de meia hora se encontrava de novo a milhares de quilmetros de distncia, perdida em seu roteiro.
         E em New Hampshire, Matthew Dane deixou de lado suas tarefas, apagou a luz e sentou-se diante do fogo, pensando em Daphne.
         -Como ela , Barb?
         Barbara e Tom estavam deitados junto  piscina.
         Tinham transcorrido duas semanas desde que mudaram para a nova casa, e ela mal avistava Daphne.
         Esta estava concentrada em seu trabalho, e quase nem se dava conta do que ocorria a seu redor.
         Barbara completava suas tarefas e toda tarde saa para encontrar Tom.
         A vida de ambos tinha sofrido uma mudana radical em um par de semanas, desde o momento que se tornaram amantes.
         Agora ele segurava brandamente sua mo enquanto contemplavam o pr-do-sol.
         Sempre ficava fascinado escutando as coisas que ela contava sobre Daphne.
         - uma trabalhadora incansvel, terna, afetuosa e triste.
         -No  de estranhar. Aconteceram coisas terrveis em sua vida para matar a dez pessoas.
         -Mas no a ela. Isto  o mais surpreendente em Daphne.  a mulher mais afetuosa e doce que conheo.
         -Nisto eu no acredito - disse ele, meneando a cabea e olhando-a fixamente nos olhos.
         -Por que no?  verdade.
         -Porque no h outra mulher mais afetuosa e doce que voc.
         Ao ouvi-lo dizer isto, ela se deu conta de novo de quo afortunada era.
         Na verdade, era mais que Daphne.
         Ficaram em silncio uns instantes, enquanto Tom a observava e ento se inclinava sobre ela e a beijava meigamente.
         Nunca tinha sido to feliz em sua vida e, durantes as duas semanas passadas, tinha podido contemplar como Barbara se abria diante dele como uma flor do 
vero.
         Era alegre e feliz, e em seus olhos havia mais vida agora do que quando a tinha conhecido na universidade.
         -Observe em voc, amor.
         Voc tambm sofreu o seu.
         Ningum pode estar to s e ser feliz.
         Eu no estive sozinho, e sim amargo, era desgraado.
         -No me pareceu que fosse muito desgraado no dia que nos encontramos na Gucci.
         Barbara gostava de brincar a respeito disto.
         Eloise havia desaparecido fazia quinze dias, e souberam que estava vivendo com um jovem ator.
         Enquanto isto, agora Barbara sabia que Tom havia se sentido desesperadamente s quando estava casado.
         Ouviu sua confisso quando Barbara lhe abriu seu corao e considerou que podia confiar nele.
         Tinha sido machucado cruelmente, muito mais que ela  mesma  ao  ficar grvida anos ante471s durante sua relao com o advogado.
         Tambm tinha contado isto ao Tom, e ele a tinha estreitado entre seus braos enquanto ela se desfazia em lgrimas, dando rdea solta ao sentimento de culpa 
e a dor que havia sofrido durante treze anos e mantido em segredo no fundo de sua alma.
         Ento reconheceu que o que mais lamentava era ser muito velha para ter filhos.
         -No seja ridcula. Quantos anos voc tem?
         -Quarenta.
         Ele tinha quarenta e dois, e olhou-a com ternura e determinao.
         -As mulheres hoje em dia tm filhos aos quarenta e cinco, quarenta e sete e at aos cinqenta anos. Quarenta anos no so nada do outro mundo. Existe alguma 
razo mdica que a impea? 
         -No, que eu saiba.
         Salvo que ela sempre se perguntou interiormente se o aborto a tinha afetado de alguma maneira e por este motivo no poderia mais ter filhos.
         Durante anos no se preocupou por isto.
         Era evidente que no tinha importncia.
         Mas Tom no estava de acordo com ela.
         -Na realidade,  muito tarde.  ridculo ter filhos na minha idade.
         -Se os deseja,  ridculo no os ter. Meus filhos me proporcionaram a maior alegria de minha vida.
         No se prive desta alegria, Barbara.
         Tom tinha apresentado Brbara a Alexandra, e ento ela pde compreender porque seus filhos o faziam to feliz.
         Era uma garota formosa, feliz e despreocupada, com a chamativa cabeleira loira de Sandy e o afvel aspecto de seu pai.
         Ainda no conhecia seu filho Bob, mas pelo que sabia, era muito parecido com Tom, e estava certa que tambm simpatizaria com ele.
         Durante seis semanas Barbara manteve em segredo a vida que levava para Daphne.
         Uma manh, quando Barbara chegou a casa, encontrou Daphne sentada na sala de estar com um sorriso de bobo nos lbios.
         -O que est acontecendo? 
         -Eu acabei! 
         -Acabou o que? 
         -Terminei o roteiro! 
         Estalava de energia e de orgulho, e tinha os olhos acesos pela excitao.
         Experimentava a euforia que proporcionava o fato de ter terminado uma obra, e a secreta certeza de que quanto antes conclusse seu trabalho, mais cedo veria 
seu filho.
         -Hurra!
         Barbara deu-lhe um grande abrao, e abriram uma garrafa de champanhe.
         Estavam j na terceira taa quando Daphne olhou-a com uma expresso maliciosa nos olhos.
         -Bem, no vai me dizer nada? 
         -Dizer o qu? Barbara ficou com a mente momentaneamente em branco.
         -Aonde voc vai todas as noites enquanto eu queimo as pestanas escrevendo.
         Daphne sorriu, e Barbara corou violentamente.
         -E no me diga que esteve indo ao cinema.
         -Queria lhe contar, mas...
         Barbara levantou o rosto, com uma expresso sonhadora nos olhos, e Daphne exclamou: 
         -Oh, Deus, eu sabia! Est apaixonada!
         E apontando-lhe o dedo, acrescentou: 
         -No me venha agora dizer que quer se casar. Pelo menos, no at que terminemos o filme.
         Barbara corou, pois Tom tinha mencionado o casamento pela primeira vez naquela noite, e sua resposta tinha sido muito semelhante  admoestao de Daphne.
         Ele havia se sentido ferido pela sua lealdade para com sua chefa, mas concordou em esperar at o momento propcio.
         -No vou casar-me, Daff. Mas devo reconhecer que... eu estou louca por ele.
         Ao esboar um amplo sorriso, pareceu ter quatorze anos em vez de quarenta.
         -Alguma vez terei oportunidade de conhec-lo?  uma pessoa respeitvel? Vai merecer minha aprovao? 
         -Sim s trs perguntas.  maravilhoso e eu o amo com loucura... Esteve casado com minha companheira de quarto da universidade, e encontrei com ele na Gucci, 
acompanhado por uma estpida ruiva incrivelmente bonita, e...
         Em poucas palavras, contou-lhe tudo por fim, e Daphne ps-se a rir.
         -V, parece que perdi muitas coisas, no? Em que ele trabalha? E no me diga que  ator!
         Desejava toda felicidade para Barbara, e no queria que fosse machucada de novo.
         De repente, franziu o cenho, pensando no que Barbara havia dito a respeito de que tinha se casado com sua companheira de quarto.
         -Ainda est casado? 
         - bvio que no. Est divorciado e  advogado. Faz parte da firma Baxter, Shagley, Harrington e Row.
         Daphne fez uma careta.
         -Conhece-os? 
         -E voc tambm, boba, ou deveria conhecer. Ainda no tivemos que tratar com eles, mas ris me disse algo a respeito desta firma antes de sair de Nova Iorque. 
So os advogados da Comstock para tudo que se relaciona com nosso filme. Ele no sabia?
         -Est dedicado exclusivamente a um caso por problemas de impostos de um de seus clientes.
         -E o que aconteceu com sua esposa? 
         -Fugiu com Austin Weeks.
         -O ator? -Daphne ficou estupefata uns instantes, e ento se deu conta, como tinha ocorrido a Barbara dois meses antes, de que era uma pergunta estpida. 
-No faa conta, foi uma pergunta tola. Demnios, deve ter sido um  forte golpe para seu amigo. Austin Weeks deve ter duzentos anos.
         -Pelo menos, mas  rico como o diabo e bem apessoado!
         Daphne assentiu com a cabea.
         -Por certo, como se chama seu amigo? 
         -Tom Harrington.
         Trocaram um lento sorriso, e Daphne pareceu satisfeita.
         -Fico alegre por voc, Barb.
         Levantou a taa de champanhe e brindou pela felicidade de sua amiga com Tom.
         -Desejo que vivam felizes eternamente...- E com um sorriso, adicionou: - Mas no antes que terminemos o filme.
         Em seus olhos se percebia o mesmo brilho febril que Barbara tinha visto desde que chegaram a
         Califrnia.
         Toda sua aspirao era trabalhar interruptamente, terminar o quanto antes e voltar para casa.
         Entretanto, Barbara agora via esta perspectiva quase com temor.
         Ela no tinha pressa alguma em partir da Califrnia.
         No dia seguinte, Barbara apresentou-a ao Tom.
         Tomaram um drinque junto  piscina, e quando partiram, Barbara estava certa que Daphne tinha gostado dele.
         A conversa foi amvel, e ela beijou Tom no rosto ao despedir-se e lhe disse que cuidasse muito bem de Barbara.
         Daphne acenou com mo enquanto eles se acomodavam no carro; ento retornou com passo lento para junto da piscina e recolheu os copos.
         Alegrava-se por Barbara, mas experimentava uma estranha sensao, como se visse a partida de dois seres queridos para uma longa viagem.
         De certo modo, sentia-se como abandonada em uma praia deserta.
         Nesta noite, enquanto preparava um sanduche para jantar, resolveu telefonar para Matthew.
         Como conseqncia de ter passado aqueles dois meses escrevendo sem cessar, ainda no conhecia ningum em Los Angeles, e por isto ligava para o Matthew de 
vez em quando.
         Ele havia se tornado um amigo ntimo, e era seu nico contato direto com Andrew.
         Mas quando lhe telefonou nesta noite, ele no estava na escola.
         Daphne perguntou-se aonde teria ido.
         At ento nunca tinha estado ausente, e de repente assaltou-a a dvida que ele poderia ter sado com uma mulher.
         Tinha a sensao de que todo mundo tinha companhia menos ela, e que o nico que lhe restava era seu filho, e este se encontrava a quase cinco mil quilmetros 
de distncia em uma escola para surdos.
         Sentiu-se desesperadamente sozinha; e nem sequer o conforto de ter terminado seu roteiro conseguia diminuir sua dor.
         Depois de jantar, deitou-se imediatamente, e ficou estendida na cama tratando de conter as lgrimas, enquanto desejava abraar Andrew com toda sua alma.
         O pessoal dos estdios Comstock ficaram maravilhados ao ler o roteiro de Daphne.
         Tinha ainda mais fora que o livro, disseram-lhe, e todos estavam ansiosos para iniciar a filmagem.
         Os atores tinham sido escolhidos h algum tempo, e tambm j haviam construdo os cenrios.
         Comeariam a rodar dentro de trs semanas.
         E depois de ser felicitada por todos os presentes, Daphne voltou para sua casa, satisfeita consigo mesma e muito excitada.
         Tinham contratado Justin Wakefield para o papel principal, e embora ela achasse que possivelmente fosse muito bonito para o personagem, sentia-se extremamente 
impressionada por seu talento.
         -Bem, senhora, como se sente? 
         Barbara sorria enquanto voltavam juntas para casa e entravam na sala.
         -No sei. Parece que estou em estado de choque. Na verdade esperava que dissessem que estava horrvel.
         Deixou-se cair no sof branco e olhou em torno, meio desorientada.
         Mas Barbara sorriu-lhe.
         -Est louca, Daff. Sempre imagina que a editora tambm achar seus livros horrveis tambm e sempre ficam encantados.
         -Ento, estou louca. -encolheu os ombros com uma careta. Talvez tenha motivos para estar.
         -O que vai fazer durante estas trs semanas? 
         Daphne s conseguia passar trs dias sem sentar-se diante de sua escrivaninha; o que no seriam para ela ento aquelas trs semanas? Mas Brbara adivinhou 
o que passava por sua mente quando Daphne lhe sorriu.
         -Est brincando? Vou telefonar para Matt esta noite mesmo para lhe pedir que embarque Andrew em um avio.
         -No deseja voltar para New York? Daphne negou com a cabea e dirigiu um olhar  piscina.
         -Acredito que ele aproveitar muito aqui, e possivelmente j  hora que veja algo mais do mundo que as quatro paredes da escola.
         Barbara assentiu em silncio, perguntando-se como seria, pois ainda no o conhecia pessoalmente.
         Ento Daphne a olhou com um clido sorriso.
         -Gostaria de ir a Disneylandia conosco?
         -Nada poderia me agradar mais.
         Tom teria que fazer uma viagem para New York por motivos profissionais, e ela j se sentia sozinha s de pensar nisto.
         Aterrorizava-a imaginar como se sentiria quando finalmente retornasse a New York no final do ano.
         Ainda no tinha aceitado sua proposta de casamento, com a desculpa de que no podia abandonar Daphne.
         Ainda no.
         Ao final de meia hora, Daphne levantou-se e telefonou para Matthew Dane em Howarth.
         -Ol, Matt. Como est? 
         -Muito bem. Como anda o roteiro? 
         -Maravilhosamente. J est terminado, e hoje soube que lhes agradou. Comearemos a filmar dentro de trs semanas.
         S estavam esperando que eu o terminasse.
         -Deve estar emocionada como um demnio.
         Matthew parecia verdadeiramente satisfeito com o andamento de seu trabalho.
         -E estou. E quero passar estas duas ou trs semanas com o Andrew. Quando acredita que poder coloc-lo em um avio? No outro extremo da linha, Matt consultou 
sua agenda com expresso preocupada.
         -Poderia lev-lo a Boston no sbado, se quiser.  suficientemente logo para voc? 
         Daphne riu.
         -No, mas est bem. Estou to ansiosa para v-lo...
         -Sei.
         Matthew sabia melhor do que ela suspeitava como havia se sentido s.
         Podia adivinhar pelas vezes que tinha ligado.
         E sempre se assombrava que uma mulher to bonita, com tanto talento e gozando de tanto sucesso pudesse estar sozinha.
         Imaginava que haveria uma multido permanentemente a seu lado, sobretudo homens, mas ao mesmo tempo sabia que ela no desejava isto.
         -Como andam as outras coisas, Daff?
         -Que outras coisas? Desde que cheguei aqui no tenho feito outra coisa seno trabalhar. Agora me dei conta de repente que terminei o roteiro, e tudo o que 
fao  dormir. Hoje sa pela primeira vez, para ir aos estdios, e foi como se tivesse ido para outro planeta.
         -Bem vinda a terra, senhorita Fields. O que voc e Andrew vo fazer durante o tempo que ele ficar a? 
         -Para comear, iremos para a Disneylandia.
         -Que menino afortunado! Matthew sorriu, imaginando como o menino se orgulharia disto diante dos outros meninos, mas sem malcia, pois no era uma criana 
perversa.
         -Ainda no pensei o que faremos depois. Talvez s  aproveitemos a piscina, embora para falar a verdade, isto me mata. Penso que deveria estar trabalhando 
sem perder um minuto a fim de partir daqui o quanto antes.
         -Alguma vez voc faz uma pausa para aproveitar as coisas? 
         -No, se posso evitar. No vim aqui para me divertir, e sim para trabalhar.
         s vezes falava como se estivesse possuda por demnios, e Matthew sabia os motivos. Mostrava-se to exigente consigo mesma para poder ver Andrew.
         -Matt... - disse Daphne, com um tom que demonstrava preocupao. - Acredita realmente que no lhe acontecer nada durante o vo?  Se achar, poderia ir busc-lo.
         Embora tivesse que admitir que estivesse moda depois de dois meses de incessante trabalho.
         No obstante, por Andrew seria capaz de fazer qualquer coisa.
         -Andrew ficar bem. Deixe-o, Daff. Deixe que exercite suas prprias asas. Este  um grande passo para ele.
         -Mas e se lhe acontecer algo?
         -Confie nele. E confie em mim. Ver como tudo sair bem.
         Havia tanto convencimento em suas palavras que Daphne no pde deixar de acreditar.
         Matthew telefonou no dia seguinte para dizer a hora de chegada do vo.
         Andrew viajaria de Boston a Los Angeles sem escala, e chegaria s trs da tarde do outro dia.
         Daphne perguntou-se como suportaria a espera durante mais vinte e quatro horas.
         Desejava tanto poder voltar a estreit-lo entre seus braos que cada segundo lhe parecia um sculo.
         Matthew sorriu.
         -Nota-se que est to ansiosa como ele.
         -Estou.
         E ento seu rosto voltou a adotar uma expresso grave:
         -Ele no est com medo de viajar sozinho? 
         -Absolutamente. Acha que ser muito emocionante.
         Daphne exalou um suspiro.
         -No estou certa de estar preparada para isto, mesmo que ele esteja.
         Durante anos Andrew tinha estado muito protegido, e agora, por sugesto de Matthew, teria que fazer a prova valendo-se de seus prprios meios, mesmo em 
algo to simples como uma viagem a Califrnia, e isto a horrorizava.
         -Do que tem medo, Darf? De que se torne independente? -perguntou-lhe ele com voz amvel.
         Isto lhe pareceu um golpe baixo, e logo apareceu um brilho de raiva em seus olhos da cor do oceano.
         -Como pode dizer isto? Sabe bem que  isto que desejo que faa.
         -Ento o deixe tentar. No faa que se sinta diferente a vida toda. No tem que ser, a menos que voc o faa assim.
         -Est bem, est bem, j ouvi antes este sermo. Captei a mensagem.
         As longas conversas por telefone tinham contribudo para nascer entre eles o tipo de amizade que lhes permitia zangar-se, e eles j o tinham feito antes, 
mas no por muito tempo.
         No geral, Matthew sempre tinha razo.
         -Daphne, seu filho se sentir orgulhoso de si mesmo, e voc tambm.
         Ela sabia que isto era certo.
         -Mas compreendo que este  o momento mais difcil. Amanh a estas horas ambos estaro radiantes de felicidade. No se esquea de me telefonar quando chegar.
         Agora era Matthew quem parecia uma galinha cuidando de seus pintinhos.
         -No esquecerei. Ligarei do aeroporto.
         -Eu farei o mesmo de Boston.
         E no momento em que ele ligou, comeou a viglia de seis horas para Daphne, que ficou sentada junto ao telefone, consultando o relgio, temendo que algo 
sasse errado, que acontecesse alguma coisa ao avio, ou pior ainda, que durante o vo Andrew no pudesse comunicar-se com as pessoas que o rodeavam, ou que algum 
menino o atormentasse, como tinha acontecido anteriormente.
         Parecia-lhe terrvel que tivesse que enfrentar o mundo de novo, completamente sozinho; e ao mesmo tempo, possivelmente isto era o mais conveniente.
         Talvez Matthew tivesse razo e aquela era uma batalha que Andrew tinha que ganhar por seus prprios mritos, sem que ningum compartilhasse sua glria nem 
a tirasse.
         -Est bem? -perguntou-lhe Barbara, assomando a cabea na porta do escritrio; em seguida percebeu a tenso que seu rosto refletia.
         -Alguma notcia?
         -S que j est a bordo do avio. Nada mais.
         Barbara assentiu com a cabea.
         -Quer comer algo? 
         Daphne negou com um gesto.
         No conseguiria engolir nada.
         No podia deixar de pensar em Andrew, voando para ela de Boston.
         Iria sozinha para esper-lo no aeroporto, e Barbara os aguardaria em casa.
         Tinham organizado uma pequena festa para receb-lo, com chapus de papel, um bolo, e um pster que dizia: "Amamos voc, Andrew. Bem-vindo  Califrnia".
         Quando chegou a hora de ir ao aeroporto, Daphne tomou banho e vestiu uma cala de linho bege e uma blusa de seda branca, sandlias e uma jaqueta de seda 
branca, que Barbara tinhalhe comprado em Rodeo Drive.
         Assentava-lhe muito bem, e estava muito elegante quando pegou a bolsa e se dirigiu  porta sob o atento olhar de Barbara.
         Ao chegar  soleira voltou-se, seus olhares se encontraram, eento, com um sorriso, Daphne saiu.
         Barbara ficou maravilhada com o que tinha visto nos olhos de sua amiga.
         Havia tanto amor que at chegou a sentir inveja; amor por um menino que era parte de sua alma, apesar de todos os problemas, pois surdo ou no, era seu 
filho e o amava com todo seu corao, com tudo que podia lhe oferecer.
         No aeroporto, Daphne consultou o painel onde anunciavam as chegadas e soltou um suspiro de alvio.
         O avio chegaria no horrio, e se apressou para aproximar-se do porto de desembarque.
         Ainda faltava meia hora, pois ela tinha chegado antes "no caso de"; fitou a pista, observando os avies que aterrissavam ou decolavam, e sentindo que os 
minutos pareciam sculos.
         Por fim, dez minutos antes da hora de chegada, no pde mais, entrou em uma cabine telefnica e chamou Matthew.
         -Chegou so e salvo? - indagou ele alegremente.
         Ento, Daphne respondeu com voz tensa: 
         -Ainda faltam dez minutos para a chegada do avio, mas no pude suportar mais. Tinha que ligar.
         -O lance final, no ? Andrew estar bem, Daphne, prometo-lhe isto.
         -Sei. Mas de repente me dei conta de que faz dois meses e meio que no o vejo. E se tiver mudado? E se me odeia porque o deixei para vir para c? 
         Estava apavorada diante da perspectiva de ver seu prprio filho, mas Matthew sabia que isto era normal.
         -Ele no a odeia, Daff. Ele te ama. Est ansioso para v-la. No fez mais que falar disto durante os dois ltimos dias.
         -Jura? Daphne parecia a ponto de ter um colapso nervoso.
         -Juro. Vamos, menina, coragem. Andrew est prestes a chegar.
         Consultou seu relgio, e no aeroporto Daphne viu que as pessoas se amontoavam diante da porta de sada.
         -Faltam s cinco minutos.
         De repente, ela sorriu, sentindo-se tola.
         -Lamento ter lhe ligado. Senti-me muito nervosa...
         -Escute, eu me sinto igual. Tranqilize-se. Olhe, no se incomode em me telefonar at que cheguem em casa. Se no me ligar, saberei que chegou so e salvo. 
Mas no desperdice os primeiros instantes com ele correndo a procura de uma cabine telefnica.
         -De acordo.
         Ento ela viu o avio, que taxiava pela pista para a companhia area.
         Os olhos se encheram de lgrimas e lhe sentiu um n na garganta.
         -Oh, Matt..., j vejo o avio... Andrew chegou... Adeus.
         Pendurou o aparelho, e Matthew sorriu, tomado tambm pela emoo.
         Daphne permaneceu imvel enquanto o avio se aproximava do porto de desembarque, e segurou com uma mo o corrimo enquanto o aparelho parava.
         Em um instante comearam a sair os passageiros: cansados homens de negcios com suas pastas, avs que se ajudavam com suas bengalas, modelos com bolsas..., 
mas ela no via Andrew em parte nenhuma.
         Daphne continuou em seu lugar, sem separar os lbios, percorrendo a multido com o olhar, e ento, de repente, viu-o.
         Andrew sorria e ria, pego na mo de uma aeromoa, e logo apontou com o dedo para Daphne e exclamou quase com absoluta clareza: 
         -Esta  minha mame! 
         Com lgrimas correndo porseu rosto, Daphne se precipitou para ele e o estreitou entre seus braos, fechando os olhos fortemente e o apertando contra seu 
peito; ento se separou dele para que pudesse ler seus lbios.
         -Te amo tanto! 
         O menino riu contente e a abraou de novo; quando se separou dela, moveu os lbios e disse: 
         -Eu tambm te amo, mame.
         Andrew ficou fascinado pela limusine que os aguardava junto  calada, assim como pelo pster que lhe tinham preparado em casa, e pela piscina e o bolo.
         Contou a Barbara todos os detalhes da viagem, movendo cuidadosamente os lbios e falando devagar, mas no tanto que ela no pudesse entender.
         Depois de jantar, os trs deram um mergulho na piscina e, por fim, Andrew foi para a cama.
         Daphne o agasalhou, acariciando-lhe os cabelos loiros e lhe beijando meigamente a testa, enquanto ele finalmente adormecia.
         Nesta noite esteve contemplando-o por longo tempo, sem poder acreditar que o tivesse to perto de novo.
         Andrew estava em casa.
         Era a nica coisa que conseguia pensar naquele momento; transcorreu muito tempo antes que sasse do quarto, e ento encontrou Barbara que levava os restos 
do bolo para a cozinha.
         -Tem um filho realmente extraordinrio, Daff.
         -Sei.
         Pouco mais pde dizer, pois nesta noite as lgrimas vinham a seus olhos por qualquer coisa, como lhe ocorreu agora ao sorrir para Barbara.
         Em seguida, entrou em seu escritrio para telefonar para Matt, e quando este respondeu , disse-lhe com voz trmula: 
         -Ele conseguiu, Matt, conseguiu! Tentou lhe explicar como tinha sido a viagem, mas no demorou em tornar a chorar, soluando ruidosamente pela alegria que 
sentia.
         Matthew compreendia seus sentimentos enquanto aguardava que se acalmasse.
         - assim, Daff... Est bem..., est bem.
         Sua voz era clida e reconfortante, apesar de vir de cinco mil quilmetros de distncia, e era como se a tivesse em seus braos, enquanto seus soluos acalmavam.
         -De agora em diante, saber fazer bonito. Haver altos e baixos em sua vida, mas saber superar todos os empecilhos.
         Proporcionou a ele o que precisava, e isto  o melhor que podia lhe oferecer.
         Ela, porm, sabia que Matthew e outros tambm tinham contribudo com seu gro de areia, proporcionando a ele algo que ela nunca teria podido lhe oferecer.
         Ela s tinha tido o bom senso de permitir.
         -Obrigado, Matthew.
         Ele compreendeu o que Daphne queria dizer, e pela primeira vez em muitos anos notou que seus olhos se enchiam de lgrimas, e s com grande esforo conseguiu 
conter-se para no lhe dizer que a amava.
         A viagem a Disneylandia foi um sucesso.
         Barbara e Daphne aproveitaram tanto como o Andrew.
         Em outro dia foram a Knotts Berry Farm; passaram uma tarde na Brea Tar Pits; percorreram os estdios da Comstock em visita guiada, e todas as tardes nadavam 
na piscina.
         As duas semanas de sua visita passaram rapidamente, e quando chegou o ltimo dia, pareceu-lhes que s tinham transcorrido uns instantes.
         Sentados junto  piscina, falavam-se por gestos, e os olhos de Andrew tinham uma expresso grave enquanto dizia a sua me as coisas de que mais tinha gostado 
e o muito que tinha simpatizado com Barbara.
         Daphne sorriu e lhe disse que era uma grande amiga e que tambm gostava muito dela, e se surpreendeu diante da seguinte pergunta do menino.
         -Voc tambm ser como ela, mame? 
         -O que quer dizer? -perguntou-lhe Daphne por sua vez, fazendo os sinais com lentido, pois nunca tinha lhe ocorrido ser "como" Barbara.
         -Voc sabe, se ter algum que a ame - respondeu Andrew, que tinha conhecido Tom com quem tambm tinha simpatizado quase tanto quanto com Matthew.
         Pelo que percebia, era a pessoa que Andrew mais admirava.
         Entretanto, a pergunta era difcil de responder.
         Daphne reparou ento que at a muito pouco tempo ela e seu filho no podiam manter uma conversa como aquela.
         Agora o menino podia expressar-se falando de temas extremamente profundos, mediante sinais, e era capaz de seguir uma conversa lendo os lbios.
         J no existiam portas fechadas entre ela e seu filho; tinham sido todas abertas pelas pessoas que o amavam na escola de Howarth.
         Mas como ela ficasse pensativa uns instantes, Andrew repetiu a pergunta.
         -No sei, Andrew. No  to fcil encontrar algum que lhe ame. Isto  algo muito raro e especial.
         -Mas j lhe aconteceu antes.
         -Sim,  verdade.
         Em seus olhos apareceu uma melancolia que o menino no tinha nunca visto antes.
         -Com seu papai.
         -E com o John.
         Andrew continuava sendo fiel  memria de seu amigo, e ela assentiu com a cabea.
         -Sim.
         -Eu gostaria de ter um pai como Matthew.
         - srio? Ela sorriu com ternura, entre triste e divertida.
         Por muito que se esforasse, sempre havia algo que no lhe dava, que no podia lhe dar.
         Agora se tratava de um pai.
         -No acredita que poderia ser feliz s comigo? Aquela era uma pergunta importante, e Daphne observou seus olhos e suas mos enquanto o menino respondia.
         -Sim. Mas olhe como Barbara  feliz com o Tom.
         Ela riu baixinho, pois o tom do menino era quase repreensivo; mas tinha posto o dedo na ferida.
         -O caso deles  muito especial, Andrew. A pessoa no se apaixona todos os dias. s vezes, isto s acontece uma vez na vida.
         -Voc trabalha muito - disse o menino com ar chateado. Nunca sai.
         Como poderia saber tanto, sendo to pequeno? 
         -O que acontece  que quero terminar o trabalho o quanto antes para voltar para casa com voc.
         A resposta de Daphne pareceu acalm-lo, mas quando entraram em casa para almoar, Daphne ainda no tinha sado de seu assombro pelo que seu filho lhe havia 
dito.
         Andrew comeava a v-la tal qual era, com seus temores e seus defeitos, assim como com suas virtudes.
         O menino estava amadurecendo, mais do que era necessrio para poder tomar um avio sozinho.
         Estava comeando a raciocinar por si mesmo.
         E ela se sentia ainda mais orgulhosa dele por isto.
         -Possivelmente eu no necessito dr um homem como acontece com a Barbara.
         Daphne voltou a tocar no assunto depois do almoo, como se quisesse convenc-lo.
         -Por que no? 
         -Porque tenho voc - respondeu ela, enquanto comiam a sobremesa.
         -Isto  uma tolice. Eu s sou seu filho.
         O menino a olhou como se sua me fosse realmente estpida, e ela ps-se a rir.
         - um osso duro de roer, no ? Andrew pareceu confuso com aquelas palavras, e Daphne lhe disse: -No faa conta. Ser melhor que nos apressemos ou perderemos 
o avio.
         Desta vez a despedida no foi nada fcil.
         Nenhum dos dois sabia com certeza quando voltariam a ver-se, e o menino se agarrou a seu pescoo com lgrimas rolando porseu rosto, enquanto Daphne fazia 
um esforo para manter sua compostura.
         -Prometo-lhe que voltar logo, querido.
         E se puder, irei a New York por uns dias.
         -Mas estar muito ocupada com o filme - argumentou Andrew com um lamentoso gemido.
         O menino se expressava muitas vezes verbalmente desde sua chegada.
         -Mas eu tentarei, seriamente. E voc tambm deve tratar de no ficar triste, e se divertir com seus amiguinhos da escola. Pense em todas as coisas extraordinrias 
que tem para lhes contar.
         Mas, nenhum dos dois pensava nisto quando a aeromoa o conduzia para o avio.
         Agora, ele era s um menino de sete anos e meio que no queria separar-se de sua me, e ela tinha a sensao de que lhe arrancavam a parte mais vital de 
seu ser.
         Quanta vez tinha experimentado esta dor...; entretanto cada vez lhe parecia que era a primeira.
         Barbara nada disse a Daphne enquanto esta chorava olhando fixamente o avio sem v-lo; limitou-se a passar o brao por seus ombros e a estreit-la contra 
si.
         Agitaram freneticamente a mo quando o aparelho comeou a afastar-se, sem saber se ele podia v-las.
         Fizeram em silncio e com expresso sombria a volta para casa.
         Daphne se fechou em seu quarto e desta vez no telefonou a Matthew.
         Foi ele quem a chamou.
         Pelo tom de sua voz, Matthew compreendeu em seguida como se sentia, o que j imaginava e por isto tinha lhe telefonado.
         -Aposto que se sente muito desconsolada, no  verdade, Daff?  Ela sorriu entre as lgrimas e assentiu com a cabea.
         -Sim. Desta vez foi mais doloroso que nunca.  diferente quando o deixo na escola.
         -Pensa que no  uma separao definitiva, que um dia destes o ter em casa para sempre.
         Daphne assuou nariz e exalou um profundo suspiro.
         -Parece difcil imaginar que este dia chegar.
         -Chegar. E no demorar muito. Tenha em conta que nos dois prximos meses estar terrivelmente ocupada com seu filme.
         -Tomara nunca tivesse assinado este maldito contrato. Deveria estar em New York, perto de Andrew.
         Mas ambos sabiam que ela no acreditava sinceramente.
         Em parte, era uma reao lgica diante da partida de seu filho.
         -Bom ento se apresse e termina este condenado filme para que possa voltar para casa. No acredito que me incomodaria. Demnios, voc  a nica me com 
quem posso me queixar.
         Daphne riu e se recostou na cama.
         -Cus, Matt, s vezes a vida  to cruel!
         -Passou momentos piores.
         -Obrigado por me recordar isto, replicou ela, mas sem deixar de sorrir.
         -Foi um prazer.
         Sabiam aceitar as brincadeiras que se faziam mutuamente, e ela estava acostumada a lhe contar todos seus problemas, os que se centravam no trabalho ou em 
Andrew; com exceo disto, pouca coisa mais tinha para lhe explicar.
         -Quando comea o filme? 
         -Depois de amanh. Estas duas ltimas semanas, os atores estiveram provando o figurino, mas na realidade no comearo a rodar at dentro de um par de dias. 
Eu no tenho obrigao de ir ao estdio at ento. Provavelmente terei que reescrever algumas falas e ver como anda a filmagem. A partir deste momento, sou basicamente 
uma espcie de assessora. Agora o trabalho est nas mos dos diretores e dos atores.
         -J conheceu os atores? 
         -Sim, a todos com exceo de Justin Wakefield. Estava rodando na Amrica do Sul e acredito que ter chegado faz to somente um par de dias.
         -Ter que me dizer como ele .
         Matthew disse isto com um novo tom na voz, mas ela no percebeu.
         -Provavelmente  um asno.
         Um homem to vaidoso como ele tem que ser um arrogante.
         -Talvez no. Pode ser uma excelente pessoa.
         -Enquanto faa um bom trabalho no filme, dou-me por satisfeita.
         Tratava-se da histria de um homem de nossa poca com sangue ndio apache em suas veias, com todas as implicaes que este fato tinha para ele, assim como 
as responsabilidades e problemas que isto conduzia toda sua vida, por no haver assumido, at o momento em que finalmente o aceitava.
         Independentemente do tema racial, era um estudo da natureza humana e do reconhecimento da prpria identidade.
         Possua muita fora, e todo mundo se surpreendia ao saber que sido escrito por uma mulher.
         Se Justin Wakefield interpretasse bem o papel, poderia obter um prmio da Academia, e Daphne achava que ele sabia disto.
         Era um astro loiro espetacular, idolatrado por quase todas as mulheres do pas, e sua participao certamente converteria Apache em um autntico xito.
         -Pelo menos sabemos que sabe atuar.
         -Se tiver um minuto, me chame para me dizer como andam s coisas.
         -Farei isto, e voc sabe que desejo estar a par do que Andrew faz, por mais ocupada que esteja. No estdio deve haver algum nmero em que possa me chamar. 
Telefonarei assim que souber.
         Posteriormente, teriam que ir ao Wyoming para filmar os exteriores, mas para isto ainda faltavam muitos meses.
         Primeiro tinham que filmar as cenas locais.
         -Voltarei a lhe chamar logo, quando Andrew chegar.
         -Obrigado, Matt.
         Como de costume, tinha-a reconfortado, e ela sentia-se menos desconsolada com a partida de seu filho.
         -Matt? 
         -Sim? 
         -Quem faz isto por voc? 
         -O que? -perguntou Matt sem compreender.
         -Te reconfortar. Voc sempre est disposto a me escutar, e isto no  justo.
         Matthew era a nica pessoa em quem se apoiou em muitos anos, e s vezes experimentava um sentimento de culpa.
         -Nesta vida temos que pagar um preo pelas pessoas queridas, Daff. No preciso lhe dizer isto.
         Ela assentiu em silncio, pois ele tinha razo.
         -Telefonarei mais tarde.
         -Obrigado.
         Desligaram, e Daphne perguntou-se como tinha se arrumado antes de conhecer Matthew.
         A filmagem de Apache comeou em um cenrio interior dos estdios Comstock, montado no estdio A, s cinco e quinze da manh de uma tera-feira.
         Deviam ter comeado na segunda-feira, mas no puderam faz-lo porque a estrela principal, Maureen Adams, estava com gripe.
         De acordo com os clculos do gerente de produo, o atraso  custara ao estdio vrios milhares de dlares, mas isto j estava previsto na produo .
         O atraso proporcionou um dia adicional a Justin Wakefield, que aproveitou para estudar seu papel e trocar impresses com o diretor, neste caso Howard Stern, 
um velho veterano de Hollywood, aficionado aos charutos, a botas de vaqueiro e a gritar como um desaforado com os atores; mas tambm era um gnio reconhecido por 
seus pares, e gozava de justa fama por seus brilhantes filmes.
         Daphne encheu-se de satisfao ao saber que ela seria o diretor do filme.
         Nesta manh, Daphne levantou s trs e meia, tomou banho, vestiu-se, preparou uns ovos mexidos para ela e para Barbara, e as quatro e quinze estava pronta 
para sair.
         A limusine estava aguardando, e chegaram ao estdio na hora fixada em ponto.
         A maioria dos membros da equipe de filmagem j se encontrava ali, e o diretor fumava charutos e comia rosquinhas com os cengrafos.
         Maureen Adams se encontrava nas mos de dois maquiadores.
         No se via Justin Wakefield em nenhuma parte.
         Daphne saudou os diretores do estdio, que tinham feito ato de presena para certificar-se de que tudo andava sobre os trilhos, e eles se encarregaram de 
apresent-la ao diretor, o qual meteu a rosquinha no bolso da camisa e examinou seu rosto por um instante antes de lhe estender a mo esboando um amplo sorriso.
         -Tremendamente pequena, no? Mas bonita, tremendamente bonita. - Inclinando-se para ela, murmurou com um sorriso: -Deveria atuar no filme.
         -Oh, cus, no! -exclamou ela, levantando a mo em sinal de protesto, rindo.
         Howard Stern tinha um aspecto peculiar; tinha completo sessenta e tantos anos e seu rosto estava sulcado por profundas rugas, que de certo modo acentuavam 
favoravelmente seus traos.
         No era um homem de aparncia agradvel, e deve ter sido menos ainda em seus anos de mocidade, mas Daphne simpatizou com ele imediatamente.
         Ela teve a impresso de lhe haver causado simpatia tambm.
         -Emocionada por ser seu primeiro filme, senhorita Fields? Indicou um par de cadeiras com a mo, e se sentaram um junto ao outro, ele ocupando tudo ou assento 
com seu corpo grandalho, e ela com todo o aspecto de uma garotinha, que o olhava, sorrindo de novo.
         -Sim, muito emocionada, senhor Stern.
         -Eu tambm. Eu gostei de seu livro. De fato, eu gostei muitssimo. Sair um extraordinrio filme. E eu gosto de seu roteiro.
         Com expresso displicente, adicionou: 
         -O Justin Wakefield tambm. Conheceu-o pessoalmente? Fixou seu olhar em Daphne, perdido em seus prprios pensamentos.
         -No, ainda no.
         Stern moveu a cabea afirmativamente.
         -Um homem interessante. Inteligente, por ser um ator. Mas no esquea que isto  o que .
         Contemplou-a de cima a baixo com admirao. 
         -Todos so iguais. Sei pelos muitos anos que tenho trabalhando com eles. A todos eles falta uma pea e tm algo adicional agregado, algo infantil, gratuito 
e maravilhoso. So irresistveis, mas tambm so egostas, malcriados e egocntricos. No se importam com nada e com ningum, e a maioria s se interessa por si 
mesmo.
         A princpio se surpreender, mas se os observar atentamente descobrir uma semelhana em seu carter. Ao final de um tempo, tudo fica mais claro. H excees, 
claro...
         Nomeou uns poucos, todos nomes que ela conhecia e a quem tinha visto na tela.
         -Mas so estranhos. Outros so...
         Vacilou, sorrindo, como se conhecesse um segredo que ela ignorava, mas que no demoraria em descobrir.
         -Bom..., so atores. No se esquea, senhorita Fields; isto lhe permitir conservar a sanidade durante os prximos meses. Vo deix-la louca, e a mim tambm. 
Mas, em ltima instncia, faremos um extraordinrio filme, e tudo ter valido a pena; Daremos as mos, derramaremos algumas lgrimas e nos despediremos com um beijo. 
E nos esqueceremos das brigas, dos cimes e das diferenas. Recordaremos as brincadeiras, as risadas e os momentos extraordinrios. Existe uma espcie de magia em 
tudo isto...
         Com um gesto da mo, abrangeu todo o estdio com um gesto majestoso.
         Ento ficou de p, saudou-a com uma inclinao de cabea, fixando seus risonhos olhos nos dela, e voltou a conferenciar com os cengrafos.
         Daphne sentia-se impressionada por aquele homem e por tudo que a rodeava, e ficou observando em silncio os maquinistas, extras e encarregados de vesturio, 
assim como os tcnicos de som e de iluminao, que iam de um lado a outro, realizando misteriosas tarefas, at que por fim s sete e meia produziu-se uma sbita 
agitao, acentuou-se a tenso no ambiente, e ela pressentiu que estavam a ponto de comear.
         Quase no mesmo momento em que a atividade parecia maior, Daphne viu que de um dos camarins saa um homem vestido com jeans, uma camiseta esportiva e uma 
jaqueta com capuz, sapatos sem meias, e os loiros cabelos cados na testa como os de um adolescente.
         Dirigiu-se para ela com certa hesitao e timidez, at que finalmente sentou-se na cadeira que Howard Stern tinha ocupado momentos antes.
         Lanou um olhar a Daphne, ao estdio e logo depois de novo a ela, tenso e nervoso.
         Daphne sorriu-lhe, adivinhando como se sentia e perguntando-se quem seria.
         -Emocionante, no? Foi a nica coisa que lhe ocorreu dizer, e ele pareceu achar divertido, enquanto a contemplava com seus profundos olhos verdes como  
mar.
         Havia algo familiar nele, mas no conseguia identificar.
         -Sim, suponho que . Sempre sinto um n no estmago quando nos dispomos a comear a filmagem. Ossos do ofcio, eu suponho.
         Encolheu os ombros e colocou a mo no bolso para tirar um caramelo, colocou-o na boca e ento, com certo embarao por ter sido to pouco delicado, procurou 
no bolso de novo e ofereceu um a Daphne.
         -Obrigada.
         Seus olhos se encontraram de novo, e ela sentiu que se ruborizava diante de seu olhar admirado.
         -Est como extra neste filme? 
         -No.
         Ela balanou a cabea, sem saber o que dizer.
         No queria lhe dizer que o tinha escrito, pois soaria muito pomposo.
         Ele no insistiu.
         Parecia absorto observando os preparativos no cenrio; ento, com bastante nervosismo, se ps de p e afastou-se.
         Quando reapareceu, inclinou-se sobre ela olhando-a com um sorriso juvenil.
         -Quer tomar algo? Daphne se sentiu agradecida.
         Barbara tinha desaparecido fazia vinte minutos  procura de duas xcaras de caf. Ento concordou.
         -Obrigado. Daria meu brao direito por uma xcara de caf.
         No estdio fazia frio e havia correntes de ar, e ela estava cansada.
         -Eu a conseguirei. Com creme e acar? Daphne fez um gesto afirmativo, e ele reapareceu ao final de uns instantes com duas fumegantes xcaras.
         Nada teria podido faz-la mais feliz.
         Pegou a sua e tomou um gole lentamente, e quando levantou a vista para seu benfeitor, ele estava observando-a de novo com seus fascinantes olhos verdes.
         -Voc  muito bonita, sabia? -Daphne voltou a ruborizar-se, e ele sorriu. -E tmida. Eu adoro as mulheres tmidas.
         E ento revirou olhos e riu de si mesmo.
         -Que tolices eu falo! Pareceria que provo centenas delas todos os dias.
         -E no  isto o que fazem todos aqui? 
         Desta vez ambos riram, e ele parecia intrigado em saber quem era ela.
         Via em seus olhos que ela era inteligente e esperta, que no era o tipo de mulher a quem se pode enganar facilmente.
         Gostava disto, e no deixava de perguntar-se quem deveria ser.
         -No, nem todo mundo faz isto aqui. Ainda existem algumas pessoas decentes nesta cidade, inclusive neste meio..., possivelmente.
         Sorriu, tomou o caf quente e ento deixou a xcara.
         -Sinto curiosidade por voc, senhorita. O que faz neste estdio? Tinha chegado o momento de dizer a verdade.
         -Escrevi o roteiro, mas  a primeira vez que fao uma coisa semelhante. De modo que tudo  novo para mim.
         Ento ele pareceu ainda mais intrigado.
         -Quer dizer que voc  Daphne Fields? -mostrou-se impressionado. - Tenho lido todos seus livros, e este  o que eu mais gosto.
         -Obrigada - respondeu ela satisfeita.
         -E agora devo lhe fazer a mesma pergunta. O que est voc fazendo aqui?
         Mas ao ouvir isto ele jogou a cabea para trs e soltou uma gargalhada, um som assombrosamente argnteo, e em seguida voltou a fixar os olhos nela, enquanto 
afastava o cabelo loiro do rosto com a mo e sorria.
         De repente, Daphne adivinhou quem era e ficou estupefata.
         Era to bonito como aparecia em todos seus filmes, mas naquele ambiente parecia diferente, completamente fora de lugar e sem pretenses, com aquela velha 
jaqueta com capuz e os pudos jeans.
         -Oh, meu Deus...
         Ambos se puseram a rir.
         Ele compreendeu que ela tinha adivinhado.
         Era Justin Wakefield.
         Ele estendeu a mo para estreitar a sua, e enquanto suas mos se encontraram, olharam-se olho no olho
         Havia algo mgico naquele homem, uma alegria infantil, um magnetismo em seus olhos que deixava qualquer um fascinado.
         -Eu atuo em seu filme, senhora. E espero com toda minha alma que goste de minha interpretao.
         -Pode estar certo disto - disse Daphne, sorrindo.
         -Fiquei muito contente ao saber que havia aceitado o papel.
         -Eu tambm - ele admitiu com franqueza.
         - o melhor que a sorte me trouxe em muitos anos.
         Ela estava radiante de satisfao.
         -Voc escreve como um demnio.
         -Tampouco voc o faz de todo mal.
         Os olhos de Daphne diziam s claras que estava brincando, e uma voz interior lhe disse que se encontrava flertando com o dolo de cinema favorito dos Estados 
Unidos.
         Experimentava uma estranha confuso ao estar ali sentada junto a ele.
         E por alguma razo que no podia explicar, pela primeira vez em muito tempo, sentia-se como uma mulher, no como um animal de carga nem como uma escritora, 
e nem sequer como a me de Andrew, mas sim como uma mulher.
         Tinha atrado sua ateno, como o demonstrava a forma como lhe falava.
         Mas fazia tanto tempo que no mantinha relao com um homem, com exceo de Matthew, com quem s falava de Andrew, que no sabia o que dizer.
         Como sentiu que estava ficando nervosa, voltou a conversa para seu trabalho, pois naquele terreno se sentia segura.
         No se sentia completamente a salvo junto a aquele homem.
         Justin Wakefield a observava muito atentamente, e ela temia dizer algo que depois talvez se arrependesse.
         Possivelmente ele perceberia a solido que ela sempre sabia dissimular to habilmente, ou o doloroso vazio que a morte de John tinha deixado em sua alma.
         -O que voc acha do roteiro? 
         -Eu gosto, eu gosto muitssimo, com certeza. Howard e eu nos reunimos ontem para discutir. S h uma cena, no momento, que no me agradou.
         -Qual? -inquiriu Daphne, repentinamente preocupada.
         Mas havia uma afetuosa expresso nos olhos de Wakefield quando se inclinou para pegar o exemplar do roteiro que Barbara tinha deixado ao lado da cadeira 
de Daphne.
         -No se preocupe.  uma cena muito breve.
         Era evidente que conhecia bem o roteiro, pois passou rapidamente as folhas e lhe mostrou a parte que no gostava.
         Daphne lanou um olhar  pgina, assentiu com a cabea e franziu o cenho ao levantar os olhos para ele.
         -Pode ser que tenha razo. Eu mesma no estava muito de acordo com ela.
         -Bom, esperemos para ver o que diz Howard. Ambos vamos ter que fazer uma srie de mudanas e de adaptaes antes de terminar a filmagem. Voc o viu dirigir 
alguma vez? 
         Daphne balanou a cabea, e ele ps-se a rir.
         -Pois voc est convidada para ver. E no se deixe intimidar por ele. Tem um corao de ouro - acrescentou com um tenro sorriso-, e uma boca cheia de sapos 
e lagartos. Mas voc se acostumar em seguida. Como todos.
         -E vale a pena, pois o homem  um verdadeiro gnio. Aprender muito com ele. Eu trabalhei duas vezes com Howard, e em cada ocasio me ensinou coisas diferentes. 
Tem sorte de que seja ele quem dirige Apache. Todos ns temos.
         E ento, enquanto parecia acarici-la com os olhos, disse-lhe em voz baixa: 
         -Mas ainda somos mais afortunados por ter voc.
         E com um sorriso que quase parecia um beijo, separou-se dela para ir trocar-se.
         Neste momento, Brbara voltou.
         -No consigo encontrar uma maldita xcara de caf em parte nenhuma.
         -No se preocupe. Algum me trouxe uma.
         Mas Daphne tinha um ar distante.
         Justin Wakefield era um homem extraordinrio, e no estava certa se realmente gostava dele ou no.
         Sem dvida era inteligente, extremamente simptico, bonito como um demnio, divertido s vezes, mas no conseguia convencer-se de que fosse de carne e osso.
         Como podia ser de carne e osso uma criatura to linda?
         -Parece que acaba de ter uma viso.
         -Acredito que tive. Estive falando com Justin Wakefield.
         -Como ele ? -Barbara se sentou na cadeira vazia, tentando no mostrar-se impressionada, mas estava. Morria de vontade  de conhec-lo, e at o momento nem 
sequer o tinha visto no estdio.
         - to sedutor como se v na tela? Daphne riu.
         -No estou certa. Tem aparncia terrivelmente agradvel, mas nem sequer o conheci quando se sentou a meu lado.
         -Como foi isto? 
         -Parecia um rapaz qualquer. Suponho que esperava me deparar com algo diferente - respondeu-lhe Daphne com um sorriso.
         -Quer dizer que sofrerei uma desiluso? -exclamou sua secretria e amiga, com assombro.
         -Eu no diria isto.
         Era difcil, com aquela pinta.
         Enquanto ficava perdida em seus prprios pensamentos relacionados com ele, viu-o sair de seu camarim com calas de camura muito apertadas de cor caramelo 
claro, como exigia o roteiro para o comeo do filme, e um suter branco com gola alta, que lhe dava a aparncia de um jovem e loiro Marlon Brando.
         Daphne notou que Barbara ficava sem flego.
         -OH, meu Deus,  fenomenal! -murmurou Barbara.
         Daphne sorriu sem tirar os olhos de cima de Justin.
         Realmente o era com aquele traje.
         Estava imponente, e seus msculos se destacavam sob a roupa, enquanto se dirigia para onde elas estavam.
         Agora tinha os cabelos penteados para trs, como Daphne tinha visto nos filmes, e se parecia com o Justin Wakefield, o ator, no com o rapaz levado que 
tinha lhe oferecido uma xcara de caf no estdio.
         Dirigiu-se diretamente para Daphne e se deteve junto a sua cadeira com um clido sorriso.
         -Ol, Daphne.
         Seus lbios pareciam acariciar seu nome.
         -Ol. -Daphne sorriu, tratando de parecer mais serena do que se sentia.
         -Quero-lhe apresentar a minha secretria, Barbara Jarvis.
         Barbara, Justin Wakefield.
         Estreitou a mo de Barbara esboando um simptico sorriso e logo se voltou e saudou Daphne antes de ir reunir-se com Howard Stern para comear a filmar, 
enquanto Barbara o contemplava com a boca aberta.
         Daphne se inclinou para ela com um sorriso.
         -Fecha a boca, Barb. Voc vai deixar cair a baba.
         -Santo cu!  incrivelmente bonito.
         No podia tirar os olhos dele.
         Daphne olhou primeiro para Justin e logo observou a reao de Barbara.
         Sem dvida causava um grande efeito nas mulheres.
         Estava certa disto, pois tinha que reconhecer que nem ela mesma podia afastar-se de sua fascinao.
         Tornava se difcil resistir. 
         -Est bem, est bem.
         -Sim, ele . Mas h outras coisas na vida alm de uma cara bonita.
         Daphne falava como uma velha com experincia, e Barbara ps-se a rir.
         -Ah, sim? Por exemplo? 
         -Por exemplo, Tom Harrington, ou acaso tenho que lhe recordar isto? Barbara se ruborizou enquanto fazia uma careta.
         -Est bem, est bem.
         -Por certo, como andam as coisas? 
         Barbara suspirou e adquiriu uma expresso sonhadora.
         - um homem maravilhoso, Daff. Eu o amo e adoro seus filhos.
         Mas parecia haver algo que ela preferia calar.
         -Ento, qual  o problema? 
         -No h nenhum problema. -Barbara sorriu.
         -Jamais fui to feliz em minha vida, salvo quando me lembro de que quando menos pensar teremos que retornar a Nova Iorque.
         -Ainda falta muito para isto, assim aproveite enquanto pode.
         No se amargure pensando no que acontecer daqui a seis meses, pelo amor do Deus. Estas coisas no acontecem todos os dias.
         Sorriu-lhe com ternura.
         Para Barbara no tinha acontecido nunca antes.
         Aos quarenta anos, estava loucamente apaixonada pelo homem ideal pela primeira vez em sua vida.
         -Isto  o que digo ao Tom no primeiro momento. Uma coisa assim s acontece uma vez na vida, portanto no devemos deixar escapar a ocasio.
         Daphne adotou uma expresso sonhadora e triste.
         -Jeff me disse o mesmo, pouco depois que nos conhecemos... -perdeu-se na lembrana de seu marido e logo fixou o olhar em Barbara-. Tinha razo.
         Outras coisas cruzam seu caminho, e cada momento, cada experincia,  diferente.
         Cada uma delas s se vive uma vez.
         E se deixar passar, a ocasio jamais volta a se apresentar.
         Ela quase tinha deixado que isto ocorresse com o John, e sempre deu graas ao cu por no hav-lo permitido.
         Fez um esforo para afastar a mente do passado e retornar ao presente.
         -Inclusive isto, Barb. Inclusive esta louca aventura que estamos vivendo.
         Nunca voltar a haver um primeiro filme para mim; nunca voltar a haver outra primeira vez na Califrnia para voc...
         Melhor ser que aproveitemos este instante, porque  tudo tremendamente maravilhoso.
         A gente nunca sabe com o que se encontrar ao dobrar uma esquina, ou com quem.
         E por alguma razo, olhou para Justin Wakefield ao diz-lo, e este se voltou como se houvesse sentido seu olhar pousado nele.
         Suspendeu o que estava fazendo e fixou seus olhos nela, e Daphne sentiu um arrepio que percorria sua espinha, e ficou presa do magnetismo de seu olhar.
         A rodagem do filme iniciou as nove e quinze, e ao meio dia a primeira cena tinha sido filmada duas vezes.
         Howard Stern tinha soltado rugidos para os atores e tinha gritado para Justin que ele era um asno; Maureen Adams se ps a chorar, dizendo que estava enjoada, 
e os diretores do estdio tinham desaparecido, enquanto Daphne e Barbara observavam a filmagem completamente fascinadas.
         A cabeleireira lhes assegurou que tudo aquilo era normal, e quando anunciaram que era a hora do almoo, todos pareciam tratar-se amigavelmente de novo.
         Howard Stern passou um brao pelos ombros de Justin, lhe dizendo que estava satisfeito, e deu um belisco no traseiro de Maureen Adams quando ela passou 
ao seu lado.
         A atriz enviou um beijo a Howard e deu um baseado firmemente enrrolado para Justin antes de retirar-se ao seu camarim para descansar.
         Ento, Daphne tinha ficado sozinha, pois Barbara tinha ido telefonar para Tom.
         -Bem, o que lhe pareceu a primeira manh de filmagem? Justin se plantou com toda sua altura diante de Daphne.
         As calas justas de camura ajudavam a realar sua incrvel atitude.
         Daphne procurou no deixar se arrastar pela atrao que sentia para ele.
         -Comeo a suspeitar seriamente que esto todos loucos - respondeu-lhe com um sorriso, tentando adotar um ar displicente, sem conseguir.
         Era um homem to extraordinariamente bonito! 
         -H um tempo atrs, teria dito o mesmo. Gostou da cena? 
         -Na primeira vez j me pareceu estupenda.
         Era sincera ao diz-o, pois realmente tinha gostado.
         -No foi. Howard tinha razo. Eu tinha que me enfurecer e no o fiz.
         Voltaremos a tentar no final do dia, e  tarde comearemos com a cena de Maureen em seu apartamento.
         Era uma cena em que ambos apareciam nus, e Daphne pareceu sobressaltar-se, apesar de ter sido ela quem a tinha escrito.
         Alm disto, aquela seqncia vinha muito mais adiante no filme, e lhe parecia que devia ser difcil interpretar justo depois da cena inicial, completamente 
fora de contexto.
         -No fique com esta cara, garota. Voc a escreveu.
         Justin parecia divertido.
         -Sei. Mas como pode ser feito fora de contexto?
         -Toda a filmagem  feita fora de contexto. Filma-se cena por cena, de acordo com um plano magistral e insano que Howard tem em sua cabea, e logo se corta 
todo o filme como se fosse espaguete e voltam a juntar os pedaos. Aparentemente, a coisa funciona. Esta  uma arte de loucos.
         Apesar isto, ele no parecia se preocupar muito.
         Parecia que estava mais interessado em Daphne que em seu trabalho.
         -Seu roteiro  uma obra de mestre, sabe, Daff? Seus olhos a acariciaram de novo.
         -Obrigado.
         -Posso lhe convidar para comer um pobre prato de almoo na cantina? Daphne se dispunha a lhe dizer que ia almoar com sua secretria, mas lhe ocorreu que 
provavelmente Brbara adoraria estar junto a Justin Wakefield durante todo o almoo.
         -Sim, se puder levar a minha secretria.
         -Claro que pode. Irei trocar de roupa. Voltarei em um minuto.
         Fechou-se em seu camarim, levando na mo o cigarro que Maureen lhe tinha dado, e Daphne se perguntou se o fumaria agora ou mais tarde.
         Naquele momento chegou Barbara, que voltava depois de telefonar para Tom.
         -Acabo de aceitar um convite para almoar - anunciou-lhe Daphne com cara de lhe ter preparado alguma travessura.
         -Com quem? 
         -Com o Justin. Est bem para voc? 
         Barbara prendeu o flego, e Daphne soltou uma gargalhada.
         -Est brincando? 
         -No.
         Naquele momento Justin saiu de seu camarim, vestido com os jeans azuis e sapatos esportes.
         Ainda estava com a maquiagem, e o cabelo penteado para trs.
         Desta vez Daphne o teria reconhecido, contrariamente ao que tinha acontecido ao v-lo na primeira vez pela manh; parecia tao  arrumado como com o suter 
branco e a cala de camura.
         -Prontas,senhoras? Daphne assentiu, enquanto Barbara simplesmente o olhava com os olhos muito abertos.
         Ambas o seguiram at o enorme edifcio da cantina, onde se encontraram em meio de um enxame de vaqueiros e ndios, duas beldades sulistas e todo um exrcito 
de soldados alemes, assim como dois anes e um bando de crianas.
         Barbara olhou em torno e ps-se a rir.
         -Sabem uma coisa? Isto parece um circo! Justin e Daphne fizeram coro s suas risadas.
         Comeram hambrgueres que tinham sabor de pedras, e ou molho de tomate picante parecia tinta vermelha; ento Justin  lhes  trouxe  pores de pastis de 
ma e caf. Quase sem dar-se conta j estavam de volta ao estdio, e Justin se fechou em seu camarim.
         Barbara colocou uma cadeira junto de Daphne e, enquanto aguardavam que comeasse de novo a filmagem, Barbara ficou pensando em Justin.
         Era fcil perceber que se sentia atrado por Daphne, mas apesar de ser to bem apessoado, Barbara no acreditava que ela gostasse dele.
         Era um pouco infantil e vaidoso, e ela tinha percebido que cada vez que via um espelho ou um vidro onde sua imagem se refletisse, Justin arrumava os cabelos 
ou se olhava de relance.
         Isto a incomodava, mas tambm tinha a inequvoca impresso de que Daphne gostava.
         Antes que pudesse dizer nada a Daphne, Justin saiu do camarim envolto em um roupo branco com capuz e calado com chinelos.
         O capuz lhe dava um ar misterioso e atraente, quase monacal; quando o tirou, sacudiu a loira cabeleira e sorriu.
         Instantes mais tarde, despiu o roupo e entrou no cenrio sem que nada cobrisse seu musculoso e belo corpo de compridos e bem proporcionados membros.
         Maureen Adams o seguiu ao final de um momento, deixando cair a bata de cetim rosada na borda do cenrio, segurando o roteiro em uma mo e passando a outra 
nos cabelos.
         Mas no era Maureen quem chamava a ateno, e sim Justin.
         Alm de sua evidente beleza fsica, emanava de sua figura um incrvel magnetismo, que tornava excitante contempl-lo.
         Daphne tratou de dissimular a impresso que lhe causava, mas fazia tanto tempo que no via um homem nu que se sentiu enfeitiada por sua extraordinria 
beleza e seus membros atlticos.
         -Detesto diz-lo - confessou Barbara por fim-, mas est fenomenal.
         Mas ao olhar para sua chefa, deu-se conta de que esta no a tinha ouvido.
         Contemplava Justin de uma maneira que fez Brbara se sentir nervosa.
         No obstante, quem podia censur-la por isto? Aquele homem era simplesmente o que era: Justin Wakefield, o rei da tela.
         Sua atuao era algo fascinante, e ao final de um instante, tanto Barbara como Daphne tinham esquecido de que estava nu.
         Daphne parecia cravada na cadeira enquanto via como dava vida  cena que ela tinha escrito.
         Justin a bordava como se fosse um precioso brocado, cobrindo sua nudez com seu gnio; vrias vezes conseguiu que aparecessem lgrimas nos olhos de Daphne.
         Com a cena tinha fascinado a todos os presentes.
         Aquele homem no s era belo, mas tambm era um ator consumado.
         Ento, com a mesma desenvoltura com que se despojou do roupo , recolheu-o do cho e o vestiu, cobrindo em seguida a cabea com o capuz e voltando-se para 
Daphne.
         Parecia mais alto que na hora do almoo, e estava cansado; seus grandes olhos verdes pousaram nela como se lhe importasse saber sua opinio mais que a de 
qualquer outra pessoa.
         -Fiquei encantada. Isto  exatamente o que desejava expressar quando a escrevi, se bem que se superou. Parece que sabia o que eu tinha em mente e que soubesse 
recriar com maior profundidade e emoo.
         Justin mostrou-se enormemente agradecido ao v-la to impressionada.
         -Isto  o que se supe que devo fazer, Daphne - respondeu com amabilidade e modstia, e Daphne gostou do que descobriu em seus olhos.  nisto que consiste 
a arte do ator.
         Ela concordou, ainda impressionada por sua atuao.
         Sem dvida, tinha dado vida a seu livro.
         -Obrigado. Ser um filme sensacional.
         Ela sentiu vibrar as fibras mais ntimas de seu ser pelo simples fato de t-lo visto atuar, tomada de emoo.
         Durante a semana seguinte, Daphne observou a Justin Wakefield completamente fascinada, enquanto ele a capturava entre os fios mgicos de sua teatrialidade 
como em uma teia de aranha.
         Ela e Barbara almoavam com ele todos os dias na cantina, e em algumas ocasies outros membros do elenco se uniam a eles, mas logo ficou evidente que Justin 
Wakefield desejava estabelecer uma relao ntima com Daphne.
         Conversavam a respeito de seus livros e dos filmes que ele tinha interpretado, das intenes de Daphne ao esboar algum de seus personagens, de suas idias 
filosficas ao desenvolver um tema.
         Conversaram longo tempo sobre Apache, e ele acreditava que o que lhe dizia contribua para melhorar sua atuao no estdio, que tudo isto devia a ela, pois 
conseguia fazer aflorar algo de seu interior cuja existncia at ento lhe era desconhecida.
         -Realmente a artfice  voc, Daff.
         Encontravam-se no estdio e compartilhavam uma lata de refresco de morango, uma beberagem infecta no dizer de ambos, mas a nica bebida que ainda podiam 
extrair da mquina vendedora; e ainda estavam agradecidos por isto, pois estavam mortos de sede.
         Era um dia muito quente e estavam l h longas horas no estdio.
         -No poderia faz-lo sem sua presena.  minha melhor atuao. Pergunte ao Howard, ele lhe dir isto.
         Nunca consegui atuar desta maneira, dia aps dia, durante tanto tempo.
         Olhava-a com seus enormes olhos verdes e penetrantes.
         -Falo a srio. Exerce uma influncia maravilhosa em mim, Daphne.
         Ela no sabia o que dizer.
         - voc quem faz maravilhas com meu roteiro.
         -S isso? Parecia desiludido, como se desejasse que ela dissesse algo mais.
         Mas ele no conhecia Daphne, como se mostrava cautelosa, os altos muros que havia levantado seu redor.
         Ento ele a surpreendeu ao lhe dizer: 
         -Conte-me algo a respeito de seu filho.
         Foi como se Justin pressentisse que ao lhe falar do menino, possivelmente ela baixaria ligeiramente a guarda.
         E no se equivocava.
         Daphne sorriu e pensou em Andrew, que estava to longe.
         - um menino maravilhoso, inteligente e muito especial.
          alto assim - adicionou, levantando a mo para indicar sua estatura.
         Justin sorriu.
         -H umas semanas atrs, quando esteve aqui, levei-o na Disneylandia.
         -Onde fica o resto do tempo? Com seu pai? Estrahava que uma mulher como Daphne tivesse renunciado  custdia de seu filho, e o tom de sua voz delatou sua 
surpresa.
         -No. Seu pai morreu antes que ele nascesse.
         Atualmente lhe parecia mais fcil falar disso.
         -Est em New Hampshire, em uma escola.
         Justin assentiu com a cabea, como se achasse razovel, e logo voltou a olh-a nos olhos.
         -Vivia sozinha quando ele nasceu? 
         -Sim.
         Sentiu que se formava um n na boca do estmago ao responder, pois fazia longo tempo que se libertou da lembrana de sua solido.
         -Deveu ser muito penoso para voc.
         -Foi, e...
         Na realidade, no queria lhe falar disto, de como tinha descoberto que Andrew era surdo, do quanto foram terriveis  aqueles anos de solido.
         -Foram dias muito duros.
         -J escrevia naquela poca? Era a primeira vez que Justin lhe fazia perguntas a respeito dela mesma.
         Tinham conversado sobre Apache e seus demais livros , assim como dos filmes que ele havia feito, ao longo de toda a semana.
         -No, no comecei a escrever at mais adiante. At que Andrew ingressou na escola.
         -Sim.
         Aposto que  difcil realizar um trabalho de criao tendo crianas ao redor. Fez bem em mand-lo para a escola.
         Ela sentiu como que se arrancassem suas vsceras ao lhe ouvir dizer isso.
         Ele no podia saber o que ela sentia por seu filho nem o que tinha experimentado ao ter que separar-se de Andrew.
         Alm disso, seu comentrio refletia um egosmo que a aborrecia.
         -Mandei-o para a escola porque no tive outro remdio.
         -Porque estava sozinha? 
         -Por outras razes.
         Algo lhe dizia que no devia lhe expor quais eram estas razes.
         Ainda sentia uma profunda necessidade de proteger Andrew.
         E teve o pressentimento de que Justin no compreenderia.
         Possivelmente nem sequer o tentaria, e ela no queria test-lo.
         -No tive outra opo.
         De repente se sentiu muito cansada e velha.
         O que sabia aquele homem de semelhantes pesar?
         -Voc no tem filhos, Justin? 
         -No. Nunca senti a necessidade de procurar este tipo de prolongao de mim mesmo. Penso que, para muita gente,  uma forma de dar satisfao a si mesmo.
         -Ter filhos? -exclamou ela com assombro.
         -Sim, no se assombre. Muitas pessoas desejam ver-se reproduzidas, e vem seus filhos como uma continuao de si mesma. Para isso, eu tenho meus filmes. 
No preciso fazer filhos.
         Era uma curiosa maneira de expor, pensou Daphne, mas possivelmente tinha sentido para ele.
         Tratou de compreender seu ponto de vista.
         Alm de tudo, no era um homem carente de sensibilidade.
         No podia ser a julgar pela maneira que tinha encarnado o personagem de Apache durante a semana.
         E se tinha opinies diferentes das suas, estava disposta a escut-las. Era o menos que podia fazer por ele.
         -Esteve casado alguma vez? Agora sentia curiosidade por saber mais coisas dele.
         Quem era? Que experincias o tinham levado a saber interpretar os sentimentos dos demais, como tinha demonstrado conhecer os dela atravs de seu livro? 
         -Ao menos, no legalmente -respondeu ele, meneando a cabea- vivi com duas mulheres.
         -Sete anos com uma e cinco com outra. De certo modo, no foi muito diferente de estar casado.
         A nica coisa que nos faltava era a certido.
         Em ltima instncia, no h muita diferena entre uma coisa e a outra.
         Com certido ou sem ela, quando um dos cnjuges deseja separar-se vai, e eu continuava mantendo-as depois de que se foram.
         Daphne assentiu com um gesto.
         Depois de tudo, esta tinha sido sua situao com John.
         Claro que ela supunha que, finalmente, teriam se casado.
         At teriam filhos, embora John tampouco sentisse grande necessidade de t-los. Ele s necessitava dela.
         E do Andrew,  bvio.
         -Vive com algum agora? Pareceu-lhe que era uma falta de delicadeza lhe fazer aquela pergunta, mas agora sabiam muitas coisas um do outro.
         Durante a ltima semana, tinham passado juntos quase quinze horas dirias.
         Comeavam a ter a sensao de encontrar-se em uma ilha deserta ou em um navio, condenados a viver em certa intimidade.
         De novo Justin negou com a cabea.
         -Faz algum tempo que vivo sozinho. Este ano estive envolvido com algum, mas por pouco tempo, pois ela no compreende as exigncias desta profisso, e Deus 
sabe que deveria conhecer.  atriz, mas  uma jovenzinha de vinte e dois anos de Ohio, e simplesmente no entende minha posio.
         -E qual  sua posio? Ou estou me metendo no que no  de minha conta? -perguntou Daphne prudentemente.
         Mas ele sorriu.
         No se incomodava com as perguntas, e at gostava delas.
         Adorava Daphne, e queria que soubesse como ele pensava.
         -Nada disso, Daff. Quando terminarmos o filme, todos ns conheceremos at nossos mais ntimos segredos.
         Vacilou um instante, analisando sua pergunta.
          -No sei como lhe explicar isto as simplesmente no quero  me envolver de novo com algum que no compreenda as exigncias desta profisso.  exaustivo 
ter que estar sempre na defensiva. Ela  tremendamente ciumenta, e eu no posso ter algum dependente de mim de dia e de noite. Preciso ter liberdade de movimentos. 
Preciso de tempo para meditar a respeito do que me proponho fazer, o que sou, o que penso e o que sinto. Estou melhor s que com algum que me impea de fazer todo 
isto. 
         No era difcil estar de acordo com o que Justin dizia, e Daphne assentiu com um gesto; ento ele ps-se a rir, balanando a cabea.
         -Grosseiramente traduzido, acredito que isto significa: "ela no me compreende". Conhece esta expresso? 
         -Posso dizer que sim.
         Daphne tomou um gole do refresco que estavam dividindo e riu.
         -Acredito que este pode ser o motivo pelo qual estou sozinha. Seria muito difcil explicar a algum por que trabalho dezoito horas por dia, para depois 
me arrastar at a cama s seis da manh, sentindo-me como se me tivessem dado uma surra. Isto me sustenta, mas duvido que outra pessoa pense o mesmo. E no me conviria 
viver de outra maneira. No entanto, nenhum homem aceitaria isto completamente.
         -Duvido que aceite.
         Justin sorriu, sentindo-se em certo modo irmanado com ela.
         -S se tratar-se de algum com os mesmos hbitos. s vezes passo toda a noite lendo, at o nascer do sol.  formidvel.
         -Sim, .
         Ela sorriu tambm.
         -Eu adoro isto. Sabe, talvez chegue um momento na vida em que  melhor estar sozinha. Eu antes no pensava assim, mas agora sim.
         Em todo caso, serve para mim.
         Deu-lhe o refresco, e Justin acabou com o contedo da lata e a deixou no cho.
         -Eu no compartilho com sua opinio. No quero ficar sozinho para sempre; mas tampouco quero conviver com uma pessoa que no seja adequada. Acredito que 
finalmente cheguei ao ponto em que prefiro viver sozinho que com uma mulher que no tenha nenhuma afinidade comigo.
         Entretanto, ainda acredito, devo acreditar, que h algum em alguma parte que se ajustaria a minhas necessidades e me faria feliz. S que ainda no encontrei 
esta pessoa.
         Daphne levantou a lata vazia.
         -Boa sorte.
         -Acredita que  impossvel encontr-la? -perguntou ele surpreso. -Seus livros, por certo, no sugerem que pensa assim. Do a impresso de acreditar no amor 
e nas unies felizes.
         No obstante, era evidente que possua um profundo conhecimento da infelicidade e perda.
         -No credito que seja impossvel, Justin. Eu a encontrei duas vezes.
         -E o que aconteceu? 
         -Ambos os morreram.
         -Que falta sorte! -exclamou ele, compassivo.
         -Eu que o diga. No acredito que isto acontea mais de duas vezes.
         -De modo que desistiu de procurar.
         Como tratavam de ser sinceros, Daphne falou.
         -Mais ou menos. Consegui tudo que desejava, e agora tenho meu trabalho e meu filho. Isto  suficiente.
         - realmente? 
         - para mim. Por agora. Foi durante muito tempo. E no tenho desejo algum de modificar essa situao.
         Isto no era totalmente verdade.
         Havia vezes em que desejava sentir-se abraada; mas temia com desespero sofrer outra perda.
         -No posso acreditar.
         Examinou seu rosto com o olhar, mas no conseguiu descobrir as respostas que procurava.
         -Em que  que no acredita?
         -Que seja feliz assim.
         -Mas sou. A maior parte do tempo. Ningum  feliz em todos os momentos, nem sequer estando loucamente apaixonado.
         -No pode ser feliz vivendo sozinha para sempre, Daff. No  saudvel. Perde-se o contato com a vida.
         - isto o que se desprende de meus livros? 
         -Encontrei muita dor nestes livros, muita tristeza, muita solido. Uma parte de seu ser est chorando.
         Daphne riu quietamente.
         -Fala exatamente como um homem, Justin, incapaz de acreditar que uma mulher possa sobreviver sozinha. Diz que  feliz em sua solido; por que eu tambm 
no posso ser?
         -Em meu caso,  temporrio - reepondeu ele com franqueza.
         -Em meu caso no.
         -Est louca.
         Justin achava seu raciocnio aborrecido.
         Daphne era uma mulher bonita, vibrante, inteligente. Como  podia pretender viver sozinha o resto de sua vida?.
         -Tudo o que diz  uma loucura.
         E era tambm um desafio.
         Revoltava-se ao pensar no que tinha feito de sua vida.
         -No se preocupe. Sou completamente feliz.
         -Revolta-me pensar que est desperdiando sua vida.  bonita, maldita seja, Daphne, e afetuosa e adorvel, e tem um grande talento. Por que quer se isolar 
do mundo? 
         -Lamento ter lhe dito isto.
         Mas no parecia particularmente contrariada, e no estava.
         Ela tinha aceitado a sorte que lhe havia tocado na vida.
         E era relativamente feliz.
         Nesse momento, Howard Stern chamou todos para outras seis horas de filmagem, e quando abandonaram o estdio neste dia, Justin tinha que encontrar-se com 
um amigo para tomar um drinque, de modo que Daphne partiu com Barbara sem o ver de novo.
         Ao chegar em casa, Daphne se trocou, e saiu para nadar na piscina aspirando o balsmico ar da noite.
         Barbara lhe disse que ia encontrar-se com Tom.
         -No sei se voltarei logo ou no.
         -Divirta-se. -Daphne lhe sorriu, boiando na gua. -Cumprimente Tom de minha parte.
         -Eu o farei. E no se esquea de jantar. Voc parece cansada.
         -E estou. Mas comerei algo antes de me deitar.
         Alm disso, queria telefonar a Matthew antes que ficasse muito tarde.
         Com o estranho horrio de filmagem e a diferena horria entre a Califrnia e New Hampshire, cada vez ficava mais difcil lhe telefonar.
         -Aproveite muito, Barb!
         -Obrigado, procurarei aproveitar! -respondeu Barbara por cima do ombro.
         Daphne ficou flutuando na piscina um bom tempo antes de envolver-se com uma toalha, para entrar na cozinha a fim de ver o que havia na geladeira antes de 
fazer o telefonema.
         Deixou a toalha sobre o aparador e ficou usando s seu minsculo biquni vermelho, que pingava gua no piso da cozinha.
         No exato momento em que ia pegar o telefone para ligar para Matthew ouviu a campainha, e se perguntou quem poderia ser.
         Sups que possivelmente Barbara voltara para procurar algo e se esqueceu da chave.
         Daphne se encaminhou ao vestbulo e espiou pela janela lateral para ver quem chamava.
         O visitante, porm, estava de costas e muito perto da porta para que pudesse v-lo.
         S avistava uma parte do ombro, por isto se aproximou da porta e perguntou quem era.
         -Sou eu, Justin. Posso entrar? 
         Ela abriu e ficou olhando-o sem poder disfarar sua surpresa.
         Justin usava jeans brancos, camisa branca e sandlias, e a acobreada cor bronzeada de sua pele parecia ainda mais escura  noite.
         -Ol, como me encontrou? 
         -Nos estdios me deram seu endereo.
         -O que aconteceu? 
         Como nunca se viam nem se falavam fora das horas de trabalho, estava mais surpresa.
         Alm disto, estava cansada, faminta e molhada, e aquelas eram suas horas de descanso, e sentia a necessidade de ter um pouco de intimidade.
         -Posso entrar?
         -Claro. Quer comer algo? Espere um momento, que vou me vestir.
         De repente se deu conta de que s usava o biquni vermelho, e sentia-se incomodada diante dele.
         -No  necessrio, sabe? Voc me viu com menos roupa ainda.
         Sorriu como um adolescente, e Daphne se ps a rir.
         -Era diferente. Foi por exigncia da profisso. Isto no.
         -Veja que profisso a nossa, em que tem que se despir para trabalhar! 
         -Faz-me pensar em outra profisso parecida.
         Justin gostava de seu senso de humor.
         -Est sugerindo que atuar se assemelha  prostituio? 
         -s vezes - respondeu ela por cima do ombro, enquanto entrava no quarto.
         Justin teve que conter o impulso de segui-la.
         -A verdade  que tem razo.
         Quando voltou, Daphne usava um caftn azul brilhante, da mesma cor que seus olhos, e tinha se penteado e posto umas sandlias.
         Ele a olhou e assentiu aprovadoramente com a cabea.
         -Est adorvel, Daff.
         -Obrigado. Agora me diga do que se trata. Estou acabada. Dispunha-me a comer algo antes de me deitar.
         -Imaginei isto, e me parece um absurdo. Estava indo para uma festa e me ocorreu que talvez voc gostasse de me acompanhar. Na casa de Tony Tree.
         Tony Tree tinha recebido cinco vezes o prmio Grammy em cinco anos, e era sem nenhuma dvida o cantor mais famoso do pas.
         Em outro momento teria sentido curiosidade em conhec-lo; mas esta noite no.
         -Pode ser divertido, mas sinceramente, no posso.
         -Por que no? 
         -Porque estou exausta. Diabos,esteve trabalhando como um escravo todo o dia.No est cansado? 
         -No. Como eu gosto de meu trabalho, no me canso.
         -Eu tambm gosto do meu, mas apesar de tudo me derruba. -Sorriu-lhe, pois no queria parecer antiptica. -Acabaria dormindo p.
         -No importa. Pensaro que est drogada. Assim no destoar.
         Daphne riu de sua rpida resposta e teve que conter o impulso de desmanchar seus cabelos loiros bem penteados.
         -No seja teimoso. Estou morta de cansao. Quer comer um sanduche antes de ir? Eu vou preparar um para mim. No tenho nenhum refresco de morango, mas possivelmente 
possa oferecer-lhe uma cerveja.
         -Seria encantador. Onde est Barbara? 
         -Saiu com uns amigos.
         Deu-lhe a cerveja, que tirou da geladeira, e comeou a preparar o sanduche.
         Justin se sentou em um tamborete da cozinha e ficou contemplando-a.
         Percebia sua silhueta nua atravs do caftn e agradou-lhe o que via.
         Teria gostado mais de v-la de biquni, mas teria que conformar-se com o que lhe oferecia.
         -Quer dizer que ela gosta de sair? 
         -Sim. Embora lhe custe acreditar, tambm  um ser humano.
         Ambos tinham chegado  concluso, uns dias antes, que no simpatizavam.
         Barbara pensava que sob seu notvel encanto se escondia um canalha sem corao, e Justin, por sua parte, estava convencido de que ela era uma amargurada 
que ainda se conservava virgem.
         " como uma velha diretora de escola"; havia-lhe dito ele finalmente, cansado dela intrometer-se sempre entre ele e Daphne.
         Barbara tinha percebia como Daphne era vulneravel a seus encantos, embora ela negasse.
         A secretria percebia algo perverso nele, que para Daphne passava despercebido.
         -Acaso tem um amiguinho? -perguntou Justin, simulando surpresa e adotando o mesmo tom depreciativo que ultimamente utilizava quando falava dela.
         -Sim, e  uma pessoa muito agradvel com certeza.
         Daphne se sentou em um tamborete no outro lado do balco, de frente para Justin.
         Apesar de tudo, era prazeiroso ter companhia enquanto comia seu sanduche, apesar de que quando ele partisse seria muito tarde para telefonar para Matthew.
         -Seu amigo  advogado.
         -Deus os cria e eles se juntam. Certamente deve ser especialista em casos de defraudao ao fisco.
         -Est ligado a indstria cinematogrfica, conforme acredito.
         -Oh, cus! Aposto que usa terno preto e correntes de ouro.
         -Vamos, Justin, no seja mau.
         -Por qu? Penso que  uma matrona estirada e antiptica. Detesto-a.
         - uma mulher maravilhosa, e voc no a conhece.
         -Nem tenho vontade.
         -A antipatia  mtua, o que no  nenhum segredo. E penso que esto se comportando como duas crianas.
         -Ela me odeia - replicou Justin com tom de queixa.
         Daphne sorriu.
         -Barbara no o odeia. No o v com bons olhos, e na realidade tampouco o conhece. Faz muito tempo algum a machucou severamente e por isto desconfia dos 
homens.
         -Bem que podia me dizer. -deu-se conta quu suspeitava dele, e isso o irritava. -No posso lhe oferecer uma xcara de caf sem que me d um fora.
         Daphne estava ciente de tudo, e j tinha pedido a Barbara que medisse suas palavras.
         As inimizades sobravam no estdio.
         -De todos os modos, me alegro de que esteja sozinha. Quando eu apareo, esta bruxa te protege como a Guarda do Vaticano.
         - muito possessiva, isto  tudo. Faz muito tempo que estamos juntas.
         -Comporta-se como se fosse sua me.
         Daphne sorriu.
         -s vezes me conviria ter uma me.
         Era muito pesada a carga que suportava sobre suas costas, sozinha, e desde muito tempo, e Barbara era a nica pessoa em anos que, pelo menos, tinha sabido 
aliviar alguns destes pesos.
         Enquanto ela falava, Justin desceu do tamborete e contornou o balco.
         Deteve-se diante de Daphne e tomou seu rosto entre as mos.
         -Daphne,  uma mulher bela e desejvel, e eu a desejo.
         Ela sentiu que a invadia uma onda de temor e, ao mesmo tempo, que entre suas pernas despertava um desejo longamente esquecido.
         -Justin, no diga tolices - disse-lhe com voz doce, que demonstrava o medo que a invadia.
         -No so tolices - respondeu ele ofendido. -Apaixonei-me perdidamente, e voc pratica este jogo estpido, ocultando-se atrs de seus muros.
         -Por qu? Por que no deixa que te ame, Daff? 
         Daphne tinha os olhos midos e arregalados.
         -Justin, peo-lhe... Temos que trabalhar juntos..., seria um engano terrvel...
         -O que? Voc se apaixonar?  isto o que teme? Por qu? Somos duas pessoas fortes, inteligentes, com talento. No acredito que possa haver melhor combinao. 
Nunca conheci algum como voc, e provavelmente voc tampouco conheceu algum como eu. Por que teria que deixar passar esta oportunidade? Quem sair ganhando com 
o fato de que voc seja to rgida consigo mesma? Ao fim, um dia despertar e ser uma mulher velha, e tudo ter terminado. A nica coisa poder dizer  que foi 
fiel  memria de dois mortos. Por que, Daphne..., por qu? 
         Ento, Justin se inclinou para ela e a beijou, cobrindo a boca com a sua e obrigando-a a abrir os lbios com seu lngua, at que conseguiu introduz-la 
e ela sentiu seu agitado flego enquanto ele a rodeava com seus braos.
         Sem respirao, Daphne se separou dele e ficou de p.
         De sua baixa estatura, olhou-o com olhos suplicantes.
         -Justin, por favor..., no...
         -Eu te quero, Daff. E no vou permitir que fuja disto. No posso acreditar que no sinta nada por mim. Compreendemo-nos perfeitamente. Eu compreendo cada 
uma das palavras que escreveu, e por sua maneira de me observar quando atuo, dou-me conta de que se comovem todas as fibras de seu ser.
         -Que importncia tem isso?  
         Daphne estava ainda meio zangada e meio assustada.
         Justin tinha aparecido em sua casa, tinha-a beijado e agora se propunha a dar uma reviravolta em sua vida como se fosse uma meia.
         Ela no consentiria.
         Era perigoso.
         Estavam fazendo um filme juntos, isto era tudo.
         No queria baixara guarda.
         -O que  que pretende de mim, por todos os diabos? Uns amassos rpidos na cama? Um namorico por seis meses? H dez milhes de estrelinhas jovens nesta cidade, 
Justin. V e se deite com uma.
         Seus olhos se encheram de lgrimas e virou-se de costas para ele.
         -E me deixe em paz de uma vez.
         - isto o que quer? Ela assentiu com a cabea, sem voltar-se.
         -Bem. Mas pense no que eu disse, Daff. Eu no quero dar uns amassos com uma jovenzinha. Isto eu posso fazer quando quiser e com quem eu quiser. Mas no 
posso ter outra mulher como voc. No h nenhuma outra como voc. Eu sei, porque j procurei.
         Daphne ento se voltou para ele.
         -Pois continue procurando. Logo a encontrar.
         -No, no a encontrarei.
         A tristeza escurecia os olhos de Justin.
         Por fim tinha encontrado o que queria, mas o rechaava.
         No era justo.
         Deveria t-la possudo ali mesmo, na cozinha, mas no queria for-la, pois sabia que desta maneira a perderia para sempre.
         Possivelmente se soubesse esperar, teria uma oportunidade...
         -Quero que pense no que disse esta noite, Daphne. Voltaremos a falar em outro momento.
         -No, no falaremos mais.
         Dirigiu-se para a porta de entrada e a abriu para que ele sasse.
         -Boa noite, Justin. Eu o verei amanh no estdio, e no quero voltar a falar disto. Nunca mais. Est claro? 
         -Voc no estabelece todas as regras, Daphne, no comigo.
         Olhou-a com olhos brilhantes uns instantes e logo apareceu de novo neles o brilho juvenil que escondeu sua ira.
         Mas Daphne no estava disposta a deixar-se abrandar.
         -Eu fao minhas prprias regras. E voc pode optar por respeit-las ou se manter afastado de mim. Porque no quero me desentender com voc se no respeitar 
meus sentimentos.
         -Seus sentimentos esto mal encaminhados.
         -No  voc quem pode me dizer isto. Estabeleci minha norma de conduta na vida e me guio por ela. Tomei esta deciso faz muito tempo.
         -E se equivocou.
         Roou-lhe os lbios com os seus de novo e se foi, e quando Daphne fechou a porta atrs dele, apoiou-se nela, tremendo dos ps a cabea.
         O mais terrvel de tudo era que acreditava no que havia dito, fazia muitos anos, e enquanto isto seu corpo estremecia de desejo cada vez que ele a beijara.
         Mas ela no queria voltar a sofrer, no queria amar de novo e perder outra vez.
         No se deixaria convencer, por mais que ele falasse.
         No obstante, quando voltou para a cozinha, seu olhar posou no lugar onde tinham sentado, e sentiu que todo seu corpo comeava a tremer de novo ao recordar 
seus beijos;
         Soltando um gemido de angstia, agarrou a garrafa de cerveja vazia e a jogou contra a parede.
         -Como estava a festa ontem  noite? Daphne tratava de adotar uma atitude despreocupada enquanto se sentava em uma mesa desocupada da cantina.
         Todos tinham terminado de comer e retornaram ao estdio, por isto, de repente, ficaram completamente sozinhos.
         Nos olhos de Justin, ao contrrio, havia uma expresso sombria quando se encontraram com os dela.
         -No fui.
         -Oh! Que pena.
         Daphne procurou mudar de assunto.
         -Parece-me que a cena saiu muito boa hoje.
         -Para mim no.
         Afastou o prato e a olhou de cima em baixo.
         -No podia coordenar meus pensamentos. Fez-me voltar louco ontem  noite.
         No lhe disse que tambm tinha estado acordada quase toda a noite, debatendo-se contra seus sentimentos e perguntando-se se ele telefonaria.
         As emoes que Justin despertava nela eram contraditrias, e era sua intensidade o que mais a transtornava.
         Ela no queria sentir nada do que sentia.
         Era algo que tinha desejado no voltar a sentir nunca mais.
         -Como pode nos fazer isto, a voc e a mim? 
         Justin parecia um menino a quem tivessem tirado os brinquedos de Natal, mas ela deixou o sanduche no prato e o fulminou com o olhar.
         -Eu no estou fazendo nada, nem a voc nem a mim. Voc e eu no somos um casal, por todos os diabos.
         No acredite em algo que, em ltima instncia, s nos complicar mais a vida.
         -De que, demnios, est falando? O que lhe parece to complicado?  uma mulher sem compromissos, e eu estou procurando amor.  Ento, qual  seu problema, 
senhora? Eu lhe direi.-Falava-lhe em um rouco murmrio, e ela esperava que ningum lhe ouvisse; de fato, havia muita atividade a  seu redor e no parecia que lhes 
prestassem ateno, para alvio de Daphne.
         -Seu problema reside no fato de que est demasiado assustada para dar rdea solta a seus sentimentos de novo. No d valor para isto. Certamente o teve, 
porque se reflete em seus livros, mas de repente no se atreve a sair de trs de suas defesas para voltar a ser uma mulher. E sabe de uma coisa? Mais tarde ou mais 
cedo, isto se notar em sua obra se no tomar cuidado.
         No pode levar a vida que levar e esperar continuar sendo um ser humano. Deixar de s-lo. Talvez j no o seja. Possivelmente s estou apaixonado por uma 
iluso..., um ser imaginrio... , um sonho...
         -Se nem sequer me conhece, como pode estar apaixonado por mim?       
         -Acredita que no a observo? Acredita que no a percebo em seus livros? Acredita que no compreendo Apache? O que pensa que estou fazendo na filmagem todos 
os dias? Estou dando vida aos ecos de sua alma. Conheo-a, menina! Oh, sim,  claro que a conheo!  voc quem no conhece a voc mesma. No quer se conhecer. No 
quer recordar quem , ou o que : uma mulher, uma formidvel mulher, com necessidades autnticas, com corao e alma, e at com um corpo, que deseja ao meu tanto 
como o meu deseja o seu. Mas pelo menos eu sou honesto. Eu sei o que quero e sei quem sou, e no tenho medo de reconhecer. E dou graas a Deus por isto.
         Dito isto, ficou de p e se afastou da mesa, saiu da cantina batendo a porta e retornou ao estdio.
         Quando Daphne seguiu-o ao final de poucos minutos, no pde deixar de sorrir.
         Nenhuma mulher do pas teria a coragem de resistir a Justin Wakefield, o que, pensava para si, terminava sendo divertido e triste ao mesmo tempo.
         Toda a tarde e at bem tarde a noite, Daphne o viu repetir a mesma cena uma vez aps a outra.
         Howard Stern gritava para todo mundo; at pediu para Daphne que fizesse algumas mudanas na cena para ver se obtinha algum resultado positivo.
         Entretanto, o problema no estava no texto, e sim no humor de Justin.
         Ela se dava conta de que se sentia desesperadamente desgraado, e parecia querer que o mundo inteiro soubesse.
         Por fim, s dez da noite, dezessete horas depois de ter todos reunidos para comear a rodar pela manh, Howard Stern se deu por vencido, no sem deixar 
de manifestar seu desgosto.
         -No sei o que lhes aconteceu hoje, mas este foi um dia perdido. Wakefield, pode levar a msica e esta cara fechada para outro lugar. Amanh quero todos 
aqui as cinco d madrugada, e seja qual for o problema, ser melhor que o metam no c....
         Estas foram as ltimas palavras que o ouviram dizer antes que partisse, e Justin se fechou em seu camarimbtendo a porta, sem dirigir a Daphne um nico  
olhar.
         Mas teve o supremo cuidado em passar diante dela, a fim de que pudesse dar-se conta de como estava infeliz.
         Daphne se encaminhou em silencio para a limusine em companhia de Barbara e se deixou cair no assento com um suspiro fatigado.
         -Magnfico dia, no ? -comentou Barbara com um sorriso, enquanto se dirigiam para casa.
         Mas Daphne no estava com humor para conversar.
         Estava pensando em Justin, e se perguntava se no estaria equivocada em sua atitude.
         O dia seguinte at foi melhor, s que desta vez ela e Justin no se dirigiram nem uma palavra.
         Howard suspendeu a filmagem s sete e meia da noite.
         Disse que estava farto de todos eles e que no queria voltar a v-los dentro de um ano.
         Entretanto, no dia seguinte tudo pareceu resolvido como por magia.
         Quando Justin chegou ao estdio, um fogo raivoso, ansioso e comovedor parecia arder em seus olhos, e conseguiu fazer vibrar as fibras mais ntimas de todos 
os presentes com sua atuao.
         Ao final de quatro horas de filmagem sem repetir nenhuma cena, Howard se precipitou para ele e lhe deu um beijo em ambas as faces, enquanto era saudado 
com gritos de jbilo de todos os membros da equipe.
         Por alguma razo, Justin tinha renascido de suas cinzas, e Daphne se sentiu menos culpada quando se dirigiu  cantina para almoar.
         Ficou surpresa ao ver que Justin se sentava em sua mesa.
         Ela o olhou com um tmido sorriso.
         -Hoje fez um extraordinrio trabalho, Justin.
         No perguntou a que se devia a mudana de humor, mas fosse qual fosse, ela se alegrava de que  tivesse acontecido.
         -Tinha que faz-lo. Pelo Howard. Por minha culpa, todos sofriam.
         Daphne assentiu, fixando a vista no prato e logo levantando os olhos para ele.
         -Lamento t-lo contrariado.
         -Eu tambm. Mas o caso  que acho que vale a pena.
         Daphne sentiu desejos de chorar ao ouvi-lo dizer isto, pois tinha a esperana de que houvesse resolvido deix-la em paz.
         -De todo modo, se for assim que voc quer, Daff, penso que no tenho mais remdio que aceitar. Posso ser seu amigo? -perguntou-lhe com tanta humildade e 
ternura que os olhos de Daphne se encheram de lgrimas.
         Ela segurou a mo e a reteve entre as suas.
         -J  meu amigo, Justin. Sei que no sou uma pessoa fcil de entender, mas me ocorreram tantas coisas dolorosas na vida... No posso evitar. Tem que me 
aceitar como sou. Assim ser mais fcil para ambos.
         -Isto  muito difcil para mim, mas eu tentarei.
         -Obrigado.
         -No entanto, no posso evitar sentir o que sinto por voc.
         Daphne ainda pressentia que no a conhecia, e se sentia infeliz ao ver que era to teimoso, mas possivelmente no pudesse evitar; e se verdadeiramente fossem 
ser amigos, no teria mais remdio do que o aceitar como era.
         -Procurarei respeitar seus sentimentos.
         -E eu respeitarei voc.- Ento soltou uma risadinha e murmurou:  -Mas continuo acreditando que est louca.
         Daphne se ps a rir francamente, e no pde deixar de lhe dizer o que tinha pensado no outro dia.
         -D-se conta de que sou provavelmente a nica mulher deste pas capaz de manter voc longe de sua cama? 
         -Acaso quer que lhe dem uma condecorao presidencial por isto? -exclamou ele com tom brincalho, e ela ps-se a rir.
         -Vo me conceder uma? 
         -Diabos, por que no, se isto a fizer feliz! 
         Em seguida voltaram a conversar sobre a filmagem.
         Mas nesta noite Justin apareceu em sua casa com uma placa que tinha pedido que os rapazes do departamento de publicidade fizessem.
         Era uma placa de bronze, bem feita e gravada com muita delicadeza.
         Era uma condecorao ao valor demonstrado no cumprimento de seu dever, ao manter Justin Wakefield no limite e longe de sua cama.
         Daphne soltou uma sonora gargalhada ao v-la, beijou-o na face e o convidou para tomar uma cerveja.
         -Queria uma placa, pois eu a providenciei.
         Daphne a colocou sobre o aparador da cozinha e deu para Justin um copo e uma cerveja.
         -Voc jantou? 
         -Um hambrguer depois das gravaes. Que tal um mergulho de cabea em sua piscina?
         J eram quase oito horas, mas fazia uma noite esplndida, e Daphne se sentiu tentada.
         -Posso confiar em voc? 
         -De que no farei xixi dentro? 
         Para sua idade, se comportava mais como um adolescente que como um adulto, mas ao Daphne gostava deste aspecto de seu carter.
         s vezes era estimulante; enquanto em outros momentos lhe dava nos nervos.
         -J sabe a que me refiro, Wakefield - replicou ela com olhar duro.
         -Sim, eu sei, Fields.
         Devolveu-lhe o olhar com expresso de simulada severidade e logo comeou a rir.
         -Sim, pode confiar em mim. Demnios, como voc  desconfiada, Daff!  incrvel seu empenho em reprimir seus sentimentos. Vale a pena ter tanto trabalho? 
         -Sim -respondeu ela sorrindo - Acredito que sim.
         -Bem, ningum poder dizer que  uma mulher fcil. Pelo menos eu no posso dizer.
         E com uma triste e desconsolada expresso acrescentou:
         -Ou s  para mim? 
         -Oh, Justin, claro que no, bobo! S que vivi desta maneira durante muito tempo e sou feliz assim. No desejo mudar minha vida.
         -Recebi a mensagem.
         -E eu recebi a placa.
         Daphne sorriu com amabilidade e apontou para o quarto.
         -Vou me trocar.
         Voltou usando um biquni simples, azul marinho, e, quando saiu, Justin j estava na piscina.
         -A gua est fabulosa.
         Mergulhou para o fundo, e Daphne pde perceber vagamente que vestia um traje de banho branco.
         Mergulhou e foi a seu encontro sob a gua.
         Ento se deu conta de que o traje de banho branco no era seno a parte de suas ndegas que no estava bronzeada; quando subiram  superfcie, olhou-o com 
recriminao.
         -Justin, em relao a seu traje de banho...
         -Eu no gosto de usar. Importa-se? 
         -Acaso tenho alternativa? 
         -No.
         Justin esboou um amplo sorriso e mergulhou de novo, fazendo ccegas nos seus ps ao passar, e em seguida surgiu como um golfinho, agarrou Daphne e voltou 
a mergulhar arrastando-a com ele.
         Ela resistiu, tentando se soltar.
         Justin a atraiu de novo alegremente.
         Durante dez minutos o jogo continuou, at que finalmente Justin parou.
         -Sempre conserva tanta energia depois de trabalhar? 
         -S quando estou feliz.
         -Sabe que por ser um homem amadurecido se comporta como um menino? 
         -Obrigado.
         Ningum teria adivinhado que tinha mais de quarenta anos, mas Daphne teve que reconhecer que, estando em sua companhia, ela tambm se sentia mais jovem.
         -Sabe de uma coisa? Est formidvel com este biquni, Daff, mas ficaria melhor sem ele.
         -No pegue pesado.
         Daphne deu umas braadas, subiu lentamente pela escadinha e saiu da piscina.
         Enquanto se envolvia com uma toalha, voltou-se de costas para ele, pois tinha percebido que tambm saa da piscina.
         -Tem uma toalha sobre a cadeira.
         -Obrigado.
         Mas quando ela se voltou, Justin no a tinha usado.
         Ao contrrio, erguia-se diante dela com toda sua beleza nua, banhado pela luz da lua, que parecia os contemplar do cu estrelado.
         Nada se disseram durante um interminvel momento, at que Justin avanou um passo para ela e a tomou em seus braos.
         Beijou-a com toda a ternura de que sua alma infantil era capaz, enquanto a estreitava com fora, e Daphne notou que tremia ao abra-lo, sem estar muito 
segura se o fazia impulsionada pelo desejo ou porque sentia frio.
         Por alguma razo, que naqueles momentos no podia explicar-se, deixou-se abraar, e sentiu que sua boca respondia aos beijos de Justin.
         Pareceu que tinha passado uma eternidade quando ele se separou dela e se enrolou na toalha que ela tinha indicado, com a esperana de sufocar o ardor que 
se apropriou dele.
         -Sinto muito, Daff - disse com a voz de um menino, enquanto permanecia de costas para ela, que ficou desconcertada e sem saber o que dizer.
         Por um instante, tinha desejado-o com toda sua alma.
         Acariciou suavemente suas costas com a mo.
         -Justin..., no se preocupe... Eu...
         Ele se voltou para ela e seus olhares se encontraram.
         -Eu te quero, Daphne. Sei que no quer me ouvir dizer isto. Mas te amo.
         -Est louco.  um rapaz louco e selvagem com um corpo de homem.
         De novo Daphne recordou a advertncia de Howard: "Lembre-se que os atores so todos umas crianas".
         Justin era. Ou no? Agora, quando se aproximou e tomou seu rosto entre as mos, no parecia.
         -Eu te amo. Seriamente, no pode me acreditar? 
         -No quero acreditar.
         -Por que no? 
         -Porque se acreditar... -disse vacilando, e com o corpo tremendo apesar do ar quente da noite-, e ceder ao desejo de te amar..., um dia ambos sairamos 
machucados, e eu no quero que isto acontea.
         -No a machucarei. Jamais. Juro-lhe isto.
         Daphne soltou um suspiro e apoiou a cabea em seu peito nu, enquanto ele a rodeava com seus braos.
         -Isto  algo que ningum pode prometer.
         -No vou morrer como os outros, Daff. No pode se deixar dominar por este temor eternamente.
         -No  isso. Meu nico temor  perder quem amo... ou magoar algum e que me magoem...
         Justin a separou de seu corpo e a olhou nos olhos, para que ela pudesse ver os seus, como Daphne fazia com Andrew quando desejava que ele lesse seus lbios.
         -No ser machucada, Daff. Confia em mim.
         Ela no quis lhe perguntar por que, mas no tinha foras para continuar resistindo, e as palavras pareciam no ter j sentido algum, nem sequer para ela.
         Deixou que a beijasse e a estreitasse entre seus braos, e momentos depois Justin a levou para o quarto.
         Estenderam-se na cama e fizeram amor at o amanhecer.
         Na manh seguinte, levantaram-se juntos; Justin preparou o caf e as torradas, e permaneceram sob o chuveiro, beijando-se e rindo, at que Daphne j no 
pde recordar por que tinha resistido tanto e durante to longo tempo s para estar sozinha.
         Quando Barbara retornou da casa de Tom s cinco da madrugada para ir ao estdio com Daphne, seus olhos se abriram assombrados ao encontrar Justin na cozinha, 
descalo e vestindo s jeans brancos.
         -Divertiu-se esta noite, Barb? -perguntou-lhe, olhando-a fixamente.
         Barbara sentiu o desejo instintivo de proteger Daphne daquele homem, mas compreendeu que j era muito tarde.
         -Sim, muito, obrigado - respondeu, mas seus olhos diziam s claras tudo o que pensava e Justin entendeu.
         As cinco e quinze, todos entraram na limusine de Daphne e se dirigiram ao estdio.
         Justin esteve brilhante em sua atuao, e quando os outros foram almoar, eles entraram furtivamente no camarim de Justin e fizeram amor at as duas da 
tarde, no momento em que todos voltaram para continuar a filmagem.
         Trabalhar em um estdio cinematogrfico  como estar fechado em um elevador durante todo o vero; no h forma alguma de manter um segredo.
         Ao final uma semana, todo mundo sabia que Daphne e Justin eram amantes, e s Howard atreveu-se a fazer um comentrio, enquanto tomavam caf com rosquinhas 
pela manh.
         -No diga que no lhe avisei. So todos umas crianas. Crianas malcriadas.
         Entretanto, Daphne se encontrava presa do feitio de Justin.
         Enviava-lhe flores no estdio, assava biscoitos para ela  meia-noite na cozinha de Daphne, ou trazia incontveis e delicados presentes, e faziam amor em 
todo momento e lugar que podiam.
         De noite, estiravam-se junto  piscina, e ele recitava poemas de amor que havia aprendido quando era menino, ou lhe contava divertidas historias ocorridas 
durante outras filmagens, incidentes e lances que a faziam rir at as lgrimas.
         O filme em si andava s mil maravilhas, bastante mais adiantado do previsto, para satisfao de Howard, e surgiam poucos problemas no estdio.
         Daphne tinha aprendido mais a respeito da realizao de um filme nas trs ltimas semanas do que esperava aprender em todo o ano.
         -E quando terminarmos este, meu amor, faremos outro..., e outro... Formamos uma equipe imbatvel, boneca.
         Daphne estava disposta em concordar.
         O nico inconveniente em sua relao era o fato que a Barbara no simpatizava com Justin, o que provocava uma tenso constante entre eles.
         Barbara tratava de no dizer nada a respeito, mas seu desagrado se manifestava mesmo calando-se.
         De noite, no apartamento de Tom, mencionava o assunto, e ele procurava acalm-la, mas seus esforos eram inteis.
         -Daphne  uma mulher adulta, Barb. E possui um bom critrio. Voc mesma o declarou. Por que no fica  margem? Ns fazemos nossa vida, deixa que ela faa 
a sua.
         -Nesta ocasio, seu critrio falha. Este tipo est disposto a us-la, Tom, eu sei.
         -No, no sabe; voc suspeita. No tem nenhuma prova disso.
         -Pare de falar como um advogado.
         -Ento pare de se comportar como se fosse sua me.
         Tom tratou de acalm-la com um beijo, mas no pde afastar seus temores.
         Estava terrivelmente convencida de que Justin estava usando Daphne.
         Havia algo nele que lhe inspirava desconfiana, embora no soubesse o que era.
         Ele no se afastava um momento de seu lado, no estdio, em casa, e levava-a para jantar e acompanhava-a a festas e recepes.
         Para Daphne, isto representava uma nova vida, e ela parecia desfrut-la, embora ainda flutuasse uma sombra em seus olhos.
         Os dois anos passados tinham deixado profundos rastros em sua alma.
         E sentia-se infeliz por no estar mais em contato com Andrew.
         Ainda lhe escrevia todos os dias, mas parecia que no tinham programado nenhum descanso nas filmagens, que ela teria aproveitado para ir v-lo ou para que 
o menino voltasse a visit-la.
         E cada vez mais foram se espaando as ligaes para Matthew.
         Agora nunca parecia ter tempo para lhe telefonar.
         Cada vez que dizia a Justin que ia ligar, ela a distraa com um beijo, uma carcia ou um problema.
         Finalmente, uma noite Matthew encontrou-a em casa.
         -Acaso Hollywood roubou-lhe o corao, senhorita Fields, ou  s que est muito ocupada para ligar? Daphne sentiu-se presa de um sentimento de culpa quando 
Matthew telefonou, e por um instante temeu que tivesse ocorrido algo a seu filho.
         -Como est Andrew? 
         O corao pulsava com fora, mas ele se apressou a tranqiliz-la.
         -Est muito bem. Mas devo admitir que eu me sinto muito sozinho. Como anda o filme? 
         -Bem. Estupendo, na realidade.
         Mas Matthew percebeu algo estranho em sua voz, e no pde adivinhar do que se tratava.
         Pareciam estar mais distanciados que antes, e ele se sentiu ansioso em saber a causa.
         Possivelmente s se tratava do filme, mas na realidade no acreditava.
         A segunda vez que telefonou, foi Justin quem atendeu.
         -Que escola? -perguntou Justin distraidamente.
         Estava repassando o dilogo da cena que rodaria no dia seguinte, e Daphne se encontrava na banheira.
         -Ho... o que? 
         -Howarth. Ela j sabe.
         Lamentava na alma ter lhe telefonado.
         - Oh! -exclamou Justin, lembrando de repente. - Seu filho. Bem, agora no pode falar no telefone. Est tomando banho.
         Matthew se sentiu terrivelmente irritado. Ento esta era a causa de seu distanciamento e de seu silncio. Havia um homem em sua vida.
         Ficou pesaroso, mas confiava que pelo menos fosse uma boa pessoa.
         Daphne merecia um homem maravilhoso, porque ela era maravilhosa.
         -Quer que lhe d algum recado? 
         -Faa o favor de lhe dizer que seu filho est bem.
         -Eu lhe direi.
         Justin desligou e consultou seu relgio.
         Eram onze e meia da noite em New Hampshire, uma hora bem inoportuna para ligar.
         Entrou no banheiro e disse a Daphne que algum tinha telefonado da escola de seu filho.
         -Pediu-me que lhe dissesse que seu filho est bem. - ento a olhou com estranheza. - muito tarde para andar telefonando para dizer isto.Quem  a pessoa 
que ligou? 
         -Matthew Dane. O diretor.
         Mas havia uma expresso de remorso em seus olhos, como se lamentasse que Justin tivesse atendido ao telefone.
         De repente, ele se ps a rir e se sentou na beirada da banheira.
         -No me diga que minha pequena vestal teve um namorico com o diretor da escola de seu filho.
         A idia parecia divert-lo, e Daphne se mostrou irritada.
         -No, no lhe direi isto, porque no  verdade, Justin. Acontece que somos amigos.
         -Que espcie de amigos? 
         -S amigos. Como teramos sido voc e eu, se tivesse tido um pouco de sensatez.
         O tom de sua voz se suavizou.
         - uma excelente pessoa, e foi uma grande ajuda para Andrew.
         -Oh, diabos, todos esses tipos dos pensionatos so maricas, Daff. No sabia? Provavelmente est cuidando do traseiro de seu filho.
         Daphne olhou-o com olhos que lanavam luzes de fria.
         - muito desagradvel que diga isto, pois no sabe do que se trata. Esta  uma escola especial, e o pessoal se porta maravilhosamente com estes meninos.
         -Aposto que sim.
         Justin no parecia convencido, mas de repente a olhou com uma interrogao em seus olhos.
         -O que quer dizer com uma escola "especial"? Acaso seu filho tem algum problema?
         De repente, recordou que Daphne lhe havia dito que tivera que deixar Andrew naquela escola, que no teve outro remdio que faz-lo.
         Uma onda de horror o invadiu enquanto se perguntava se o menino seria atrasado mentalmente.
         Daphne observava a expresso de seus olhos, como ponderando at que ponto podia confiar nele.
         Depois de uma longa pausa, ela assentiu com a cabea.
         -Sim. Andrew nasceu surdo. Est internado em uma escola para surdos de New Hampshire.
         -Santo Deus! Nunca me disse isto.
         -No estou acostumado a falar disto - respondeu com tristeza.
         -Por que no, Daff?
         -Porque  coisa minha e de ningum mais.
         Sua atitude parecia desafiante.
         -Deve ser terrvel ter um filho surdo.
         -No  - replicou ela, e enquanto lhe examinava os olhos, entendeu que Justin no compreendia, mas tambm se dizia que a amava, deveria aprender a compreender.
         - um menino extraordinrio, e est aprendendo tudo o que precisa saber para mover-se no mundo das pessoas normais.
         -Isto  magnfico.
         No entanto, no parecia ter interesse algum em saber algo mais a respeito.
         Inclinou-se para beij-la e logo voltou para o quarto para continuar repassando o roteiro.
         Daphne saiu da banheira e se dirigiu ao estdio para ligar para Matthew.
         Quando ele atendeu, pediu-lhe muitas desculpas por ter telefonado.
         -No seja tolo, Matt. Eu teria ligado para  voc, mas estive muito ocupada.
         No lhe explicou nada a respeito de Justin, nem sabia como faz-lo, mas sentia-se embaraada  por Matthew ter sabido que ele estava ali.
         Justin acabava de comentar que lhe havia dito que ela estava tomando banho, o que para Daphne no pareceu uma maneira apropriada de atender as suas chamadas 
telefnicas.
         E se tivesse sido um jornalista? Em troca Justin no parecia se importar com nada.
         Estava mais acostumado a este assdio que ela, e se preocupava muito menos com sua prpria reputao. J fazia anos que a tinha manchado.
         -Como est Andrew? 
         -Est bem.
         Matthew a ps a par de todas as novidades, mas havia uma estranha tenso entre eles, e a conversa no lhes proporcionou o prazer que tinham compartilhado 
antes.
         Ela se perguntava se antes lhe telefonava porque se sentia sozinha, e experimentou um sentimento de culpa por t-lo usado para encher suas noites vazias 
na costa do Pacfico.
         Agora tinha ao Justin e as coisas eram diferentes.
         No obstante, teve uma sensao de perda quando desligou.
         -Ligou para seu amigo? -perguntou-lhe Justin com certo sarcasmo quando Daphne voltou para o quarto.
         -Sim. Andrew est bem.
         Seus olhos lhe disseram que no insistisse em falar daquele assunto, coisa que Justin prudentemente fez.
         Em vez disto, tirou-lhe a toalha com toda delicadeza, e deslizou brandamente a mo por sua coxa at entre suas pernas.
         Entao a atraiu para si, e ambos esqueceram o telefonema enquanto Justin a fazia cair sobre seu corpo ofegante e se convertiam em um s.
         Mas depois que fizeram amor, quando ele dormia roncando brandamente a seu lado, Daphne ficou acordada pensando em Matthew.
         A filmagem prosseguiu com ritmo incessante durante os dois meses seguintes, sem perspectivas de interrupo, at que por fim Howard lhes concedeu quatro 
dias de descanso.
         -Aleluia, menina! -exclamou Justin com entusiasmo. -Vamos passar uns dias no Mxico.
         Mas Daphne tinha outros planos.
         -No posso. Tenho que ver o Andrew. Faz quase trs meses que no o vejo.
         -Andrew? Oh, por todos os diabos! O menino  no  pode esperar? Daphne ficou estupefata.
         -No, no pode. Quero que venha para a Califrnia -respondeu com dureza, sem ocultar que se sentia ferida.
         No ia permitir que nada se colocasse entre ela e Andrew.
         Nem sequer Justin.
         Agora considerava certo esperar que ele demonstrasse um certo interesse em seu filho, mas no era assim.
         Havia coisas que no importavam absolutamente a Justin e as crianas eram uma delas.
         No sentia interesse pelos filhos de ningum, nem sequer pelo dela.
         No entanto, eram prdigos no amor, e algumas vezes ficavam conversando at altas horas da madrugada.
         Ela estava segura de que a amava.
         Mas tinha a impresso de que ele s estava apaixonado por uma parte de seu ser, e que havia outras partes que lhe eram totalmente desconhecidas.
         Especialmente, Andrew, que era a parte mais importante de sua vida.
         -Justin, o que voc acha? Voc no gostaria de conhec-lo? Possivelmente se o inclusse em seus planos, Justin comearia a reagir.
         -Talvez. Mas para falar a verdade, garota, preciso de descanso, e sei por experincia que as crianas muitas vezes no do nenhum. 
         No demonstrava entusiasmo, e nem sequer se desculpou por isto.
         Ela mesma no estava muito certa de que fosse sensato submeter Andrew a uma viagem to longa  s por quatro dias.
         Afinal, telefonou a Matt e lhe perguntou o que ele achava.
         -Sinceramente, Daff,  acredito que  uma viagem muita longa para quatro dias. Sobretudo para uma criana de sua idade.
         Daphne pensava o mesmo.
         Simplesmente, desejava que conhecesse Justin, mas possivelmente era muito cedo.
         Talvez nem o menino nem Justin estavam preparados para isto.
         Possivelmente o melhor seria deixar que Justin fizesse sua santa vontade naqueles quatro dias.
         Poderiam viver um sem o outro, e poderia ter ao Andrew para ela sozinha.
         Esta perspectiva no a desagradava, mas ainda sentia desencanto pela atitude de Justin.
         -Acredito que tem razo, Matt. Tomarei o avio at New York e viajarei a New Hampshire de carro.
         -Isto  uma tolice.
         Daphne ficou petrificada.
         Fazia quase trs meses que no via o filho, mas ela compreendeu em seguida por causa de seu silncio e ps-se a rir.
         - No me refiro ao fato de vir, mas sim que v a  Nova Iorque e depois  venha de carro.  Tome um vo at Boston e eu irei te buscar.
         -No posso consentir que faa isto. J tem suficientes problemas para que, alm disso, tenha que servir de chofer.
         -E voc esteve trabalhando quase sem parar durante os ltimos cinco meses. Acaso no posso fazer um favor a uma amiga? 
         Daphne teve que reconhecer que isto facilitava as coisas, mas no lhe parecia justo. Matthew estava sempre pensando nela.
         -Falo srio. No me custa nada.
         Daphne sabia que no era certo, mas o oferecimento a comoveu.
         -Ento, aceito.
         Consultou a tabela de horrios de vo que tinha conseguido com antecedncia na companhia area, disse-lhe o avio que tomaria no dia seguinte e entao foi 
para o quarto para preparar a mala.
         De repente se sentiu emocionada ao pensar que voltaria a ver ambos, e lhe parecia que no podia esperar o momento de abraar de novo seu filho.
         Um amplo sorriso iluminava seu rosto ao entrar no quarto, e Justin a contemplou com seu atraente sorriso.
         -Voc realmente  louca por este menino, no  certo, Daff? 
         -Sim, eu sou. -sentou-se na beira da cama junto a ele e lhe beijou a palma da mo antes de pousar os olhos nele.
         -Eu gostaria que o conhecesse.
         -Um dia destes.
         Depois de uma pausa, ele perguntou: 
         -Ele sabe falar? 
         Daphne assentiu.
         -Sim. Nem sempre com clareza, mas se faz entender.
         Havia uma expresso no olhar de Justin que a inquietava.
         -Acaso tem medo? De se relacionar com um menino surdo, quero dizer.
         -No  medo.  s que as crianas no me atraem, sejam normais ou anormais, suponho.
         -Andrew no  anormal.  surdo.
         - a mesma coisa.
         Daphne o teria esbofeteado quando o ouviu dizer isto, mas se conteve.
         -Acertarei para que venha para c no outono, quando tivermos terminado o filme. Ento o conhecer.
         -Parece-me bem.
         Porque faltavam trs meses ainda? Daphne no gostava de sua reao quando falavam de seu filho, mas havia muitas outras de que gostava.
         E supunha que, quando conhecesse Andrew, suas apreenses desapareceriam.
         Apesar de sua surdez, poucas pessoas resistiam  simpatia de Andrew.
         -O que pensa em fazer enquanto eu estiver ausente? O descanso fazia falta a todos eles, sobretudo a ele, e Daphne o olhava com um clido sorriso.
         -No sei. Queria ir para o Mxico com voc.- Introduziu a mo entre suas pernas. -Ser que no posso faz-la mudar de idia? 
         Ela sorriu. Realmente Justin no compreendia, e Daphne meneou a cabea.
         -No, nem sequer assim.
         -Deve ser um menino extraordinrio.
         -E .
         -Bem, diga a ele que estou louco por sua mame.
         -Direi.
         Mas ela sabia que no lhe falaria de Justin ainda.
         Ele no entenderia.
         E aos olhos de Andrew, sua me lhe pertencia.
         Sempre tinha sido dele e sempre o seria.
         -Ficar aqui, amor? 
         -No sei. Possivelmente irei para So Francisco passar uns dias com uns amigos.
         -Bom, me faa saber onde o encontro, para que possa lhe ligar.
         Em quase trs meses, no tinham separado nem um dia e nem uma hora, e de repente a idia de afastar-se dele a enchia de tristeza. 
         -Vou sentir sua falta, senhor.
         -Eu tambm sentirei sua falta, Daff.
         Tomou-a entre seus braos e fizeram amor at as primeiras luzes da alvorada; ento ela aproveitou para dormir umas horas antes de levantar-se para ir tomar 
o avio.
         Daphne foi para aeroporto sozinha na limusine.
         Barbara estava com Tom, e no havia nenhuma razo para que a acompanhasse, e Justin disse que tinha coisas para fazer.
         Todo o pessoal da equipe de filmagem tratava de aproveitar ao mximo cada uma das horas daqueles quatro dias de descanso.
         Daphne tomou o avio s dez, e esperava chegar a Boston s sete da tarde, hora da costa do Atlntico.
         O avio chegou no horrio, e Daphne foi uma das primeiras a descer, procurando Matthew com o olhar.
         A princpio no o viu, mas logo o avistou a curta distncia, examinando os rostos dos passageiros que desembarcavam.
         De repente seus olhos se encontraram, e ela sentiu que o corao dava um baque, sem que pudesse compreender o motivo.
         Em seis curtos meses, Matt tinha se tornado seu amigo, ainda que por telefone, mas de repente se deu conta de como estava feliz em v-lo.
         Um clido sorriso iluminou os olhos de Matthew, ao  mesmo tempo que ia a seu encontro.
         -Ol, Daff. Como foi o vo? 
         -Muito longo.
         Ento, sem saber por que, jogou os braos em seu pescoo e o estreitou calidamente contra seu corpo.
         -Obrigada por vir, Matt.
         Houve um momento de tenso entre eles.
         -Voc parece muito bem.
         Matthew tambm percebeu que estava muito magra.
         Tinha trabalhado arduamente, e isto se refletia em seu aspecto, mas tambm parecia muito feliz.
         Havia uma risonha expresso em seu olhar, e algo mais. Algo que incomodou Matt.
         Tinha mudado, parecia mais mulher possivelmente, mais atraente sexualmente.
         Mentalmente lembrou em seguida da voz masculina que tinha atendido ao telefone.
         Tratou de afast-la de seus pensamentos, sem conseguir, enquanto foram recolher a bagagem de Daphne.
         -O que esteve fazendo l, alm de trabalhar? Daphne parecia mais bonita que nunca, e algo em seu interior desejava saber o porqu, mesmo que compreendesse 
que no tinha nenhum direito.
         Ao olhar para ele, ela sorriu, dando-se conta de como vivia isolado em New Hampshire e como estava totalmente envolvido em seu trabalho.
         Havia aparecido uma srie de comentrios a respeito dela e de Justin na imprensa, mas pelo que parecia Matthew no os tinha visto.
         Conhecendo Matt como conhecia, estava segura de que no fingia.
         Sorriu de novo quando ele pegou a mala.
         Como seus olhos a olhavam examinadores, ela se deteve e fixou o olhar em seu rosto.
         -Como est terrivelmente srio, Matt.
         Daphne no queria lhe explicar sobre Justin.
         -S estou contente de v-la, Daff... No sei muito bem o que dizer...
         Daphne pareceu lhe acariciar o rosto com o olhar ao mesmo tempo que movia a cabea em sinal de assentimento.
         -Fale-me de Andrew.
         Ela lia as perguntas em seus olhos e no desejava respond-las.
         Sua vida na Califrnia estava completamente desligada desta.
         Para ela, esta era uma vida diferente.
         Uma vida que compartilhava com seu filho.
         O mundo de Justin Wakefield parecia estar a dez mil quilmetros de distncia, e de certo modo tinha a impresso de retornar a seu verdadeiro lar.
         Retornava sozinha para casa e desejava aproveitar o retorno.
         Ao sair do aeroporto e pegar a estrada para o norte, Matthew lhe contou as mudanas que tinha feito na escola, falou-lhe dos dois novos profissionais que 
tinham contratado, das excurses campestres que tinham feito e do acampamento que tinham programado para julho.
         Daphne lamentava com toda sua alma no poder acompanh-los.
         -Tenho a sensao de que passarei toda a vida na Califrnia, Matt -comentou com um suspiro.
         Ele quis lhe dizer que sentia o mesmo, mas no lhe pareceu correto.
         -Quanto tempo mais acredita que se prolongar a filmagem? 
         -Tomara soubesse. Trs meses mais. Talvez seis. At o momento tudo saiu como foi previsto. Mas todo mundo me diz que posso esperar que demore mais. Howard 
no quer que isto acontea, ningum o quer, mas no pode se evitar, e suponho que cedo ou tarde surgir algum problema. No Natal seguramente que j estarei aqui.
         Matthew assentiu com uma expresso de contrariedade em seus olhos.
         -Ento, j estarei a ponto de partir.
         O novo diretor vindo de Londres tomar posse em primeiro de janeiro, como est previsto.
         -No pensa em ficar, Matt? -perguntou ela com tristeza.
         -No. Howarth  um lugar maravilhoso, mas quero voltar para a escola de New York -respondeu ele com um sorriso.V-se que no sou feito para viver no campo. 
s vezes penso que ficarei louco nesta escola.
         Daphne riu, observando seu rosto.
         Tinha feies bonitas e msculas, muito diferentes dos adorveis traos de Justin, mas Matt tinha sua prpria atrao, uma espcie de vigorosa e slida 
firmeza que o tornava mais semelhante a um homem que a um dolo.
         -Compreendo o que quer dizer. Quando vivi ali durante um ano, s vezes sentia falta da sujeira e do barulho de New York...
         Neste momento pensou em John, e em seu rosto apareceu uma expresso melanclica.
         -Bem, vou lhe dizer uma coisa. 
         Esboou seu radiante sorriso.
         -Eu sinto falta dos recursos que temos em New York para as crianas. Dos museus, o bal...-Sua voz se apagou. -Minha louca irm.
         -Como est ela? 
         -Martha? Muito bem. As gmeas fizeram quinze anos na semana passada, e receberam um aparelho de som como presente de aniversrio. Martha diz que por fim 
pode dar graas aos cus por ser surda, pois sente os mveis vibrar quando escutam msica.E Jack diz que o deixam louco.
         Daphne sorriu, desejando que Andrew pudesse lhe criar aquele problema algum dia.
         -Ainda espero que possa conhec-la quando tiver tempo.
         Ambos guardaram silncio, perguntando-se quando chegaria este momento.
         Agora tudo fazia supor que no chegaria nunca.
         Ento ele comentou que a senhora Curtis visitava a escola de vez em quando, que estava bem e sempre mandava lembranas para ela.
         -Desejaria ter tempo para v-la desta vez, mas s disponho de quatro dias.
         Daphne se sentiu desanimada de novo.
         A linha da estrada parecia correr velozmente debaixo deles enquanto conversavam de mil coisas, e pouco depois das nove j estavam na escola.
         Daphne sabia que Andrew estaria deitado, mas queria v-lo, embora s para contemplar seu rostinho, lhe dar um beijo na face e acariciar seus cabelos.
         Entrou precipitadamente e subiu a escada correndo.
         O menino estava profundamente adormecido em sua cama, e ela permaneceu longo tempo no quarto, sem tirar olhos de Andrew.
         Passou um bom momento antes que se desse conta de que Matt estava de p na porta.
         Daphne lhe sorriu e se inclinou sobre Andrew para lhe dar um beijo.
         Ele se moveu sem chegar a despertar, e sua me desceu a escada, seguida por Matthew.
         -Est to bem! Parece que cresceu.
         - claro que sim. E deveria v-lo andar na bicicleta que lhe mandou.
         Daphne sorriu e olhou para Matt.
         -Sinto que perco tantas coisas...
         -No ser por muito tempo mais, Daff.
         Seus olhos se encontraram, e se olharam fixamente.
         De repente ela teve a sensao de que Justin Wakefield no era um ser real.
         Parecia pertencer a um sonho longnquo.
         Era Matthew quem parecia de carne e osso agora que estava ali diante dela.
         Repentinamente, apesar das promessas que se feito a si mesmo, Matthew a olhou com olhos inquisidores e no pde refrear a pergunta.
         -H uma pessoa importante em sua vida no  mesmo, Daphne? 
         Ela vacilou, sentindo o corao acelerar, e entao moveu lentamente a cabea.
         -Sim.
         A criana que havia nele sentiu desejos de chorar, mas nada disso se refletiu em seus olhos, s o interesse pelo bem dela enchia em seu corao.
         -Me alegro por voc. Isto lhe convm.
         -Suponho que sim.
         Entretanto, ela queria lhe contar a preocupao que lhe provocava a atitude do Justin em relao ao Andrew.
         E se Justin no pudesse aceitar a um menino surdo? Mas temia  fazer esta pergunta.
         De certo modo, pressentia que no era pertinente perguntar a ele.
         Ento voltou a olhar Matthew nos olhos.
         -Aqui nada muda,  Matt.
         Ele se perguntou o que significavam aquelas palavras, mas se limitou a assentir com a cabea e abrir a porta da pequena sala de estar que tinha herdado 
da senhora Curtis.
         -Tem tempo para tomar uma xcara de caf ou prefere que a leve para a pousada? 
         -No. No tenho sono.- Consultou seu relgio com um sorriso. - Para mim so somente sete horas.
         Em New Hampshire, porm, eram j dez, e na escola tudo estava em silncio, todo mundo estava dormindo.
         -Eu adoraria tomar uma xcara de caf com voc.  uma sorte no ter que falar com voc por telefone.
         Matthew sorriu, ao  mesmo tempo que lhe servia uma xcara  de caf da cafeteira que mantinha sempre ligada.
         Perguntava-se quo sria devia ser a relao amorosa de Daphne na Califrnia, e se ele era uma boa pessoa.
         Matthew assim o desejava, desejava com toda sua alma, mais do que ela nunca poderia imaginar.
         Passou-lhe a xcara de caf e se sentaram.
         Matthew seguia examinando o rosto de Daphne a procura de respostas mudas.
         Ento ela contou os detalhes das filmagens,  explicou-lhe as cenas que j haviam rodado e lhe falou o que realizariam quando voltasse.
         -Acredito que no ms prximo iremos ao Wyoming.
         O lugar escolhido para os exteriores era Jackson Hole, um lugar que  Matthew  sempre  tivera vontade de  visitar.
         -Como a invejo! -exclamou esboando um lento sorriso, enquanto estendia as longas pernas para o fogo.
         -Tm me dito que  um lugar maravilhoso.
         -Isto me disseram tambm.
         Entretanto, Daphne no estava pensando no filme; nem sequer em Justin.
         Achava que possivelmente isto se devia ao fato de estar to perto do Andrew.
         Era um alvio no se encontrar a cinco mil quilmetros de distncia, e sim ali, debaixo de seu quarto.
         Mas possivelmente no era por causa do Andrew.
         Era curioso como Matthew o tirava de sua cabea; na realidade, ela no compreendia, mas havia um calor naquele homem que a envolvia, lhe proporcionando 
uma sensao de segurana, de bem-estar e conforto.
         Quando estava com ele no se sentia tensa nem cansada, e sim relaxada e feliz.
         Possivelmente por isto agora, junto ao fogo, estava to contente e era to afortunada.
         -E voc, Matt? No pensa em tirar umas frias neste vero? 
         -Duvido muito. Talvez v passar uns dias em Lake George com Martha, Jack e as garotas. Mas no acredito que possa me afastar daqui.
         Deu-lhe um lamentoso sorriso, jogando para trs uma mecha dos densos cabelos.
         -Embora na verdade no tenha vontade. Quando deixo os meninos sempre fico preocupado. A senhora Curtis disse que me substituiria se quisesse tirar uns dias, 
mas no quero que se sacrifique por mim.
         -Deveria aceitar seu oferecimento.Voc tambm precisa descansar.
         Daphne tinha notado que parecia mais cansado do quando ela foi para a Califrnia, e em seu rosto apareciam rugas que antes no existiam.
         Apesar de seu ar juvenil, causava a impresso de ser um homem responsvel e amadurecido.
         Isto era algo que gostava em Matthew.
         No possua os traos perfeitos de Justin, mas s vezes a contemplao constante de um rosto to bonito acabava sendo cansativo.
         Era surpreendente que pudesse conservar-se to vistoso dia aps dia.
         Seu aspecto fsico era como uma paisagem sem chuva nem neve, onde s brilhasse o sol permanentemente.
         -Parece mentira que j est aqui h seis meses, Matt.
         Mais difcil de acreditar eram todas as coisas que tinham a ela acontecido desde ento.
         -s vezes parece que passaram seis anos e no seis meses  -respondeu Matthew rindo calmamente.
         -O mesmo acontece comigo depois de passar quatorze horas no estdio - replicou Daphne rindo tambm.
         -Como vo as coisas com Barbara? 
         Embora no se conhecessem pessoalmente, ele tinha a impresso de saber como era por tudo o que Daphne tinha lhe contado.
         Ento ela lhe explicou seu namoro com Tom.
         -Acha que se casar e ficar morando l? Isto seria um golpe muito duro para voc.
         Matthew sabia como Daphne dependia dela h muitos anos.
         -No sei se sua relao  to sria para acontecer isto.
         Entretanto, era uma possibilidade que teria de considerar.
         -E o que me diz de voc? -perguntou ele de repente.
         Daphne ficou perplexa diante daquela pergunta, e ao compreender o que ele queria dizer, no soube o que responder.
         Ficou olhando-o pensativa.
         -No sei, Matt. - seu corao deu um baque ao ouvir suas palavras.
         -Eu...  difcil de explicar.
         No sabia com certeza o que sentia pelo Justin.
         Amava-o, at certo ponto, mas ainda havia traos de sua personalidade que eram uma incgnita para ela.
         Mesmo que ficassem  juntos  as vinte e quatro horas do dia, pressentia que havia portas fechadas que tinha que abrir, e alm disso havia a questo de sua 
falta de interesse por
         Andrew.
         Resolveu comentar com Matt, pois possivelmente ele poderia ajud-la a resolver melhor aquele problema.
         -Tenho certas reservas a respeito dele, Matt. No parece muito interessado em conhecer o Andrew.
         -Deve lhe conceder um pouco de tempo. Sabe que Andrew  surdo? 
         Ela assentiu com a cabea, com ar pensativo.
         -Como ele reagiu? 
         -No quer admitir, mas eu acredito que sente apreenso, e como conseqncia disto faz como se Andrew no existisse; esquece seu nome, quer acreditar que 
no  um ser real...
         Daphne emudeceu, e Matthew meneou a cabea.
         -No funcionar, Daff. Andrew  muito importante para que o homem de sua vida no compartilhe com voc seu amor por ele.
         Matthew queria ser sincero com ela, dar o melhor conselho que pudesse.
         -Por isso no quis que Andrew fosse para a Califrnia desta vez e preferiu vir voc? 
         -Em parte foi por isto, mas tambm me pareceu que era uma viagem muito longa para ele  por  s trs  ou quatro dias.
         Isto era o que tinha argumentado para Matt por telefone.
         -Entretanto, tambm foi por causa de Justin.
         Matthew ficou estupefato. No podia ser. Embora, pensando bem, fazia sentido. Sentiu-se desanimado ao perguntar : 
         -Justin? 
         Daphne corou. Parecia embaraoso ter que reconhecer que tinha um namorico com o astro do filme.
         O assunto era to tpico de Hollywood, to fantstico, que lhe parecia incrvel; mas compreendeu que havia algo mais.
         Simplesmente, tinha acontecido que se conheceram ali e tiveram oportunidade  de terem  intimidade por causa do filme, e o romance tinha nascido como resultado...
         -Justin Wakefield - respondeu baixinho, com os olhos brilhantes sob o resplendor do fogo.
         -Compreendo.  um magnfico trofu, Daff.
         Respirou fundo, lenta e profundamente.
         Nem sequer  tinha ocorrido esta possibilidade para ela.
         Achava que se tratava de algum mortal comum, e no do deus loiro que encarnava o homem sonhado por todas as mulheres.
         -Como  ele? Daphne fixou o olhar no fogo e viu o rosto de Justin como se estivesse na sala com eles.
         -Bonito, claro. Muito bonito, e brilhante, e divertido, e algumas vezes muito terno.
         Ento voltou a cabea para Matthew; tinha que lhe dizer a verdade.
         - completamente centrado em si mesmo, e freqentemente muito egosta e indiferente com as pessoas que o rodeiam. Tem quarenta e dois anos e s vezes se 
comporta como um rapaz de quinze. No sei, Matt,  um homem adorvel e tem ocasies que me faz muito feliz...; mas  em outros momentos  como falar com algum que 
no lhe escuta. Como quando lhe falo do Andrew, me  parece ausente.
         Por isto lhe telefonava de vez em quando procurando consolo, para conversar a respeito de seu filho ou de outras coisas.
         Freqentemente meditava a respeito disto, pois havia aspectos de sua vida com os quais Justin no se identificava.
         -Sabe apreciar minha obra, o que  muito importante para mim; interessa-se por ela, mas em relao com outras coisas... -disse meneando a cabea ,- est 
ausente. s vezes tenho dvida se compreende. 
         Suspirou silenciosamente.
         -Devo reconhecer que h momentos em que no estou segura. O curioso  que Barbara e ele se odeiam. Ela v um aspecto de sua personalidade que eu no sei 
descobrir; afirma que  frio, vazio, calculista , mas eu acredito que se equivoca em seu julgamento. No o conhece to bem como eu. No  calculista, mas s vezes 
 desatento. No se pode odiar a uma pessoa por isto.
         -No, mas acaba sendo complicado conviver com ela.
         -Sim, pode ser.
         Daphne teve que lhe dar razo, e entao sorriu olhando o fogo com expresso sonhadora.
         -Mas s vezes me faz to feliz! Faz-me esquecer todas as lembranas terrveis, toda a dor e a solido com que vivi tantos anos.
         -Ento possivelmente valha a pena.
         -At o momento, acredito que  sim.
         Matthew assentiu e suspirou de novo.
         -Imaginei que havia algum em sua vida quando atendeu ao telefone daquela vez que liguei.
         S tinha acontecido uma vez, mas teve uma premonio, e Daphne no era mulher que se entregasse por uma s noite.
         Se ele atendia ao telefone, era porque vivia ali com ela e Daphne no temia que soubessem.
         -Mas no imaginei que fosse ele.
         -Justin? 
         Ele assentiu com um gesto, e Daphne sorriu.
         -Felizmente, a imprensa no nos dedicou muito tempo; s apareceram alguns comentrios aqui e ali, mas no foi grande coisa. No fomos a parte alguma porque, 
sempre estamos trabalhando; entretanto, um destes dia  destes suporo que vivemos juntos e a notcia aparecer em todos os jornais 
         Parecia achar muita graa diante desta perspectiva.
         -Como se sente diante desta eventualidade? 
         -No muito feliz, e meus leitores ficaro assombrados, mas suponho que cedo ou tarde terei que enfrentar.
         Ambos recordaram do programa de televiso de Conroy que ela tinha participado meses atrs, e seus olhos se encontraram.
         -Na realidade, no quero ter que dar explicaes, pelo menos at que esteja segura.
         Segura de que? Ele se apavorava com a resposta a esta pergunta.
         Talvez se casasse com Justin e resolveria radicar-se na Califrnia.
         Mas tinha que lhe dizer o que sabia, pelo bem de Daphne, pela amizade que tinha se consolidado entre eles nos ltimos seis meses.
         -Se resolver ficar morando na Califrnia, deve saber que h uma escola magnfica para Andrew em Los Angeles.
         Deu outros detalhes e ela escutou com ateno, mas ao final de um momento o sono comeou a venc-la. Ento ficou de p.
         -Ainda no cheguei a este extremo, mas chegado o momento, falaria com voc sobre a escola.
         S de pensar sentia-se deprimida.
         Ainda no estava em condies de pensar em casar-se com Justin, e ele tampouco sequer havia mencionado, mas cedo ou tarde o tema sairia  tona.
         Finalmente, ela deveria decidir se voltava para New York ou ficava em Los Angeles.
         -Por enquanto, a nica coisa que tenho de fazer  terminar o filme. Depois pensarei em minha prpria vida.
         -Faa o que melhor lhe convenha, Daff. E o que melhor convenha ao Andrew.
         Havia um toque de tristeza em sua voz, e de repente Daphne se inquietou por ele.
         Em algumas ocasies em que tinha telefonado e ele tinha sado, e isto tinha dado p para que ela pensasse se teria conhecido alguma mulher de quem gostasse, 
mas no pareceu oportuno perguntar-lhe naquele momento.
         Matt a acompanhou at o carro e a levou para a pousada.
         Os proprietrios tinham deixado a chave  na  mesa  com uma nota de boas vindas, e Matthew se despediu dela com uma expresso pensativa nos olhos.
         -Estou alegre que tenha vindo ver o Andrew.
         -Eu tambm, Matt.
         Desejaram-se boa noite e Mathew se afastou no carro.
         Enquanto Daphne subia a escada, recordou a conversa que tiveram e se perguntou por que de repente se sentia to infeliz pela maneira de ser de Justin.
         Por que no podia ser como Matt? Por que no a escutava quando lhe falava de Andrew?
         Mas possivelmente com o tempo mudaria.
         Afinal, Matt estava acostumado a tratar com meninos como Andrew.
         Entretanto, havia mais do que isto e ela sabia.
         Muito, muito mais.
         Os dias que esteve com Andrew passaram voando.
         O menino se mostrava exultante em t-la a seu lado, e andava de bicicleta para que o admirasse; mostrou-lhe o jardim que ele cultivava, apresentou-a a seus 
novos amigos e se gabou de que sua me estava fazendo um filme.
         Davam longos passeios tomando sol e tornavam a sair depois do jantar.
         Eram dias radiantes do ms de junho, e ela se sentia renovada s de estar junto a ele.
         Era como se a essncia de sua alma tivesse se escoado lentamente nos ltimos trs meses sem que ela desse por conta.
         Tinha estado to ocupada na Califrnia com o Justin e a filmagem! Mas agora, por ensima vez, compreendia que necessitava desesperadamente de seu filho, 
e como ela era importante para ele.
         Andrew no parava de lhe perguntar quando voltaria da Califrnia, quando voltaria para seu lado, quando estariam juntos.
         O menino acabava de ir tomar um banho depois de jantar, quando Matthew encontrou Daphne, contemplando o pr-do-sol  comodamente sentada no antigo balano.
         -No a incomodo, Daff? 
         Parecia to tranqila e pensativa que detestava atrapalhar sua meditao.
         Mas a tinha visto ali sentada e se sentiu irresistivelmente atrado por ela.
         -Claro que no, Matt.
         Apontou para o espao vazio a seu lado com um sorriso.
         -Andrew acaba de ir tomar banho.
         -Sei. Encontrei-o na escada e me disse que estava aqui fora.
         Trocaram um lento sorriso, enquanto o sol desaparecia atrs de uma colina em uma bola de fogo.
         -Fez muito bem a ele estar com voc. Nestes momentos precisa de voc de novo. Est dirigindo sua ateno ao mundo que o rodeia, e voc  uma parte muito 
importante deste mundo para ele.
         -Tambm tem feito muito bem para mim.
         Isto era evidente.
         A preocupao tinha desaparecido de seus olhos, e seu rosto parecia relaxada e irradiava felicidade.
         Parecia uma garotinha sentada naquele balano, de jeans e uma camisa azul, os longos cabelos loiros cados sobre seus ombros e uma faixa de cor azul clara, 
como seus olhos, que os mantinham afastados do rosto.
         Entretanto, Matt tambm percebeu uma sombra de inquietao em seus olhos, inquietao por Andrew.
         -Sinto que deveria ficar aqui com ele, Matt.
         -Agora no pode. Ele compreende isto.
         -Seriamente? Em troca eu no estou segura de compreender sempre.
         Daphne guardou silncio, e ele ficou observando-a.
         -Hoje parece uma garotinha -disse-lhe com um doce olhar - ningum suspeitaria que  uma autora de sucesso.
         Ou a amante do astro que povoa os sonhos de todas as mulheres.
         Olhou para Matthew radiante de alegria.
         -Aqui no sou ningum mais que eu mesma. 
         E a me de Andrew.
         Esta era uma importante parte de sua vida, e ambos sabiam.
         -Vou tratar de voltar logo.
         -Quando ser isto? 
         -Pouco antes ou pouco depois de ir para o Wyoming, depende do que Howard decidir.
         -Espero que seja antes.
         Ento sentiu que devia ser sincero com ela, como quase sempre o era.
         -Nem tanto pelo Andrew, mas sim por mim.
         Daphne olhou aos olhos e notou que algo se agitava em seu interior.
         Nunca estava segura do que sentia pelo Matt nem se devia pensar sobre isto.
         Era muito cmodo deixar as coisas tal como estavam.
         Mas era curioso como se tornou importante para ela, como precisava saber que podia contar com ele, que podia lhe falar quando necessitasse.
         Agora no imaginava a vida sem ele, sobretudo pelo bem de Andrew, mas tambm pelo dela.
         -Significa muito para mim, Daphne.
         Sua voz soava cautelosa e rouca, e ela assentiu com a cabea, olhando seus doces olhos castanhos  luz do entardecer.
         -Voc tambm significa muito para mim.
         -Isto no tem muito sentido, verdade? Na realidade nunca passamos muito tempo juntos. Alguns bate-papos diante do fogo, aqui na escola, e umas horas de 
conversas pelo telefone...
         -Talvez isto seja suficiente. Tenho a sensao de que a conheo melhor que a ningum no mundo.
         Isto era o surpreendente.
         Ela o conhecia.
         E sabia que ele tambm a conhecia, tal como realmente era, com todas suas cicatrizes e terrores ntimos, assim como com todos seus triunfos e toda sua fora.
         Abrira-se mais para ele que a qualquer outra pessoa conhecida, incluindo Justin.
         Este conhecia a parte divertida, a parte brilhante, a parte mais slida e forte de seu ser, mas no conhecia o que Matthew sabia, e ela no estava segura 
se j era momento de confiar nele.
         Em troca, estava segura de que podia confiar a Matthew todos seus segredos e toda sua alma.
         No entanto, era com o Justin que ela vivia, era Justin quem dormia no outro extremo da gigantesca cama em Bel-Air.
         -Possivelmente um dia, Daff... - comeou a dizer Matthew, e Daphne se sobressaltou e o olhou com temor.
         Ento ele mudou de idia, pois no era o momento de lhe dizer o que pensava-, poderemos passar mais tempo juntos.
         Agora ambos pisavam em terreno firme de novo, e Daphne se deu conta disto.
         Olhou-a com ateno, inclinou-se para ela e lhe deu um beijo na face.
         -Cuide-se muito na Califrnia, Daphne. Seja feliz. Espero que as coisas caminhem bem com seu amigo. E se precisar, sempre me encontrar aqui.
         -No sabe como me reconforta ouvir isto, Matt -disse-lhe com sinceridade.- Sempre sei que se precisar, posso lhe ligar.
         E acrescentou com um sorriso: 
         -E se voc precisar , pode me telefonar tambm.
         -O que acha seu amigo disto? -inquiriu Matt, com olhos ligeiramente preocupados.
         -Uma vez fz uma brincadeira. - Riu, pois agora lhe parecia uma tolice. - Acusou-nos de ser amantes, mas no se mostrou muito afetado por isso. Ele levou 
uma vida muito...
         - Titubeou, procurando a palavra precisa, pois no queria ser injusta com Justin. - Liberada, digamos, at que me conheceu . No acredito que esteja muito 
preocupado pelo passado.
         Matthew sentiu uma pontada provocada por um sentimento prximo  contrariedade.
         -Nunca tenha receio de me ligar, Matt.
         -De acordo.
         Matthew sorriu, sentindo-se como se lhe tivessem arrancado o corao.
         Entraram na escada, e Daphne subiu para ver Andrew.
         Quando desceu, depois de uma hora, Matthew viu lgrimas em seus olhos.
         -Cus, que doloroso  partir de novo! -Daphne lhe sorriu valentemente, e ele passou um brao pelos seus ombros.
         -Voltarei logo.
         -Confiamos nisto. J sabe que Andrew ficaar bem.
         Ela assentiu com a cabea, e Matthew a levou no carro para a pousada, onde ela se trocou e recolheu a bagagem para dirigir-se ao aeroporto.
         Daphne tinha insistido em tomar um txi at Boston, mas ele no quis escut-la.
         Conduziu-a de volta ao aeroporto, tal como a tinha levado a New Hampshire uns dias antes, e permaneceram diante da porta de embarque um longo momento, olhando-se 
fixamente.
         -Cuida de meu filho por mim, Matt - murmurou ela com voz desolada, contendo as lgrimas.
         Ento Matthew mandou a prudncia ao diabo, atraiu-a para si e a abraou fortemente, enquanto Daphne se entregava a seu reconfortante afeto e amizade.
         Ento se separou dele sem dizer uma s palavra e, ao chegar  entrada do avio, voltou-se e disse-lhe por gestos:
         -Te amo.
         Matthew esboou um amplo sorriso ao mesmo  tempo que lhe respondia da mesma maneira.
         Daphne desapareceu; voltava para Los Angeles e para os braos de Justin.
         E enquanto Matthew retornava ao carro dizia a si mesmo que estava louco.
         A vida de Daphne era muito diferente da sua, e sempre o seria.
         Ele no era mais que um professor de meninos surdos, e ela era Daphne Fields.
         Por um instante, odiou Justin Wakefield por tudo o que era, e por tudo o que Matthew sabia que no era; entao, exalando um suspiro, entrou no carro e se 
dirigiu a New Hampshire, pensando em  Daphne durante todo o caminho.
         O avio chegou ao Los Angeles a  uma da madrugada, hora da costa do Pacfico, e Daphne despertou sobressaltada quando o aparelho aterrissou.
         Para ela eram onze horas.
         Ao despertar, sentiu-se muito sozinha, pois tinha estado sonhando com o Matt e Andrew, que jogava no jardim com eles, em Howarth, e agora se dava conta 
do longe que se achava de novo.
         Por um instante, experimentou a mesma dor insuportvel que havia sentido a primeira vez que deixou Andrew na escola.
         Mas enquanto a nave taxiava, esforou-se em pensar em Justin.
         Tinha que concentrar-se no presente e no que a aguardava no futuro, ou no poderia seguir adiante.
         Entretanto, a lembrana de Andrew e Matthew parecia no querer abandon-la.
         Suas imagens ainda estavam muito vivas em sua memria, e ela no queria apag-las ainda.
         Na realidade, no desejava estar de volta ainda.
         Entretanto, recordou a si mesma, retornava para junto de Justin, e voltaria a estremecer entre seus braos.
         Experimentava uma estranha sensao, pois tinha a impresso de ter estado trs meses longe dele, em vez de trs dias.
         Vivia duas vidas to separadas uma de outra que lhe resultava difcil imaginar que podiam unir-se na mesma semana.
         De repente, ao pensar em Justin, teve a sensao de estar pensando em um estranho.
         No tinha pedido que a limusine fosse esper-la no aeroporto, mas havia dito a Barbara que no se preocupasse, que retornaria a casa por seus prprios meios.
         No tinha podido telefonar a Justin no curso daqueles trs dias, porque no sabia com quem estava em So Francisco.
         Mas enquanto se dirigia a sua casa em um txi, disse-se que ao final de poucas horas voltariam a estar juntos.
         Eram j duas da madrugada, e todos tinham que estar no estdio s cinco e meia.
         Quando se encontrou diante a porta de entrada, compreendeu que no valia a pena deitar-se por poucas horas.
         Teria que conformar-se com o sono que tinha dormido no avio.
         A casa estava s escuras, salvo pelas luzes que se acendiam automaticamente todas as noites, a fim de que parecesse habitada mesmo que estivesse vazia.
         Entrou pensando que tudo lhe parecia estranho.
         Parecia que se tratava da casa de outra pessoa, no da sua, e de novo se deu conta do muito que se distanciou naqueles dias.
         Dirigiu-se  sala de estar e se sentou com o olhar fixo na piscina completamente iluminada na escurido, perguntando-se se Justin demoraria muito em voltar.
         Ento saiu com passo lento e pensou em dar um mergulho de cabea.
         Ao baixar a vista, descobriu no cho a parte superior de um biquni azul e branco de boas propores, duas taas vazias e uma garrafa de champanhe.
         Perguntou-se quem poderia ter deixado tudo l, e ocorreu-lhe que talvez Barbara e Tom tivessem usado a piscina, enquanto ela estava longe, mas lhe parecia 
estranho porque ele tinha sua prpria piscina, e ao abaixar-se para recolher o biquni, viu que era muito grande para ser de Barbara.         
         Enquanto o segurava em sua mo, seu corao batia acelerado e, em seguida, balanou a cabea. 
         No poderia ser. 
         Justin seria incapaz de fazer algo semelhante em sua casa. 
         Ele deixou a pea em uma cadeira, tentando no pensar, e levou os copos e da garrafa de champanhe para a cozinha. 
         L ela encontrou uma blusa branca de renda drapeda em uma cadeira.  
         Ela sorriu ironicamente, sentindo-se como um dos trs ursinhos. 
         "Quem ter usado a minha piscina? ... 
         Quem ter deitado na minha cama? "
         Ela entrou no quarto com esta pergunta batendo em sua cabea, e o encontrou l, o deus loiro, nu, deitado na cama com  braos e pernas abertos. 
         Aparentava ter metade de sua idade, e Daphne ficou contemplando admirada seu bonito corpo. 
         Ele no se movia. 
         Talvez tivesse dado uma festa antes que ela chegasse e ficou demasiado cansado para  limpar os ltimos vestgios. 
         De repente a invadiu o remorso de ter pensado o que havia pensado, perguntando-se se os seus confusos sentimentos a respeito de Matthew a  tinham levado 
a  pensar o pior de Justin. 
         Isto foi injusto. 
         Ela era apaixonada por Justin, o deus loiro. 
         Ao tirar as roupas de viagem soltando um suspiro, invadiu-a um angustiante desejo de abraar-se a ele. 
         Estendeu-se a seu lado, mas conseguiu dominar-se e, como no queria despert-lo, finalmente resolveu levantar-se  e preparou um caf. 
         Eram quatro horas. 
         Meia hora depois, Barbara chegou. 
         -Bem-vinda a casa. - Ela deu um grande abrao em Daphne esboando um enorme sorriso.  -Como est seu filho? 
         -Maravilhoso. Voc deveria v-lo andar de bicicleta.  E tornou a crescer. Ele lhe mandou todo seu carinho. 
         Seu rosto foi ensombreado pela tristeza, e sentou na cadeira em que ainda descansava a blusa  de rendas. 
         -A despedida foi muito dolorosa, Barb.  Tomara no tivssemos trabalhando tanto para que ele pudesse nos visitar. No entanto, sei que se eu quebrar as costas 
trabalhando, vou voltar para New York o quando antes.  como estar em um campo de concentrao, no  mesmo? Barbara concordou com um gesto, compartilhando a angstia 
que Daphne sentia.
         -Talvez possa voltar antes ou depois de ir para o  Wyoming, Daff.
         -Isto  o que disse ao Matt.
         -Como est ele? Barbara examinou seus olhos; entretanto, no descobriu nada de novo neles.
         Demonstravam interesse e um quente afeto, mas nada mais.
         Daphne continuava apaixonada por seu deus grego, o que mortificava profundamente a Barbara.
         -Est bem. To amvel como sempre.
         No disse mais nada, e Barbara serviu caf para ambas.
         Quando Daphne se levantou, o olhar de Barbara pousou com desgosto na blusa.
         - sua? -perguntou-lhe com olhos sombrios.
         -No. Justin deve ter convidado a alguns amigos para piscina. -O silncio pareceu encher o aposento. - Voc esteve aqui com o Tom? 
         Barbara negou com a cabea.
         -Vim todos os dias para recolher a correspondncia. Ontem chegaram dois cheques de ris, mas fora isto, todo o resto eram faturas e folhetos de propaganda.
         -Ainda no chegou o novo contrato? 
         Tinha que assinar um com a Harbor para outro livro.
         -No. Disseram que no o esperssemos at a prxima semana.
         -No h pressa. De qualquer maneira, no poderei escrever nada at que termine a filmagem.
         Barbara concordou de novo e teve que morder a lngua pela ensima vez.
         Tom a tinha advertido que mantivesse a boca fechada quando Daphne voltasse, mas cada vez que pensava em Justin seu estmago se revolvia, e havia dito a 
Tom que no devia favor algum para aquele filho de uma cadela.
         -O que a faz supor que estivemos aqui? -perguntou-lhe, esquivando o olhar de Daphne ao mesmo tempo que voltava a encher sua xcara.
         -Perguntei s por curiosidade. Algum usou a piscina. Encontrei umas taas e uma garrafa de champanhe.
         No mencionou o biquni.
         -Possivelmente teria que perguntar ao Justin.
         A voz de Barbara tinha um tom estranhamente baixo, e Daphne a olhou fixamente. Estava farta de jogos.
         -H algo que eu deveria saber? 
         O corao voltou a pulsar rapidamente.
         Desta vez no se tratava de encarnar a Cachinhos de Ouro.
         Mas Barbara continuou silncio, sem tirar os olhos de sua amiga.
         -No sei.
         -Ele ficou aqui? Pensei que tivesse para So Francisco, como planejava.
         -Acredito que ficou - respondeu Barbara vagamente.
         Mas Barbara tinha como saber se Justin ficou em Los Angeles, sobretudo se havia passado todos os dias para apanhar  a correspondncia.
         -Barb...
         Ela levantou a mo, contendo de novo uma onda de fria.
         -No me pergunte nada, Daff.-E com os dentes apertados, acrescentou: -Pergunte a ele.
         -O que exatamente devo lhe perguntar? 
         Barbara no pde conter-se mais.
         Agarrou a blusa e a segurou no alto.
         -A respeito disto..., e do biquini na piscina...- Ento Barbara o tinha visto tambm.- E das calcinhas no vestbulo...
         Parecia disposta a prosseguir, mas Daphne ficou de p, sentindo que seus joelhos tremiam. 
         - suficiente.
         -Seriamente? Quantas canalhices mais est disposta tolerar, Daff? No queria lhe dizer nada, pois Tom disse que no era de minha conta, mas  - prosseguiu 
dizendo, enquanto seus olhos se enchiam de lgrimas -, porque eu te amo, maldita seja.  a melhor amiga que tive em toda minha vida. -voltou-se de costas para Daphne 
uns instantes e quando se voltou de novo tinha os olhos cheios de tristeza.
         -Daphne, ele veio aqui com uma mulher.
         Fez-se um interminvel silncio, e Daphne podia ouvir os batimentos de seu corao e o tic-tac do relgio.
         Ento seus olhos pousaram em Barbara com uma expresso que ela nunca tinha visto neles.
         -Eu cuidarei disto. Mas quero que uma coisa fique bem clara. Fez bem em me dizer isso Barb. E aprecio o que sente por mim. Entretanto, isto s cabe a Justin 
e a mim.
         Deixe em minhas mos. E o que for que acontea, no quero voltar a falar disto. Entendeu? 
         -Sim. Lamento, Daff... As lgrimas desciam por seu rosto, e Daphne se aproximou dela e a apertou entre seus braos por uns instantes.
         -Est bem, Barb. Por que no vai para o estdio em seu carro? -Eram quase cinco horas, e Tom a deixava usar um de seus carros. -Encontro-me com voc l 
daqui a pouco. Se demorar, diga-lhes que acabei de chegar da costa do Atlntico.
         -Tem certeza que est bem? Barbara enxugou os olhos, assustada pela sbita calma que Daphne demonstrava.
         -Estou bem.
         Daphne tratou de tranqiliz-la com o olhar, e em seguida abandonou a cozinha e se fechou no quarto.
         Aproximou-se ao da cama onde Justin dormia e lhe tocou o ombro com a mo trmula.
         Ele se moveu sonolentamente, entreabriu os olhos, olhou o relgio e ento se deu conta da presena de Daphne.
         -Ol, menina. Voc voltou.
         -Sim. -Daphne o olhava com uma expresso que estava muito longe de ser amvel.
         Deixou-se cair em uma poltrona em frente a cama, porque as pernas se negavam a sustent-la, e o olhou fixamente. -O que exatamente aconteceu aqui enquanto 
estive ausente? Justin se ergueu, sem que o sono tivesse deixado vestgios em seu rosto, com uma expresso de inocncia e curiosidade no olhar.
         -O que quer dizer? E ento, como encontrou o pequeno? 
         -Ele est bem. Mas neste exato momento voc  interessa mais.O que andou fazendo aqui, em minha casa? 
         -Nada. Por que ? -Justin se espreguiou, bocejando, e sorriu para ela sedutoramente, enquanto estendia o brao e lhe acariciava a perna.- Senti sua falta, 
menina.
         -Seriamente? E o que me diz da mulher que esteve aqui com voc durante minha ausncia? Uma coisa posso dizer: tem uns bons peitos. Seu biquni poderia caber 
na minha cabea.
         Mas, apesar do tom irnico de suas palavras, Daphne no estava brincando.
         Seus olhos estavam duros como pedras quando tirou a mo dele da perna.
         -Convidei uns amigos, isto  tudo. A que se deve este escndalo? 
         De repente, Daphne se perguntou se Barbara no estaria equivocada.
         Iria se sentir como uma tola se ele dizia a verdade e o tivesse acusado injustamente.
         Baixou a vista uns instantes e ento seus olhos descobriram um preservativo usado sob a cama.
         Inclinou-se para recolh-lo e o levantou no alto como se fosse um trofu.
         -O que  isto? 
         -Pode me revistar. Possivelmente algum se deitou nesta cama.
         -Pretende me dizer que no  seu? -indagou ela sem afastar o olhar.
         -Oh, por todos os diabos! -Justin se levantou da cama e se ergueu diante ela em todo seu esplendor, enquanto passava a mo pelos cabelos loiros.- O que 
est acontecendo? Estive aqui sozinho por quatro dias e convidei uns amigos. A que vem isto, Daff? -perguntou com um fulgor ameaador nos olhos, - acaso no tenho 
direito de mergulhar na piscina a menos que voc esteja presente? 
         Daphne compreendeu que no tinha outro meio de averiguar a verdade.
         -Barbara acaba de me dizer que esteve aqui com uma mulher.
         Ao ouvir estas palavras, Justin sobressaltou-se, pois no sabia que Barbara tinha estado ali.
         -Aquela puta! Que merda ela sabe, se no estava aqui? 
         -Ela veio aqui todos os dias para recolher a correspondncia.
         -Seriamente? -exclamou, ficando lvido.- Oh, raios! -sentou-se na beira da cama e afundou o rosto entre as mos. Ficou calado por um momento e logo seu 
olhar procurou os olhos de Daphne.
         -Est bem, est bem. Perdi um pouco a cabea. Acontece algumas vezes quando trabalho muito. Isto no significa nada para mim, Daff..., por todos os cus... 
Tem muito que aprender nesta profisso... Ao final de um tempo, lhe deixa louco.
         Entretanto, aquelas eram palavras vazias, e ele sabia.
         Pouca coisa mais podia lhe dizer para justificar-se.
         -Parece que sim. O suficientemente louco para se deitar com outra em minha casa, em minha cama. - seus olhos se  encheram de lgrimas. -Acha isto certo? 
-sentia-se machucada e trada.
         J tinha sentido a perda de entes queridos, mas nunca tinha passado por um transe semelhante; biquinis jogados junto  piscina..., preservativos sob a cama..., 
e tudo isto em trs miserveis dias. 
         -O que demnios, aconteceu, maldito seja? -ficou de p e comeou a caminhar para cima e para baixo. - No pode passar trs dias seguidos sem fornicar? S 
me quer para isto? Para usar quando quiser e, quando no estou, se deitar com outra? 
         Plantou-se diante dele, fulminando-o com o olhar.
         Justin parecia pesaroso.
         -Lamento muito, Daff... No quis...
         -Como pde fazer isto? -Daphne comeou a soluar. - Como pde? Sua voz se quebrou a ela se jogou chorando, de barriga para baixo, sobre a cama.
         Justin lhe acariciou brandamente as costas e o cabelo.
         Ela desejava mand-lo para o diabo, mas lhe faltavam as foras.
         No podia acreditar no que Justin fizera, e o descaramento de t-lo feito em sua casa sem preocupar-se de esconder dela ainda parecia mais inconcebvel.
         No se tratava de uma relao passageira comeada em um bar, mas sim de uma garota que ele havia levado para sua casa, para sua cama.
         Ela no podia suportar uma humilhao semelhante.
         E o que ele dizia s acrescentava sua dor.
         -Oh, Daphne, menina..., eu lhe suplico... Embriaguei-me, cheirei um pouco de cocana. No sabia o que fazia. Eu lhe pedi que no viajasse. Eu queria ir 
ao Mxico com voc, mas voc insistiu em viajar para ver seu filho. No pude me conter.
         Justin comeou a chorar tambm, e a fez voltar-se de barriga para cima.
         Ela se sentia como se seus ossos tivessem derretido.
         No tinha foras para brigar.
         Desejava estar morta.
         -Eu te amo tanto! Isto no significa nada. -enxugou  as lgrimas dos olhos. -Foi uma loucura.No voltar a acontecer nunca mais.Eu lhe juro.
         Mas os olhos de Daphne demonstravam que no acreditava em uma s palavra, enquanto as lgrimas escorriam por seu rosto e continuava em absoluto silncio.
         -Daphne... - ele apoiou a cabea sobre as esbeltas coxas de sua amada. -Oh, por Deus, menina..., eu lhe suplico... No quero te perder...
         -Deveria ter pensado nisto antes que sua amiga deixasse o biquini em minha piscina.
         O tom de sua voz demonstrava decepo.
         Levantou-se lentamente, sentindo-se como se tivesse envelhecido mil anos; contudo, ainda no o odiava.
         A ferida era to dolorosa que nem sequer sentia raiva.
         A nica coisa que sentia era dor.
         - assim que se comporta sempre durante uma filmagem? 
         Ou era assim que se comportava na vida real? Daphne comeava a ter suas dvidas.
         E isto a atormentava terrivelmente.
         -Esta foi uma filmagem muito rdua. No sabe quanto de mim mesmo devotei a ela, Daff..., com quanto desespero quis
         te agradar..., fazer que seu filme se transforme em um gigantesco sucesso...Oh, Daff...
         Havia uma expresso to triste e infantil em seus olhos que parecia que seu melhor amigo tinha morrido.
         Sua mente parecia no ter capacidade de perceber que ele a tinha matado, enquanto ela era tomada pela aflio.
         -Menina, no podemos comear de novo? 
         -No sei.
         Os olhos de Daphne pousaram no preservativo que tinha jogado sobre a cama; ele o agarrou e foi jog-lo no banheiro. Quando voltou, ficou olhando-a.
         -Possivelmente no me perdoar nunca. Mas eu juro que no tornarei a faz-lo nunca mais.
         -Como posso saber? No posso estar cuidando de voc como uma bab pelo resto de sua vida.
         Falava com um tom to fatigado e triste que Justin sorriu pela primeira vez desde que Daphne entrou no quarto.
         -Tomara o fizesse.
         -Mas eu quero voltar para New Hampshire para ver meu filho de novo. O que acontecer ento? Terei que passar trs dias atormentada pensando que anda por 
a se deitando com uma qualquer? 
         De repente, Daphne teve a impresso que afundava em um poo profundo, com uma sensao de solido indescritvel.
         Quem era Justin? E o que significava ela para ele? Amava-a realmente? Parecia difcil acreditar nisto agora.
         -Se quiser,eu a acompanharei.
         Mas, de repente, ela no estava certa de se era isso o que desejava.
         Queria que Justin conhecesse oAndrew, mas em New Hampshire havia algo mais.
         Ali estava Matt.
         E de repente no quis que Justin se ajuntasse a esta parte de sua vida, sobretudo agora.
         No confiava nele.
         No o suficiente para lhe apresentar ao Andrew.
         -No sei. Neste momento, no sei o que quero. Acredito que preferiria que voc  partisse.
         Entretanto, sabia que se Justin se fosse, no voltariam a reconciliar-se.
         Ele meneou a cabea lentamente e lhe segurou as mos.
         -No nos separemos ainda, por favor, Daff. Me  d uma oportunidade.
         Era como contemplar a um garotinho suplicando que lhe devolvessem seus brinquedosa; mas o que estava em jogo era algo mais importante que isto. 
         -Necessito de voc.
         -Por que? -Parecia estranho ouvi-lo dizer isto, pois Daphne supunha que era ela quem  necessitava dele. -Por que a mim e no a outra, como sua amiga de 
peitos grandes? 
         -Sabe quem ? Uma garonete de vinte e dois anos de Ohio, Daff. Isto  tudo o que . No  como voc. No h ningum como voc.
         Mas Daphne cerrou os olhos, assaltada por uma ligeira suspeita.
         -No  esta a moa com quem saa antes? Justin titubeou um instante e logo assentiu, afundando a cabea entre as mos de novo.
         -Sim. Ela soube  que tnhamos  um descanso e me telefonou.
         -Aqui? Como sabia onde estava? 
         A pergunta despertou o medo em seu corao; estava pego.
         Ou Justin lhe havia dito com antecedncia onde se encontrava ou ela tinha telefonado para ele.
         -Est bem, maldita seja! J que quer me condenar, eu lhe direi isto: eu a chamei.
         -Quando? Antes ou depois que eu parti?-Daphne saltou da cama e o encarou. -Diga-me francamente qual jogo esteve jogando.
         -Nenhum, maldita seja! No me separei de voc nem de dia nem de noite durante os ltimos trs meses. Sabe bem que no vi a ningum mais.
         Como poderia t-lo feito? Quando? Era certo.
         -Disse-me que era uma atriz.
         Isto era irrelevante, mas agora tudo tinha importncia.
         -E . Mas atualmente no tem trabalho, por isto trabalha como garonete. Daphne, por todos os diabos, esta garota no  ningum,  uma menina. Voc vale 
cinqenta mil vezes mais que ela e que qualquer outra mulher desta cidade. Eu sei disto. Mas sou humano. s vezes cometo alguma loucura. Como agora, confesso, e 
lamento na alma; mas no voltar a acontecer. Que mais posso lhe dizer? O que quer que faa para purgar meus pecados? Que corte meus testculos? 
         - uma possibilidade.
         Daphne se sentou na poltrona de novo e olhou em volta.
         De repente, detestou aquele quarto, a casa inteira.
         Justin a havia manchado enquanto ela estava ausente.
         Entao fixou o olhar nele.
         -No sei se poderei voltar a confiar em voc nunca mais.
         Justin sentou-se na beira da cama em frente a ela, tratando de conservar a calma.
         -Daphne, todos os casais passam por desgostos semelhantes. Em um momento ou outro, todo mundo se deita com outra pessoa. Possivelmente algum dia voc tambm 
o faa.
         Todos somos seres humanos, e em algum momento da vida, mostramo-nos fracos. Talvez  melhor que acontea agora, que se abra uma profunda ferida em nossos 
coraes, para poder cauteriz-la e que logo sejamos mais fortes. Tudo isto ter fortalecido os laos que nos unem e melhorar nossa relao, se voc quiser assim. 
Me d uma oportunidade.Prometo-lhe que no voltar a acontecer.
         -Que segurana posso ter? 
         -Eu lhe demonstrarei isto.E com o tempo voltar a confiar em mim.Sei o que sente, mas isso no deve significar o fim.- Justin estendeu o brao e lhe acariciou 
o rosto com os dedos.
         Ela se abrandou s durante uma frao de segundo, e ele, ao not-lo, atuou com rapidez e a atraiu para si. 
         -Eu te amo, Daff, mais do que nunca poder imaginar.
         Algum dia me casarei com voc.
         Para ele aquela era a declarao definitiva -o princpio e o fim-, mas Daphne ainda estava triste.
         -Esta  uma horrvel maneira de comear.
         Nunca lhe tinha ocorrido uma coisa semelhante, nem com Jeff nem com John.
         Possivelmente tinha feito mal em ocultar-se atrs de seus prprios muros.
         Justin adivinhou o que pensava.
         -No pode passar toda a vida vivendo pela metade, Daff. Tem que permanecer aqui fora como todos os outros; deve sofrer, cometer enganos, se armar de valor 
e voltar a comear. Caso contrrio, s  um ser humano pela metade, e isto no combina com voc. Voc  muito mais que isto. Sinto muito.
         Sinto mais do que possa imaginar.
         -Eu tambm.
         Mas no se mostrava to veemente como momentos antes.
         -Est disposta a me conceder uma trgua? Prometo que no se arrepender.
         Daphne no respondeu.
         -Eu te amo. Que mais posso dizer?
         No havia muito mais que dizer.
         No curso de uma hora e meia, Justin tinha dito tudo, que a amava, que tinha sido um estpido, que algum dia se casaria com ela.
         Era a primeira vez que o ouvia dizer, e agora Daphne o olhou com milhares de perguntas nos olhos.
         -Falava srio ao dizer que queria se casar? 
         -Sim. Nunca havia dito antes a ningum. Mas  que nunca conheci ningum como voc.
         Olhava-a com ternura, mas ela ainda se sentia como se lhe tivessem partido o corao.
         -Tampouco nunca conheceu meu filho.
         Aquilo no vinha ao caso; ou na realidade, talvez sim.
         -Vou conhecer. Possivelmente na prxima vez irei com voc.
         Daphne no respondeu, e ele a observou com ateno.
         No queria lhe recordar que estavam mais de uma hora atrasados para ir ao estudio.
         Justin sabia que era um louco, e compreendia tambm que tinha que fazer as pazes com ela antes que nenhuma outra coisa.
         No queria lhe dar mais tempo para pensar.
         -Temos uma vida por diante, meu amor. -Aquela idia a atemorizava. -Vai me outra oportunidade? Daphne o olhou indagadoramente nos olhos mas no respondeu, 
e Justin se inclinou sobre ela e a beijou docemente na boca, como tinha feito a primeira vez, quando se apaixonaram.
         -Eu te, Daff. Com todo meu corao.
         Ento, as lgrimas comearam a fluir de novo, e Daphne o abraou com fora, machucada ainda pelo que ele tinha feito durante sua ausncia.
         Justin a estreitou entre seus braos enquanto ela soluava, murmurando frases amorosas e reconfortantes e lhe acariciando os cabelos.
         Quando por fim ela deixou de chorar, Justin compreendeu que a tinha conquistado de novo.
         Daphne era incapaz de expressar o que sentia, mas ele sabia que com o tempo o perdoaria.
         Com um surdo suspiro, levantou-se.
         -Detesto diz-lo, menina, mas devemos ir trabalhar.
         Ela lanou um grunhido, pois nada podia estar mais longe de sua mente, mas compreendeu que Justin tinha razo.
         -Que horas so? 
         -Seis e quinze.
         Daphne exclamou: 
         -Howard ter um ataque.
         -Sim.-Justin sorriu por fim. - Mas como isto  inevitvel, aproveitemos a ocasio. E sem mais palavras, inclinou-se de novo sobre ela e comearam a fazer 
amor.
         Daphne quis protestar, pois no era isto o que tinha em mente, no depois do que ele fizera..., no to logo..., no ainda...
         Mas a destreza de Justin era superior  sua vontade, e ao fim de uns instantes, ele a penetrou, e Daphne proferiu um gemido de aflio e de gozo, compreendendo 
que era dela de novo.
         Talvez Justin tivesse razo, disse a si mesma depois; possivelmente todo mundo devia sofrer uma experincia semelhante.
         Talvez a dor os fortaleceria.
         Quando Justin e Daphne apareceram no estdio s oito e quinze, Howard estava a ponto de sofrer um ataque.
         Quando eles entraram, voltou-se para os olhar com olhos incrdulos.
         -No posso acreditar!...No posso acreditar! -exclamou, gritando cada vez com mais fora. Daphne se encolheu, mas Justin no se alterou. - Que demnios 
lhes aconteceu? No podem mover o traseiro da cama para trabalhar? Ningum se importa com uma merda de filme? Estamos com trs horas de atraso, e vocs chegam como 
se fossem a uma festa! Podem ir todos ao diabo! Agarrou um exemplar do roteiro e o jogou no cho com fria, enquanto Justin ia se trocar e Daphne procurava desesperadamente 
por Barbara.
         -Voc est bem? Barbara se sentou a seu lado, observando o rosto fatigado e os desolados olhos de Daphne, mas esta esquivou seu olhar e assentiu com a cabea.
         At agora devia esforar-se por conter as lgrimas.
         Entre as emoes e a falta de sonho, estava exausta e nervosa.
         -Estou bem. -Olhou para sua amiga com um sorriso cansado. - Tudo est bem.
         Ou pelo menos estaria.
         Barbara se deu conta de que Justin havia sabido lhe vender sua mercadoria.
         -Quer uma xcara de caf?
         -Sim, sempre e quando estiver certa de que Howard no ps arsnico em minha xcara.
         Barbara sorriu, sem deixar de observ-la.
         Detestou a aflio que viu em seu rosto, e detestou Justin por t-la provocado.
         -No se atormente, Daff. A metade do pessoal chegou tarde, por isto est to alterado. Parece que, depois de um descanso sempre demoram um par de dias para 
recuperar o ritmo normal.
         -Esta  uma apreciao muito modesta.
         Daphne sorriu francamente pela primeira vez desde que havia retornado. E foi a nica meno indireta que fez  desolao que reinava em sua prpria casa.
         Barbara lhe trouxe o caf, e Daphne comeou a reviver, mas entre o longo vo da noite passada, a falta de sonho e o trauma que lhe tinha provocado a discusso 
com o Justin, sentiu-se como um zumbi durante todo o dia.
         Terminaram de filmar s seis da tarde, e Justin a levou para casa e a ajudou a deitar-se.
         Levou-lhe uma xcara de ch e o jantar em uma bandeja.
         Ela teve a impresso de ser uma invlida, e sabia por que Justin o fazia, mas teve que admitir que no se importava.
         Entao    ele estava na cozinha, arrumando as coisas, quando Matthew ligou, e Daphne se deixou cair sobre o travesseiro soltando um suspiro.
         Era um alvio escutar sua voz.
         -Ol, Matt - saudou-o com um fio de voz, alegrando-se de que a porta do quarto estivesse fechada.
         -Deve ter tido um dia terrvel. Est falando como se estivesse descadeirada.
         -E estou.
         Mas Matthew sentiu logo que acontecera  algo mais.
         -Voc est bem? 
         -Mais ou menos.
         Debatia-se consigo mesma para no lhe contar o acontecido.
         No queria faz-lo.
         Nada tinha que ver com ele.
         E, no entanto, sentia necessidade de seu consolo, precisava saber que ainda existia algo slido, em algum lugar, embora fosse a cinco mil quilmetros de 
distncia.
         Ainda no confiava em Justin, por mais arrependido que ele se mostrasse.
         Em troca, tinha a segurana de que Matthew era seu amigo.
         -Como Andrew passou o dia? 
         -Bastante bem, considerando que voc partiu ontem. Que tal a viagem? 
         -Bem.Dormi.
         Por um instante, recordou os telefonemas de  Jeff quando ele tinha que ausentar-se por razes profissionais.
         Encontrava consolo nas trivialidades da vida cotidiana.
         Tudo parecia em uma escala menor a respeito do que lhe tinha acontecido, e isto era um alvio.
         O que acontecia em Califrnia era exagerado.
         Ficou calada, e no outro extremo da linha Matthew franziu o cenho, pois ao ouvir sua voz tinha compreendido imediatamente que algo grave acontecia.
         -Daff? O que aconteceu, pequena? -Ningum a tinha chamado assim desde a morte de John, e notou que os olhos se enchiam de lgrimas enquanto se debatia com 
as emoes das ltimas dezoito horas.- Posso ajudar em algo? 
         -Tomara pudesse. -Agora ele ouvia seus soluos.-  algo que aconteceu aqui..., enquanto estive ausente...
         -Seu amigo? Daphne assentiu com a cabea e o pranto afogou suas palavras.
         Era estpido chorar agora, disse a si mesma.
         Fizeram as pazes.
         Mas ainda estava doda.
         Tudo era to doloroso...
         E desejava contar ao Matt, como se seu reconfortante abrao pudesse remediar algo agora.
         -Quando cheguei, encontrei um desastre. -Matthew aguardou que ela continuasse falando.- Esteve com uma mulher aqui em casa. -Parecia chocante lhe falar 
disso, mas no lhe custava nenhum esforo.S sentia tristeza.-  uma longa histria, e agora ele est atormentado pelo arrependimento. Mas foi uma penosa volta ao 
lar.
         Daphne assoou o nariz, e Matthew sentiu que algo comeava a ferver em seu interior.
         -Ps a este canalha de quatro na rua? 
         -No. Quis faz-lo, mas... No sei, Matt. Acredito que est arrependido. Penso que perdeu a cabea devido  presso do excessivo trabalho destes trs meses 
passados.
         -E o que me diz de voc que esteve trabalhando mais arduamente que ele, j que primeiro escreveu o roteiro? Isto parece uma desculpa razovel ? 
         Matthew estava enfurecido como um demnio.
         E o tirava do srio o fato que ela tambm no estivesse, que ainda estivesse disposta a dar outra oportunidade ao canalha.
         -No. Nada me parece uma desculpa razovel, mas as coisas esto assim.Vou esperar para ver o que acontece agora.
         Matt sentia desejos de sacudi-la, mas sabia que no tinha nenhum direito.
         Alm disto, no queria machuc-la.
         Mas era irremedivel.
         Ela estava apaixonada por outro, e ele no tinha nenhum direito, era s seu amigo.
         -Acredita que este homem a merece, Daff? 
         -Agora sim. Esta manh no estava to segura.
         Matthew lamentou no ter telefonado antes, mas compreendia que isto no teria mudado as coisas.
         Daphne no estava disposta a renunciar ao amor de Justin Wakefield, e este era um adversrio formidvel.
         Qualquer um em s conscincia lhe teria dito que estava louco se esperava que ela o mandaria s favas.
         -No sei, Matt... -A voz de Daphne demonstava tanta tristeza e parecia to frgil que rasgava o corao de Matthew. -Eu...,perdi tanto no passado, Matt...-ele 
ouvia que estava chorando.
         -Ento no desvalorize o que teve aceitando isto.
         Daphne se surpreendeu de sua reao.
         -Voc no o compreende. Talvez ele tenha razo, as pessoas cometem enganos. Possivelmente os atores so diferentes. -agora Daphne chorava mais desconsoladamente. 
-Maldito seja, quantas vezes acredita que posso comear a viver de novo? 
         -Tantas quantas necessrio; tem garras para isto. No esquea.
         -Talvez esteja farta de ter garras. Talvez j se esgotaram.
         -No posso acreditar nisto.
         -Alm disso, estamos comprometidos. Ele o disse.
         -Comprometidos? Acaso ele levou isto em  conta quando voc estava aqui? 
         -Sei, Matt, sei. No tenho modos de o desculpar. -De repente se arrependia de ter lhe contado tudo.
         No queria defender Justin diante de ningum, e contudo, sentia que devia faz-lo. -Sei que no tem sentido, mas vou seguir adiante por um tempo.
         Soltando um suspiro, Daphne enxugou os olhos.
         -Est bem, Daff, eu a compreendo.Tem que fazer o que considera conveniente para voc. Mas no deixe que a machuque.
         Entretanto, Daphne j estava machucada, e depois de desligar, comeou a chorar de novo.
         Justin a encontrou estendida na cama, soluando com o rosto afundado no travesseiro, e nem ela mesma estava certa do porqu.
         Ainda estava atormentada pela outra garota, mas havia algo mais.
         De repente se sentia desesperadamente sozinha, sentia falta de Andrew e Matt, e queria voltar para junto deles.
         -Oh, menina, no chore..., tudo est bem...
         Mas no estava, e ela no se deixava enganar.
         Encolhida em seus braos, Daphne continuou soluando at adormecer com a cabea apoiada sobre seu peito.
         Justin apagou a luz e ficou contemplando-a enquanto dormia, enquanto se perguntava se tinha feito o correto.
         Amava aquela mulher mais do que tinha amado algum at aquele momento, mas no estava certo de poder adaptar-se ao modo de vida que ela exigia.
         Ele desejava isto, realmente desejava, mas sentia que o invadia uma onda de temor quando pensava no futuro.
         Daphne era to sria e se guiava por princpios morais to slidos, e tinha sofrido tanto!
         Ao contrrio, sua vida se fundamentava em outras coisas, na agitao, na relao com pessoas diferentes, em sua profisso e em divertir-se.
         Tambm sabia que no possua a integridade moral de Daphne para ser fiel a seu compromisso.
         E em New Hampshire, Matthew permanecia sentado na escurido, com o olhar fixo no fogo, pensando que era um imbecil e odiando Justin Wakefield com toda sua 
alma.
         Alm disso, perguntava-se se podia ter alguma esperana de ver realizados seus sonhos a respeito de Daphne.
         Durante o ms seguinte a filmagem de Apache andou sobre os trilhos, e tinham programado partir de volta de Wyoming em quatorze de julho.
         Howard tinha calculado que no teriam tempo de descansar quando retornassem a Los Angeles para filmar as cenas finais nos estdios de Hollywood.
         Para Daphne, isto significava que no disporia de tempo para ir ver Andrew, mas Matt assegurou-lhe que o menino estava bem, que alm disso estava entusiasmado 
pela sada para acampar, e que assim que ela voltasse de Jackson Hole, poderia viajar a New Hampshire.
         Daphne esteve to ocupada que nem sequer experimentou um sentimento de culpa por isto.
         Tinha que voltar a escrever muitas das cenas que se filmariam em Jackson Hole e,depois de passar todas as horas do dia no estdio, devia dedicar o resto 
do tempo aos acertos do roteiro, at altas horas da noite.
         Por sua parte, Justin se comportava maravilhosamente e lhe dava toda sua colaborao.
         Relia tudo o que ela escrevia, dizia-lhe o que estava bom e o que no estava e por que.
         Ensinava-lhe mais do que ela nunca tinha esperado aprender a respeito da maneira de escrever um roteiro e conseguir dar consistncia aos personagens.
         Todas as noites lhe fazia companhia, trazia-lhe sanduches e caf, fazia massagens no pescoo e ento se deitavam e faziam amor.
         Viviam quase sem dormir, mas Daphne nunca tinha sido to feliz em toda sua vida.
         Tinha estabelecido uma relao de trabalho com ele como nunca sonhou que pudesse acontecer, e agora ela se dizia que acertara ao continuar com ele depois 
do fiasco de junho.
         Inclusive Barbara teve que reconhecer que Justin se comportava como um anjinho, mas ela continuava desconfiando dele, como dizia a Tom quando estavam sozinhos.
         -Logo no primeiro momento teve antipatia por ele, Barb. Mas se mostra to carinhoso com ela, que mal pode haver nisto? 
         -Se foi capaz de fazer aquela canalhice uma vez, quer dizer que voltar a fazer. 
         -Talvez no. Talvez no. Possivelmente foi s um resqucio de sua antiga vida, antes   de conhecer Daphne. Pode ser que tenha aprendido a lio.
         Tom no tinha notado nada estranho nele quando o conheceu, e Barbara se mostrava to raivosamente contra Justin que ele tinha chegado a suspeitar que estava 
com cime de que algum pudesse ter tanto influncia em Daphne.
         As duas tinham estado to unidas durante sua vida solitria que possivelmente Barbara achava difcil resignar-se a ocupar um lugar secundrio em sua vida, 
mesmo que agora tivesse Tom.
         Ele na realidade no a entendia, mas sempre a ameaava a fechar o bico se apreciava seu trabalho.
         -Se gosta dela de verdade, Barb,  melhor no se intrometer.
         Tom suspeitava, como por fim parecia compreender a imprensa de Hollywood, que Justin e Daphne terminariam por casar-se.
         -Se o fizer, jogarei pedras em vez de arroz - grunhiu Brbara.- Este homem ser a desgraa dela. Eu sinto.
         -Est bem, vovozinha,tranqilize-se. Demnios,espero que se casem, assim ela ficar aqui.
         Este era agora um assunto freqente nas conversas deles.
         Tom queria que Barbara ficasse em Los Angeles e se casasse com ele, mas ela se negava a tomar uma deciso at que no tivesse concludo a filmagem de Apache.
         -Est bem, mas depois, meu amor, no aceitarei mais desculpas. J no somos jovens, e se acredita que estou disposto a esperar vinte anos mais para tornar 
a v-la, est louca. Quero me casar com voc e deix-la grvida, e sentada perto da piscina, gastando meu dinheiro durante os prximos cinqenta anos. O que acha 
disto, senhorita Jarvis? 
         -Muito bom para ser verdade.
         No entanto, tudo o que tinha vivido com ele tinha sido assim, desde o dia em que se encontraram na Gucci.
         Desde o comeo tinha sido uma histria de amor de romance.
         E fazia tempo que ele tinha feito a surpresa de lhe dar de presente a magnfica bolsa de pele de crocodilo negro que Tom adivinhou que ela gostara naquele 
primeiro dia.
         Logo tinham se seguido outros presentes: um relgio de ouro de Piaget; um lindo casaco de camura bege; dois braceletes de jade, e incontveis mimos que 
a enchiam de assombro.
         Barbara ainda no podia acreditar na boa sorte que tivera ao encontrar Tom, e constantemente ficava admirada ao  comprovar o quanto ele a amava.
         E ela correspondia na mesma medida.
         Quando Barbara partiu para Jackson Hole, tinha lgrimas nos olhos ao despedir-se de Tom, mas ele prometeu ir passar com ela todos os fins de semana enquanto 
durasse a filmagem de exteriores.
         Barbara,Daphne e Justin viajaram em um avio fretado, e o resto da equipe foi em nibus alugados pelo estdio. Uma vez instalados, a  filmagem adquiriu 
o tom  de umas
         frias de vero.
         Influenciadoss pelo romantismo do lugar, formaram-se casais entre os membros da equipe, que de noite formavam rodas de pessoas ao ar livre, contemplando 
as montanhas e entoando canes que recordavam de seus anos juvenis passados nos acampamentos.
         At Howard se suavizou.
         E floresceu o amor de Justin e Daphne.
         Aproveitavam os momentos de descanso para dar longos passeios, colher flores silvestres e fazer amor entre a grama alta.
         Tudo era como um sonho bonito, e todo mundo ficou triste quando terminou a filmagem e tiveram que retornar a Los Angeles.
         S Daphne lamentou menos que os outros, porque sabia que poderia ver Andrew, que ao final de poucos dias estaria voando para Boston de novo.
         Justin ainda no havia resolvido se a acompanharia ou no.
         Foi no dia anterior ao da viagem quando finalmente apareceu na porta de seu quarto, com uma expresso tensa no rosto, e se sentou na beira da cama.
         -No posso fazer isto, Daff.
         -No pode fazer o que? 
         -No posso ir a Boston com voc.
         Parecia desolado, e Daphne imediatamente foi assaltou pela desconfiana.
         -Por que no? Miss Ohio lhe telefonou? 
         Era a primeira vez em todo o vero que fazia referncia ao incidente, e Justin ficou esmagado.
         -No fique assim. J lhe disse isto. No voltar a acontecer nunca mais.
         -Ento por que no quer vir? 
         Ele lanou um suspiro e pareceu sentir-se desesperadamente desventurado.
         -No sei como lhe explicar isto sem parecer estpido. Ou possivelmente deveria aceitar o fato de que sou, mas... Daff..., uma escola cheia de crianas surdas... 
Eu..., sinto-me assim diante dos deficientes, dos cegos, dos surdos, dos invlidos... No posso suportar. Sinto-me fisicamente doente.
         Daphne se sentiu desanimada.
         Se isto era verdade, tinham um srio problema nas mos.
         Andrew era surdo.
         Isto era um fato que teria que aceitar.
         -Justin, Andrew no  um invlido.
         -Sei. E provavelmente me daria muito bem com ele..., mas todos eles... -Justin empalideceu, e Daphne percebeu que estava tremendo. -Reconheo que  absurdo 
que uma pessoa adulta se sinta assim, mas sempre me senti assim. Daphne, eu lamento.
         Seus olhos se encheram de lgrimas e abaixou a cabea.
         Agora,o que ela iria fazer? Mas ento teve uma idia.
         Justin e Andrew tinham que se conhecer.
         Era importante.
         Tudo fazia supor que sua relao com  Justin se prolongaria, e era necessrio que ele conhecesse Andrew.
         -Est bem, querido, olhe..., vou fazer com que venha para c.
         -Acha que poder fazer isto? A cor comeou a voltar para seu rosto, e uma expresso de alvio se refletiu nele.
         H vrios dias que temia falar isto para ela, mas estava certo de que no poderia suportar.
         -Claro. Telefonarei para Matthew e ele se encarregar de coloc-lo no avio. Fez isto na primavera passada, e Andrew ficou encantado.
         -Fantstico.
         Mas quando Daphne telefonou para Matt, ele lhe disse que Andrew tinha sofrido uma ligeira infeco em um ouvido na semana anterior e, portanto, no estava 
em condies de fazer a viagem at a Califrnia.
         Para Daphne, pois, no restava outra alternativa seno viajar para a costa do Atlntico e deixar Justin sozinho na Califrnia.
         Quando disse a ele, Daphne parecia aflita, e havia uma sombra de desconfiana em seus olhos.
         Perguntava-se se Justin no teria inventado aquela historia a respeito de suas apreenses a fim de ficar em Los Angeles e fazer das suas, como na vez passada; 
s de pensar queimava de raiva.
         -Daff, no faa esta cara. Nada vai acontecer desta vez. -Mas ela no respondeu.- Juro-lhe isto. Vou lhe telefonar cinco vezes por dia.
         -E depois disto? Miss Ohio lhe telefonar? -Daphne cuspiu as palavras mordazmente.
         Justin se mostrou verdadeiramente ferido.
         -No  justo que diga isto.
         -Tampouco foi fazer amor com ela em meu quarto.
         -Maldita seja, no podemos esquecer isto? 
         -No sei,Justin.Voc esqueceu?
         -Sim, na verdade esqueci. Desde ento passamos trs meses maravilhosos. E no sei o que voc sente, menina, mas eu nunca fui to feliz em toda minha vida.Por 
que se empenha em me jogar sempre esta porcaria na cara? 
         O caso era que ambos conheciam a resposta.
         Daphne ainda no confiava nele, e a iminente viagem a New Hampshire trazia dolorosamente  memria o que tinha acontecido quando ela se ausentou em junho.
         Ento Daphne soltou um suspiro e se afundou em uma poltrona, o olhando com olhos desconsolados.
         -Lamento, Justin. Realmente teria gostado que me acompanhasse. Isto resolveria o problema.
         Mas resolveria mesmo? S significaria  que ela poderia vigi-lo, mas no que podia confiar nele.
         -No posso acompanh-la, Daff. Simplesmente, no posso.
         -Ento no tenho outra alternativa que confiar em voc, no  mesmo? 
         Entretanto, de um golpe pareceu evaporar toda a felicidade que tiveram nos trs ltimos meses.
         -Voc no precisa se lamentar, Daff. Logo ver.
         Porm, ela tinha suas dvidas enquanto preparava as malas antes que ele a levasse ao aeroporto.
         Em New Hampshire as folhas comeavam a secar prematuramente, pois o frio tinha aparecido por um curto perodo.
         Daphne nunca tinha visto a campina to bonita como este ano.
         Ela e Matthew viajaram no carro em silencio por um momento, enquanto Daphne pensava em Justin, perguntando-se o que estaria fazendo, e se seria fiel a sua 
palavra.
         Matt notou que estava mais calada que de costume, e a olhou pelo canto do olho algumas vezes antes que ela se voltasse para ele com um sorriso.
         Inclusive em Wyoming a filmagem tinha sido exaustiva.
         Howard Stern trabalhava mais arduamente que qualquer outro diretor de Hollywood.
         -Como anda meu filme favorito? Matt temia perguntar por Justin.
         Ultimamente, poucas vezes Daphne falava dele, e Matthew no estava certo do que isto significava.
         Sabia que quando ela quisesse, lhe contaria.
         E ele esperava.
         Mas tambm tinha outras preocupaes.
         -O filme continua bem. Quase terminamos. Howard acredita que precisar de mais seis ou oito semanas de filmagem nos estdios, e ento teremos o gato no 
saco.
         Durante os ltimos nove meses, tinha aprendido toda a gria do meio.
         Matthew tratava de convencer-se que Daphne no estava diferente de quando a tinha conhecido.
         Mas, de uma maneira vaga, tinha a impresso de que tinha mudado.
         Havia nela um nervosismo, uma tenso, que no tinha percebido antes, como se sempre
         estivesse alerta, esperando algo.
         Perguntava-se se devia-se ao fato de viver com Justin, ou simplesmente por trabalhar no filme, ou possivelmente por estar longe de Andrew.
         Mas estava diferente de como tinha sido quando sua solitria vida girava em torno de seus livros.
         Mesmo ali parecia difcil de escapar dos efeitos da agitao, mas Matt se recordou
         que acabava de descer do avio.
         -Pensei que Andrew poderia ir para o Dia de Ao de Graas.
         Daphne j tinha tudo planejado.
         Prepararia um jantar tradicional em sua casa de Bel-Air, e queria que Barbara comparecesse com Tom e os filhos dele.
         Era algo que no fazia h dez anos, desde que perdera Jefrrey.
         Mas, por alguma razo, sentia que tinha chegado o momento de comear de novo.
         Os anos de solido tinham passado, para o bem ou para o mal, e queria levar uma vida normal com Justin.
         E tinha chegado o momento que ele conhecesse Andrew.
         Lamentava que no tivesse podido ser nesta ocasio.
         Mas enquanto olhava para Matthew sentiu que a assaltava um certo remorso.
         Dava-se conta de que as coisas eram diferentes para ele.
         -O que acontecer depois do Dia de Ao de Graas, Daff? -perguntou ele enquanto atravessavam os campos da Nova Inglaterra.
         Daphne ficou pensativa.
         -No saberia lhe dizer.
         Ainda no estava certa, mas supunha que ela e Justin se casariam, se no acontecesse nada desagradvel enquanto isto.
         De certo modo, aquela viagem era a prova definitiva.
         -Ficar morando l? Matthew examinou os olhos de Daphne.
         Necessitava de uma resposta.
         Tambm para ele tinha chegado o momento das decises.
         -Talvez. Nos prximos dois meses verei as coisas com mais clareza.
         Ento olhou para Matthew com ternura; devia-lhe uma explicao.
         Tinha-lhe contado o pior de sua relao e agora devia continuar com o resto.
         A deles era uma estranha amizade, platnica,entretanto sempre aflorava algo mais em seus sentimentos.
         -Neste vero, minha relao com o Justin se consolidou. Penso que possivelmente cometi um engano ao lhe contar o que aconteceu durante minha ausncia da 
vez passada.
         Justin no tinha reincidido, e aquele episdio obscurecia a opinio que Matthew  havia formado  sobre ele. Daphine estava certa disto.
         -No se preocupe - disse ele, sorrindo. - No contarei  imprensa.
         Daphne sorriu por sua vez.
         -Suponho que foi s um deslize. -Fechou os olhos e soltou um suspiro.- Mas, meu Deus, foi terrvel. Quando falei com voc, pensei que morreria.
         Matthew recordou sem fazer comentrio algum.
         -Sim..., sei. J foi ver a escola para Andrew? 
         -Ainda no. Vou me ocupar disto assim que terminemos o filme. Na realidade, no tive tempo de fazer nada. Sinto-me como se tivesse vivido em estado de animao 
suspensa durante meses.
         -Sim.-Matt sorriu de novo. -Conheo essa sensao. Acontece o mesmo comigo.
         Parecia estranho pensar que dentro de trs meses deixaria Howarth para voltar para a escola de New York.
         Era difcil recordar da poca em que no tinha estado em Howarth, uma poca em que ela no lhe telefonava, em que no era seu amigo.
         Desta vez havia algo triste entre eles que Daphne no conseguiu definir durante o tempo que durou a visita a Andrew.
         Via Matthew observando-a da janela de seu escritrio, eentao ele se voltava rapidamente de costas.
         S quando ele a levou de volta ao aeroporto que Daphne se animou a lhe perguntar:
         -Matthew, aconteceu algo grave? 
         -No, pequena, nada. Acabo de completar um ano mais. Penso que talvez me sinta velho.
         -O que lhe convm  voltar para New York.
         Sua irm lhe havia dito o mesmo, mas ela tinha mais fundamentos que Daphne, porque sabia que seu irmo estava apaixonado.
         -Talvez -respondeu ele, estranhamente esquivo.
         -Est muito sozinho em Howarth. O caso de Helen Curtis era diferente. Ela era uma mulher muito mais idosa, e no se importava de ficar fechada aqui completamente 
sozinha.
         -Voc tampouco se importava quando viveu aqui, apesar de ter a metade de sua idade.
         -Eu no estive sozinha todo o tempo que passei aqui.
         Como sempre, o tom de sua voz se tingiu com as lembranas felizes que conservava de John.
         -Tampouco eu estou todo o tempo.
         Era a primeira vez que Matt lhe dizia uma coisa semelhante.
         Daphne o olhou surpresa.
         Como ele conhecia tantas coisas ntimas de sua vida, no vacilou em lhe perguntar: 
         -Est saindo com algum, Matt? 
         Por alguma razo sempre parecera bvio que estava sozinho.
         E de repente ficou surpresa ao comprovar que havia coisas que ela no sabia.
         Por que ele no o havia dito? 
         -De vez em quando.
         -Nada srio? 
         Sem saber por que, estava incomodada, o que era ridculo, como disse a si mesma.
         Ela pensava em casar-se com Justin.
         Por que Matt no poderia ter uma mulher em sua vida? Afinal, ele era s seu amigo.
         -Poderia ser srio se eu quisesse respondeu ele, pensativo. -Mas no quis.
         -Por que no? Nos olhos azuis de Daphne s havia uma inocente simplicidade, e ele se voltou para ela, admirando-se como era to cega.
         -Por uma srie de tolas razes, Daphne. Muito tolas.
         -No deve ter medo. Eu tive. E estava errada.
         -Seriamente? Est to feliz assim agora? -perguntou ele com tristeza.
         -Nem sempre, mas algumas vezes. Possivelmente isto basta. Pelo menos, estou viva.
         -Como sabe que isto  o melhor? Acaso basta estar vivo? 
         -No se pode alcanar a perfeio, Matt.Eu me isolei do mundo depois da morte do John, porque achei que nunca mais poderia encontrar um amor semelhante, 
mas quem pode afirmar que sempre ser to feliz? Talvez at Jeffrey e eu tivssemos tido problemas ao final de um tempo. Para qualquer homem seria difcil agentar 
a minha carreira.
         Veja este ano, por exemplo. Como me teria arrumado se tivesse estado casada, em um casamento convencional?
         Aquela era uma pergunta que Daphne se fazia freqentemente.
         -Saberia resolver os problemas se quisesse, e se seu marido fosse um homem compreensivo. Alm disto, tampouco teria necessidade de escrever o roteiro.
         No havia recriminao em sua voz, mas parecia estar pensando em voz alta.
         -Entretanto, estou contente de t-lo feito.
         -Por que? Por causa de Justin? 
         -Em parte. Mas sobretudo porque aprendi muitas coisas.No acredito que volte a faz-lo. Tira-me muito tempo que poderia destinar aos meus livros, mas foi 
uma experincia maravilhosa. Estava certo ao me animar para ir para Hollywood.
         -Eu fiz isto? Matthew parecia assombrado.
         -Sim. -respondeu ela com um sorriso. -Na primeira vez que o conheci, e tambm a senhora Curtis me encorajou.
         Ele a olhou com uma expresso estranha.
         -Talvez ambos tenhamos sidos uns imbecis.
         -Por que diz isto? Daphne no compreendeu o que ele dizia. Possivelmente porque no queria compreender.
         -Por nada. Martha me diz que estou com algum parafuso afrouxando. Provavelmente tem razo.
         Trocaram um sorriso.
         -Ento me fale de sua nova amiga. Quem  ela? 
         Agora j podia lhe dizer. No havia nenhum mal nisto.
         -Uma professora da cidade. Veio do Texas, e  muito bonita e muito jovem. -Sorriu timidamente, pensando que era uma estranha amizade a que mantinha com 
Daphne. -Tem vinte e cinco anos, e francamente, isto me faz me sentir como um velho.
         -Tolice. Esta relao lhe faz bem. Diabos, aqui a nica coisa que se pode fazer  ler.No  estranho que aqui a todo mundo adore meus livros.
         -Ela tambm. Leu-os todos.
         Daphne pareceu achar divertido.
         -Como se chama? 
         -Harriet. Harriet Bateau.
         -Que nome extravagante! 
         -Ela, ao contrrio, absolutamente no , mas  uma boa garota, inteligente e com slidos valores morais.
         Ento Daphne o olhou com expresso que demonstrava sua curiosidade.
         -Acredita que se casar com ela, Matt? Era difcil imaginar que Matt j no estaria ali para responder as suas ligaes, mas compreendia que aquilo no 
podia durar eternamente.
         O que acontecera entre eles havia sido um fenmeno quando duas vidas solitrias se encontraram, tendo almas gmeas.
         Isto continuaria igual, mas a vida dela tinha mudado, e a dele estava mudando.
         Os telefonemas no poderiam continuar eternamente. Eles sabiam. E agora tinham que encarar aquela crua realidade.
         Entretanto, Matt meneou a cabea. Ele ainda no estava em condies de pensar em casamento.
         -Nem sequer pensei nisto. S samos algumas vezes.
         Havia algo mais que isto, mas interiormente ele se negava a reconhecer, embora soubesse como Harriet estava apaixonada por ele.
         Matthew no queria jogar com seus sentimentos, e suspeitava que ela sabia qual era a causa que o mantinha distante dela. s vezes se dizia que todo mundo 
sabia, exceto Daphne.
         Ela sorriu.
         -Bom, pois ento ficarei sabendo.
         -Certamente. E eu digo o mesmo.
         -Com respeito a Justin? Matt assentiu com a cabea.
         -Eu lhe direi.
         Matthew no tirou os olhos dela enquanto aguardavam que ela tomasse o avio.
         -Se cuide, pequena.
         Mais que em nenhum outro momento, desta vez suas palavras adquiriram a conotao de uma frase de despedida.
         Daphne estendeu os braos e o apertou afetuosamente, e ele a abraou, por sua vez, tratando de no se deixar levar por sua paixo, e em seu ntimo, lhe 
desejando sorte.
         -Tratarei de mandar Andrew para o Dia de Ao de Graas.
         -Vou telefonar muito antes que chegue este momento.
         Mas ele no estava muito certo disto, e quando a saudou com a mo pela ltima vez, teve que voltar-se de costas para que ela no pudesse ver que seus olhos 
se enchiam de lgrimas ao v-la partir.
         Quando Daphne desceu do avio em Los Angeles, encontrou Justin esperando-a na sada, e ele tomou entre seus braos com alvoroo.
         Quatro pessoas o reconheceram antes que chegassem  limusine, mas como de costume Justin negou que fosse ele, e Daphne se acomodou rindo junto a seu amado 
no assento traseiro.
         Justin parecia extasiado por v-la, e quando chegaram a casa, ela encontrou tudo limpo e em ordem, e ele se mostrou muito orgulhoso de si mesmo.
         -Viu? J lhe disse que tinha mudado.
         -Peo-lhe desculpas por todos meus maus pensamentos.
         Daphne estava radiante.
         Talvez, depois de tudo, amava-a realmente.
         Invadiu-a uma sensao de alvio como uma onda de gua fresca.
         Agora podia ficar tranqila e confiar nele.
         Daphne o adorava, e tudo estava como devia estar, mas ele a olhou com uma expresso grave nos olhos.
         -No, Daphne.
         Sou eu quem deve lhe pedir perdo por meu passado desastroso.
         -No diga isto, querido..., tudo est bem.
         Beijou-o docemente na boca, e ele a levantou em braos e a colocou sobre a cama.
         Ento fizeram amor at de madrugada sem sequer ter voltado ao carro para descarregar sua bagagem nem apagar as luzes da sala de estar.
         Na manh seguinte, o filme voltou a tomar o ritmo habitual, e as nove semanas seguintes passaram voando como por arte de magia.
         Daphne no teve um minuto para telefonar a Matthew, e mais tarde se mostrou relutante em ligar.
         Comeava a ter a sensao de que abrir o corao para Matt era como trair a Justin.
         Este parecia no dar importncia, e nunca prestava ateno quando ela telefonava,mas apesar de tudo no achava correto, e vrias vezes, quando ligou, Matt 
no se
         encontrava na escola.
         Ela sups, acertadamente, que estava com  Harriet Bateau.
         No correr da primeira semana de novembro colocaram a ltima cena de Apache no saco, como diziam os da equipe, e quando Justin abandonou o cenrio pela ltima 
vez, havia lgrimas nos olhos de todos os presentes.
         Houve muitos beijos e abraos, e Howard abraou Daphne com carinho.
         O champanhe rolou, e todos se despediram uns de outros com pesar, sentindo-se como almas perdidas.
         Era-lhes impossvel imaginar o que fariam agora que tinha terminado a filmagem de Apache.
         Tinha levado sete meses para filmar, e durante este tempo se transformaram em irmos e amantes.
         Agora tinha acabado tudo, e a sensao de perda era entristecedora.
         Para Howard e o pessoal tcnico, ainda ficava uma enorme tarefa para realizar.
         Passariam meses cortando, selecionando e montando as cenas, e tambm tomaria muito tempo para adaptar a msica e elaborar a trilha sonora.
         Entretanto, para Daphne e os atores tudo tinha terminado, o sonho tinha chegado a seu fim, um sonho que em alguns momentos tinha parecido um pesadelo; mas 
agora as penas e pesares eram relegados ao esquecimento.
         Igual a um parto, tudo parecia muito impreciso na lembrana, exceto a exploso final de alegria, e na festa de encerramento, que aconteceu no dia seguinte 
todos se embriagaram ruidosamente, e o desenfreio foi geral.
         Ningum tinha que se preocupar em chegar s cinco da madrugada ao estdio nem deviam temer que Howard gritasse com eles.
         Tudo tinha terminado.
         Finito.
         Daphne, com uma taa de champanhe na mo e olhando para Justin com olhos radiantes,escutou as palavras de despedida de Howard e as lgrimas correram por 
seu rosto.
         - um filme lindo, Daff. Voc adorar.
         Ela j tinha visto as provas de laboratrio com regularidade, mas tinha que reconhecer que experimentaria a maior emoo de sua vida quando visse o filme 
terminado.
         Agora olhava para Justin cheia de felicidade.
         -Teve uma atuao formidvel. 
         Em todos lugares, em todos os cantos, os membros do elenco se felicitavam e se beijavam uns aos outros.
         Eram trs da madrugada quando comearam a se dirigir para suas casas.
         Na manh seguinte, Daphne se encontrava em seu estdio com Barbara e se sentia perdida e um pouco triste.
         -Est acontecendo a mesma coisa ao Justin, sabe? -disse-lhe com um sorriso.- Agora no sei o que fazer.
         -J pensar em algo. -Barbara lhe devolveu o sorriso. -Por no falar do novo livro.
         Dispunha de trs meses para escrev-lo, e depois do Dia de Ao de Graas tinha que comear a trabalhar firme.-Quando Andrew vir? 
         -Na vspera do Dia de Ao de Graas. E isto me lembra que voc, Tom e os meninos esto convidados - acrescentou, entregando-lhe uma lista.
         Olhou para Barbara, repentinamente preocupada.
         Sabia que Barbara no tinha feito realmente as pazes com Justin, e temia que no ltimo momento decidisse no comparecer ao jantar.
         -No perderamos isto por nada do mundo.
         -Magnfico.
         Daphne e Justin passaram a semana seguinte fazendo tudo aquilo que o pessoal de cinema est acostumado a fazer quando no esto trabalhando.
         Jogaram tnis, compareceram a algumas festas, jantaram no La Maison, no The Bistro e no Morton'S.
         Os jornais se ocuparam deles vrias vezes; seu romance tinha deixado de ser um segredo, e Daphne era feliz e estava tranqila.
         Justin parecia tornar-se cada vez mais jovem.
         Quatro dias antes da chegada de Andrew lia o jornal da manh quando de repente olhou para Daphne sorrindo.
         -Sabe de uma coisa? Est nevando nas Montanhas.
         -Acha que devo pular de alegria por isto? -perguntou divertida.
         Algumas vezes, Justin ainda parecia uma criana.
         -Diabos, claro que sim, menina!  a primeira neve do ano. O que lhe parece se formos esquiar esta semana? 
         -Justin... -Em momentos como aquele ela lhe falava como se fosse uma me extremamente paciente. - Lamento lhe recordar, meu amor, que a prxima quinta-feira 
 o Dia de Ao de Graas, e vamos ter para jantar com a Barbara, o Tom e os meninos, e Andrew.
         -Diga-lhes que cancelamos o jantar.
         -No posso fazer isto.
         -Por que no? 
         -Porque, em primeiro lugar, Andrew chega na quarta-feira, e esta ser uma ocasio muito especial para ele. Vamos, querido, isto  muito importante para 
mim. Faz dez anos que no celebro o Dia de Ao de Graas de uma maneira verdadeiramente caseira.
         -Celebraremos no ano que vem -disse Justin, adotando um ar mal-humorado.
         -Justin, por favor...
         Daphne o olhou com olhos implorantes, e ele jogou o jornal e ficou em p.
         -Oh, merda! A quem importa o jantar do Dia de Ao de Graas? Isto  para os pastores e suas esposas.Trata-se da neve mais formidvel que houve no Tahoe 
em trinta anos, e voc quer ficar aqui para comer peru com um bando de meninos.
         -Diabos! E isto  realmente to terrvel? Daphne se sentia ferida por suas palavras.
         Ele a olhou de sua extraordinria altura.
         - extremamente burgus.
         Ela riu ao ouvir aquela expresso e segurou suas mos entre as suas.
         -Perdoe-me por ser to aborrecida. Mas esta  uma ocasio realmente importante para todos ns. Sobretudo para o Andrew e para mim.
         -Est bem, est bem. Rendo-me.  evidente que serei derrotado, porque as pessoas normais so maioria.
         Ento a beijou e no voltou a mencionar a neve.
         Ela prometeu que assim que Andrew retornasse  escola, iriam esquiar, mesmo que isto significasse que devia adiar a entrega do livro.
         Justin demoraria vrios meses para comear um novo filme, de modo que teriam tempo de sobra para ir esquiar.
         E Andrew s ficaria com eles uma semana.
         Mas na tera-feira de noite, quando estavam deitados, Justin se voltou para ela e a beijou, e Daphne adivinhou que estava inquieto e nervoso.
         Era evidente que queria lhe dizer alguma coisa que o incomodava.
         -O que est acontecendo, amor? -Ela suspeitou que ele queria perguntar algo a respeito do Andrew.
         Sabia que ainda estava atormentado por sua surdez.
         Ela tinha tratado de tranqiliz-lo dizendo que agora no havia nenhum inconveniente para entender-se com Andrew e que ela estaria presente para ajudar. 
-O que  que lhe atormenta? Justin se levantou e a olhou com um sorriso tmido.
         -Voc me conhece perfeitamente bem, Daff.
         -Eu tento. -Mas no o conhecia. Uma grande surpresa a aguardava. -E ento? 
         -Vou ao Tahoe pela manh. No posso resistir, Daff. E para ser sincero, realmente preciso sair.
         -Agora? -Daphne o olhou fixamente e se levantou.
         Justin no estava brincando.
         Ela no podia acreditar.
         -Fala a srio? 
         -Sim. Supus que entenderia.
         -O que  que te fez supor? 
         -Bom..., olhe..., vou ser franco. Os jantares familiares com peru no so para mim. A ltima vez que participei desta comdia estava na escola secundria, 
e agora  muito tarde para comear de novo.
         -E o que me diz de Andrew? No posso acreditar que faa isto.
         Daphne se levantou da cama e comeou a passear pelo quarto, debatendo-se entre a incredulidade e a fria.
         -Qual  o grande problema? Eu o conhecerei no Natal.
         -Seriamente? Ou tambm ir esquiar tambm?
         -Depende de como esteja a neve.
         Daphne o olhou sem poder acreditar em seus ouvidos.
         O homem que tinha fingindo am-la durante os ltimos oito meses, e que finalmente tinha conseguido convenc-la de sua sinceridade, apesar de um deslize, 
agora resolvia ir esquiar em vez de ficar em casa para celebrar o Dia de Ao de Graas e conhecer seu filho.
         O que havia em sua cabea, ou em seu corao? De novo teve que se perguntar quem realmente era aquele homem.
         -D-se conta de isto  importante para mim? 
         -Eu acredito que  uma estupidez.
         Nem sequer parecia lamentar.
         Estava completamente convencido do que se dispunha a fazer, e uma vez mais Daphne se lembrou de Howard quando ele lhe advertiu que os atores eram todos 
crianas egostas.
         Estivera certo em tudo; possivelmente tambm estava a respeito disto.
         -No  uma estupidez, maldita seja! E voc  quem quer casar-se comigo um dia destes e nem sequer se d ao trabalho de conhecer meu nico filho. No se 
incomodou em me acompanhar a New Hampshire em setembro, e agora isto.
         Daphne o olhava com um espanto furioso, mas sob a raiva sentia-se profundamente ferida.
         Justin no desejava as mesmas coisas que ela queria da vida, mas o mais grave era que no queria Andrew.
         Agora Daphne estava certa, e isto mudava tudo entre eless.
         -Preciso de tempo para pensar, Daff - disse Justin, repentinamente muito calmo.
         -A respeito do que? 
         Ela estava assombrada.Era a primeira vez que ele dizia algo semelhante.
         -De ns.
         -Est acontecendo alguma coisa grave? 
         -No. Mas se trata de um enorme compromisso. Nunca estive casado, e antes de me prender para toda a vida, quero tirar um pouco de tempo e ficar sozinho.
         -Bem, seu senso da oportunidade me enoja.No poderia esperar at a semana que vem? 
         -No creio.
         -Por que no? 
         -Porque no estou certo de estar preparado para conhecer seu filho.-Era doloroso, mas tinha sido sincero.- No sei o que dizer a um menisno surdo.
         -Comea-se por lhe dizer "ol".
         Os olhos do Daphne demonstravam frieza e dor, e havia neles um vazio profundo.
         Estava farta de suas reaes neurticas a respeito de Andrew.
         Talvez Andrew no fosse mais que uma desculpa.
         Possivelmente, na realidade no queria a ela.
         Possivelmente no queria a ningum em sua vida exceto as garonetes e estrelas de cinema.
         Talvez isto fosse tudo o que pretendia da vida.
         De repente diminua-se diante de seus olhos em um ritmo assombroso, como um globo com um buraco do tamanho de um punho.
         -Simplesmente, no sei como falar com seu filho. Vi pessoas assim, e me deixam nervoso.
         -Andrew l os lbios e fala.
         -Mas no como um ser humano normal.
         De repente, Daphne o odiou pelo que estava dizendo.
         Voltou-se de costas para ele e olhou pela janela.
         Agora s podia pensar no Andrew.
         No precisava daquele homem para nada.
         Precisava de seu filho e de ningum mais.
         Voltou-se de frente para Justin.
         -Est bem, no se preocupe. V.
         -Sabia que compreenderia.
         Justin parecia muito contente, e ela balanou a cabea sem sair de seu assombro.
         No compreendia nada do que ela sentia.
         Nem a frustrao, nem a dor, nem o dio que tinha provocado nela.
         Ento, bruscamente, uma dvida assaltou Daphne.
         -Quando fez estes planos? 
         Enfim ele pareceu desconcertado, mas no muito.
         -Faz uns dois dias.
         Daphne o olhou fixamente por uns instantes.
         -E no me disse nada? -Ele negou com a cabea. -  repugnante.
         Saiu do quarto batendo a porta e nesta noite dormiu no quarto de Barbara, pois ela tinha ido morar com o Tom, e vinha todos os dias, como fazia em New York.
         Na manh seguinte, Daphne se levantou quando ouviu que Justin preparava o caf da manh, e o encontrou na cozinha completamente vestido.
         Ficou olhando-o fixamente enquanto ele enchia uma xcara de caf para cada um.
         Parecia tranqilo e contente, e Daphne o olhou sem esconder sua perplexidade.
         -Ainda no posso acreditar que seja capaz de fazer uma coisa como esta.
         -No faa disto um drama, Daff. No tem tanta importncia.
         -Para mim tem.
         Daphne sabia que tambm para os outros teria.
         Como ela iria explicar seu desaparecimento? Diria que como ele se chateava com o Dia de Ao de Graas tinha ido esquiar? Por um momento, alegrou-se por 
no ter dito
         nada ao Andrew sobre ele.
         Tinha pensado em ter uma conversa com ele no caminho do aeroporto.
         Mas agora poderia poup-lo 
         Seu encontro teria que esperar at o Natal, se e quando Justin no realizasse outro nmero de desaparecimento.
         Comeava a duvidar dele, e enquanto observava como devorava os ovos com torrada, foi tomada por um pensamento desagradvel.
         -Voc vai sozinho? 
         -Esta  uma pergunta estranha - respondeu, sem levantar a vista do prato.
         -Ento  pertinente, Justin. Voc  um homem estranho.
         Ele levantou os olhos e descobriu algo em seus olhos que no o agradou.
         Daphne no s o olhava com raiva, mas tambm estava plida.
         E estava pensando o que podia jogar em sua cara.
         Sobressaltou-se ao se dar conta disto.
         Mas do que nunca se deu conta de quo profundamente ele a tinha machucado.
         Ao repelir ao Andrew, tinha repelido a ela.
         De fato, era pior ainda, mas ele no compreendeu isto.
         -Sim, vou sozinho. J lhe disse isto, preciso de tempo para pensar l nas montanhas.
         -Eu tambm necessito de tempo para pensar.
         -Sobre o que? -perguntou ele, surpreso.
         -Sobre voc. -Daphne soltou um suspiro. -Se no est disposto a fazer um esforo para conhecer o Andrew, isto no se resolver.
         Para no mencionar o fato de que se ele resolvesse partir e fazer o que tivesse vontade, quando quisesse, ela tampouco aceitaria.
         At o momento no tivera oportunidade de descobrir este lado de sua personalidade.
         Tinham estado muito ocupados com o filme.
         Mas agora apareciam traos que at ento tinham estado ocultos.
         Comeava a suspeitar que no seria possvel toler-los se vivesse com ele.
         s vezes, desaparecia durante horas interminveis, nunca voltava na hora combinada, e com toda displicncia dizia que era a nica maneira de neutralizar 
a tenso que experimentava quando estava submetido  presso do trabalho.
         Daphne tinha tentado justific-lo para si mesma, mas de repente no estava disposta a continuar fazendo isto.
         Justin tentou beij-la ao se despedir, mas ela virou o rosto e entrou em casa.
         Quando Barbara chegou, encontrou Daphne no estdio, perdida em seus pensamentos.
         Parecia estar a um milho de quilmetros de distncia, e Barbara teve que lhe falar duas vezes antes que a ouvisse.
         -Acabo de escolher o peru.  a maior ave que j vi.
         Sorriu, mas no teve nenhuma resposta; ento Daphne pareceu fazer um enorme esforo para voltar ao presente.
         -Ol, Barb.
         -Parece distante.J pensando no novo livro? 
         -Mais ou menos.
         Entretanto, fazia muito tempo que Barbara no a encontrava perdida naquele estado de transe.
         -Onde est Justin? 
         -Saiu.
         Ainda no teve a coragem de lhe contar mas decidiu que devia faz-lo antes de ir ao aeroporto para esperar Andrew.
         No podia continuar eternamente com aquele jogo.
         E por que tinha que se calar? Ele no merecia que ela o fizesse parecer bom aos olhos dos outros.
         -Barb, Justin no estar no jantar do Dia de Ao de Graas. -disse com ar carregado.
         -No? -Barbara parecia no ter compreendido. - Vocs brigaram? 
         -Mais ou menos. Mas s depois que me disse que ia esquiar durante toda a semana em vez de ficar para o Dia de Ao de Graas.
         -Est brincando? 
         -No. E no quero falar disto.
         A expresso de seu rosto foi  suficientemente eloqente para que Barbara
         compreendesse que falava srio.E Daphne se fechou em seu estdio at na hora de ir ao aeroporto.
         Ento, foi sozinha no carro, com uma expresso fechada no rosto.
         Estacionou o veculo e se dirigiu  porta de desembarque, sem poder tirar da cabea o comportamento de Justin.
         Ele tinha partido tranqilamente, para fazer o que gostava, sem se importar nada com os sentimentos dela.
         Continuava dando voltas ao assunto na cabea uma e outra vez quando anunciaram a chegada do vo de Andrew.
         Mas assim que o avio taxiou at a porta, todos os pensamentos relacionados com Justin sumiram.
         Foi como se de repente ele tivesse deixado de existir, e tudo adquiria de novo a devida proporo.
         Andrew era o nico que importava.
         Sentiu que seu corao acelerava enquanto os passageiros comeavam a sair do aparelho, e ento o viu aparecer entre a multido, segurando a mo da aeromoa.
         Por um instante, sentiu-se to emocionada que no podia se mover.
         Aquele era o menino que Justin tinha rejeitado.
         Aquele era o menino em torno do qual ela tinha construdo toda sua vida.
         Comeou a caminhar para ele; nenhum obstculo poderia det-la.
         Andrew a viu aproximar-se, liberou-se da mo da aeromoa e se precipitou nos braos de sua me, emitindo aquele gemido que demonstrava sua enorme alegria.
         Daphne teve a sensao de morrer de emoo.
         Andrew era tudo o que restava de toda uma vida de perdas, e na verdade era o nico ser humano que verdadeiramente a amava.
         Daphne se agarrou a ele como se fosse um bote salva-vidas no meio da multido, e
         quando o menino a olhou viu que as lgrimas deslizavam por seu rosto at seus lbios sorridentes.
         -Que alegria sinto por tornar a lhe ver! -disse-lhe movendo os lbios muito devagar.
         O menino sorriu.
         -Ainda ser melhor quando voc voltar para casa.
         -Muito melhor - disse ela.
         Daphne pensou que isto poderia ocorrer antes do que tinha planejado.
         Foram recolher a bagagem, com as mos agarradas, e ela parecia ter medo de  solt-lo, mesmo que  por um instante.
         Enquanto se dirigiam para casa no carro, Andrew no se cansava de lhe contar coisas; at mencionou casualmente a nova amiga de Matthew, o que, por alguma 
razo, deixou Daphne sem voz.
         Ela no queria ouvir falar disto agora.
         -Ela vem na escola para v-lo todos os  domingos.  muito bonita, e ri muito.  ruiva, e nos traz caramelos.
         Daphne queria alegrar-se por Matthew, mas algo a impedia.
         No fez nenhum comentrio em toda a viagem, e a conversa passou para outros assuntos.
         Quando chegaram em casa no pararam um minuto; nadaram na piscina, conversaram e jogaram cartas, e Daphne comeou a sentir que retornava ao mundo dos vivos.
         Assaram um frango na churrasqueira do ptio dos fundos, e finalmente Daphne o levou para a cama.
         Andrew no parava de bocejar, e logo mal podia manter os olhos abertos, mas olhou para sua me com expresso interrogadora antes que ela apagasse a luz.
         -Mame, mora mais algum nesta casa? 
         -No. Por que? Tia Barbara morava aqui comigo.
         -Estou pensando em um homem.
         -O que o faz pensar isto? O corao de Daphne deu um salto.
         -Vi roupa de homem em seu armrio.
         -So objetos dos donos da casa.
         O menino concordou, aparentemente satisfeito com a resposta, e ento perguntou: 
         -Est zangada com o Matt? 
         - obvio que no -respondeu ela, surpresa. -Como chegou a pensar isto? 
         Os olhos do menino examinaram seu rosto.
         Andrew era uma criana muito observadora.
         Tinha oito anos completos, j no era um garotinho.
         -Parecia que estava zangada quando falei de sua amiga.
         -No seja bobo. Matthew  uma boa pessoa, e merece encontrar uma boa mulher.
         -Acredito que gosta de voc.
         -Somos bons amigos.
         Mas repentinamente sentiu que morria de vontade de lhe perguntar o que o fazia pensar isto.
         Como se tivesse lido seus pensamentos, Andrew disse sonolentamente, por gestos:
         -Sempre fala de voc e quando voc telefona fica muito contente. Mais contente ainda que quando Harriet vem v-lo aos domingos.
         -Isto  uma tolice. -Daphne sorriu, tirando importncia de suas palavras, mas no fundo de seu corao se sentiu lisonjeada. - Vamos, agora trate de dormir, 
querido. Amanh ser um grande dia para ns.
         O menino concordou com um gesto e seus olhos se fecharam antes que Daphne apagasse a luz.
         Logo ela foi para seu quarto, pensando em Matthew.
         Ento se deu conta de que ainda tinha que lhe telefonar para dizer que Andrew havia chegado bem.
         Como de costume, quase imediatamente respondeu pela linha privada.
         -Como est nosso amiguinho? So e salvo? 
         -Sim. E bem chegado a fantasiar.
         -Isto no  nenhuma novidade. -replicou Matthew, sorrindo.-  exatamente como sua me. E como est voc? 
         -Bem.Estamos nos preparando para celebrar o Dia de Ao de Graas.
         A conversa agora passou para um tom mais impessoal.
         As coisas tinham mudado com o aparecimento de Justin e de Harriet Bateau, sobretudo ultimamente.
         -Est preparando um jantar caseiro com um grande peru? 
         -Isto mesmo.
         Houve um certo vacilo em sua voz, mas Daphne resolveu no lhe dizer nada.
         Era problema dela que Justin partiu, e possivelmente j no importava que no quisesse se relacionar com Andrew.
         Mas ela no queria comprometer Matthew em sua deciso.
         Estava comeando a pensar em regressar para New York.
         -E voc, o que vai fazer, Matt? 
         -Ficarei aqui.
         -No vai passar o dia com sua irm? 
         -No quero deixar os meninos.
         E Harriet? Mas no se atreveu a perguntar. Se quisesse que ela soubesse, j lhe diria.
         Entretanto, no disse nada.
         -Vir a New York um destes dias, Daff? -perguntou ele com o tom de antes, com aquela natural amabilidade e um tom que demonstrava sua solido.
         Daphne soltou um suspiro.
         -No sei. Estive pensando muito nisto. -Tinha chegado o momento de tomar algumas decises, e ela sabia. - Na prxima semana levarei Andrew para visitar 
a escola de Los Angeles.
         Pelo menos isto era o que tinha planejado.
         Mas isso tinha sido antes que Justin tivesse partido para Tahoe.
         -Voc gostar. uma escola extraordinria.-Apesar de tudo, havia uma nota de tristeza em sua voz.- Aqui todo mundo se sentir muito perdido.
         -De qualquer maneira, voc tem que ir,  no  verdade, Matt? 
         -No estou muito certo - respondeu ele vagamente.
         Ento ia ficar em New Hampshire? Afinal,era sria sua relao com Harriet Bateau? Daphne sentiu uma sensao de vazio ao compreender que este, provavelmente, 
era
         o caso.
         O que Andrew poderia saber sobre isto? Ele s tinha oito anos.
         Talvez Matthew estivesse pensando em casar-se.
         -Ento, voc me dir o que vai fazer.
         -Voc tambm.
         Ento lhe desejou um feliz Dia de Ao de Graas e, tentando no pensar em Justin, foi para a cama.
         O telefone tocou  meia-noite e a despertou.
         Era Justin, comodamente instalado no Squaw Valley, disse ele, mas no lugar onde se hospedava no tinha telefone.
         Comeou a lhe falar da neve e do muito que a sentia falta dela, e ento, de repente,no meio da conversa, disse-lhe que estava congelando na cabine telefnica, 
que
         ficava ao ar livre, e que tinha que desligar.
         Daphne se levantou da cama, com o olhar fixo no telefone, perdida na confuso por aquela chamada.
         Por que ele tinha telefonado quela hora? E se estava congelando, por que havia se  mostrado to falante no comeo ? 
         Pensando que no compreendia nada do que Justin fazia, e fazendo um esforo para tir-lo da cabea de novo, voltou a dormir.
         Curiosamente, nessa noite sonhou com Matthew.
         Graas a Barbara e a Alex, a filha do Tom, o jantar do Dia de Ao de Graas ficou  melhor do que Daphne pensava.
         As trs mulheres trabalharam bastante, juntas na cozinha, conversando e rindo, e Tom e os dois meninos entretiveram-se fazendo rodar com golpes suaves umas 
bolas de golfe na grama.
         Tom estava admirado com a inteligncia de  Andrew e com seu senso de humor, apesar de sua deficiente maneira de falar.
         Quando Daphne disse a orao de graas antes de jantar, fez com mais ardor do que tinha sentido em muitos anos.
         Todos engoliram toneladas de comida e, depois de jantar, sentaram-se diante do fogo.
         A troupe Harrington lamentou ter que ir-se quando chegou a hora.
         Os dois adolescentes beijaram Daphne e abraaram Andrew, que prometeu que iria tomar banho em sua piscina no dia seguinte, e assim o fizeram.
         Foi um fim de semana tranqilo, alegre, e mesmo sentindo falta de Justin, Daphne se sentiu completamente feliz.
         Na noite anterior  partida de Andrew, Justin telefonou para saber como foram as coisas, mas de novo desligou subitamente, diante do assombro de Daphne.
         No compreendia por que a tinha chamado, para desligar ao final de uns minutos.
         Aquilo no tinha sentido, pelo menos no  tinha para ela, mas ficou pensando nisto depois que Andrew se deitou, e de repente acreditou entender o acontecido.
         Era como se algum se aproximasse de Justin, e ele tivesse desligado antes de ser descoberto.
         De repente, viu tudo claro, e se sentou na cama com o rosto plido. Demorou horas para dormir.
         Pela manh esteve ocupada com os preparativos da viagem de Andrew.
         Levou-o para tomar o avio,e  logo telefonou para Matt para lhe avisar e retornou para casa.
         Durante os trs dias seguintes tratou de concentrar-se no livro que devia escrever, mas no estava inspirada.
         No podia pensar em outra coisa que no o Justin.
         Ele chegou ao redor das duas da madrugada.
         Abriu a porta de entrada com sua chave, deixou os esquis apoiados na parede do vestbulo e ento entrou no quarto.
         Esperava que Daphne estivesse adormecida, e ficou surpreso quando a viu sentada na cama com um livro na mo.
         Ela levantou a vista sem pronunciar uma s palavra e o olhou de cima em baixo.
         -Ol, menina, o que faz acordada? 
         -Estava lhe esperando - respondeu ela com tom glido.
         -Que bem! Seu filho se foi sem problemas?
         -Sim, obrigado. E seu nome  Andrew.
         -Oh, cus! 
         Justin imaginou o que lhe estava preparado: outro sermo sobre o Dia de Ao de Graas.
         Mas estava equivocado.
         Daphne tinha outras coisas em mente.
         -Com quem esteve em Squaw Valley? 
         -Com uma montanha de pessoas que no conhecia.
         Justin se sentou e tirou as botas.
         Depois de dirigir durante doze horas no estava de humor para responder a seu interrogatrio.
         -No poderamos deixar para amanh? 
         -No. No acredito que possamos.
         -Bom, eu vou dormir.
         -Ah, sim? Onde? 
         -Aqui. A ltima notcia que tive  que morava aqui. -Olhou fixamente para Daphne do outro extremo do quarto. -Ou acaso meu domiclio foi trocado? 
         -Ainda no, mas me parece que isto pode acontecer se no responder algumas pergunta. Sinceramente, para variar.
         -Olhe, Daff, j lhe disse... que precisava pensar...
         A campainha do telefone o interrompeu, e Daphne levantou o receptor.
         Temeu que tivesse ocorrido algo a Andrew.
         Por que outra razo poderia algum telefonar s duas e meia da madrugada? Mas no era Matt,  e sim a voz de uma mulher, que lhe disse que queria falar com 
o Justin. Sem dizer uma palavra, Daphne entregou o receptor a Justin.
         - para voc.
         Batendo a porta , abandonouo quarto , e ao final de uns minutos Justin a encontrou em seu estdio.
         -Escute, Daphne, eu lhe peo, sei que tudo faz pensar...
         Ento, de repente, morto de cansao pela viagem, Justin se disse que seria muito fatigante representar aquela comdia.
         Ele tambm estava farto de mentiras.
         Sentou-se e com voz pausada disse:
         -De acordo, Daphne. Tem razo. Fui esquiar com a Alice.
         -Quem, demnios,  Alice? 
         -A garota de Ohio. -Parecia terrivelmente cansado. -No tem nenhuma importncia; ela gosta de esquiar, eu tambm, e no queria participar de sua pequena 
reunio familiar, de maneira que a levei comigo. Isto  tudo.
         Para ele era muito normal.
         No tinha sentido continuar brigando.
         Nada ia se resolver.
         Tudo tinha terminado.
         Daphne o olhou com lgrimas nos olhos; sentia-se to desiludida que tinha a sensao de que lhe tinham arrancado uma parte; a parte que amava Justin.
         -Justin, no posso continuar assim. 
         -Sei. E eu tampouco. No fui feito para isto, Daff.
         -Sei.
         Ela comeou a chorar, e Justin se aproximou.
         -No  que no a ame. Amo-a, mas da minha maneira, e minha maneira  diferente da sua. muito diferente.No acredito que pudesse ser como voc queria. Voc 
quer um marido como Deus manda. E este no sou eu.
         Daphne concordou com a cabea e voltou o rosto para o outro lado.
         -Est bem. Compreendo. No tem que me dar explicaes.
         -Ficar bem? 
         Ela assentiu, enquanto as lgrimas transbordavam de seus olhos, que levantou para ele.
         Justin parecia ainda mais bonito com seu bronzeado de montanha, mas isto era tudo o que ele era, tudo o que sempre tinha sido: um homem bonito digno de 
ser admirado.
         Howard Stern tinha razo ao dizer que era um menino bonito, malcriado, que fazia o que queria na vida, sem se importar com quem machucava.
         Quando Daphne se deu conta de que ia partir, por um instante teve o desatinado impulso de lhe pedir que no se fosse, que ficasse, que poderiam tentar comear 
de novo; mas compreendeu que no era possvel.
         -Justin? 
         S aquela palavra resumia o que queria lhe perguntar.
         Ele assentiu.
         -Sim.Eu vou embora.
         -Agora? -perguntou com voz trmula.
         Sentia-se sozinha e assustada.
         Ela era a responsvel pela situao, mas no havia outra sada, e ela sabia.
         - melhor assim. Recolherei minhas coisas amanh.
         Em algum momento teria que terminar, e o momento tinha chegado.
         Justin a olhou com um sorriso triste.
         -Eu a amo, Daff.
         -Obrigado.
         Aquelas eram palavras vazias vindas dele, pois ele era um homem vazio.
         Ento a porta se fechou,e Justin se foi, e ela ficou sozinha no estdio, chorando.
         Pela terceira vez em sua vida, tinha perdido, embora nesta ocasio por razes diferentes.
         Tinha perdido algum que na realidade no a queria.
         Justin s era capaz de querer a si mesmo.
         Nunca tinha amado Daphne.
         Enquanto passava a noite perdida na dor, perguntou-se se isto era melhor ou pior.
         Quando Barbara chegou no dia seguinte, Daphne parecia abatida, e tinha crculos escuros em torno dos olhos.
         Estava em seu estdio, escrevendo.
         -Sente-se bem? 
         -Mais ou menos. -Seguiu-se um longo silencio, enquanto Barbara examinava seus olhos. - Justin partiu ontem  noite.
         Barbara no sabia o que dizer.
         -Posso lhe perguntar por que ou devo me ocupar de meus prprios assuntos? Daphne esboou um fatigado sorriso.
         -No importa. Tinha que ser assim.
         Mas no parecia muito convencida.
         Daphne sabia que sentiria falta dele.
         Justin tinha sido importante para ela durante aqueles nove meses e agora tudo havia terminado.
         A dor perduraria por um tempo.
         Daphne sabia.
         J tinha vivido transpassada de dor.
         Conseguiria suportar de novo.
         Barbara moveu a cabea em sinal de assentimento e se sentou.
         -Lamento por voc, Daff. Mas no posso dizer que sinto.
         Ele teria lhe fodido durante os prximos cem anos.
          assim e no pode mudar.
         Daphne assentiu.
         Agora no tinha nimos para discutir.
         -No acredito que saiba sequer o que faz.
         -No sei se isto melhora ou piora as coisas.
         Aquele era um terrvel julgamento sobre  Justin.
         -Seja como for, di.
         -Sei.-Barbara se aproximou e lhe afagou as costas. - O que pensa em fazer? 
         -Voltar para casa. De todo modo, Andrew no gostou da escola daqui.Meu lugar  em New York, em minha casa, escrevendo livros e ficando perto do Andrew.
         Claro que agora tudo seria diferente.
         Neste perodo, ela tinha aberto novas portas, portas que lhe custaria fechar, e no estava muito certa de lembrar como faz-lo.
         Em New York tinha levado uma vida muito solitria, e ao lado de Justin tinha passado momentos muito felizes.
         -Quando quer ir? 
         -Levarei umas duas semanas para colocar o gato no saco.
         Tenho que comparecer a algumas reunies na Comstock.-Sorriu chorosamente.- Querem conversar comigo para adquirir os direitos de filmagem sobre outro de 
meus livros.
         Barbara conteve o flego.
         -Voce escrever o roteiro? 
         -Nunca mais, minha amiga. Uma vez basta. Aprendi o que queria aprender.
         A partir de agora, eu escreverei os livros, e eles os roteiros
         Barbara se sentiu deprimida.
         Ela tinha imaginado.
         Mesmo que Daphne ficasse com Justin na Califrnia, era improvvel que repetisse a experincia.
         No tinha escrito nenhum livro em um ano, e Daphne se queixou disto freqentemente.
         -Assim, vamos para casa.
         Era uma possibilidade em que Barbara no desejava pensar, e nesta noite disse para Tom quando se deixou cair em seus braos, soluando.
         -Pelo amor de Deus, Barb.No tem nenhuma obrigao de ir com ela.
         Ele tambm parecia estar a ponto de chorar.
         -Tenho sim. No posso abandon-la agora.
         Est destroada pelo Justin.
         -Ela sobreviver. Eu preciso mais de voc que ela.
         -Ela s tem a mim e ao Andrew.
         -E quem tem a culpa disto? S ela. Vai sacrificar sua vida e a minha por ela? 
         -No. -Barbara chorou com mais desespero, enquanto Tom a segurava entre seus braos, at que por fim ela se acalmou. -S que no posso deix-la agora.
         De certo modo, era o mesmo que tinha lhe ocorrido durante anos com sua me, e agora no podia contar com Daphne para que a ajudasse a obter sua liberdade.
         Sua me havia falecido no ano anterior no lar para ancies, e agora Barbara estava amarrada a Daphne.
         Tom contemplou desconsolado a mulher que amava.
         -Ento quando acredita que poder deix-la? 
         -No sei.
         -Isto no  suficiente, Barb.Eu no posso viver com esta incerteza. -Ento, com uma expresso que demonstrava seu absoluto desespero, serviu-se de um usque 
puro. 
         -Simplesmente, no posso acreditar que faa isto comigo. Depois de que vivemos durante todo este ano, volta para New York com ela. Por todos os diabos, 
maldita seja,  uma loucura! 
         Falava aos gritos, e Barbara comeou a chorar de novo.
         -Sei que . Mas tem feito tanto por mim...E se aproxima o Natal e...
         Sabia como era penoso para ela todos os anos passar aquela festividade.
         E tambm sabia que Tom no compreendia.
         No havia nenhuma razo para que compreendesse, mas Barbara no queria perd-lo.
         Aquele era um preo muito alto que pagar, at por Daphne.
         -Escute, prometo-lhe que voltarei.S me d um pouco de tempo para deix-la instalada em New York, e ento eu lhe direi.
         -Quando? -Barbara sentiu aquela pergunta como um tiro. -Marque uma data, e juro que a obrigarei a cumprir sua palavra.
         -Direi na semana depois de Natal. Prometo.
         -Que prazo lhe dar? Tom no afrouxava nem um pouco.
         Barbara quis responder que um ms, mas se conteve ao ver a expresso de seus olhos.
         Tom parecia um animal ferido, e detestava o abandonar ainda mais do que detestava abandonar Daphne.
         -Duas semanas.
         -De acordo.Ento, voltar em seis semanas depois de ir ? 
         -Sim.
         -Casar comigo ento? 
         A ferocidade de sua expresso no mudou de modo algum.
         -Sim.
         Ento Tom sorriu lentamente.
         -De acordo, maldita seja. Deixarei que parta para New York com ela, mas no volte a me fazer nunca mais uma coisa como esta.No posso suportar.
         -Eu tampouco.
         Barbara se aninhou em seus braos.
         -Irei a New York nos fins de semana.
         -Seriamente? Ele a olhou com olhos cheios de felicidade, e naquele instante ningum lhe teria dado mais de quarenta anos.
         -Isto mesmo. E com um pouco de sorte, a deixarei grvida antes que volte, e ento estarei certo que cumprir sua palavra.
         Barbara se ps a rir diante daquela resoluo to radical, mas a idia no a desagradou.
         J fazia tempo que Tom a tinha convencido de que no era muito velha para ter pelo menos dois filhos.
         -No tem por que fazer isto, Tom.
         -Por que no? Eu adorarei.
         A partir deste momento, passaram juntos todos os minutos que puderam, e Tom as acompanhou ao aeroporto quando chegou o momento de partir.
         Daphne parecia muito nova-iorquina com seu vestido negro, seu casaco de visom e seu chapu, e Barbara usava o novo casaco de visom que ele lhe tinha dado 
de presente.
         -Na verdade as duas esto muito chiques. 
         No havia nelas nem um trao de sua passagem por Los Angeles.
         Quando Tom beijou Barbara disse em voz baixa: 
         -At sexta-feira.
         Ela sorriu e o abraou fortemente, e logo ambas tomaram o avio e ocuparam seus assentos.
         Daphne dirigiu um olhar de soslaio para Barbara.
         -No parece muito aborrecida. Pressinto que combinaram de se ver logo. -Barbara corou, e Daphne riu ao comprovar que tinha acertado.- Quando vir a New 
York? No prximo vo? 
         -Na sexta-feira.
         -Fico alegre por voc. Se eu fosse medianamente razovel, despediria-a aqui e agora e a jogaria do avio.
         Barbara observou seu rosto, mas era evidente que no sentia o que dizia.
         Daphne estava muito plida sob seu chapu de pele escura, e Barbara sups que no havia visto o Justin na noite anterior.
         Suspeitava que seu encontro no devia ter sido fcil.
         Finalmente, depois do almoo, Daphne lhe contara tudo.
         -J est vivendo com essa garota.
         -A de Ohio? -Daphne assentiu com a cabea.-Possivelmente se case com ela.-Mas em seguida se arrependeu de hav-lo dito.
         -Sinto muito, Daff.
         -No se preocupe.Talvez tenha razo, mas o duvido.
         No acredito que os homens como Justin cheguem a casar-se nunca.Eu no fui o suficientemente preparada para me dar conta disso.
         Ento falaram do Andrew, e Daphne disse que iria v-lo no fim de semana.
         -Queria te pedir que me acompanhasse, mas agora que sei que tem melhores planos...
         Trocaram um sorriso, e ento Barbara decidiu lhe perguntar algo que tinha em mente fazia bastante tempo.
         -E o que me diz do Matthew? 
         -O que tem ele? Daphne ficou instantaneamente em guarda.
         -J sabe a que me refiro.
         Estavam h muito tempo juntas para ficarar com rodeios.
         -Sim, sei.Mas  s um amigo, Barb.
          melhor assim.-Sorriu.-Alm disso, Andrew me disse que tem uma amiga. E eu sei que  verdade. Matt me falou dela em setembro.
         -Tenho o pressentimento de que se ele soubesse que est livre, mandaria-a a fritar batatas no ato.
         -Duvido, e isso no tem importncia.Andrew e eu temos que recuperar o tempo que estivemos separados, e alm disso quero comear o novo livro antes de Natal.
         Barbara queria lhe dizer que isso no era suficiente, mas sabia que Daphne no queria discutir.
         Cada uma se fechou em seus prprios pensamentos.
         Barbara agradeceu aquele silncio.
         Dava-lhe remorsos ter que mentir a Daphne a respeito do Tom, e ainda no estava preparada para lhe dizer que iam se casar.
         Chegaram a New York, e Daphne esboou um amplo sorriso ao atravessar a cidade de carro.
         -Bem-vindas em casa.
         Entretanto, Barbara no experimentava a mesma sensao.
         J sentia falta de Tom.
         Ao contrrio, Daphne s pensava no Andrew.
         Durante os dias seguintes falou dele sem cessar, e ao chegar o fim de semana tirou o carro da garagem e partiu para New Hampshire.
         Exultante pela impacincia, cantava e sorria enquanto conduzia.
         Havia neve quase em toda a rota, e a viagem foi enfadonha, mas no lhe importava.
         Teve que deter-se para fazer colocar correntes nos pneus, mas nem por um momento teve saudades do quente sol da Califrnia.
         Tudo que desejava era estar junto ao Andrew.
         Chegou  cidade muito depois das nove da noite; dirigiu-se diretamente  pousada e telefonou ao Matt para lhe dizer que tinha chegado e que iria  escola 
pela amanh.
         Mas um dos professores atendeu seu telefone e lhe disse que Matthew no se encontrava ali.
         " natural", disse a si mesma em voz baixa olhando pela janela.
         Tinha que habituar-se a no pensar nele, pois agora seguia sua prpria vida, e ela tinha ao Andrew.Na manh seguinte, quando chegou  escola, ela e seu 
filho se abraaram com profunda emoo.
         -E agora no voltaremos a nos separar nunca.-Parecia mentira que tivesse transcorrido um ano.- Virei te buscar dentro duas semanas e passaremos juntos as 
festas de Natal em meu apartamento.
         As visitas a Califrnia tinham demonstrado alm de toda dvida que Andrew estava preparado para afastar-se da escola por longas temporadas, mas o menino 
olhou para sua me e meneou a cabea.
         -No posso, mame.
         -No pode? -perguntou ela, surpresa.-Por que no? 
         -Vou na excurso.
         Barbara tinha razo.
         Tambm ele tinha sua prpria vida agora.
         -Aonde? 
         Daphne se sentiu desconsolada.Ia ter que passar o Natal sozinho.
         -Vou esquiar.-E ento o menino sorriu.-Mas voltarei antes do final do Ano. Poderei ir com voc ento? 
         -Claro.
         Daphne se ps-se a rir.
         Como a vida tinha mudado em um ano! 
         -Tocaremos as cornetas na vspera de Ano Novo? 
         -Sim.
         Mas Daphne se assombrou que lhe fizesse aquele curioso pedido, j que ele no poderia ouv-las
         -Eu adoro a sensao que causa. Sinto uma comicho na boca, e todo mundo poder ouvir o rudo.
         Apesar de sua independncia, no fundo continuava sendo o menino de oito anos de sempre.
         Logo Matthew se uniu a eles, e Daphne lhe sorriu.
         -Ol, Matt. Ento vai levar Andrew para esquiar.
         -Eu no. Tenho que ficar para terminar algumas coisas.
         Mas um bom grupo ir a Vermont com alguns dos professores.-Iro se divertir.
         Entretanto, Matt observava a tristeza que se aninhava nos olhos de Daphne.
         -Queria que passasse o Natal com voc em Califrnia? 
         Ainda no lhe havia dito que havia voltado definitivamente.
         Ela tinha pedido  Barbara que telefonasse  escola para avisar que Daphne se encontrava em New York no momento.
         -No. Resolvi ficar emNew York. -Daphne examinou os olhos do Matt, mas nada descobriu neles. - Andrew diz que voltar para a vspera de Ano Novo.
         -Isso ser magnfico.
         Seus olhares se encontraram por cima da cabea do menino, e milhares de pensamentos ficaram sem se formular verbalmente.
         -Quando vai, Matt? 
         -Dia vinte e nove. Por um momento pensei em ficar aqui, mas fao muita falta na escola de New York.-Sorriu.- Posso parecer pedante, mas Martha diz que renunciar 
se eu no voltar, e no podem dar-se ao luxo de prescindir de ambos.
         Quem realmente  um elemento valioso para eles  Martha.
         -No seja to modesto.Aqui sim que vo perder muito mais.
         -No acredito.Na prxima semana chega de Londres a nova diretora, e a julgar por suas cartas,  uma mulher extraordinria. E eu virei freqentemente, para 
revisar as tropas, nos fins de semana.
         Isso deu a entender a Daphne que Harriet Bateau estava ainda no quadro, o que lhe deu a pauta para os prximos passos que ela deu com cautela.
         Em um instante de fraqueza, perguntou-se se Barbara no teria razo, se no deveria lhe dizer que estava livre, mas se disse que no tinha direito de lhe 
fazer uma coisa semelhante agora, e tampouco havia razo alguma para supor que isso mudaria as coisas para ele.
         -Por que no vai esquiar com os meninos? -perguntou-lhe, mesmo supondo que j sabia o motivo.
         -Quero ficar com os que no podem ir.
         Daphne assentiu, mas acreditou compreender qual era a verdadeira razo.
         Matt voltou para suas ocupaes, e Daphne s o viu por um breve instante durante sua visita.
         Estava extremamente ocupado, deixando as coisas arrumadas para a nova diretora.
         E como tinha ocorrido em outras ocasies, foi s na ltima noite que tiveram tempo de conversar, depois  que Andrew se deitou.
         Ela havia resolvido pegar a estrada e viajar para New York no domingo de noite.
         Pela primeira vez em muito tempo, a estadia em New Hampshire a deprimia.
         -E como est Califrnia atualmente, Daff? 
         Matt lhe serviu uma xcara de caf e se acomodou em sua poltrona de costume.
         -Estava muito bem quando me parti.Estive em Nova Iorque desde segunda-feira.
         -Andrew estar contente de que esteja aqui para os Natais.
         Suponho que seu amigo ainda no tem desejo de conhec-lo.
         Ou est aqui com voc? 
         Aquela era a oportunidade para contar-lhe tudo, mas ela no o fez.
         -No, no veio. Tenho que comear um novo romance.
         -No descansa alguma vez? Sorriu-lhe amvelmente, mas Matt mantinha uma atitude distante.
         -No mais que voc. Pelo que vi nestes dois ltimos dias, est prestes a sofrer uma crise nervosa.
         -Sim, mas no tenho tempo para essas coisas.
         -Sei como se sente.As ltimas semanas de filmagem de Apache foram uma loucura, mas quando tivemos o gato no saco foi algo grandioso.
         Contou-lhe os incidentes dos ltimos dias e a festa de encerramento da rodagem, e ele sorria enquanto a escutava.
         Tinha uma maneira agradvel de contar as coisas, e ela mantinha a conversao por atalhos que no os levassem a temas muito ntimos.
         Ainda estava muito doda para lhe abrir seu corao, inclusive tratando-se do Matt, apesar de no sentir falta de Justin.
         Mas se sentia derrotada.
         Pelo Justin e a garota de vinte anos de Ohio.
         Nunca lhe tinha acontecido nada semelhante.
         Nem voltaria a lhe acontecer, como se prometia a si mesma todos os dias.
         -O que far em Natal sem o Andrew? -perguntou-lhe Matt com certa inquietao em seus olhos, se bem que pensava que possivelmente Justin se reuniria a ela.
         A ltima vez que tinham falado dele, Daphne havia dito que possivelmente se casariam.
         -Tenho muitas coisas que fazer.
         Parecia uma resposta adequada, e Matt assentiu com a cabea.
         Seguiu um longo silencio enquanto ambos permaneciam perdidos em seus prprios pensamentos.
         Sem dar-se conta, Matt ficou a pensar em Harriet.
         Era uma boa garota, mas no era indicada para ele, e ambos sabiam.
         A jovem tinha comeado a sair com um moo fazia algumas semanas, e Matthew supunha que qualquer dia saberia que estava comprometida.
         Harriet era uma moa casadoira, e havia uma fila de jovens dispostos a lev-la ao altar, mas Matt no se encontrava entre eles.
         Ele no a amava.
         E considerava que Harriet merecia algo melhor, tal como lhe havia dito a ltima vez que a viu.
         Daphne o observava enquanto ele continuava perdido em seus pensamentos.
         -Parece muito srio, Matt.
         Ele dirigiu o olhar ao fogo e logo levantou os olhos para ela.
         -Estava pensando em como os tempos mudam.
         Daphne se perguntou at que ponto estava profundamente apaixonado por Harriet.
         Talvez pensasse em casar-se com ela.
         Mas no quis perguntar-lhe naquele momento.
         Ela j tinha bastante com o que estava passando; quando ele quisesse, lhe contaria.
         -Sim, assim .No posso acreditar que tenha passado este ano.
         -J te disse que no era para sempre.
         Parecia tranqilo e srio, e Daphne percebeu que tinha mais cabelos grisalhos que um ano atrs.
         -E Andrew o suportou muito bem.-Matthew lhe sorriu.Tampouco voc te levou to mal.
         -Andrew o suportou bem graas a voc, Matt.
         -Isso no  certo.Andrew o suportou bem graas ao Andrew.
         Daphne assentiu e, ao cabo de uns momentos, ficou de p.
         -Ser melhor que v se quero empreender o caminho esta noite.
         -Parece prudente? Matt estava preocupado, e ela sorriu.
         Tinha-a reconfortado em tantas ocasies durante todo o ano que era difcil no recorrer de novo a ele, mas sabia que no era conveniente.
         Parecia contente, e ele mesmo havia dito que os tempos tinham mudado.
         Era melhor deixar as coisas como estavam.
         -Nada meacontecer. Sou indestrutvel, sabe? 
         -Possivelmente, mas h muita neve nas estradas, Daff.-Enquanto a acompanhava at a porta, adicionou: -Por que no me telefona quando chegar em casa? 
         -No seja tolo, Matt.Chegarei s trs ou quatro da madrugada. Essa  uma hora normal para mim, mas no para outros seres humanos.
         -Isso no importa; me chame. Voltarei a conciliar o sonho.
         Quero saber que chegou bem. Se no me telefonar, ficarei acordado e passarei a noite te ligando.
         O oferecimento estava por cima e por debaixo da estrita obrigao formal, e era uma reminiscncia de sua antiga amizade.
         -De acordo, ligarei. Mas detesto ter que acord-lo.
         Voltou a pensar nisso enquanto percorria lentamente as geladas estradas para o sul.
         Demorou para as percorrer mais do que pensava, e no chegou em casa at as cinco da madrugada.
         Parecia-lhe um crime lhe telefonar, e entretanto teve que admitir que desejava faz-lo.
         Discou seu nmero do telefone do estdio, e ao fim de uns segundos Matt atendeu e respondeu com voz sonolenta.
         -Matt? Estou em casa -disse ela em um murmrio.
         -Est bem? Matthew consultou o relgio. Eram cinco e quinze da madrugada.
         -Muito bem. Agora volta a dormir.
         -No importa. -virou-se na cama com um sorriso sonolento.-
         Isto me recorda as vezes que me telefonava de Califrnia.-
         Ela sorriu tambm; naquela hora inoportuna era fcil baixar a guarda.-Senti sua falta, sabe? s vezes paraece estranho te aparecer por aqui de repente.Estou 
atarefado, e h milhares de pessoas ao redor.
         -Sei. Tambm eu me sinto incomodada. -Ficaram  em silncio por uns instantes, e ela se disse que deveria deix-lo dormir.- feliz atualmente, Matt? 
         Quis lhe perguntar por Harriet, mas ainda no se atreveu.
         -Bastante.Estou muito ocupado para me perguntar isso muito freqentemente.E voc? 
         Por um momento, esteve a ponto de ceder, mas voltou a ficar em guarda.
         -Estou bem.
         -Vai se casar? -perguntou ele sem poder evitar.
         -No. -Mas evitou lhe dizer nada mais.-Acredito que  quem vai se casar   Barbara.
         -Com seu amigo de Los Angeles? 
         -Sim. um homem extraordinrio.Barbara merece algum assim.
         -Voc tambm... -As palavras lhe escaparam da boca, e em seguida lamentou-o.-Sinto muito, Daff.Sei que isso no  meu assunto.
         -Por que no? No se preocupe.Chorei tantas vezes sobre seu ombro este ano...
         -J no chora, verdade, Daff? 
         Sua pergunta denotava tristeza, e Daphne compreendeu que ele perguntava pelo Justin.
         -Ultimamente no.
         -Me alegro. Merece ser feliz na vida.
         -Voc tambm.
         Os olhos se encheram de lgrimas e se sentiu estpida.
         Matt tinha direito a ser feliz com aquela jovem, mas ela sabia que sentiria falta dele.
         Uma vez ele se fosse de Howarth, j no teria desculpa para lhe telefonar.
         Poderiam almoar de vez em quando, mas isso seria tudo, e talvez nem sequer poderia contar com isso se ele se casasse.
         -Agora volta para a cama, Matt.  muito tarde.
         Ele bocejou e voltou a consultar o relgio.
         Eram quase as seis, e j tinha que levantar-se.
         -Tambm te convm dormir um pouco. Deve estar esgotada depois dessa viagem.
         -Um pouco.
         -Boa noite, Daff.
         -Telefonarei logo.
         Ela havia tornado a telefonar para deixar uma mensagem para Andrew antes que  fosse esquiar, mas Matt tinha sado.
         Daphne se props a lhe ligar no dia de Natal, mas j no pde faz-lo.
         O veculo a atropelou na avenida Madison na vspera de Natal, e em vez de ligar para Matt ela jazia na cama do Lenox Hill Hospital enquanto Barbara a contemplava, 
com lgrimas que deslizavam-se lentamente por sua face.
         No podia acreditar no que lhe tinha acontecido a Daphne.
         E agora o que diria ao Andrew? Daphne lhe tinha feito prometer que no o chamaria, mas sabia que cedo ou tarde teria que faz-lo.
         E sobre tudo se...
         Rechaou aquele pensamento no mesmo instante em que Liz Watkins lhe indicava por gestos que devia retornar  sala de espera.
         Quando a enfermeira tomou o pulso, descobriu que Daphne tinha febre.
         -Como est agora?.
         Liz Watkins escrutinou os olhos da Barbara, perguntando-se se poderia suportar a verdade, e quando saram ao corredor lhe disse: 
         -Para ser franca, nada bem. A febre pode significar muitas coisas.
         Barbara moveu a cabea em sinal de assentimento, e os olhos se encheram de lgrimas de novo.
         Foi telefonar ao Tom, que  tinha passado todo o dia no apartamento de Barbara.
         Era uma maldita maneira de passar o Natal, mas ela devia estar ali junto a Daphne.
         -Oh, querido...
         Tom sups que podia esperar o pior, mas Barbara o tranqilizou.
         Era a dcima vez que lhe telefonava, e ele se assustou ao ouvi-la chorar.
         -Tem febre, e a enfermeira parecia preocupada.
         Tom guardou silncio uns instantes.
         -No h algum a quem deve avisar, Barb? 
         Era uma enorme responsabilidade  que Barbara estava assumindo.
         -Toda sua famlia se reduz ao Andrew.
         Barbara comeou a chorar baixinho, pensando no menino, porque sabia que se sua me morresse, receberia um golpe mortal.
          obvio que o levaria a Califrnia quando fosse viver com o Tom, mas no seria o mesmo.
         Andrew necessitava de sua me.
         Todos necessitavam dela.
         -E no posso me comunicar com ele.Est esquiando.Alm disso, s tem oito anos.Ele no deve ver isto.
         -Est to desfigurada? 
         -No, mas... -respondeu Barbara, e um n se fez na sua garganta - possivelmente no saia desta.
         Ento ocorreu algo ao Tom .
         -E esse indivduo da escola, esse diretor amigo dela? 
         -O que tem ele? 
         -No sei, Barb,mas talvez ele deveria saber. Tenho a impresso, pelo que voc tem dito, que houve algo mais do que ela queria reconhecer.
         De uma coisa estava certo: Barbara no avisaria ao Justin.
         -Eu no acredito.-Barbara ficou pensativa uns instantes.
         -Mas possivelmente deveria lhe telefonar.
         Nem sequer Barbara sabia at que ponto tinham intimadade, mas talvez ele poderia opinar se era conveniente avisar ao Andrew ou no.
         -Logo voltarei a te ligar.
         -Quer que v ao hospital? -Barbara esteve a ponto de lhe dizer que no, mas de repente voltou a romper em soluos. Necessitava que Tom estivesse a seu lado.Tranqilize-se.

         Estarei a em dez minutos.
         Barbara lhe indicou o andar onde se encontrava, e ele disse que lhe levaria algo de comer.
         Barbara no tinha apetite, mas ele sabia que tinha que ingerir algum alimento para passar a noite, assim como uma considervel quantidade de caf puro.
         Tinha o pressentimento de que as coisas no iriam terminar bem para o Daphne, e se ela morresse, Barbara sofreria muito.
         Barbara ficou na cabine telefnica um longo momento, sem decidir-se a telefonar ao Matthew.
         Em um dos poucos momentos de lucidez, Daphne lhe tinha pedido que no o fizesse.
         Tinha a bolsa de Daphne, e consultou a pequena agenda que estava  nela.
         O nmero da linha privada figurava junto no nome de Matthew Dane.
         Matthew respondeu distradamente, como se tivesse estado concentrado em seu trabalho.
         -Senhor Dane, sou Barbara Jarvis, de New York.
         Sentia os fortes batimentos de seu corao, e as palmas das mos suadas. No ia ser nada fcil.
         -Sim? Matthew mostrou surpresa.
         Geralmente, as chamadas formais de Daphne no aconteciam de noite, e muito menos no Natal.
         Reconheceu em seguida o nome de sua secretria.
         Possivelmente s lhe chamava para lhe deixar alguma mensagem para o Andrew.
         -Senhor... Senhor Dane,  difcil lhe explicar o motivo desta chamada. A senhorita Fields sofreu um acidente.Estou no hospital com ela...
         -Ela pediu-lhe que me avisasse? 
         Parecia emocionado, e Barbara conteve as lgrimas enquanto meneava a cabea.
         -No. -Matthew ouviu que estava chorando.-Foi atropelada por um veculo ontem  noite e...Senhor Dane, encontra-se sob cuidados intensivos e...
         Ento os soluos afogaram sua voz.
         -Oh,meu Deus! Est muito grave? 
         Barbara lhe contou o quanto sabia, e notou que  sua voz tremia quando ele falou.
         -Ela no queria que dissesse nada a voc, nem ao Andrew, mas eu pensei...
         -Est consciente? -inquiriu ele, com certo alvio.
         -Esteve-o durante um momento, mas no nestes momentos.-Barbara exalou um profundo suspiro e disse o mesmo que ao Tom.-Tem febre.
         Tambm comentou o que isso podia significar, e ele teve que dominar a voz ao lhe formular a pergunta seguinte.
         De repente compreendeu o que Daphne tinha experiente ao perder  Jeffrey, e depois o John.
         E no quis saber mais do que j sabia.
         No poderia suport-lo.
         -H algum mais com ela, Barbara, alm de voc? 
         No sabia que outra coisa lhe perguntar.
         -No, mas meu..., meu noivo vir dentro de uns minutos.Ele veio de Los Angeles...
         Ento ela se deu conta de que no estava lhe dizendo o que ele desejava saber.
         Resolveu agarrar o touro pelo chifre.
         -Senhor Dane, Daphne rompeu com o Justin faz um ms.
         -Por que no me disse isso? 
         Matthew parecia mais surpreso que momentos antes.
         -Acreditava que voc estava apaixonado por uma jovem da, e considerou que no seria justo lhe contar o que tinha passado com o Justin.
         -Oh, meu Deus! 
         E ele tinha ficado junto  lareira lhe dizendo como os tempos tinham mudado.
         Quase soltou um grunhido ao recordar a conversa que tinham mantido.
         Tinha suposto que ela e Justin estavam a ponto de casar-se.
         -Voc acha que deveramos dizer ao Andrew? 
         -No.No h nada que ele possa fazer. E  muito pequeno para ocupar-se disto, a menos que seja de tudo imprescindvel.-Consultou o relgio e ficou de p, 
comeando a passear pelo aposento com o telefone na mo.-Chegarei dentro de seis horas.
         - O senhor vir? -exclamou Barbara, estupefata, sem saber muito bem que reao esperava dele.
         -Acaso acreditou que no o faria? -perguntou ele,magoado.
         -No sei. No sei no que acreditei. S compreendi que devia lhe telefonar.
         -Voc fez bem.
         E no sei se isso pode ter muita importncia agora, mas para que saiba, estive apaixonado por ela desde o dia em que a conheci. E fui muito estpido para 
ter a coragem suficiente de dizer-lhe.- Fez-se  um n em sua garganta e ouviu que Barbara chorava baiximho no outro extremo
         da linha.-No vou perd-la agora, Barbara.
         Ela assentiu com a cabea.
         -Rogo ao cu que no a perca nunca.
         Matthew partiu no carro para Nova Iorque to rapidamente como pde, sem deixar de pensar em Daphne nem um s momento.
         Cada chamada telefnica, cada encontro parecia indelevelmente gravado em sua mente, e agora tudo passava por sua cabea como um filme.
         De quando em quando, sorria ao recordar algumas palavras, mas a maior parte do tempo seu rosto tinha uma expresso sombria.
         No podia acreditar que aquilo tivesse ocorrido.
         No a ela.
         No a Daphne.
         Muitas coisas lhe tinham acontecido j na vida, muito dor e muita pena havia experimentado, muitos sucessos que tinham requerido um ilimitado valor para 
suport-lo.
         No podia passar por isso agora.
         No podia terminar tudo daquela maneira; mas sabia que sim que podia terminar, e ao pensar que podia morrer antes de chegar a seu lado, apertava ainda mais 
o acelerador.
         Depois de viajar a New York o mais velozmente que pde pelas estradas cobertas de neve, Matthew chegou ao Lenox Hill s duas e meia da madrugada.
         A maioria das luzes do vestbulo estavam apagadas, e no havia nenhuma acesa nos corredores.
         Dirigiu-se diretamente  mesa de recepo da unidade de cuidados intensivos, e ento Barbara viu-o chegar.
         Fazia momento que havia dito ao Tom que partisse a descansar, e ela insistiu em ficar.
         A enfermeira lhes havia dito momentos antes que aquela noite seria decisiva.
         Daphne no podia seguir muito tempo mais naquele estado; devia comear a melhorar, ou no sairia com vida.
         -Matthew? Ele se voltou ao ouvir a voz da Barbara, desejando que fosse Daphne.
         Ela no podia acreditar que tivesse chegado to rpido.
         Deve ter voado pelas estradas cobertas de gelo.
         Era uma sorte que no tivesse terminado no mesmo estado que Daphne.
         -Como vai? 
         -Igual.Est travando uma terrvel batalha.
         Ele assentiu gravemente; tinha profundos sulcos debaixo dos olhos.
         Tinha estado trabalhando como um demnio, e agora isto.
         Ainda usava as mesmas gastas calas de veludo cotel e o grosso suter que quando Brbara tinha lhe telefonado.
         Tinha rabiscado uma nota para o pessoal de servio noturno e transps a porta correndo, depois de agarrar o casaco, as chaves e a carteira.
         -Posso v-la? Os olhos de Barbara pousaram nos da enfermeira, e esta olhou seu relgio.
         -Por que no aguardamos uns minutos? 
         -Enfermeira - disse-lhe Matt, agarrando-se na borda da escrivaninha com mos de ferro -, dirigi durante sete horas desde New Hampshire para v-la.
         -Est bem.
         Agora no tinha importncia.
         E talvez uma hora depois fosse muito tarde.
         Liz Watkins guiou-os pelo corredor at a porta aberta.
         E ali jazia Daphne, imvel, coberta de gesso e de ataduras, unida por infinidade de fios aos aparelhos de controle, sob a brilhante luz.
         Matthew sentiu um choque quase fsico ao v-la.
         S tinham transcorrido duas semanas desde sua ltima visita a Howarth, e de repente ali estava to diferente...
         Entrou devagar no quarto, sentou-se na cadeira junto  cama e lhe acariciou brandamente os cabelos sob o olhar atento de Barbara.
         Esta se voltou e saiu do quarto atrs de Liz.
         No queria incomodar, e a enfermeira examinou seus olhos.
         Entretanto, agora se sentia melhor ao saber que havia um homem em sua vida.
         Uma mulher como Daphne no podia estar sozinha.
         E o homem dos doces olhos castanhos parecia perfeito para ela.
         -Ol, pequena - murmurou Matthew.
         Acariciou-lhe a delicada face com a mo, e ficou contemplando-a por um longo momento, perguntando-se de novo por que no lhe tinha contado o acontecido 
com Justin.
         Talvez fosse um tolo ao ter esperanas; talvez ela nunca havia sentido nada por ele e nunca sentiria nada.
         Mas se voltasse a recuperar os sentidos, diria que a amava.
         Permaneceu contemplando-a quase durante uma hora, e por fim Liz voltou para controlar seus sinais vitais.
         -Alguma mudana? 
         A enfermeira meneou a cabea. A febre tinha subido ligeiramente.
         Mas Matthew no abandonou o quarto, e a mulher tampouco lhe pediu que o fizesse.
         Ficou ali sentado at a mudana de turno das sete, e Liz ps  enfermeira da manh ciente a respeito do que estava passando.
         -Por que no deixa que fique, Anne? No faz mal algum. E quem sabe, talvez contribua para que acontea uma mudana? Ela est lutando por sua vida.
         A outra enfermeira moveu a cabea em sinal de assentimento.
         Ambas sabiam que s vezes um paciente desenganado conseguia sobreviver, e se o fato de ter a seu lado uma pessoa conhecida podia ajudar, no seriam elas 
quem se oporiam a isso.
         Liz entrou para despedir-se e a dar uma ltima olhada a Daphne.
         Pareceu-lhe um pouco menos plida, mas era difcil de dizer.
         Ele tinha um aspecto terrvel, com a barba que lhe obscurecia o rosto, e os crculos sob os olhos eram ainda mais escuros que antes.
         -Necessita de algo? -perguntou-lhe em um sussurro.
         Isto ia contra as regras, mas podia lhe levar uma xcara de caf.
         -No, ele negou com a cabea.
         Quando partiu, a enfermeira viu Barbara adormecida no sof.
         Foi para casa, perguntando-se se Daphne ainda continuaria ali quando voltasse.
         Assim o esperava.
         Pensou nela todo o dia, e voltou a reler fragmentos de Apache, seu livro favorito.
         Quando voltou para o hospital s onze da noite, teve medo de perguntar.
         Mas a enfermeira do dia lhe disse que ele continuava ali, igual a Daphne.
         Finalmente, Barbara tinha ido para casa  tarde para descansar um pouco.
         E Daphne seguia resistindo, embora muito fracamente.
         Liz percorreu o corredor em silencio at chegar  porta, e o viu inclinado sobre Daphne, com os olhos fixos em seu rosto, como lhe implorando com o olhar 
que no desistisse de lutar.
         -Gostaria de uma xcara de caf, senhor Dane? -perguntou-lhe em voz baixa, chamando-o pelo nome que lhe tinham dado na recepo.
         Parecia que no tinha comido em todo o dia, e s tinha tomado caf sem cessar.
         -No, obrigado. -Sorriu para a enfermeira.
         A barba crescera, mas seus olhos denotavam firmeza e vitalidade, e seu sorriso era mais clido.
         -Est melhorando, acredito.
         A febre tinha desaparecido, mas ela no se moveu em todo o dia.
         Matthew tinha presenciado como lhe trocavam os diferentes tubos sem pestanejar.
         Ficou ali, acariciando seus cabelos como fazia agora sob o olhar de Liz. Esta se aproximou da cama.
         - surpreendente, sabe? s vezes acredito que as pessoas como voc contribuem para a melhora do paciente.
         -Espero que assim seja.
         Trocaram um sorriso, e a enfermeira se foi.
         Ao final de uns instantes, ele se sentou de novo, observando o rosto do Daphne.
         O sol se elevava sobre a cidade de New York quando por fim ela se moveu.
         Matthew ficou muito tenso em seu assento e com os olhos muito abertos.
         No estava seguro do que aquele movimento podia significar, mas ento ela abriu os olhos e olhou em torno.
         Pareceu confusa ao v-lo, e em seguida perdeu de novo o conhecimento, mas s por uns minutos.
         Ele queria chamar a enfermeira, mas temia mover-se, e por um instante acreditou que havia adormecido e que estava sonhando.
         Entretanto, Daphne abriu os olhos de novo e o olhou fixa e intensamente.
         -Matt? Sua voz era apenas um murmrio.
         -Bom dia.
         -Est aqui? -perguntou ela com voz que era quase inaudvel e trmula, pois parecia no compreender.
         Mas sorriu, e Matthew lhe segurou a mo.
         -Sim, estou aqui. Esteve adormecida por um longo tempo.
         -Como est Andrew?
         -Muito bem. -ele falava em voz muito baixa.-E voc tambm ficar bem. Sabia? 
         Dapnne lhe sorriu ligeiramente.
         -Eu no estou inquieta.
         Matthew riu ao compreender o duplo sentido de suas palavras.
         Ele estava h vinte e quatro horas sem dormir, temendo por sua vida.
         -Daphne... -Matt aguardou que ela abrisse os olhos de novo.
         -Tenho que lhe dizer algo.
         Sentiu um n na garganta, e lhe acariciou o brao que no estava enfaixado, enquanto ela olhava-o e assentia ligeiramente com a cabea.
         -Sei.
         -Seriamente? -exclamou ele com desencanto. Acaso tinha sabido todo o tempo e no queria ouvi-lo dizer? 
         -Vai... se casar...
         Daphne tinha os olhos azuis muito abertos, e havia uma expresso de tristeza neles.
         Matt ficou olhando-a estupefato.
         -Acredita seriamente que estive aqui sentado, esperando que despertasse, para lhe dizer que vou me casar? 
         Um tnue sorriso iluminou o rosto de Daphne.
         -Voc sempre foi muito atencioso.
         -Mas no at este ponto, boba.
         O sorriso se tornou mais amplo, e ela fechou os olhos para descansar uns instantes. Quando voltou a abri-los, ele a observava atentamente.
         -Eu te amo, Daff. Sempre te amei e sempre te amarei. Isto  o que queria te dizer.
         -No, no  certo.
         Daphne tratou de menear a cabea, mas fez um gesto de dor.
         -Ama Harriet...Boat..., ou como se chama.
         -Harriet Boat, como voc a chama, no significa nada para mim. Deixei de v-la depois de perceber que no a amava. Ela j sabia. A nica que o ignorava 
era voc.
         Daphne  olhou longamente, analisando suas palavras. Com um fio de voz murmurou:
         -Tinha um sentimento de culpa pelo que sentia por voc, Matt.
         -Por que?
         -No sei... Pensei que no era justo para..., para voc ..., ou para o Justin.
         Voltou a olh-lo fixamente por um longo momento.
         -Deixei-o.
         -Por que no me disse isto? 
         -Pensei que estava apaixonado por outra. -Ambos falavam em sussurros. -E voc disse...
         -Sei o que disse. Pensava que voc e esse deus grego iam se casar.
         Daphne lhe sorriu ento; toda uma vida se refletia em seus olhos.
         - um imbecil.
         -Ns tambm fomos. Estou apaixonado por voc, Daff. Vai se casar comigo? 
         Duas enormes lgrimas caram dos olhos de Daphne, e tossiu, ao mesmo tempo que se punha a chorar.
         Matt lhe beijou os olhos, e apoiou sua face na dela.
         -No chore, Daff..., rogo-lhe isso... se tranqilize... No quis aborrec-la...
         Ento, no o amava absolutamente.
         Tambm ele sentiu desejos de chorar, mas se limitou a lhe acariciar o cabelo enquanto ela tratava de recuperar sua compostura.
         -Sinto muito... -murmurou ele, mas ao ouvir a voz de Daphne de novo, ficou gelado.
         -Eu tambm te amo...
         Acredito que me apaixonei por voc no primeiro dia que o vi.
       **** F I M ****
       
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